CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 8

Depois que Laura teve a experiência por meio do sonho, o mentor e a equipe de trabalhadores espirituais desapareceram no espaço como num passe de mágica, deixando uma luminosidade verdejante reluzindo no ambiente.

Em instantes, o espirito de Laura se encaixou no corpo e ela fez um movimento brusco na cama, como se estivesse caindo em um abismo. Com isso, acordou assustada.

Todos que estavam ao redor da cama Ihe dando assistência espiritual se assustaram com a sua reação inesperada, principalmente Salomão, que, com medo de ser atacado pela filha novamente, deu um pulo para trás e saiu do quarto com o coração batendo acelerado.

Aliviada por ter conseguido despertar do sonho, Laura se sentou na cama, sentindo uma leveza em seu espirito que nunca havia experimentado antes. Quando notou a presença do médium a seu lado, desabou a chorar de comoção ao se lembrar de tudo que vivenciou espiritualmente. Confusa, Laura se questionou mentalmente: "Sera' que sou louca mesmo, como o meu pai sempre disse, ou ainda estou sonhando?".

Como se estivesse lendo o pensamento da moça, Juca disse:

— Filha, o que aconteceu com voce não foi um sonho. Creia! Voce teve mesmo uma experiência fora da matéria. Assim como os amigos do astral estão ao seu lado, colaborando com a sua Jornada espiritual, eu tambem estarei a partir de agora apoiando voce em tudo que estiver ao meu alcance.

— Muito agradecida pela ajuda — tornou ela, chorando.

— Imagina, minha filha. Sou eu quem tem que Ihe agradecer pela abençoada oportunidade de colocar em prática esse dom maravilhoso que Deus me deu. Estou apenas cumprindo a minha missão em sua vida. Para mim e' uma honra, querida, pode contribuir com o seu desenvolvimento espiritual — considerou Juca, demonstrando humildade no jeito de falar e satisfação em servir.

Alzira, contente com a intervenção do experiente médium, comentou:

— Se não fosse a sua habilidade em lidar com as coisas do invisivel, e principalmente a sua boa vontade em nos socorrer nesse momento tão dificil, eu nem quero imaginar o que poderia ter acontecido aqui hoje.

— Sou apenas um instrumento usado pela espiritualidade — ponderou Juca.

Deixaram a jovem no quarto descansando e foram conversar na sala.

— O senhor aceita um cafezinho? — perguntou Alzira.

— Aceito sim — respondeu o médium. Salomão, Juca e Oscar se acomodaram em torno da mesa e Alzira foi ate a cozinha colocar a 'agua para ferver. Enquanto aguardavam o cafe', Salomao disse:

— Seu Juca, desde pequena que essa menina so' adivinha coisas ruins. Ja' perdi ate' a conta de quantas noites o meu descanso foi interrompido pelos gritos dela dizendo que viu alguma desgraça acontecendo. Alzira interveio la' da cozinha, explicando melhor o relato do esposo:

— Na verdade, seu Juca, o que o Salomão quis dizer e que a Laura sempre teve revelações através de sonhos e ouviu vozes de espiritos.

Salomão irritou-se com a interferencia da mulher em sua conversa. Dirigiu um olhar repreensivo para Alzira, incomodado por ela ter corrigido a sua fala na presença de outro homem, coisa que para ele era inaceitável, pois entendia — assim como outros homens de sua geração — que a interferência feminina em conversa de homem significava falta de autoridade do chefe da casa.

— O nome que damos a esses tormentos não importa — retrucou Salomão.

— Ela e' medium sensitiva e auditiva — informou Juca, com naturalidade.

Alzira havia estudado bastante o assunto, procurando entender a sensibilidade da filha, mas, para evitar mais irritação no marido, ficou calada.

Salomão ficou intrigado com a explicação de Juca:

— Que coisa mais estranha e essa tal de mediunidade!

