CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 5

Em uma visita a casa dos novos funcionários, o fazendeiro e a esposa ficaram impressionados com a organização que encontraram no modesto ambiente e teceram repetidos elogios ao casal pelo capricho e pela dedicação.

De repente, em dado momento da conversa, Viana mostrou-se distante da realidade e, com um olhar contido, pareceu ter sido fisgado por alguma lembrança desagradável. Salomão, ao vê-lo viajando em pensamento, perguntou:

— Seu Viana, esta' tudo bem com o senhor?

— Esta' tudo bem, amigo. Contudo, se tem uma coisa que me deixa muito triste, e a ingratidão de alguém — declarou, com a voz bastante angustiada. Após uma longa pausa, prosseguiu: — Vou explicar por que fiquei chateado de um instante para outro... E que, vendo a maneira carinhosa com que voces estão cuidando dessa velha casa, me lembrei do antigo morador, um sujeito que chegou aqui acompanhado de sua familia em uma condição de vida lamentavel. Nós, compadecidos com a situação dificil em que se encontravam, resolvemos oferecer acolhida aquela sofrida familia, alimentamos as crianças, demos carinho, roupas, afeto, respeito, educação e, principalmente, oferecemos uma oportunidade digna de crescimento.

— Ocorreu algo desagradável entre vocês? 0 que ele fez em troca do bem que recebeu? — questionou Salomão.

O fazendeiro, em tom de desabafo, continuou:

— Devido a falta de comprometimento dele com o trabalho que desenvolvia aqui na fazenda, certo dia, ja cansado de tanto ouvir reclamações dos outros empregados, eu Ihe chamei a atenção, orientando que mudasse a sua postura, que deixasse de fazer corpo mole e mostrasse mais interesse ao fazer a parte que Ihe competia, afinal, era dali que ele tirava o ordenado que sustentava a sua familia.

— E?

— Em vez de se corrigir e seguir unido conosco, o sujeito sentiu-se humilhado com a minha cobrança e resolveu ir embora da fazenda. Então, para se vingar de nós, sabendo do amor que a minha familia tinha pelos seus filhos, o ingrato fez a mudança durante a madrugada para que as crianças não tivessem a oportunidade de se despedir de nós — relatou o fazendeiro, demonstrando a sua mágoa com o descompromissado morador.

— Essa desfeita nos machucou muito — ajuntou Dolores, que, compartilhando do mesmo sentimento do marido, ainda acrescentou: — O cabra era tão preguiçoso que, mesmo morando durante anos em uma terra tão fértil como a nossa, nunca plantou um pe' de fruta no quintal de casa. Aliás, ele nem sequer fazia a limpeza em torno da residência. Prova disso e que, quando voces chegaram aqui, o mato estava entrando pela janela e os insetos peçonhentos tinham tornado conta do lugar, não e' verdade?

Diante do julgamento que os patrões faziam do antigo morador, Salomão e Alzira nada disseram, apenas se puseram a ouvi-los se queixando.

Sem saber por que, Viana continuou a falar:

— Esse homem era daquelas pessoas mesquinhas, que não fazem uma benfeitoria em cima das terras que Ihe acolhem e, quando são orientadas a zelar pelo que não e' seu, se sentem humilhadas e vão embora amaldiçoando aqueles que Ihe deram oportunidade de crescimento.

— Eu sei que se conselho fosse bom a gente não dava, a gente vendia. Mas posso Ihes dar um conselho? — perguntou Salomão.

— Claro que sim — consentiu Viana.

— Tirem esse ressentimento do coração. A mágoa e' um veneno que destrói a nossa saúde. Esqueçam esse cidadão e agradeçam a Deus por ele ter desocupado a propriedade de voces, indo procurar outra teta para sugar.

— Voce esta' certissimo na sua observação — concordou o fazendeiro. — Realmente o rancor não leva ninguém a lugar nenhum.

Dolores concluiu:

— Nós temos mesmo e' que levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus pela benção de ter nos livrado daquele traste que ocupava as nossas terras.

