CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 9

Ao chegar a sala, Laura se deparou com a irmã, e Olivia, curiosa, perguntou:

— Quem estava chamando la' na porta e a deixou com essa cara de quem viu passarinho verde?

— Depois te falo — respondeu Laura, aguçando a curiosidade da irmã.

Olivia seguiu para o quarto, de onde viu pela janela quem era a visita e, assim como Laura, ficou de boca aberta.

— Meu Deus! E' o Eduardo! Como ele esta' lindo! — disse ela, admirada.

Laura resolveu dar uma lição no rapaz para que ele soubesse com quem estava lidando e, de propósito, pegou o maior copo que tinha em casa e o levou cheio de 'agua para Eduardo.

Mesmo não aguentando mais beber tanta 'agua, Eduardo tornou tudo so' para convencê-la de que realmente estava sedento. Segurando-se para não rir da cara dele, Laura perguntou com sarcasmo:

— Matou a sede ou quer mais um copo de 'agua? Optando pela verdade, Eduardo rendeu-se:

— Tudo bem, Laura, eu reconheço que nesse jogo voce me venceu. Admito, eu não estava com sede coisa nenhuma.

Satisfeita por ele ter confessado o seu truque, Laura disse:

— Eu sabia, seu bobinho, que voce não estava com sede.

— Sinto que na sua casa tem uma mulher pronta pra casar — comentou ele.

Rindo da indireta, Laura questionou:

— Voce esta' seguindo os passos de seu pai? E' clarividente também?

— Infelizmente não tive a mesma sorte que voce e o meu pai tiveram de nascer com o dom da mediunidade — ponderou Eduardo, que prosseguiu: — Eu falei que em sua casa tem uma mulher pronta pra casar porque, desde que me entendo por gente, ouço a minha mae dizer que, antes de juntar os trapos com uma mulher, o homem deve primeiro fazer uma visita surpresa a casa de sua escolhida para saber se a moça e' organizada no quesito limpeza.

Irredutivel aos galanteios do rapaz, Laura retorquiu a indireta:

— E' mais fácil chover duas vezes no mesmo dia no sertão do que uma mulher honesta encontrar um homem que preste para um compromisso sério.

Surpreso com o desencanto de Laura a respeito dos homens, ele disse:

— Eu não acredito que uma moça jovem como voce ja' esteja tão decepcionada com os homens desse jeito, menina!

Foi com melancolia na voz que Laura se defendeu:

— Estou falando alguma mentira?

— Voce não acha que esta' sendo radical demais, não? — rebateu ele.

— Eu sou uma pessoa muito observadora e, analisando o comportamento masculino, cheguei a conclusão de que a cada dia os homens estão caminhando para mais longe da maturidade espiritual — enfatizou Laura.

Desejando encerrar a conversa por ora, Eduardo disse:

— Acho que ja' tomei o seu tempo demais e não quero que o seu Salomão chegue aqui e me flagre plantado na porta paquerando a filha dele.

— E' melhor mesmo que voce suma daqui antes que o meu pai apareça e o ponha pra correr com chumbo quente no lombo.

Embora Eduardo estivesse se sentindo desconfortável após ouvir aquele aviso ameaçador, ainda insistiu em reconquistá-la, propondo:

— Podemos marcar um encontro para conversar, em outro dia e em algum lugar onde possamos ficar mais a vontade?

Fingindo impaciência, Laura respondeu:

— Eduardo, por favor, nem insista mais em me procurar. Vindo aqui me importunar, voce so' vai perder o seu tempo. Siga a sua vida e me deixe em paz para viver a minha também.

Inconformado, Eduardo contrapôs:

— Voce so' esta me rejeitando porque esta com raiva do meu erro. Mas não adianta tentar esconder o que sente por mim, não. Eu vejo claramente nos seus olhos que voce me ama. E' uma coisa eu quero que voce saiba... Eu não vou desistir de reconquistar voce por nada neste mundo.

Laura sentiu o coração arder de prazer ao ouvir aquela declaração de amor. Mas, decidida a manter distância por um tempo, de maneira enfática perguntou:

— Eduardo, qual e' a parte do não que voce não entendeu?

