CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 7

Dez anos se passaram.

Salomão e Alzira continuavam trabalhando como funcionários da fazenda. Os filhos do casal tinham crescido e sido alfabetizados.

Laura, ja' moça, ajudava a mãe nos serviços domésticos. Por ter interrompido o tratamento que fazia, voltou a ter sua mediunidade desequilibrada e a ser assediada pelos espiritos do astral inferior. Por conta disso, era vista pelo pai como uma pessoa com problemas mentais.

Alzira dera a filha os livros de Kardec que tinham sido de Dolores. Laura os lia, tentava compreendê--los, trocava cartas especificas com Dolores, mas em vão. Havia determinadas posturas de Laura que, infelizmente, mantinham as influências energéticas negativas ao seu redor.

Olivia tambem ja' era uma moça e, assim como Laura, ajudava a mãe nas tarefas de casa e continuava se sentindo menos querida que a irmã mais velha.

Oscar, sem muitas ambições, seguindo os passos do pai, escolheu como meio de sobrevivência as mesmas atividades que Salomão desenvolvia na fazenda, cuidando de animais e cultivando legumes.

Naquele dia, apos o jantar, Laura estava tirando a mesa quando de repente sentiu uma forte tontura e ameaçou desmaiar.

— Corre aqui, Salomão! — gritou Alzira, pedindo socorro.

Imediatamente, Salomão e Oscar socorreram Laura, levando-a nos braços para o quarto, onde a colocaram sentada na cama. Como se estivesse perdendo os sentidos, a moça mudou o semblante drasticamente, sacolejou o corpo na cama e sua voz se alterou para um timbre masculinizado.

Alzira percebeu que a filha havia incorporado um espirito e lembrou-se de Juca, o médium que tinha feito o tratamento de desobsessão em Laura e afastado por um bom tempo as companhias que Ihe assediavam desde pequena.

Desesperada e sem saber como lidar com o encosto, Alzira pediu ao marido que fosse chamar o médium para despachar aquela presença intrusa que havia tornado posse dos sentidos da filha.

Mas, Salomão revoltou-se com a proposta e disse:

— Jamais quero manter contato com aquele homem do mal. Nem pense que vou permitir rituais de magia dentro da minha casa! Essa menina não bate bem da cabeça desde pequena e não sera' agora que ela vai morrer por causa disso.

— Deixe de ser incrédulo, homem de Deus — insistiu Alzira. — Voce não percebe que nossa filha carece de ajuda espiritual?

— Deixe de ser apavorada, mulher! Isso logo vai passar — rebateu Salomão.

— Eu vou la' chamar o homem — interveio Oscar.

— Voce não vai chamar ninguém — bradou Salomão.

— E como e que vamos resolver essa situação sem a ajuda de alguém que entenda de um assunto tão delicado como este? — questionou Alzira, chorando.

Salomão, irredutivel, censurou:

— Eu não vou permitir que nenhum charlatão coloque na cabeça da minha filha essas coisas absurdas sobre assuntos espirituais. Voce, Alzira, e' a responsável por essas loucuras da nossa filha. Ela ja' não batia bem da cabeça e voce ainda teve a maldita idéia de levar a menina para frequentar terreiro de macumba. Agora veja o estado em que se encontra a mente dela.

— Pelo amor de Deus, Salomão, ate' quando voce vai duvidar de que a nossa filha se comunica com os espiritos desencarnados?

— Quer saber de uma coisa, Alzira? Voce e' igual a piolho, ou seja, vive pela cabeça dos outros. Deixa de ser tão manipulável, acreditando em coisas improváveis — atacou ele e apontou para Laura: — Isso e invenção dessa menina, que desde pequena so' me fez passar vergonha com essa conversa doida de que mantem contato com os mortos.

Salomão nem completou a acusação e Laura levantou-se velozmente, partindo para cima do pai, empurrando-o com força contra a parede. Oscar e Alzira tiveram dificuldade para livrá-lo das garras da filha, que, dominada pela presença espiritual, imprensava Salomão, tentando enforcá-lo.