Vendo Salomão dando conselhos aos patrões, Alzira não reconheceu naquele conselheiro de sábias palavras o mesmo homem que ela tinha dentro de casa, pois, na convivência diária com a familia, ele so' resolvia as coisas de maneira autoritária e na base do grito.

Satisfeita, enfim, ela preferiu acreditar que aquela postura amistosa do marido poderia se tornar uma nova conduta dele e, por isso, preferiu imaginar que aquele pacifico comportamento do companheiro fazia parte de uma nova realidade em sua vida. Então, pensando positivo, ela elevou o pensamento a Deus e, como quem tinha alcançado uma graça, agradeceu ao Pai celeste pela benção concedida.

Notando as benfeitorias que a familia vinha fazendo em sua propriedade em tão pouco tempo, Viana decidiu oferecer melhores condições de moradia aos seus acolhidos. Convocou um mutirão, unindo todos os moradores da fazenda, para reformarem a modesta casa que abrigava os esforçados retirantes.

E como sempre fazia, naquele alegre dia de solidariedade mandou servir um farto almoço para os colaboradores que participaram do mutirão, criando assim entre eles um elo de amizade e companheirismo imbativel.

Após a refeição, sentaram-se no alpendre da fazenda para um divertido bate-papo, quando, de repente, Viana colocou a mão no peito e disse:

— Gente, não estou me sentindo muito bem.

— O que houve, pai? — perguntou Sebastião, o filho do fazendeiro.

— Estou sentindo uma dor insuportável no peito, muita tontura e a minha visão esta ficando turva — respondeu Viana, ofegante e ameaçando desmaiar.

— Deve ter sido a comida que Ihe fez mal — supôs Sebastião, pegando na mão fria do pai e convidando-o para ir repousar no quarto.

Sebastião levantou o pai da cadeira e encaixou o braço dele em seu pescoço, pedindo ajuda:

— Alguém pode me ajudar a levá-lo para o quarto?

— Vamos la', seu Viana — disse Salomão, amparando o patrão do outro lado.

Enquanto isso, Cicero, um dos funcionários da fazenda, correu atravessando o imenso casarão. Chegando ao quintal, onde Dolores colhia algumas frutas frescas, avisou:

— Dona Dolores, corra ate' o seu quarto! Va' acudir o seu Viana porque ele esta' passando muito mal.

Com o coração acelerado devido ao susto, Dolores colocou a bacia cheia de frutas no chão e correu para encontrar o marido. Ela entrou no quarto e viu o marido deitado na cama, cercado de pessoas aflitas, sem saber o que fazer para ajudá-lo.

Viana estava pálido e suando frio. Desesperada com aquela situação, Dolores perguntou:

— O que voce esta' sentindo, meu bem?

— Chegou a minha hora — respondeu Viana, anunciando o próprio fim.

— Pelo amor de Deus! Não fale uma coisa dessas. Isola isso! — disse ela, batendo na cabeceira da cama, negando a possibilidade de ficar viúva.

— Estou falando sério — tornou ele. — Ja' vejo o trabalhador espiritual aqui ao meu lado para me ajudar no desligamento do corpo — balbuciou Viana.

Salomão, que acompanhava tudo ao lado da cama, pensou: "Meu pai do céu, além da minha filha ter alucinações, agora o seu Viana também acha que sente a presença de defuntos entre os vivos!".

Dolores começou a chorar desesperadamente.

— Não se apavore, não, minha mãe. Ele esta delirando — disse Sebastião, tentando acalmá-la.

— Deve ser apenas uma queda de pressão e, com certeza, o senhor vai sair dessa situaçõo, seu Viana—interveio Salomão, sentindo-se desconfortável e com medo da possivel presença de um espirito ali no ambiente.

Aracy chegou trazendo um cha' de ervas. Dolores recebeu de suas mãos a xicara e estimulou o marido a tomar o calmante natural. Aos poucos Viana bebeu o cha' e, quando terminou, ainda suava muito.