— Voce não pode deixar o ódio mandar no coração desse jeito — insistiu ele.

— Olha quem me julga! E voce não deixou o orgulho mandar no seu coração por dez anos? — rebateu Laura.

— Deixei sim. Mas descobri que guardar mágoa não leva ninguem a felicidade e, por isso, decidi não obedecer mais aos caprichos do meu ego e acatar so' o que pede o meu coração.

— Bom para voce, que agora se tornou um homem consciente de seus atos. Parabéns pela sua nova conduta — disse ela, irônica.

— Sera' que voce não percebe que a gente se ama? — tornou a insistir o rapaz.

Laura contrapôs:

— Não tern o direito de falar assim. Fale apenas por voce. Quem sabe dos meus sentimentos sou eu.

Desconcertado, Eduardo se despediu e foi embora. Laura voltou para dentro de casa com a alma lavada por ter se vingado daquele que a fizera sofrer por dez anos. Sentindo-se no comando da situação, ela retomou seus afazeres rindo muito, relembrando a cara de frustração de Eduardo. Iria ler a carta de Dolores, mas estava tão envolvida com a visita de Eduardo que resolveu deixar a leitura para depois.

Olivia viu quando Laura depositou o envelope sobre a cômoda.

— Mais uma cartinha da amiguinha la' de São Luis?

— indagou com desdém.

Laura não percebeu o tom de inveja.

— Sim. Dolores e eu nunca vamos perder contato.

— Ela era amiga da mãe.

— Pois e'. Com o passar dos anos, percebemos que temos muita afinidade.

— Sem se encontrarem? Estranho...

— Não precisamos nos ver para expressar nosso carinho. A amizade pode ser vivida de várias formas. Dolores e' uma grande amiga. Tem me passado ensinamentos, dicas, orientações... E como se fosse uma segunda mãe. Uma madrinha!

Olivia mordeu o lábio inferior para não gritar de ódio. Conteve-se.

Quando Alzira se deparou com Laura rindo sozinha, inquiriu:

— O que aconteceu que deixou voce tão feliz de um instante para o outro?

— Sabe o Eduardo, filho de seu Juca?

— Aquele seu namoradinho de infância?

— Sim, mãe. O dito-cujo apareceu depois de tanto tempo sumido.

— Ja' deve estar um homem! — ajuntou Alzira.

— E muito lindo, por sinal! — declarou Laura, rindo gostosamente.

— Que piada tão engraçada ele Ihe contou?

— Estou rindo porque o bonitão foi mais um galanteador que eu dispensei fingindo que ele não faz o meu tipo.

— Agindo assim, filha, voce vai acabar e ficando pra titia.

Laura não parava de rir, relembrando a cara de decepcionado de Eduardo. Olivia, ouvindo tudo, enciumada, deixou a mãe e a irmã conversando e saiu.

— O que voce sentiu quando se deparou com ele? — sondou a mãe.

Com meiguice no jeito de falar, Laura respondeu:

— Ah, mãe, eu não vou mentir pra senhora. No momento em que vi aquele sorriso lindo dele, senti uma vontade quase incontrolável de me atirar em seus braços e beijá-lo para matar a saudade desses dez anos que fiquei longe dele.

Alzira, ja' emocionada e envolvida com a alegria da filha, perguntou:

— Voce gosta mesmo do filho de seu Juca, não e'? Laura não segurou a emoção e, chorando, confessou:

— Sim, mãe. Gosto muito do Eduardo. Mas e' muito mesmo. O que existe entre nós so' pode ser coisa de outras vidas. Porque desde que o vi pela primeira vez, mesmo ainda sendo muito nova, senti algo especial desabrochando em meu coração. E um sentimento ardente, que me trouxe naquele exato instante a sensação de estar vivendo um reencontro espiritual.

— Sera' que ele sente a mesma coisa, filha?

— Eu creio que sim, mae. Mas aquela ameaça que o meu pai fez quando descobriu que estavamos apaixonados, quando ainda 'eramos adolescentes, o deixou muito magoado.

— E voce acha que ele voltara' a procurá-la?

— E' claro que sim, mãe — apostou Laura, confiante.