Enfim, Oscar e Alzira conseguiram imobilizar a jovem com as mãos para trás. Depois desse susto, com as costas doendo, os cotovelos muito machucados, Salomão decidiu acatar o pedido da esposa e foi correndo ate' a residencia do médium, que ficava ali perto, chamá-lo para afastar a suposta presença que havia incorporado em Laura.

Juca escutou os latidos dos cachorros, o que demonstrava que alguém estranho tinha chegado em frente a sua casa. Depois ouviu uma voz apreensiva se misturando aos latidos dos caes, chamando na porta:

— Oh de casa, oh de casa!

0 médium foi atender e, chegando a porta, ralhou com os cães, mostrando que a visita não representava ameaça. Obedientes, os animais baixaram a guarda e silenciaram. Ainda sem reconhecer Salomão, Juca se prontificou:

— Quem e'?

— Pelo amor de Deus, seu Juca, me ajude! — suplicou o homem, desesperado.

— Qual e a sua graça, meu amigo? — novamente perguntou Juca.

— E' o Salomão — respondeu ele, sem fôlego para pronunciar o próprio nome.

— Pode chegar mais — disse Juca, autorizando a aproximação do visitante.

— Eu tenho pressa — adiantou-se ele, ja' sem o autoritarismo de antes.

— E o que voce deseja, Salomão? — sondou o médium.

— A minha filha Laura teve uma recaida daqueles delirios horriveis e esta' completamente desequilibrada, quebrando tudo la' em casa — explicou Salomão.

Objetivando surpreendê-lo, o mentor de Juca disse:

— Faz um curativo nos cotovelos do valentão que estão sangrando devido ao chega-pra-la que ele levou do espirito que esta' incorporado na filha dele.

Buscando acalmá-lo, Juca amorosamente disse:

— Entre que primeiro vou fazer um rápido curativo em seus cotovelos.

Arrepiado com a observação do medium, Salomão perguntou:

— Como e' que o senhor soube que estou com os cotovelos machucados?

O médium serenamente respondeu:

— Quando voce estiver pronto para encarar a verdade, a vida criara' as situações necessarias para Ihe revelar caminhos menos sofridos.

Salomão entrou e se acomodou em uma cadeira. O médium foi ate' o quintal, onde pegou algumas folhas de ervas medicinais que cultivava para usar em seus tratamentos. De volta a sala, amassou os ramos e passou aquela gosma verde extraida do vegetal nos cotovelos de Salomão.

Concluido o curativo, Juca disse:

— Agora vamos ate' a sua casa cuidar da sua filha. Salomão concordou com a cabeça.

Durante o percurso, Salomão ainda insistiu em saber como Juca soubera dos ferimentos em seus cotovelos, se ninguém, além de sua familia, havia presenciado o ocorrido. Orientado pelo mentor, o médium mais uma vez deixou o questionamento do incrédulo homem sem resposta.

Chegaram a residência de Salomão. Quando Alzira viu Juca entrar, sentiu um alivio no peito, pois confiava muito no trabalho do experiente médium.

— Graças a Deus que o senhor veio, seu Juca — disse ela, emocionada.

— A moça ainda esta' incorporada? — questionou ele.

— Esta' sim, seu Juca. E' um espirito muito raivoso — respondeu Alzira, enquanto o conduzia ao quarto onde Laura estava andando de um lado para o outro, dizendo os mais agressivos absurdos.

Quando Alzira abriu a porta e o espirito incorporado em Laura detectou a presença do médium, agressivamente determinou:

— Saia daqui agora. Não se meta na minha vida. Juca, ja' acostumado a lidar com espiritos desequilibrados, serenamente se aproximou de Laura com as mãos abertas sobre a cabeça da jovem, dando-lhe um passe energético com o objetivo de acalmar o espirito. Quando conseguiu controlar a situação, interrogou com firmeza na voz:

— Quem e' voce? E o que quer dessa moça?