Mesmo tendo consciência de que a morte do corpo não e' o fim da vida, Dolores sentiu uma profunda angústia tomando conta de todo o seu ser ao se imaginar sem a presença fisica do marido que ela tanto amava.

Dolores sentou-se na cama ao lado do marido, pediu que ele repousasse colocando a cabeça em seu colo, e Viana, desanimadamente, assim o fez. Ele pareceu ter perdido os sentidos, deixando todos em estado de choque. Mas em seguida ele apresentou uma considerável melhora, voltando a consciência e chegando ate a ficar sentado na cama.

No entanto, a melhora em seu estado de saúde durou pouco, pois Viana novamente se deitou e, reconhecendo que realmente estava em seus últimos momentos de vida, aproveitou para fazer uma declaração a esposa:

— Dolores, quero que voce nunca se esqueça de que a minha vida so' valeu a pena porque eu a encontrei e voce me disse "sim". O amor que voce me deu durante esses anos em que vivemos juntos me abriu todas as portas.

— Por voce eu faria tudo de novo — retribuiu a esposa, apertando a mão do marido fortemente e beijando o seu rosto com devoção.

— Eu reconheço que fui o homem mais sortudo e feliz deste mundo. Estou indo embora realizado e amarei voce para sempre. Eu disse... para sempre — repetiu com a voz entrecortada pela falta de ar que Ihe furtava a respiração.

— Eu tambem fui uma pessoa de muita sorte quando o encontrei, e da mesma maneira o amarei para sempre, querido, porque foi no brilho do seu olhar que eu encontrei o significado da minha existência — correspondeu Dolores aos prantos, novamente apertando as mãos do marido fortemente junto ao peito, numa tentativa de trazê-lo de volta.

"Isso e' que e amor de verdade", pensou Aracy enxugando as lágrimas.

Viana tombou a cabeça, os olhos foram se fechando lentamente, suas mãos foram soltando as mãos da esposa, evidenciando que ele definitivamente havia partido, deixando muita tristeza e saudade com a sua morte.

— Viana, Viana, Viana, fale comigo! — suplicou Dolores, inconsolável.

Ao lado do corpo de Viana estava o espirito amigo que fora designado pelo plano astral para auxiliá-lo em sua passagem. O espirito disse:

— Que bom que ele estudou e adquiriu consciência de como funciona o desencarne. Isso facilitou muito o seu desligamento da matéria.

Depois de frustradas tentativas de ressuscitar o marido, Dolores aceitou que Viana havia mesmo morrido e enviou um portador ate' a cidade para comunicar aos filhos o triste ocorrido.

Enquanto velavam o corpo do patrão, os funcionários da fazenda, inconsoláveis com a perda, relembravam as boas ações praticadas pelo fazendeiro que, por ter um coração generoso, não media esforços para oferecer apoio aos seus acolhidos e aqueles que o procuravam.

Salomão desabafou com um dos colegas a sua revolta a respeito dos mistérios da existência:

— A vida e' muito dura, não e' mesmo, Cicero?

— Sempre digo para a minha esposa, quando ela esta nervosa e criando conflito para ter razão em tudo, que em vez de a gente brigar por coisas insignificantes, devemos e aproveitar a companhia das pessoas o máximo possivel, porque, quando menos esperamos, somos surpreendidos pela visita da morte. E ai, meu companheiro, quando a morte decide levar alguém, ja' e' tarde demais para querer corrigir qualquer coisa.

— Voce disse uma grande verdade, Cicero! A gente perde muito tempo brigando por besteiras do nosso ego e se esquece de que, para morrer, basta estar vivo.

Emocionado, Cicero disse:

— Eu posso imaginar o que voce esta' sentindo com a morte de seu Viana, que o acolheu em um momento tão dificil de sua vida, assim como ele fez com todos nos que moramos aqui em suas terras.

— Ele foi um anjo colocado por Deus no meu caminho — definiu Salomão.

— Digo a mesma coisa — ajuntou o outro, com gratidão.

