LIVRO DE TODOS OS TEMPOS

PREFÁCIO DA EDIÇÁO BRASILEIRA

Foi com a maior satisfação que acedi ao convite da editora lidador para a publicação no Brasil de O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS.

O desejo inexpresso de que a minha obra fôsse conhecida pelo povo brasileiro, a quem me ligam laços apertados e indissolúveis que têm fundas raízes na minha consciência, encontra agora um comêço de realização.

Vivi no Brasil uma parte da minha infância, e dessa estadia conservo uma doce e magoada saudade e, ao mesmo tempo, uma alegre e imperecívél recordação. Foi no Brasil — a acreditar em Adler — que se elaboraram os elementos permanentes do meu caráter, e, com certeza, lá, que se estabeleceram — sob o sol cáustico dos trópicos e o veludo negro das noites estreladas — as condições prevalecentes e futuras do meu temperamento de escritor. Considero o Brasil uma segunda pátria, e nunca consegui pensar nêle — mesmo quando algumas superficiais divergências se manifestam — como num país estrangeiro.

De qualquer forma, para além da vontade dos homens e da suposta oposição de interêsses, Portugal e o Brasil terão sempre um destino comum. O Brasil é para todos os portuguêses conscientes a expressão conseguida e já plenamente realizada de uma aspiração secular. Nêle, como mima forja ciclópica, se fundiram de maneira harmônica, os elementos aparentemente díspares mas essencialmente convergentes da “raça histórica” constituída pelos portuguêses.

“Raça histórica” escreví, o que quer significar no conceito de René Martial, que adoto, não uma comunidade de homens do mesmo sangue e da mesma côr de pele, mas um agregado humano afeiçoado pelos mesmos costumes e penetrado profundamente pela fôrça aglutinadora duma idêntica cultura.

No Brasil ponho eu, também, o futuro da língua portuguêsa, sem me embaraçar — pôsto que considero uma língua um corpo vivo em crescimento que constantemente se enriquece por acessão natural — com a modificação que a mesma língua — em face de condições diversas — teria necessariamente de sofrer. Mais do que os Estados Unidos da América, cuja ligação com a Inglaterra cada vez mais se esbate e se deturpa, e onde o racismo se manifesta, embora extra-oficialmente, na sua expressão mais antipática, o Brasil aparece como uma gigantesca e convincente demonstração da vitória do humaníssimo critério pluri-racial e cristão que sempre presidiu à expansão civilizadora dos portuguêses. Sôbre essa experiência realizada, no tempo e no espaço, em tão larga escala, ninguém pode ter dúvidas e ela constitui uma resposta aos que não acreditam nela — não para o passado e o presente — mas para o futuro.
* * *
Depois da publicação dêste trabalho muitos acontecimentos se deram que, à primeira vista, poderíam pôr em causa as suas conclusões. Por outro lado, no seu labor permanente e no seu desejo insaciável de esclarecimento, os homens descobriram novos elementos de investigação histórica que vieram lançar uma luz diferente sôbre fatos já decorridos. Em História, a idéia de um passado imutável é tão falsa como a previsão dum futuro segundo leis inabaláveis. De certa forma se poderá afirmar que o passado se modifica tanto ou mais que o presente e que, como êle, está sujeito a uma correção permanente.

Desde 1951, data da primeira edição da História da Civilização, de tal forma se avançou no campo da investigação histórica que a convicção dum passado imutável perdeu tôda a sua realidade. De fato, no espaço que medeia entre 1951 e a época atual os investigadores conseguiram, nada mais nada menos, que:

1) traduzir e interpretar os textos cuneiformes da civilização suméria;

2) traduzir e interpretar a escrita hitita;

3) traduzir e interpretar a escrita etrusca, o que veio facilitar a tradução e interpretação das escritas ibéricas e a solução de muitos problemas até agora irresolúveis sôbre a origem e costumes dos povos peninsulares;

4) descobrir os textos mais antigos dos livros da Bíblia (Velho Testamento) conhecidos por “Os documentos do Mar Morto” — o que vem facilitar uma mais completa interpretação das Escrituras;

5) descobrir os textos reguladores de uma comunidade, que se presume que seja a dos essênios, que estabelecem a prova da existência dum pré-cristianismo sem caráter universal;

6) descobrir a existência do Código de Ur-Namu, muito mais humano nas suas regras do que o Código de Hamurábi, embora lhe seja anterior em muitos séculos.

Pelo que se refere ao presente, os acontecimentos suceáem-se num ritmo de tal forma acelerado e desconcertante que podería antever-se à primeira vista uma modificação brusca no sentido tradicional da civilização. O desenvolvimento por assim dizer monstruoso da ciência nuclear com a sua extraordinária influência sôbre a vida dos povos, e possivelmente sôbre a sua configuração social, e as suas admiráveis e ao mesmo tempo terríveis implicações sôbre tudo quanto ao homem se refere — desenvolvimento êste seguido, embora mais vagarosamente, pelo surto regular de todas as outras ciências — o aparecimento da astronáutica, primeiro passo dos homens para a descoberta e apropriação do Universo ilimitado, com os seus 'Surpreendentes empreendimentos e — reconheçamo-lo — com as suas já fantásticas realizações, a emancipação, por vêzes justificada, e outras, prematura e mal orientada, dos povos africanos e orientais, a tentativa para a realização duma comunidade européia tendente a neutralizar a influência aglutinadora dos imperiálismos concorrentes da América e da Rússia, e, ainda, noutro plano, o fenômeno, menos espetacular mas não menos importante para o curso da civilização, da interferência cada vez maior e, em certos países, até, da preponderância cada vez maior da mulher na vida social, são tudo fatos de tal relevância, que ignorá-los ou minimizá-los seria cometer um êrro histórico e psico-social imperdoável.