O espirito não interagiu, e Juca, colocando ordem no ambiente, estabeleceu:

— Vamos! Diga quem e' voce e o que quer dessa moça.

Após o segundo comando do médium, Laura sentou-se no chão com a cabeça baixa e o rosto coberto pelos cabelos longos, resmungando com uma voz rancorosa, porém ao mesmo tempo obediente a autoridade do médium.

Salomão, acompanhando tudo da porta, pensou: "Quanta palhaçada! A que ponto chegou a loucura da Laura".

Agora com mais firmeza na voz, Juca novamente ordenou:

— Não perca mais tempo. Diga logo quem e' voce e o que quer dessa moça?

Ainda sem revelar a sua identidade, o espirito disse:

— Eu quero que ela sinta na pele a mesma dor que ela me causou.

— E o que ela fez com voce? — sondou o médium. Soluçando, o espirito desabafou:

— Ela foi responsável por uma tragédia que destruiu a minha vida e a de minha familia.

O médium pediu que o espirito Ihe contasse a sua dolorida história para poder ajudá-lo a sair da condição infeliz na qual se encontrava, perambulando no astral inferior, alimentando o sentimento de vingança e acreditando que a destruição de seu desafeto seria a melhor escolha para fazer um acerto de contas.

Depois da revelação, Juca compreendeu que se tratava de um espirito que havia sido prejudicado por Laura em outra vida e que, obstinado pelo desejo de vingança, vinha cobrar a divida de sua malfeitora.

O médium, compadecendo-se do sofrimento do espirito que se dizia vitimado pela moça que assediava, prosseguiu esclarecendo-o de que, nutrindo aquele sentimento de ódio, ele estava apenas mantendo-se preso ao irreversivel passado.

Salomão, que continuava de longe observando o ritual de desobsessão e ainda duvidando da veracidade do fato, disse baixinho no ouvido de Oscar:

— Olha, filho, esse negócio de incorporação e' a coisa mais absurda que ja' ouvi falar na minha vida. Eu, particularmente, não acredito que o espirito de um morto possa voltar do Além e se encaixar no corpo de uma pessoa viva. Isso e' impossivel de acontecer.

Receoso, Oscar preferiu omitir opinião sobre o comentário do pai. Mas Salomão continuou criticando:

— Se o espirito de alguém morto toma posse do corpo de uma pessoa viva, então me diga, filho, onde fica o espirito da pessoa que e' possuida enquanto ela esta' incorporada pelo espirito invasor?

— Olha, pai, eu não sou um profundo conhecedor desse assunto. Não sei explicar essa questão de vida após a morte. Mas parece que os estudiosos dizem que durante esse processo o espirito não entra no corpo do médium.

— Ah, não?

— Não. O espirito fica próximo da pessoa, ligado por fios energéticos. Parece que o espirito consegue invadir a mente da pessoa, mas não o corpo dela.

Salomão se aproximou do filho e sussurrou ao seu ouvido:

— E voce acredita nisso?

— Acho melhor a gente mudar de assunto, pai, porque eu nunca fiquei fora do corpo para ter uma noção clara de como funciona a vida do lado de la'. Aliás, nem tenho interesse em visitar o mundo do Além tao cedo para comprovar essa informação

— respondeu Oscar, se benzendo.

— Filho, voce ja' e' bem crescidinho pra ficar acreditando nessas idiotices. Tudo isso e' lorota que os macumbeiros bons de lábia contam para impressionar os seus seguidores, que geralmente são pessoas desesperadas que estão passando por algum problema sem solução e' a única coisa que ainda Ihes resta e a fe' em algo sobrenatural.

— Mesmo assim, pai, ter fe' ja' e uma coisa muito boa — ponderou Oscar.