— Sinceramente, não entendo os planos de Deus. Existe tanta gente ruim neste mundo e ele permite que a morte leve embora tão cedo justamente uma pessoa que so' fazia o bem para o próximo? Por quê? — questionou Salomão.

— Eu Ihe faço a mesma pergunta — devolveu Cicero, inconformado.

— Dizem os sábios que, quando chega a hora de alguém deixar este mundo, antes de levar o sujeito, a morte so' arruma uma desculpa — tornou a falar Salomão.

— Deve ser assim mesmo que funciona, porque não ha' outra explicação. O seu Viana acordou animado e disposto a fazer o bem, deu o melhor de si para sua familia sem esperar nada em troca e, de repente, o homem bateu as botas e ja' se escafedeu, rapaz! — lastimou-se Cicero.

A madrugada ia alta quando os filhos do fazendeiro chegaram. Dolores, com os olhos inchados de chorar a morte do marido, foi ao encontro dos herdeiros e, soluçando nos braços de Roberto, o mais velho, disse:

— Betinho, eu não sei o que vai ser de mim de agora em diante, meu filho.

— Nós estaremos sempre ao seu lado, mamãe
— respondeu ele, chorando.

— E' isso mesmo, mãe, nós teremos uns aos outros — interveio Rita, esperando a vez para que pudesse também abraçá-la.

Sebastião chegou a sala e ficou muito comovido quando encontrou os irmãos abraçando a mãe, unindo as forças naquele momento triste de suas vidas.

Os três irmãos perceberam Aracy chorando copiosamente entre as pessoas e repetiram com ela o mesmo gesto de carinho que deram a mãe, abraçando-a.

— Infelizmente o pai de voces se foi, meus filhos — disse Aracy, soluçando.

— Esse e' o destino de todos nós, dona Aracy — comentou Rita, conformada.

— Quando amamos alguém, não paramos para pensar que a pessoa pode partir tão rápido assim, querida — lamentou Aracy.

— E, Aracy, a vida não manda aviso quando chega a hora de alguem de partir.

— O que me surpreendeu na morte repentina do papai e que ele era um homem saudável e forte, que raramente adoecia — observou Roberto.

— Por ser uma pessoa desapegada de tudo, com certeza o espirito dele ja' deve estar sendo bem recebido em um bom lugar — comentou Dolores.

— Que Deus o tenha guardado em Sua luz — disse Aracy.

— Que hora ele morreu, mãe? — perguntou Rita, enxugando os olhos.

— Acredito que por volta de duas da tarde.

— Então o enterro tera' de ser assim que o dia amanhecer — disse Roberto.

— O Sebastião ja' providenciou tudo — redarguiu a viúva.

— E' verdade — confirmou o filho do coração. — Pedi que cavassem a sepultura ao lado dos túmulos de nossos avós, la' debaixo do pe' de manga no quintal do casarão, como era o desejo de nosso pai.

— Fizeram muito bem em ter respeitado a última vontade dele — disse Roberto, afagando o irmão, que não conteve a emoção mais uma vez.

Os raios do sol começavam a surgir por detras da floresta quando Dolores autorizou que fechassem o caixão e levassem o corpo do esposo para o sepultamento. Conforme o caixão ia descendo vagarosamente para o fundo da sepultura, a viúva, de mãos dadas com os filhos, sentia que um pedaço de seu coração também estava sendo enterrado junto com aquele que fora o seu fiel companheiro e o responsável por sua felicidade durante décadas de casamento, Ihe presenteando com amizade, amor, gentileza, cumplicidade e realização.

Todos despediram-se de Viana sob uma calorosa salva de palmas. Por fim, Dolores disse, acenando: — Va' com Deus, meu amor.

Dias após a morte do fazendeiro, Dolores resolveu desfazer-se dos livros que o marido tanto gostava de ler, pois toda vez que ela olhava para a estante, inevitavelmente vinha a sua mente a triste cena em que Viana agonizava nos seus braços, causando-lhe muita angústia e tristeza.

