EPÍLOGO

EPÍLOGO

Os primeiros dias sem a companhia do marido foram muito dificeis para Laura. Antes de dormir, para amenizar o vazio deixado pela morte do esposo, ela cheirava a última camisa que Eduardo usava no momento de sua partida.

A imensa saudade e a falta que ela sentia da presença do companheiro so' foi superada quando o espirito de Eduardo pode aparecer para Ihe fazer uma visita, confirmando para a médium mais uma vez a eternidade do espirito.

Augusto apareceu na casa da mãe com o pretexto de levá-la para passar alguns dias na casa de Açucena para aproveitar a companhia da filha e dos netos.

A principio, Laura relutou, porque não gostava da agitação da cidade, mas acabou concordando em passar uma temporada com os familiares.

Um mês depois, Augusto retornou a casa da irmã para buscar a mãe. No percurso de volta, ele foi acometido por um avassalador sentimento de tristeza ao passar sobre a ponte que fora o trampolim da fatalidade que levou o seu irmão.

Ao ver o filho sem a alegria de minutos antes, Laura se deu conta de que Augusto ficara triste ao passar pelo lugar onde ocorreu a trágica morte do irmão caçula.

Procurando afastar a lembrança ruim que estava deixando o filho oprimido, Laura pediu que Augusto ligasse o rádio do carro e colocasse uma música bem alegre para tocar. Ele atendeu a sugestão da mãe. Em poucos instantes, recebendo a vibração positiva de uma alegre canção, Augusto começou a cantarolar, batucar com as mãos no volante, elevou o astral e se desligou das imagens negativas que havia marcado a sua infância.

Enfim, chegaram em frente a residência de Laura e, para a sua surpresa, a modesta casa de sape' em que ela morava havia tantos anos tinha sido derrubada e uma bela casa nova fora construida no lugar, com um lindo jardim na frente.

Boquiaberta e sem entender a mágica que havia acontecido, Laura desceu do carro. Assim que se aproximou da porta da casa, apareceu Cecilia, a sua sobrinha e filha adotiva, que foi ao seu encontro. Antes de Ihe dirigir a palavra, por uma questão de respeito, Cecilia rezou diante da mãe e beijou-lhe a mão pedindo a benção. As duas se abraçaram-se e, depois do afago, com um largo sorriso, Cecilia perguntou:

— Mamãe, a senhora ainda se lembra que dia e' hoje?

Bem-humorada e ao mesmo tempo curiosa, Laura disse:

— Minha filha, não me faça perguntas dificeis, porque eu sou tão velha que o último dinossauro que existiu no mundo morreu sob meus cuidados... — E continuou: — Eu sei sim, Cecilia, que dia e' hoje.

— Vamos ver se a memória da senhora ainda esta' em perfeitas condições para guardar datas importantes — desafiou Cecilia.

Agora com um olhar distante, Laura disse:

— Hoje e' o dia do meu aniversário, minha filha. E eu estou recebendo de Deus a graça de completar cem anos de vida! Aliás, diga-se de passagem, cem anos muito bem vividos.

Nesse momento, Assis, o esposo de Cecilia, com uma câmera de filmar na mão, muito emocionado, registrava todo o acontecimento.

Cecilia acolheu a velhinha de aparência frágil nos braços. Apesar da idade, Laura ainda trazia nos olhos um brilho vivido e uma invejável vontade de viver.

Cecilia estava muito emocionada. Pegou no rosto da mãe do coração e, olhando firme em seus olhos, disse com palavras entrecortadas pela emoção:

— Mamãe, hoje nós estamos aqui por um motivo muito especial. Mas antes de Ihe revelar o que esta' acon¬tecendo, eu quero saber: qual era mesmo o sonho que a senhora tanto desejava realizar?

— Era construir uma casa — respondeu Laura prontamente.

De repente, uma voz masculina disse por trás de Cecilia:

— Então a senhora ja' pode comemorar, porque chegou o dia desse sonho se realizar!

Laura ficou muito emocionada ao reconhecer o homem que falava. Era o fazendeiro Walter Simões, que, também muito emocionado, Ihe entregou as chaves de sua nova casa.