— Eu acho esse comportamento de sua irmã uma palhaçada. Afinal, ela sempre inventou alguma coisa para teatralizar, chamar a atenção das pessoas e envergonhar a nossa familia.

— A troco de que, pai, a Laura faria isso desde pequena?

— Tem gente, filho, que ja' nasce com a mente revoltada.

— A Laura não estava consciente de seus atos quando partiu para cima do senhor de maneira agressiva — avaliou Oscar, tentando convencer o pai a refletir melhor.

— A verdade e' que a sua irmã tem um sério distúrbio mental. E mesmo que isso que esta' acontecendo fosse uma invasão espiritual, seria uma ótima lição para ela e para sua mãe, que sempre viveram metidas na casa dos macumbeiros procurando contato com os defuntos. Então, meu filho, e' aquele velho ditado: "Quem procura acha". Portanto, se elas estão recebendo a visita do Além, e' bem feito pra elas. So' assim nunca mais vão mexer com o que esta quieto.

Nessa hora, Laura levantou o rosto, seus cabelos longos cairam sobre a face, quase cobrindo seus olhos fixados em Salomão, e, com a voz rouca, disse:

— Escuta aqui, Salomão, se voce não calar essa sua boca de matraca, eu vou arrancar esse seu bigode de bode velho fio por fio na unha agora mesmo. A hora que eu decidir abrir o bico e contar a verdade...

Antes que Salomão reagisse a ofensiva, Juca pediu que ele e Oscar saissem um pouco para evitar um novo ataque do espirito.

Salomão se retirou esbravejando:

— Era so' essa que me faltava: um defunto tomar posse do corpo da minha filha e, em seguida, me expulsar da minha própria casa.

Ouvindo o comentário irônico do pai, Oscar se divertiu.

Sentindo-se consolado por ter sido escutado pelo médium, o espirito aceitou se afastar de Laura em troca da ajuda prometida pelo orientador.

Assim que a indesejada companhia partiu, Laura, desgastada energeticamente, adormeceu, sem se dar conta do que havia acontecido. Enquanto ela dormia, o médium permaneceu ao seu lado Ihe dando assistencia espiritual, concluindo o trabalho de afastamento da energia negativa que a perturbada presença tinha deixado no ambiente.

Juca pediu que Salomão e Oscar entrassem no quarto para fazer uma oração em grupo e acompanhassem o restabelecimento de Laura.

Inseguro, Salomão se pôs ao lado da cama. De mãos dadas, ele, a esposa, o filho e o médium prosseguiram em prece em favor da libertação de Laura, que, de imediato, teve um daqueles sonhos em que a pessoa sabe que não esta completamente dormindo, mas que tambem não esta' no controle de sua consciência, pois o corpo não obedece aos movimentos que a mente ordena.

No sonho, Laura se viu em uma sala de espera de um ambiente parecido com um setor hospitalar. Naquele local, adentravam algumas pessoas de aparência bastante fragilizada, supostamente sendo conduzidas por enfermeiras, ja' que as cuidadoras trajavam roupa branca e zelavam pelos debilitados, acompanhando-os.

Na ânsia de acordar, Laura tentou se mexer na cama, mas o corpo não obedeceu ao comando da mente.

De repente, surgiu no ambiente uma jovem senhora que, amorosamente, Ihe convidou a acompanhá-la ate' o setor de atendimento. Chegando ao local, a senhora pediu que ela se sentasse em uma cadeira e ficasse de olhos fechados para receber vibrações energéticas dos trabalhadores espirituais. Eles de mãos abertas, estendidas sobre a cabeça de Laura, Ihe deram um banho de luz e energia positiva, purificando o seu corpo.

Concluido o trabalho de reequilibrio, o grupo se deu as mãos em silencio, formou um cordão em volta da moça e, nesse instante, a mesma senhora que a conduziu ate' a sala de atendimento aproximou-se dela e falou suavemente em seu ouvido:

— Pronto, querida, agora voce ja' pode abrir os olhos.