Sabendo que Alzira era uma pessoa apaixonada por leitura, Dolores decidiu Ihe repassar a coleção de Allan Kardec. E sugeriu-lhe:

— Quando Laura chegar a mocidade, por favor, de esses livros para ela. Serão de grande utilidade para ajudá-la a compreender melhor as manifestações que Ihe perturbam o espirito.

Alzira ficou lisonjeada por receber de presente da patroa algo de tanto valor sentimental. E foi com a leitura dos livros do codificador do espiritismo que ela compreendeu como ocorrem os processos mediúnicos.

Esclarecida, Alzira sentiu que uma nova pessoa surgira em seu interior, tornando-a mais dona de si e defensora de opiniões que nunca fora capaz de expressar antes. Isso causou em sua relação com o esposo muitos conflitos, por ele resistir a sua nova maneira de pensar, olhar e agir diante da vida.

Salomão, revoltado com a mudança na postura da esposa, passou a investigá-la. Ao descobrir que Alzira estava debruçada sobre questões ligadas a espiritualidade, decidiu esconder os livros de Kardec que ela ganhara da patroa, alegando que os conceitos contidos naqueles livros iriam afetar a mente de Laura, caso um dia ela se interessasse em se aprofundar sobre o tema.

Porém, naquela mesma noite em que escondeu os livros, Salomão teve muita dificuldade para conciliar o sono. Quando finalmente conseguiu adormecer, sonhou que voava conduzido por um casal que o levava para fazer uma visita ao espirito do patrão. No estranho sonho, Viana ficou muito emocionado ao vê-lo e Ihe disse:

— Salomão, eu sei que voce e' uma pessoa incrédula, mas mesmo assim solicitei ao plano espiritual que promovesse nosso encontro por meio da ajuda desse casal de trabalhadores da luz, porque tenho um pedido a Ihe fazer. Por favor, devolva os livros que Dolores deu a sua mulher. Se voce não fizer isso, serei obrigado a me comunicar com a sua filha para avisá-la de que voce escondeu a caixa de livros la' no galpão.

Alzira dormia tranquilamente ao lado do marido quando, de repente, Salomão deu um salto na cama, despertando do sonho e dizendo esbaforido:

— Va' descansar em paz, homem de Deus!

— Do que voce esta' falando? — perguntou a esposa, assustada.

Salomão passou as mãos no rosto e respondeu:

— Tive um pesadelo terrivel... Eu estava voando igual a um pássaro na companhia de um casal que me conduzia a um lugar estranho. La', eu encontrei o espirito de seu Viana, que me deu uma bronca por eu ter escondido os livros de macumba que a dona Dolores Ihe deu! Aliás, aquelas obras do demônio so' trouxeram idéias opositoras que quase destruiram o nosso casamento. Foi depois da leitura daqueles troços que voce se tornou uma pessoa insolente e encrenqueira, que por qualquer coisa entra em confronto comigo.

Alzira, baseada nos conhecimentos que havia adquirido na obra de Allan Kardec, concluiu que o sonho que o esposo tivera na verdade se tratava de uma experiência fora do corpo e, confiante de que poderia orientá-lo, tornou:

— Eu sei que voce não gosta de falar sobre esse assunto. Entretanto, estudando os fenômenos espirituais, compreendi muitas coisas.

— La' vem abobrinha! — murmurou ele, esperando que ela completasse.

— Este sonho que voce teve não foi um pesadelo comum — observou Alzira.

— Ah, não? — quis saber, fingindo-se interessado em ouvir a explicação.

— Pela sua descrição, ficou evidente que na verdade o seu espirito saiu do corpo durante o sono e volitou amparado pelos amigos desencarnados, que o levaram ao encontro do espirito de seu Viana, na dimensão astral.

— Não fale asneiras, mulher!— rebateu Salomão, que, revoltado, prosseguiu: — Desde que passou a ler aqueles livros de magia que so ensinam o que não presta, voce se tornou uma pessoa fanática pelos conceitos que adquiriu, chegando as vezes a ser chata, agindo igual a um papagaio, repetindo tudo que aprende.