— A mediunidade e' um fenômeno natural que todos nós trazemos em nossa essência como uma forma de ligação com a realidade espiritual... — disse o médium. — Resumindo, e um sexto sentido que nos possibilita interagir com o mundo invisivel. Muitas pessoas percebem a realidade astral com mais intensidade que outras. Vou Ihe dar um exemplo prático sobre a mediunidade.

— Por favor — tornou Salomão.

— Todas as pessoas que nascem com o dom da arte, mesmo que não tenham consciência de sua espiritualidade acentuada, em seus momentos de inspiração e supostamente de criação de alguma obra na verdade estão usando o sexto sentido, fazendo a conexão com o mundo espiritual, onde estão todas as coisas ja' criadas por Deus e soltas no espaço em forma de idéias e imagens. Elas ficam disponiveis para quem estiver sintonizado poder captar e materializar. Os inventores, escritores, médiuns e artistas são os que mais canalizam.

Salomão, irredutivel em suas convições, disse:

— Seu Juca, uma coisa eu não entendo...

— Pois não?

— Como Deus, em sua infinita sabedoria, pode ter se descuidado na hora da concepção dos espiritos e dado a uma pessoa, como e' o caso da minha filha, o dom de adivinhar so' coisas ruins?

— Isso que voce classifica como adivinhação, na verdade, trata-se do fenômeno premonição — esclareceu o médium.

— Não e' a mesma coisa, com um nome diferente?

— Não. São fenômenos totalmente distintos. Adivinhagao e' a prática intuitiva de uma pessoa que usa as cartas de baralho, tarô e búzios para predizer fatos no tempo e no espaço. Ja' a premonição, que e' o caso da filha de voces, e algo que se manifesta por meio da sensação, fazendo com que a pessoa pressinta algo que ainda vai acontecer no futuro próximo. Sem contar que ela e' um caso raro que nasceu com várias percepções afloradas. Eu tambem nasci com esses mesmos sentidos bem desenvolvidos.

Desconfiado, Salomão investigou, tentando pegá--lo em contradição:

— Então, pelo que entendi, quando o senhor descobriu que eu estava com os cotovelos machucados, foi por meio desse negócio de premonição?

— Na verdade, a informagao a respeito de seus cotovelos machucados me foi repassada pelo meu guia, que esta' sempre ao meu lado.

Salomão fez cara de impressionado, mas intimamente pensou: "Isso que esse velho esta' falando não pode ser verdade! Ele esta' blefando! Essa história de que ele soube da agressão que sofri por meio de seu mentor espiritual não procede. Se o suposto mentor espiritual dele esta' sempre ao seu lado, então como e' que o bendito do guia soube que eu estava machucado, se ele não arreda o pe' de perto de quem ele orienta? Alguma coisa não esta' batendo na explicação desse velho. A não ser que o fofoqueiro do Além que o acompanha seja onipresente para estar em dois lugares ao mesmo tempo".

Nesse instante, o médium captou que Salomão estava duvidando de sua palavra e, como quem tinha lido o seu pensamento, disse:

— Caro Salomão, eu sei que voce me acha um velho ludibriador que se aproveita das situações dificeis das pessoas para se promover. Entretanto, o que voce pensa sobre mim não condiz com o que realmente sou.

Assustado com a observação do homem, Salomão perguntou:

— 0 seu guia esta' aqui?

— Sim.

Ao ouvir Juca afirmando que o seu mentor espiritual estava ali ao seu lado, Salomão sentiu um forte arrepio, olhou para os lados tentando vê-lo e disse:

— Pelo amor de Deus! Não fale mais nada a respeito da presença de espiritos no meio de nós, porque senão eu vou ficar essa noite inteira acordado.

Mudaram então de assunto. Salomão lembrou-se de ter visto na casa do médium uma estante repleta de livros e, fugindo da sensação de medo, perguntou:

— Seu Juca, como aquela quantidade de livros que eu vi em sua casa veio parar nesse lugar isolado do mundo?