— Fomos muito criticados quando decidimos construir esta casa para a senhora. Diziam-nos que o investimento que fizemos para realizar o seu sonho foi muito alto para quem ja' esta com cem anos.

Antes que Walter concluisse, Laura, bem-humorada, rebateu:

— Aposto com voce, meu filho, que eu ainda assistirei ao velório da maior parte das pessoas que acham que estou velha demais para realizar os meus sonhos.

Todos gargalharam com a resposta de Laura. Cecilia interveio:

— Não importa quanto tempo a senhora vai usufruir essa casa, mãe. O que vale são os momentos felizes que vivera contemplando a realização de seu sonho. O que o seu Walter esta' Ihe oferecendo ainda e' pouco diante do legado que a senhora nos deu em forma de ensinamentos e bons exemplos. Sinto-me muito feliz e orgulhosa por ter recebido de Deus a graça de ter como mãe uma pessoa tão generosa e iluminada, que mostrou na prática a todos que cruzaram o seu caminho que, agindo com amor e compaixão, podemos abrir todas as portas e transformar o mundo em um lugar bem melhor de se viver.

Depois dessas palavras de Cecilia, ecoou atrás das duas uma calorosa salva de palmas. Laura girou--se lentamente para trás e se deparou com centenas de pessoas que Ihe aguardavam as escondidas. Entre os presentes, estavam muitos dos parentes que ela não via fazia muito tempo. Laura chorou ao ver ali netos e bisnetos de Dolores.

Na dimensão astral, Alaor sorria feliz. Dolores aproximou-se e disse:

— Quem diria! E' a única do grupo que ainda esta' encarnada.

— E' — tornou Alaor. — Daqueles tempos, so' esta faltando ela retornar para o nosso lado. Não vai demorar muito.

— O ser humano ainda não vive ate' os duzentos anos, certo?

Os dois riram e Alaor prosseguiu:

— Laura cresceu muito. Aprendeu o verdadeiro propósito da vida, sabe ser feliz. Isso e' o que importa.

— E' verdade. Estou me preparando para voltar e sei que o mais importante e' a conquista da felicidade — Dolores falou e olhou para um jovem, demonstrando muita ternura.

Alaor viu e indagou:

— Aquele ali e' seu bisneto, não?

— Sim. Se notar bem, vera que e' Viana, reencarnado. Se tudo correr nos conformes, ha' uma grande chance de nos conhecermos daqui a alguns anos.

— Que coisa boa!

Os dois sorriram e, enquanto Dolores, de maneira delicada, pousava suas mãos sobre as de Laura, os demais se aproximavam e cumprimentavam a velhinha de rosto simpático e olhos expressivos que tanto lutara para ter um lugar so' seu.

Foi uma emoção coletiva e todos foram as lágrimas, pois sabiam que Laura passara a vida inteira acreditando que alcançaria dias melhores para juntar dinheiro e construir uma casa digna para morar.

Ela estava com os olhos brilhantes e um sorriso encantador como o de uma criança por ver o seu sonho realizado de maneira inesperada. Na presença de tantas pessoas queridas, aquilo tinha um gosto mais especial ainda.

Secando o rosto, Laura perguntou:

— Gente, que mágica foi essa que fizeram? Como voces conseguiram construir essa linda casa em tão pouco tempo?

Todos se divertiram com a curiosidade da querida e amada médium.

Cecilia, que havia sido a mentora da idéia, respondeu:

— Eu aprendi com a senhora que, quando entramos em ação e nos unimos as pessoas que tem boa vontade, as coisas acontecem em um passe de mágica.

Depois de algumas horas, ja' não cabia mais tanta gente na residência. Os carros não paravam de chegar, trazendo os parentes e amigos da familia que não conseguiram chegar no horário combinado para a celebração de entrega da casa.

Os amigos da familia ja' tinham partido, ficando apenas os parentes mais chegados de Laura, que, sentados em volta dela, cobriam-na de amor e carinho.

Cecilia recebeu a sua câmera de filmar das mãos do marido, que estava documentando o evento, e resolveu gravar uma mensagem de Laura na companhia de seus entes queridos para guardar de recordação.

— Então, mãe, o que a senhora tem a nos dizer depois de ter vivido tantos anos e vencido momentos tão dificeis em sua caminhada?

