UM PERSONAGEM EM TRANSIÇÃO


O comportamento é a expressão da individualidade, exteriorizada em atos, palavras, gestos, ações e interiorizada em pensamentos, idéias, desejos, constituindo o que se chama de personalidade. Na encarnação, admitem-se comportamentos específicos, próprios aos vários níveis de idade. São decorrentes de experiências cristalizadas na mente imperecível e desencadeadas, em cada encarnação, de acordo com as circunstâncias e as condições do ambiente.

O homem do Século Vinte é um Espírito vivenciado em múltiplas encarnações.
Guarda uma bagagem de experiências que lhe delineiam a estrutura mental, o perfil moral. Seu comportamento representa a variedade de estados emocionais, mostrando o nível alcançado pela individualidade permanente, através de sua personalidade em transição. Considerando que a grande maioria dos Espíritos que vivem no Planeta Terra aqui vêm evolucionando desde há muito, formando uma humanidade mais ou menos permanente, compreende-se, pela História, que atingimos uma etapa do processo de crescimento individual e coletivo, em que os valores deverão definir-se.

Agora, é necessário que o homem assuma sua natureza espiritual e desenvolva, no plano da vida terrena, novas formas de relacionamento e revolucione seu projeto de vida, a partir dessas premissas espirituais dinâmicas. É inegável que o espiritismo propõe uma nova visão de vida e do homem. É a partir dessas idéias básicas que se erguerá o comportamento espírita. O espiritismo, partindo das imprecisões espiritualistas, concebe o homem na dinâmica espiritual, num processo de crescimento contínuo, a partir da simplicidade e da ignorância, desenvolvendo potenciais naturais e que lhe são próprios. Assim, o homem é, essencialmente, um Espírito Imortal, perfectível, em constante desenvolvimento interior e projetando-se continuamente no que se chama destino, que mais não é do que a acumulação de experiências, no tempo e no espaço.

O homem é, pois, uma unidade espiritual, que se exprime no mundo através de um corpo somático, no processo da reencarnação, procurando desenvolver-se interiormente, a fim de assumir o comando do próprio destino. Essa definição, sintética e direta, é, em si mesma, uma projeção diferente, desafiadora para o comportamento humano. É preciso entendê-la, dissecá-la para que produza efeitos concretos no modo como cada um vê o objeto da própria existência.

Em outras palavras, o espiritismo oferece ao homem uma contribuição fundamental para a renovação de seus conceitos existenciais e reestruturação do comportamento social. Por isso, pioneiramente, a comunidade espírita deve mostrar-se coerente com essa nova visão do homem e do objeto de sua vida, testemunhando as dimensões que se abrem para a resolução dos problemas que envolvem o relacionamento das pessoas e dos povos.

As soluções, contudo, não podem ser procuradas com propostas simplistas. É preciso encarar a realidade das estratificações sedimentadas no campo mental dos indivíduos e projetadas nas estruturas sociais. A idéia do Espírito é, ainda, uma abstração, algo que cheira a penumbra, a mistério. Bitolado na falsa conceituação do concreto como a única face do real, o homem vê-se como um organismo. Por isso, não se pode esperar, de imediato, que se aperceba da sua própria essência.

Mais do que isso, o comportamento é uma expressão complexa, uma projeção de idéias, conceitos, experiências, aspirações, enfim, da filosofia que cada indivíduo desenvolve ao longo de sua vida, considerada em sua dimensão permanente. Por outro lado, o homem do nosso século, como vimos, traz uma história, uma ficha de aprendizagem, em que estão inculcadas normas, regras, traumas e pressões a que tem sido submetido no transcorrer dos tempos.

Na questão de sua natureza e do objetivo da vida, a importância dos conceitos, ritos, práticas e ordenações religiosas têm um peso ponderável, decisivo. Na verdade, a trajetória humana é uma constante contradição entre os fundamentos das religiões e sua condição natural. Em virtude dessa circunstância, podemos, sem dificuldade, listar algumas posições assumidas, através da História, pelo pensamento dominante, em relação ao homem no contexto da vida:

1ª. As religiões tenderam, em qualquer tempo, a negar ao homem a possibilidade de autodirigir-se, condenando-o pelo pecado, submetendo-o aos humores dos deuses e à discriminação dos sacerdotes e igrejas.