— O meu filho mais velho mora na cidade e, sabendo que eu gosto de ocupar as minhas horas vagas com uma boa leitura estudando os assuntos espirituais, sempre me manda alguma novidade literária.

— E o senhor ja' leu todos aqueles livros?

— Ja' Ii e reli todos eles dezenas de vezes. Alguns ate' decorei os capitulos.

— Devem ser muito bons, então.

— Na verdade, são obras muito esclarecedoras, que eu uso como base para desenvolver o meu trabalho de médium e de orientador espiritual.

Salomão, meio acanhado, confessou:

— O senhor pode ate' não acreditar no que vou Ihe falar, mas, mesmo nessa idade, eu nunca Ii um livro ate' o fim.

— Por que tanto desinteresse pela literatura? — perguntou Juca.

— Acredito que seja porque os autores colocam muita fantasia nas histórias. Como sou uma pessoa que gosta de viver com os pés na realidade, não me deixo envolver por narrativas e idéias miraculosas, começo a bocejar e sinto um sono incontrolável que me faz dormir antes da décima página — explicou Salomão.

— Certamente voce deve ter lido obras que abordam temas que confrontam as suas crenças e seu jeito de olhar a vida, fazendo com que, durante a leitura, sinta cansaço mental, fadiga nos olhos e acabe pegando no sono — supôs Juca.

Salomão, ciente de que estava falando com alguém esclarecido, novamente optou por encerrar o assunto para não evidenciar ainda mais a sua ignorância.

Laura ficou em repouso e, refletindo sobre o ocorrido, veio em sua mente a lembrança das palavras profetizadas por seu mentor Alaor: "Antes de nascer, o seu espirito assumiu um compromisso com o plano astral, e essa capacidade que voce tem de perceber as manifestações espirituais e' um instrumento maravilhoso que Ihe foi dado para que voce possa servir a seu semeIhante como trabalhadora do bem".

Ela pôs-se a se questionar: "Que trabalho e' esse que eu devo desenvolver? Sera' que estou fantasiando ou enlouqueci de vez?".

Novamente Ihe veio a mente outra fala do mentor: "A finalidade da vida e nos levar ao desenvolvimento e fortalecimento de nossas competências".

Ao relembrar-se das afirmações que ouviu do mentor, Laura sentiu brotar no peito uma forte sensação de felicidade que a levou as lágrimas.

Juca agradeceu pelo cafe' e levantou-se para ir embora. De pronto, Salomão pediu um instante, foi ate' o quarto e, de volta a sala com a mão no bolso, perguntou:

— Quanto e' que eu devo pelo serviço do senhor?

— A mim voce não deve absolutamente nada. Alzira chamou a filha, agradeceram e despediram--se do médium.

No decorrer do tempo, Salomão continuou evitando manter aproximação com Juca, pois o trabalho do espiritualista Ihe causava muita repulsa e medo. E havia alguma outra "coisa" que Salomão não saberia explicar. Não tinha a ver com Juca, diretamente. Ocorria que, toda vez que Salomão pensava no filho do médium próximo de Laura, sentia o peito oprimido, como se algo ruim, desagradável, fosse acontecer a sua filha.

Dias após a experiência de incorporação, Laura estava na cozinha preparando o cafe' da manhã quando, de repente, teve a sensação de estar sendo observada por alguém. Para sua alegria, ouviu uma voz serena dizer:

— Filha, sou eu, o seu amigo Alaor. Lembra-se de mim?

Emocionada, Laura girou para trás e, pela primeira vez, sem ser por meio de sonho, ela viu a fisionomia de seu mentor espiritual. Como se estivessse conversando com alguém encarnado, ela disse:

— Agora eu acredito que voce existe mesmo! Nesse instante, Salomão entrou na cozinha e se deparou com a filha aparentemente conversando sozinha. Preocupado por vê-la dialogando com as paredes, ele ficou de longe acompanhando a conversa solitária de Laura, que, emocionada, dizia estar superando o medo de assumir a sua mediunidade.