Laura baixou a cabeça e, com os olhos umidos, disse:

— Antes de mais nada, minha filha, eu quero agradecer a todos voces que organizaram esta festa maravilhosa e dizer que este foi o dia mais feliz da minha vida. Pude receber a visita de pessoas muito queridas, embora algumas delas estivessem apenas em espirito, mas, mesmo assim, por meio da minha mediunidade, pude sentir a vibração positiva e amorosa de cada presença que aqui esteve me envolvendo de amor e luz.

Uma lágrima caiu dos olhos de Cecilia, que interveio:

— E o que a senhora pode falar a respeito da tão sonhada felicidade?

— Muitas pessoas ainda não preencheram o coração de realização porque seguem a passos de tartaruga, contra a própria vontade, tropeçando nas pedras que elas mesmas colocam em seu caminho — comentou Laura.

— Revele-nos uma coisa, mãe. Por que as pessoas de seu tempo eram muito mais felizes que as de agora? — tornou Cecilia, secando o rosto.

Antes de responder a pergunta, Laura fez uma pausa, pois nao gostava de saudosismo nem de com-parar o passado com o presente. Depois de uma longa reflexao, ela disse:

— Minha filha, eu ja vivi cem anos e, durante esse tempo todo atendendo ricos e pobres, tenho visto que poucas pessoas estão realmente satisfeitas com a vida que levam. Algumas porque ainda não encontraram a sua alma gêmea. Outras ja' encontraram, mas ainda não compreenderam que em um relacionamento e' preciso desenvolver a paciência para lidar com as fraquezas da pessoa amada, e que devemos focar a nossa atenção nas qualidades e não nos pontos que nos incomodam no comportamento de quem amamos ou com quem convivemos.

Cecilia mudou a câmera de mão e fez mais uma pergunta:

— Mãe, e do que nunca devemos desistir de um dia encontrar nesta vida?

Laura olhou para a parede onde estava a foto do falecido marido e respondeu:

— Filha, o melhor presente que uma pessoa pode receber nesta breve passagem pela Terra e se casar com a pessoa certa.

Cecilia, rindo de sua próxima pergunta, indagou:

— Como podemos saber quem e a pessoa certa se ninguém traz um letreiro na testa como certificado de garantia?

Laura suspirou profundamente e respondeu:

— Aqui vai uma informação muito preciosa: a pessoa certa não e' aquela que faz tudo que queremos, mas aquela que nos ajuda a enxergar a realidade da vida sem drama, que nos inspira a mudar e vencer os nossos pontos fracos. Resumindo, minha filha, nós devemos aceitar a pessoa sem exigir que ela seja o tipo ideal que imaginamos, ou seja, o correto e' amar sem fantasiar. Porque, no jogo das relações, so' recebemos o melhor de alguém quando também oferecemos a mesma qualidade que buscamos nos outros.

Cecilia sentia uma emoção indescritivel diante da expressão da maturidade em forma de sábias rugas no rosto envelhecido de sua amada mãe do coração, que, do alto de sua experiência, revelava o segredo de uma mulher vencedora.

Todos cercaram Laura, despediram-se dela e a cobriram de carinho. Nesse instante, correu um vento suave trazendo para dentro do ambiente um inebriante cheiro de flores, e o agradável aroma deixou a casa toda perfumada.

Laura baixou a cabeça por um instante e agradeceu ao seu mentor, que era o responsável pela manifestação aromática que invadiu o ambiente trazendo a gostosa sensação de bem-estar e equilibrio que ali se fazia presente. Ela tambem percebeu a presença de Dolores no ambiente e, discretamente, Ihe mandou um beijo.

— Ate' breve, minha amiga — disse ela, enquanto os dois espiritos sumiam no ambiente, deixando um rastro de luz e energias salutares.

O céu ficou completamente rosa, a cor preferida de Laura, formando atrás das nuvens um fundo vinho, curiosamente a cor predileta de Eduardo.

E, assim como na Terra, na colônia astral os espiritos ligados a familia de Laura estavam reunidos em uma grande festa, comemorando a sua felicidade, deixando a certeza de que so' o amor abre todas as portas.

Fim