2ª. A família foi estruturada de forma a sufocar a individualidade, massificando o indivíduo, sob a pressão dos interesses do clã ou dos grupos sociais.

3ª. A ordem social vem impedindo que a maioria cresça independente, exercitando a vontade, de tal sorte que as minorias têm, invariavelmente, se apossado da terra e do resultado dos bens produzidos, tornando o relacionamento social basicamente injusto.

4ª. Para justificar essa ação predatória, foi criado o direito divino, no qual alguns se diziam agraciados pelo nascimento ou outra qualquer forma, com o mandato de Deus, conferindo-se vantagens e autoridade; vieram castas, divisões e discriminações, medindo o homem pelos valores raciais, sociais e títulos e, sobretudo, pelos padrões econômicos.

5ª. A Vida foi catalogada pelas religiões como um mistério divino ou, pela ciência, como um acidente biológico e, o homem, como um réu praticamente sem remissão, pois "não pediu para nascer", mas, apesar disso, está submetido a toda espécie de azares, restrições e carências.

Atingindo o presente momento do crescimento espiritual que nos é peculiar, compreendemos que tudo está a exigir mudanças revolucionárias, básicas, definitivas. Essa ansiedade natural de mudanças está nas cogitações mais urgentes da sociedade e do homem. Todos aspiram por liberdade, paz, segurança, igualdade. Entretanto, como conseguir tudo isso? Não, certamente, através de motins armados, que acabam por se constituir apenas em mudanças de pessoas e ideologias, e que terminam por manter a sufocação em que o homem se encontra, em nome do progresso, da ordem, do perigo externo, da felicidade.

Cremos que o espiritismo pode ajudar na procura dessa saída. Nas épocas de crise, convulsiona-se a mente e tumultuam-se as relações sociais. A transição traz insegurança. O que se pensava certo, as bases em que se apoiava a estrutura da vida familiar e social, se tornam movediças, instáveis. A crença é substituída pela dúvida. Ninguém tem certeza do que é e do que vai acontecer. A saída que o espiritismo pode oferecer é a sua visão do homem e do objetivo da vida. Todos os instrumentos doutrinários tendem para esse esclarecimento, essa compreensão, porque é a única que realmente importa.

Para os que aceitam a Doutrina Espírita como filosofia de vida, o problema está em resolver como comportar-se, para viver seus princípios revolucionários, aqui e agora. É da natureza da Doutrina Espírita, motivar o indivíduo a transformações morais, porque ela desloca o centro de gravidade dos interesses humanos, na medida em que se dimensiona a existência em termos que se expandem no tempo e no espaço.

A questão precisa ser equacionada de maneira a constituir, realmente, uma abertura, dando aos vários comportamentos conotações revolucionárias, seja na consistência do conteúdo que os sustenta, ou na forma como se analisa, vê e sente cada um deles. Quer isso dizer que o caminho escolhido precisa ser percorrido com todo um criterioso senso de equilíbrio, pois à margem, estão posições conflitivas. De um lado, o que poderemos chamar de "convencional", que se mostra incapaz de admitir o crescimento do homem, condenando-o, tornando as reações e atitudes naturais, sujas, impregnadas de pecado e envoltas numa sediça conotação de imoralidade.

De outro, os que se julgam "avançados", cujo comportamento é um misto de rebeldia contra as imposições "convencionais" e uma insensata dependência de atitudes impulsivas, negativas, radicalizando-se no materialismo irracional. Estes, se rompem o cerco obscurantista do passado, projetam no presente a seiva da anarquia mental, da irresponsabilidade. Daí a imperiosidade de pesarem-se, criteriosamente, repetimos, as opções, cotejá-las com os princípios filosóficos esposados, para encontrar o ponto de equilíbrio, evitando condenações inócuas e inoportunas, e adesão precipitada a comportamentos que exprimem, antes de tudo, imaturidade.

Todo crescimento real importa em amadurecimento. Este, entretanto, não implica em inflexibilidade de comportamento ou em estratificação mental. Amadurecer espiritualmente é extrair das experiências vividas resultados positivos. É entender melhor, por ter experimentado. Amadurecer não é condenar ou se omitir. É participar mais ativamente.

Jaci Regis.