Inconformado com a cena da filha falando sozinha, Salomão retornou a sala na ponta dos pés para que ela não percebesse a presença dele. Dirigiu-se a Oscar e comentou:

— Meu filho, o problema mental de sua irmã realmente e' algo muito sério.

— Por que o senhor chegou a essa conclusão, pai?

— Acabei de ver uma cena la' na cozinha que me tirou a esperança de que a loucura da Laura tenha cura — comentou Salomão, entristecido por não entender o que realmente se passava com a filha.

— E o que foi que o senhor viu?

— Para que voce não diga que estou exagerando, va' ate' a cozinha e veja com os seus próprios olhos o que esta' acontecendo la' — sugeriu Salomão.

— O que o senhor viu, pai?

— Faça o que eu estou Ihe dizendo. Va' ate' a cozinha e veja a que ponto chegou o estado de loucura de sua irmã.

Oscar entrou na cozinha pisando leve para que Laura não ouvisse os seus passos. La', encontrou a irmã aparentemente conversando sozinha. Assim como o pai, Oscar também não tinha a clarividência aberta para perceber a presença do espirito que estava conversando com Laura. Mas, ao chegar perto, sentiu um arrepio que subiu dos pés a cabeça e, ouvindo um pouco da conversa que Laura mantinha com o invisivel, notou que a irmã nao estava falando coisas delirantes como imaginava o incrédulo pai.

Evitando ser visto, Oscar, da mesma maneira que entrou, saiu da cozinha.

— Voce viu, filho, como a cada dia que passa a sua irmã esta ficando mais biruta das idéias? — questionou Salomão sussurrando.

— Depois do que aconteceu naquele dia, não duvido de mais nada. Nem vou mais julgar a Laura como louca — ponderou Oscar.

— Então me responda: com quem ela esta falando?

— Isso eu não sei Ihe dizer, pai. Mas aconteceu uma coisa muito curiosa quando cheguei perto dela. Senti um troço muito estranho, um arrepio que subiu pelo meu corpo todo.

— Era so' essa que faltava, Oscar! Voce acreditar nessas besteiras também e ficar falando com as paredes, dizendo que se comunica com presenças do Além. Isso e' coisa de gente inocente—rebateu Salomão, decepcionado.

Oscar preferiu não retrucar a opinião do pai e, por respeito, ficou calado.

Enquanto isso, na cozinha, o mentor de Laura encerrou a visita dizendo:

— Filha, o grande dia de sua mudança de vida esta' chegando. Tenha coragem de entregar o seu coração. Diga sim. Voce vai vencer. Conte comigo, pois estarei ao seu lado quando voce precisar se inspirar nas decisões que tera' de tomar de agora em diante.

Ao ouvir as palavras de apoio do mentor, Laura sentiu-se amparada. Passada a mensagem, o espirito se despediu e desapareceu. Laura, achando que estava sozinha, se questionou:

— Sera' que falo mesmo com espiritos ou tudo isso e fruto da minha imaginação?

— Não e' fruto da imaginação. Voce conversa com espiritos — interveio o mentor, que ainda estava ao seu lado.

Ela riu e seguiu para a sala com a bandeja na mão, levando o cafe'. Salomão e Oscar serviram-se a vontade e, ja' saciados, foram trabalhar, sem mencionar que haviam presenciado o bate-papo da moça com o Além.

Dividindo as tarefas, Olivia foi tirar a mesa do cafe, Laura foi arrumar a casa e Alzira foi varrer o quintal. Laura abriu a janela do quarto e viu entrar uma linda borbo-leta que percorreu o quarto inteiro e depois saiu pela mesma janela.

Chegou a hora de preparar o almoço, e como as mulheres da casa faziam um rodizio nas atividades domésticas, naquele dia era a vez de Laura ir para a cozinha. Olivia e Alzira foram colocar outras coisas em ordem.

Laura estava separando os grãos de feijão para preparar o almoço quando escutou uma voz masculina chamando na porta. Ela foi atender e teve uma grande surpresa.