Um senhor alto, de aparencia serena, tornou a iniciativa, destacou-se do restante do grupo e, com um gracioso sorriso, Ihe estendeu a mão. Olhando firme om seus olhos, apresentou-se:

— Seja bem-vinda, minha filha! Eu sou Alaor, o seu mentor espiritual, e voce foi trazida para ca' porque a sua sensibilidade mediúnica estava Ihe fazendo ficar a beira da loucura. O desequilibrio de sua sensibilidade, por sintonia com a vibração que voce emanava, vinha atraindo a companhia de espiritos também de baixa energia. Mas não se preocupe, pois a partir de hoje a sua vida sera' transformada, e nos, os seus amigos da luz e parceiros do astral, faremos um lindo trabalho juntos.

Comovida com aquela sensação de acolhimento, mas ainda com um sentimento de insegurança, Laura suplicou, em lágrimas:

— Moço, pelo amor de Deus, onde estou? O que esta' acontecendo comigo? E quem são essas pessoas que estão me cercando?

O guia abriu um leve sorriso de canto de boca e disse:

— Estou surpreso com a sua insegurança diante de nossas inofensivas presenças... Ainda mais voce, Laura, que desde cedo se comunica com os espiritos! Ou voce ja' se esqueceu de seus dons mediúnicos?

— Que lugar e' esse, moço? — novamente perguntou ela, preocupada.

— Acalme-se, voce esta' em outra dimensão, no setor de resgatados do mundo astral, e esses companheiros são curadores energéticos — explicou Alaor.

— E o que são curadores energéticos? — questionou ela, com voz chorosa.

— Alguns encarnados que estudam a espiritualidade chamam os trabalhadores da luz de socorristas, amparadores, guias ou benfeitores. A nomenclatura que dão aos agentes do mundo invisivel não importa, porque no plano espiritual os rótulos não tem a mesma validade que tem na Terra. Contudo, para Ihe explicar melhor o que são os curadores energéticos... A missão desses irmãos da luz e ajudar o espirito de pessoas desencarnadas em condições dificeis — concluiu Alaor, com naturalidade no falar.

— O senhor quer dizer que eu morri?

— A morte não existe, minha filha!

— E o que eu estou fazendo aqui no meio de tantos mortos?

— Lugar de mortos e' no cemitério, onde ficam os ossos de quem partiu. Em essência, somos espiritos imortais que, pela graça divina, temos incontáveis oportunidades de receber um corpo carnal para vivermos experiências no mundo da matéria por determinado tempo, ate' deixarmos o corpo perecivel e, em espirito, retornarmos para o astral. E' claro que o destino do nosso espirito, depois da morte, vai depender exclusivamente das escolhas e ações que fizermos quando vivos — ressaltou o orientador.

— Eu não acredito que seja possivel o espirito de uma pessoa encarnada deixar o corpo para visitar dimensões fora da Terra — disse ela.

— Tanto e' possivel a visita partir de um lado, como do outro. O que muda e' como se da' o processo.

— Que processo? — tornou Laura, desconfiada de que havia morrido.

— Existem muitos recursos que os encarnados e desencarnados usam para se comunicar, ultrapassando os limites que separam a matéria do plano espiritual, interligando os dois mundos, aproximando almas afins, sejam elas amigas ou inimigas.

— Como?

— Uma das maneiras mais comuns e por meio da saida do corpo: enquanto a pessoa dorme, o espirito se desliga do corpo e sai para se encontrar com pessoas com quem ela nem sequer havia pensado antes de adormecer e, quando acorda, volta com a nitida sensação de que a experiência foi algo real.

— Como se tivesse mesmo encontrado essas pessoas em algum lugar?

— Sim. Ou, passado um tempo, conhece alguém e diz: "Parece que o conheço de algum lugar". Pode ser que ja' haviam se encontrado no mundo astral.

— Entendi.