— Então, aguarde. Se ele realmente estiver desejando um compromisso sério com voce, enfrentara qualquer obstáculo para ficar ao seu lado, porque o amor tem o poder de nos fazer ultrapassar barreiras aparentemente intransponiveis — falou Alzira, do alto de sua experiência de vida.

— E' disso a senhora entende muito bem, não e' mesmo, mãe? O amor abre todas as portas, concorda comigo?

— E' verdade, filha. Concordo plenamente. O amor realmente e' a coisa mais sublime entre duas pessoas.

— Que bom que a senhora e o meu pai encararam os desafios que a vida apresentou, lutaram pelo amor de voces e venceram.

— Mas não foi nada fácil, minha filha — disse Alzira, com um olhar distante, recordando-se de seu tempo de namoro, que não era aceito pelos seus pais.

— E o que a senhora tirou de lição da escolha que fez?

— Embora o seu pai seja uma pessoa muito dificil de conviver por causa do jeitão bruto e machista dele, eu tenho muito orgulho da atitude que tomei quando decidi, contra tudo e contra todos, assumir as rédeas da minha vida, me casando com o homem que eu amava ainda no desabrochar da juventude.

Laura, vendo que a mãe estava longe em pensamento, perguntou:

— Fiz a senhora relembrar algum acontecimento marcante?

Alzira foi tomada por um sentimento nostálgico e disse:

— Fez sim, filha. E e' esse tipo de lembranga que faz a gente se sentir viva! Porque nós, mulheres, somos muito românticas e sonhadoras. Nessa questão de relacionamento, passamos a maior parte de nosso tempo fora da realidade, viajando em pensamento, buscando a felicidade no passado ou sonhando com um futuro que nunca alcançamos. As vezes temos dez pares de sapatos em casa, mas so' amamos aquele que ainda não temos em nossos pés.

— A senhora disse uma grande verdade sobre nós, mulheres. E' bem assim mesmo que somos. Eu reconheço e assino embaixo. Estamos sempre insatisfeitas com o que temos. No entanto, a vida vivida so' na realidade e' muito dura com as nossas vontades, não e' mesmo? — disse Laura, se divertindo com a própria observação.

— Concordo plenamente com voce, filha. Nós, mulheres, deveriamos ser mais práticas, como os homens, que vão direto ao que desejam, sem fantasiar.

— Isso e' impossivel de acontecer, mãe. Pois nós temos uma natureza totalmente diferente da do homem. E e' exatamente essa diferença que da' o tempero entre as distintas classes.

— Voce esta' corretissima. Se fôssemos iguais aos homens, as relações seriam monótonas.

As duas prosseguiram conversando, enquanto Laura preparava o almoço. Em dado momento, Alzira disse:

— Voltando ao assunto do seu namoradinho de infância... A Olivia viu quando ele esteve aqui em casa?

— Viu sim, mãe. Por quê?

— Espero que ela não conte para o seu pai que o Eduardo se aproveitou da ausência dele para se aproximar de voce, porque, sistemático como e' o Salomão, se a Olivia Ihe der essa informação de maneira maldosa, como ela sabe muito bem fazer,
isso vai gerar uma confusão dos diabos aqui dentro de casa.

— Bem pensado, mãe. Foi bom a senhora ter me alertado disso. Eu vou ja conversar com a Olivia antes que ela destile o seu veneno plantando maldades na cabeça do papai — disse Laura, indo ao encontro da irmã.

— Faça isso mesmo, filha.

Laura procurou a irmã pela casa toda, mas não a encontrou. Preocupada, ela voltou a cozinha eanunciou:

— Mae, a Olivia não esta em casa. Com certeza aquela linguaruda esta' aprontando alguma coisa. Conhecendo a irmã que tenho, posso Ihe garantir que ela foi ate' o trabalho do papai encher a cabeça dele de maldade.

Alzira, imaginando a bomba que iria estourar, pôs a mão na cabeça e disse:

-Se a Olivia tiver dado com a lingua nos dentes, revelando para o seu pai que o Eduardo esteve aqui de papinho com voce na ausência dele, so' Deus pode nos livrar de mais uma confusão. Aflitas, as duas foram para o quarto rezar.