— Bom dia, moça! — disse o lindo rapaz, rindo da cara de espanto dela.

— Eu não acredito no que estou vendo. Isso so' pode ser uma visão — falou Laura com a mão na boca, emocionada e com o coração batendo acelerado.

— Lembra-se de mim? — perguntou o visitante.

— Claro que sim, seu bobo. A minha reação não diz nada? — questionou ela, demonstrando estar contente com a agradável surpresa que estava recebendo.

— Então quem sou eu?

— Voce e' o Eduardo, filho de seu Juca.

— Pois e, sou eu mesmo! Estou de volta — anunciou o rapaz, sacando uma carta do bolso do paletó e a entregando para Laura.

— Estava na cidade e pediram para Ihe entregar. Laura apanhou a carta e sorriu. Eduardo perguntou
com ar sisudo:

— Algum pretendente?

— Mesmo que fosse, não Ihe devo satisfações — cortou ela, enquanto beijava mais uma carta recebida de sua amada amiga Dolores. Indagou: — Quando voce chegou?

— Cheguei ontem.

— Pensei que voce ja' estivesse casado com alguma mulher ciumenta da cidade e que ela não o deixava sair para vir visitar seu povo.

— Eu jamais me casaria com uma moça da cidade.

— Por que não? — perguntou Laura, fingindo que não tinha entendido a indireta.

— Por que eu sou um bicho do mato. Nasci para viver em meio a natureza. E, como diz o meu pai, matuto tem que se casar e com matuto mesmo.

— Talvez a sua alma gêmea seja uma moça culta — aventou Laura.

— A mulher da minha vida ficou aqui e eu decidi deixar a cidade antes de concluir os meus estudos porque finalmente entendi que a minha existencia sem esse amor não faz sentido — contrapôs ele, declarando que ela era a causa de seu retorno.

Fingindo-se distante, Laura indagou:

— Sera' que essa pessoa esta' solteira depois de tanto tempo abandonada?

— Se ela tiver se casado eu vou roubá-la do marido — declarou Eduardo.

— E voce não tern medo de morrer não, rapaz?

— Morrendo eu estava era de saudade dessa pessoa.

— Estava com saudade e ficou dez anos sem aparecer? — debochou ela.

Objetivando encurtar a conversa, Eduardo foi direto ao assunto:

— Laura, eu sei que voce deve estar muito atarefada, que seu pai e uma pessoa muito sistemática e que eu não deveria ter vindo aqui procurá-la na ausencia dele. Mas não vou tomar muito seu tempo, não. Na verdade, escolhi vir aqui na ausência de seu Salomão de caso pensado mesmo... — declarou ele, que prosseguiu com sua intenção: — Laura, preciso muito conversar com voce sobre o nosso sonho que ficou para trás.

Arredia e valorizando-se, ela fechou a cara e rebateu:

— Eu não me recordo de ter abandonado nenhum sonho vivido com voce.

— E o nosso namoro que foi interrompido? — indagou Eduardo, surpreso.

— Aquilo que houve entre nós não foi um namoro — cortou Laura.

— Eu admito que fiz a maior burrada da minha vida quando fui embora daqui sem conversar com voce. Voce não merecia isso — tentou se redimir Eduardo.

— Eu tenho consciência de que foram dez anos sem procurá-la e de que qualquer coisa que eu diga para justificar a minha infeliz postura não fara' sentido pra' voce. E que naquela 'epoca eu fiquei com tanta raiva da ameaça de seu pai que prometi a mim mesmo que nunca mais colocaria os meus pés aqui.

— Por que não cumpriu sua promessa? — perguntou ela, tentando provocá-lo.

— Não a cumpri porque qualquer promessa perde a validade quando descobrimos que amamos alguém. Longe do seu amor, eu entendi que não vale a pena manter uma palavra dita em um momento de raiva e revolta. Voltei para reparar o meu erro e quero Ihe dizer que, embora eu tenha ficado tanto tempo ausente, voce nunca saiu do meu pensamento, nem um dia sequer.