— A incorporação e' outro processo, inclusive muito usado pelos médiuns. Durante as sessões mediúnicas, eles abrem espaço para que os desencarnados possam tomar posse de alguns de seus sentidos e se manifestarem, transmitindo alguma mensagem de acalanto para os aflitos e desenganados. E' possivel tambem a interação entre encarnados e desencarnados por meio de sonhos, assim como esta se dando o nosso encontro.

— Interessante... — Laura estava mais lúcida. Alaor prosseguiu:

— Outra forma muito comum e' por conexão de pensamento, maneira pela qual o espirito, bem-intencionado ou não, age sem ser percebido, influenciando o encarnado, transmitindo-lhe idéias, induzindo-o a fazer coisas. Quando uma pessoa e influenciada por um espirito obsessor, a mudança de comportamento e notória. Ela tem alterações de humor, depressão, age muito por impulso, ou seja, faz muita coisa sem sentir. Porque uma pessoa que tem a companhia de um obsessor e' alguém que não tem posse de si, não toma conta de seus sentimentos. Quem cuida de si não atrai esse tipo de companhia.

Laura sentiu um estremecimento.

— Acho que estou entendendo melhor. Não ha' vitimas.

— Não. De forma alguma. Cada um e' responsavel por tudo o que atrai na vida.

— Eu quero melhorar.

— E vai.

— Mas meu pai não e' obsedado por espiritos perturbados e e' uma pessoa negativa, amarga. Como faço para lidar com esse comportamento?

— Temos que ter consciência, maturidade e bom senso para reconhecer que existem pessoas que destratam as outras porque são amargas mesmo. Faz parte da natureza delas. Ninguém muda ninguém. Essas pessoas são mais dificeis de se conviver. Quando estão passando por um momento de conflito interior, entram em um estado de agressividade indomável, igual a uma fera ferida que, sentindo-se ameaçada pelo monstro interno que Ihe rouba a paz de espirito, age pelo instinto de defesa, atacando qualquer um que se aproxima, mesmo que seja alguem que queira apenas cuidar de seus ferimentos. Alguém assim sempre prefere isolar-se ate' passar as ondas de opressão.

— Ele e' muito bruto, estúpido.

— Cabe a quern convive com a pessoa nessa situação evitar questionamentos e perguntas investigativas sobre o que esta' se passando com ela. E' nessa hora que devemos agir com amor, compaixão e compreensão. Não dê importância ao que ele diz. Agora, uma coisa e' certa, minha filha: quem vive com bom humor e pratica vibrações positivas por meio de preces ou orações esta' imune aos ataques espirituais dessa natureza — concluiu o mentor.

— Fácil falar... — tornou Laura com ironia.

— Sabe, seu pai pode ser tosco, bruto, mas a ama do jeito dele. Salomão tem esse jeitão bruto, no entanto tem uma intuição forte. Ele e' muito ligado "nele", acredita muito nele.

— Não acredita em espirito, em nada. Duvido ate que acredite em Deus.

— Isso e' bom.

Laura arregalou os olhos, incrédula. Alaor fez que não viu o espanto e continuou:

— Quanto menos fanática uma pessoa e', mais fácil ela acredita na capacidade de ela mesma mudar seu caminho, seu destino Salomão ja' se deu muito mal por conta de religião. Em outras vidas, meteu-se em grandes enrascadas em nome de Deus.

Agora prefere viver assim, desacreditando de tudo. Melhor para ele. Mas tenha certeza de que Salomão tem uma intuição muito aguçada. No fundo, quer protege-la. E, alguns anos la' na frente, talvez voce compreenda melhor seu pai e as atitudes dele.

— Dificil.

— Vamos dar tempo ao tempo.

— E como as coisas vão prosseguir na minha vida quando eu voltar para o corpo material? — quis saber, ainda desconfiada de que tinha desencarnado.