Alzira encheu-se de coragem e defendeu-se:

— Voce esta' equivocado. Os livros de Kardec não tem nada a ver com essas literaturas a que voce se referiu como instrumento de maldades. Allan Kardec foi um pesquisador sério que, com sua extraordinária obra, explicou os fenômenos sobrenaturais, indo alem dos olhos da ciência. E se voce for estudar as pesquisas e descobertas dele, compreendera' que esse sonho que voce teve foi sim uma experiencia de volitação — enfatizou ela.

— So' mesmo uma tonta como voce para ter a ingenuidade de acreditar que um comedor de farinha como eu tem a capacidade de sair do corpo, sem morrer, voar igual a um passarinho no espaço e, o que e' mais absurdo ainda, dormindo, Alzira! Ah, faça-me o favor, criatura de Deus! Deixe de ser idiota e alienada, mulher!

— Salomão, as descobertas dos pesquisadores espiritualistas nos garantem que, quando a gente dorme, o nosso espirito sai do corpo e faz coisas incriveis fora da matéria. Pelo que eu estudei, volitar e' uma delas.

— E o que diabo e' volitar? Não e' a mesma coisa que voar? — questionou ele, caçoando da esposa.

— Volitar e' uma condição natural do espirito, que usa esse meio de locomoção quando vive na dimensão astral ou quando se desprende do corpo fisico, enquanto se esta' dormindo. E voar e' algo que so' ocorre na matéria, quando uma ave usa suas asas para movimentar o ar criando a fluidez que Ihe possibilita flutuar.

— Nossa! Estou impressionado com a sua evolução em tão pouco tempo! Depois da leitura dos livros de macumba, voce virou professora de ciencia? — zombou Salomão, rindo sarcasticamente da cara da esposa.

Alzira não reagiu, e Salomão, novamente caçoando, inquiriu:

— Ja' que voce se mostra uma grande entendedora do que acontece após a morte do corpo, então me explica uma coisa: e quando um passarinho morre, o espirito dele continua voando do lado de la', no mundo espiritual, como fazia enquanto estava vivo aqui na Terra, ou ele volita tambem igual aos seres humanos?

Com o questionamento irônico do esposo, Alzira percebeu que estava perdendo o seu tempo tentando convencê-lo de coisas que ele ainda não estava maduro para compreender e muito menos estava aberto para discutir. Desejando encerrar o assunto, ela disse:

— Prefiro não responder a sua ironia. Sei que as suas perguntas tem apenas a intenção de ridicularizar o meu ponto de vista.

Salomão estava orgulhoso por ter vencido os argumentos da esposa e, cheio de razão, considerou:

— E' melhor mesmo que voce não debata comigo, porque eu ja' estou tão farto desse assunto que nem vou mais gastar saliva contestando esses supostos cientistas que abusam da fé de pessoas ignorantes como voce para ganhar dinheiro fácil, vendendo suas obras com informações sem embasamento.

Alzira, evitando discussão, escolheu ficar com a paz, calou-se, virou-se para o lado, puxou o lençol, cobriu-se e pensou: "So' acredita no que vê e quando tem uma prova acha que e' pesadelo?".

Minutos depois, ela voltou a dormir tranquilamente. Ele, ao contrário, ficou acordado ate' o amanhecer tentando se desligar da imagem do falecido patrão que, no sonho, conversara com ele com tanta naturalidade como se de fato estivesse vivo.

Salomão não queria acreditar que aquele sonho fosse realmente um encontro espiritual, mas uma coisa o deixou intrigado: o espirito revelou exatamente onde ele havia escondido os livros!

Nas noites seguintes, Salomão teve o mesmo sonho e, vencido pelo medo, decidiu devolver os livros para a esposa, como o espirito do patrão Ihe recomendara. Curiosamente, após a devolução das obras, o espirito deixou de aparecer em seus sonhos.

Salomão pensava que os encontros espirituais tinham ocorrido porque ele ficara impressionado com a morte do patrão e que sua mente juntava as imagens de Viana com a história dos livros, criando uma situação como algo real.

EVALDO RIBEIRO