Eduardo chegou em casa desnorteado por conta da negativa que levara de Laura. Entrou na sala e passou por Nadir quase a atropelando. Nadir, naturalmente preocupada, inquiriu:

— Ue', que cara e essa, meu filho? Que bicho mordeu voce, menino?

— Nada, mamãe. Deixe-me em paz — respondeu ele, seguindo para o quarto da irmã.

Rosana, ao vê-lo entrar desanimado, perguntou:

— O que aconteceu, Dudu? Voce saiu daqui cheio de sonhos e planos e voltou com essa cara triste de quem recebeu um balde de 'agua fria?

— Voce nem imagina o chega-pra-la' que eu levei da Laura.

Rosana, puxando o seu sotaque nordestino, falou:

— Não fique com essa carinha de bezerro desmamado, não. Venha ca' comigo. Venha. Vamos conversar um bocadinho sobre isso.

Sentaram-se na cama e segredaram:

— Como foi o reencontro de voces? — perguntou Rosana, com interesse.

— No inicio, a Laura ate' pareceu contente com o meu retorno. Eu notei um brilho especial nos olhos dela quando me viu. Ela ficou de boca aberta quando abriu a porta e se deparou comigo plantado na sua frente.

Mas, quando revelei que havia voltado para reatar a nossa história de amor, ela disse que não tinha nada para conversar comigo e pediu que eu não insistisse — tornou ele, deprimido.

— E voce acreditou na palavra dela, seu bobinho?

— E' claro que acreditei. E por que não acreditaria? Rosana pegou no queixo do irmão, levantando o rosto triste dele, e disse:

— Meu querido, eu vou Ihe revelar um segredinho feminino..

— O quê?

— Voces, homens, precisam entender que, muitas vezes, quando a mulher diz não, ao mesmo tempo o seu coração esta' gritando sim por aquilo que ela nega.

— Pois eu Ihe digo uma coisa, minha irmã, se o comportamento de Laura foi encenação, ela finge muito bem, viu?

Rosana, certa de que Laura havia usado de artimanha, disse:

— Garanto a voce que ela estava testando as suas intenções. Ainda mais depois de ter sofrido dez anos de desprezo. Esse e' um velho truque que a mulher usa para descobrir ate' onde vai a coragem do homem — ajuntou Rosana, divertindo-se com a inexperiência do irmão.

Eduardo, confuso com os misterios da alma feminina, questionou:

— Então quer dizer que a mulher intimamente deseja conquistar um homem e, quando ela tem a chance de realizar a sua vontade, simplesmente finge que não esta interessada so' para ter o cidadão se arrastando aos seus pés?

— Sim, bobinho — respondeu Rosana, rindo.

— Eu não creio que voce faça isso tambem.

— E ai que voce se engana, meu irmão. Esse e' um comportamento da mulher que, ao contrário do homem, que usa a força para se estabelecer, recorre a sedução para dominar. A mulher tem uma forte intuição e sabe, mesmo sem ninguém ter Ihe ensinado, que quanto mais ela se valoriza mais o homem Ihe da' valor. E' claro que em toda regra ha' exceção. Existe tambem a mulher fácil, que e' aquela com autoestima baixa, que se esquece de seu valor e vira um objeto descartável na mão daqueles que ignoram os seus sentimentos, usam o seu corpo e depois a jogam fora como um pano de chão sujo e pisado.

— Sei...

— Veja como a Laura agiu certo... Objetivando atrair a sua atenção e trazê-lo de volta para os braços dela, mesmo o amando, ela nunca foi procurá-lo. Resultado: dez anos depois voce reaparece dizendo que descobriu o valor dela e decidido a enfrentar tudo e todos para ficar ao seu lado — observou a irmã.

Eduardo estava chocado com aquela revelação:

— E como eu devo agir para virar o jogo?

— Deixe comigo que amanhã eu vou amansar essa cabritinha para voce. Vou conversar com ela e marcar um encontro entre voces.

— Se voce fizer isso por mim, serei eternamente grato.

— Pode ficar sossegado que ela atendera' o meu pedido.

— Jura que voce fara' este favor para o seu mano?

— Fique tranquilo — devolveu Rosana, encerrando a conversa.

EVALDO RIBEIRO