— Filha, antes de nascer, o seu espirito assumiu um compromisso com o plano astral, e essa capacidade que voce tem de perceber as manifestações espirituais e' um instrumento maravilhoso que Ihe foi dado para que voce possa servir a seu semelhante como trabalhadora do bem.

— Eu não me recordo de ter assumido nenhuma responsabilidade antes de nascer — confrontou ela, fugindo da missão revelada pelo mentor.

— Ninguém nasce consciente das experiências de suas vidas passadas, tampouco das metas traçadas para a nova experiência. Ate' mesmo porque ninguém suportaria conviver com a viva lembrança de seus feitos negativos sem se torturar com a lâmina da culpa. A vida e' sabia e sempre nos da' uma nova chance para recomeçar. Este e' o desafio de todo mundo quando reencarna: descobrir a missão que seu espirito recebeu para desenvolver durante a sua nova existência terrena. Com certeza, a vida ira criar as oportunidades necessárias para o seu entendimento e amadurecimento. Portanto, para evitar que voce permaneça recebendo a incorporação de espiritos indesejados, e aconselhável que voce assuma definitivamente a posse dos seus sentimentos, o comando de sua mediunidade e escolha quais visitas deseja receber — orientou Alaor.

— E quando eu voltarei a consciência?

— Assim que o benfeitor da Terra fizer a parte que Ihe cabe, afastando a energia pesada do espirito que se aproximou do seu corpo, e a sua energia vital estiver restabelecida, possibilitando que voce retorne ao corpo fisico.

— E se eu me recusar a fazer parceria com os espiritos que me procuram pedindo passagem para se manifestar por meio da minha mediunidade, o que eles podem fazer contra mim?

Alaor serenamente retorquiu:

— Ninguem e' obrigado a trabalhar como médium contra a própria vontade. Outra coisa muito importante que voce precisa ter consciência, minha filha. Ninguem encarna trazendo um dom inútil como forma de castigo divino. Tudo que a natureza divina cria tem um propósito e' um porque de ser. Mas como eu ja Ihe disse, voce nasceu com um dom de cura extraordinário, e essa força positiva que a inteligência divina agregou em sua essência, além de servir como instrumento para tirar o sofrimento de muitas almas, ainda Ihe dara' a possibilidade de alcançar um alto nivel de maturidade espiritual — reforçou Alaor.

Incomodada, Laura questionou:

— Por que Deus, que e' tão sabio, em vez de me colocar no mundo com essa bendita capacidade de curar a ferida da alma dos outros não deu a todas as pessoas o poder de cuidarem de si mesmas?

— So' o tempo respondera essa sua indagação
— devolveu Alaor.

— E o que voce me aconselha a fazer da minha vida enquanto o tempo não cala as minhas dúvidas? — perguntou ela, impaciente.

— Recomendo que voce aprenda logo a usar o seu dom antes que a sua mediunidade seja transformada em mais desequilibrio mental e voce venha a sofrer mais perturbações, como ja' vinha ocorrendo.

— Não me sinto preparada para enfrentar os obstáculos que a vida me impõe — confessou ela, desabafando a sua insegurança.

— A finalidade da vida e' nos levar ao desenvolvimento e fortalecimento de nossas competências. Na verdade, os desafios que voce chama de obstáculos são apenas breves passagens, situações geradas para nos conduzir ao amadurecimento. No seu caso, o açoite de um antigo amor que vai ressurgir em seu caminho brevemente ira Ihe fazer achar coragem para sair do comodismo e despertar a força adormecida de seu virtuoso espirito — adiantou Alaor.

— Preciso saber: por que nasci com essa capacidade se tudo que eu quero e ser apenas uma pessoa normal como todas as outras?

— Filha, com os dons com que a natureza divina Ihe qualificou, certamente a vida tem o propósito de alcançar algum objetivo por meio da evolução de seu espirito. Afinal, a vida e progresso e' a programação da vida não anda para trás.

EVALDO RIBEIRO