A irresistivel declaração de amor feita por Eduardo quase em súplica era tudo que Laura sonhava ouvir daquele que um dia havia Ihe abandonado. Porém, como o seu orgulho estava ferido pelo desprezo que sentiu durante os dez anos em que ficou deixada para trás, a moça, mesmo louca de vontade de se atirar nos braços de seu grande amor da infância, conteve o desejo ardente de seu fragilizado coração. Preferiu usar o truque feminino, mostrando-se indiferente e distante de qualquer possibilidade de reconciliação. Essa postura firme de Laura deixou claro para Eduardo o quanto ela estava ressentida com a falta de comprometimento dele. Cauteloso, ele foi estratégico deixando-a desabafar.

Expressando muito rancor, Laura disse:

— O que voce fez quando foi embora, sem nem menos falar comigo, mostrou a importância que eu tinha em sua vida e o quanto voce realmente me amava.

Nesse instante, Eduardo a interrompeu:

— Por favor, Laurinha, não diga isso. Eu era muito novo. Perdoe-me por minha atitude imatura.

Sentindo-se vingada, Laura prosseguiu:

— Pessoas covardes como voce, que abandonam quem amam por medo de enfrentar os problemas, não merecem o perdão de quem fazem sofrer.

— Eu reconheço que fui mesmo um covarde. So' pensei em mim e fugi sem lutar por nós — admitiu ele.

— Agora e' tarde demais para se arrepender — falou Laura, com desprezo.

— Voce não pode fazer isso comigo.

— Eu posso sim. E por que não? Sou livre para escolher o que eu quiser para a minha vida. Tanto posso que nunca mais quero olhar na sua cara.

— Eu so' voltei porque a minha vida sem voce não faz sentido — insistiu ele.

— E' muito dificil acreditar na sua palavra — retorquiu Laura, friamente.

Inconformado com a aparente rejeição da moça, Eduardo questionou:

— Sera' que voce não percebe a loucura de amor que fiz por voce? Eu abandonei os meus estudos para ficar ao seu lado.

— Essa e' mais uma atitude imatura de sua parte. Onde ja' se viu abandonar os estudos por causa de alguem? Com mais esse passo precipitado, voce mostra que ainda continua irresponsável. Uma pessoa que larga os seus projetos de vida não inspira confiança. Quem faz uma escolha dessa natureza se torna infeliz, no fim das contas se arrepende e acaba culpando a outra pessoa pela sua falta de realização — rebateu ela.

Eduardo estava determinado a reconquistá-la e, mais uma vez usando todo o seu charme, fitando-a, foi direto ao coração da irredutivel moça:

— Sou uma pessoa de costumes simples e a vida na cidade e' outra realidade. Nasci para viver em meio a natureza e não vou mais lutar contra isso. Tenho certeza de que fiz a escolha certa em voltar para perto de voce. Quem age pelo coração sempre acha o caminho da felicidade. Creia em mim, Laurinha, eu te amo mais do que tudo nesta vida, querida.

— Se voce realmente me amasse, pelo menos por carta teria dado provas do seu amor, se comunicando comigo — contrapôs ela, esquivando-se com ar de poderosa ao vê-lo se rebaixando aos seus pés.

Tentando prolongar a conversa, Eduardo fingiu que estava com sede:

— Voce poderia me dar um copo de 'agua? Percebendo o seu truque, ela debochou de sua cara:

— Voce comeu carne de sol muito salgada no cafe' da manhã? Cuidado, meu querido, sal faz mal ao coração, sabia?

Eduardo se fez de desentendido com a ironia da amada:

— Poxa vida! E' impressionante como a sua clarividencia aflorou! Voce continua adivinhando as coisas! Realmente a minha mãe fez uma mistura bastante salgada para servir no cafe' da manhã de hoje.

Laura, demonstrando-se apressada, disse:

— Espere so' um pouco que eu vou buscar a 'agua e ja' volto.

EVALDO RIBEIRO