Entretanto nenhum dêstes acontecimentos — que citamos exemplificadamente, porque muitos outros havería ainda a referir — vem retirar à presente obra a sua essencial atualidade. E devemos confessar que foi só por estarmos convencidos disso que acedemos jubi-losamente à sua publicação no Brasil, sem qualquer correção.

Na verdade, no que se reporta ao passado, não obstante a importância dos elementos acima referidos, se há alguma coisa a acrescentar (e não deixaremos de o fazer numa futura edição) nada há a modificar pelo que respeita à interpretação do sentido da evolução histórica.

Quanto ao presente e ao futuro, poderá o leitor atento encontrar nesta obra, escrita há onze anos, a previsão do que está acontecendo, quer quanto à inelutável emancipação de certos povos, e à criação dum nôvo racismo, quer quanto ao risco que impende sobre á cultura tradicional — aquilo que realmente mais importa a uma História da Civilização. Nela concluímos, é certo, pela manutenção e vitória, através de todos os perigos e vicissitudes, da civilização cristã. E essa esperança — queremos deixá-lo aqui consignado — con-servamo-la ainda.

Domingos Monteiro

PREFÁCIO BA SEGUNDA EDIÇÃO

H stava muito longe de esperar que, em tão curto espaço de tempo, esta obra tivesse que ser novamente editada.

Tal acontecimento veio colhêr-me de surprêsa (se é que pode surpreender-nos aquilo que se deseja) e, ao mesmo tempo, dar-me a consolador a alegria de ver compensado, pelo interesse real do público de língua portuguêsa, o longo e inquieto trabalho de alguns anos de estudo e de reflexão.

Pude assim considerar coroada de êxito uma tentativa por sua natureza arriscada e aleatória, e reconhecer, mais uma vez, a eterna verdade de que a todo esforço persistente e sincero está sempre, mais cedo ou mais tarde, reservada uma digna compensação.

Essa compensação, entretanto, não me foi dada só pelos “homens que sabem tudo", mas principalmente pelos que, na humildade da sua relativa ignorância, mostraram, pela sua avidez de conhecimento, que esfavam preparados (tanto como os outros) para receber o influxo da verdadeira cultura. É a êsses que, em primeiro lugar, me tenho que mostrar agradecido, porque vieram de certa maneira justificar a minha irredutível confiança no futuro da Humanidade.

Domingos Monteiro

APRESENTANDO O

AUTOR

Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, concelho de Mesão Frio, província de Alto

Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1903.

O seu primeiro livro, publicado aos 15 anos, é um livro de versos prefaciado por Teixeira de Pascoais. No prefácio, o grande poeta escreve “que a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira dêste jovem poeta encantador”

Dois anos depois publica Nau Errante, outro livro de versos, e em 1953, quase trinta e dois anos após, dá à estampa outro livro de poemas Evasão, em que se revela, na opinião dos críticos, um dos mais significativos poetas contemporâneos.

Durante o longo período que se segue ao aparecimento do seu segundo livro de versos forma-se em Direito, com uma das mais altas classificações outorgadas pela Faculdade de Direito de Lisboa (18 valores) e exerce a advocacia — profissão que deve ter contribuído largamente para o enriquecimento da sua experiência humana — onde se notabiliza na defesa de delitos políticos, tornando-se ràpidamente um dos primeiros advogados de Direito Político do Fôro português.

Durante êsse espaço de cêrca de vinte anos, além de uma colaboração intermitente em vários jornais, apenas escreve três pequenos volumes de doutrina e crítica social — Bases da Organização Política dos Regimes Democráticos, Paisagem Social Portuguesa e Crise de Idealismo na Arte e na Vida Social — que produziram, contudo, certa repercussão na esfera mental portuguêsa.

Em 1940 Domingos Monteiro abandona a advocacia para se entregar exclusivamente à atividade literária, tendo publicado em 1943, Enfermaria, Prisão e Casa Mortuária, e em 1945 O Mal e o Bem, dois livros de novelas que imediatamente o consagraram, no consenso público como um dos primeiros novelistas portu-guêses contemporâneos e um dos maiores de tôda a Literatura de nosso idioma.

O louvor a êstes livros, que é de caráter geral, é em parte subscrito por críticos da elevada categoria de João Gaspar Simões, Câmara Reys e Jaime Brasil. Ouçamo-los para têrmos uma idéia direta da sua opinião.

Diz João Gaspar Simões a respeito da Enfermaria: “Não receio proclamar qúe a primeira novela do livro de Domingos Monteiro é das novelas mais humanas que ültimamente tenho lido.”

Por seu turno, Câmara Reys afirma na Seara Nova a propósito dela: “Que estilo rigoroso e direto! Que capacidade de aprofundar o sofrimento humano! É o último elo duma cadeia que há cêrca de sete séculos partiu do Amadis.”

Pelo que se refere a O Mal e o Bem Jaime Brasil opina:

“A primeira novela do volume e que lhe dá o título é uma pura contribuição intelectual e mais do que qualquer outra lembra o gênio de Dostoievski” e acrescenta: “Com os seus dois volumes de novelas Domingos Monteiro situou-se entre os maiores novelistas da língua portuguêsa.” E finalmente: “Estas novelas são daquelas que se projetam no plano universal, que se entendem em tôdas as latitudes e que — ou nos enganamos muito — serão lidas nos séculos que hão de vir.”

Depois dêstes livros Domingos Monteiro prossegue na sua carreira ascensional de novelista, tendo publicado mais três livros de novelas e um romance, além de novelas soltas a que se fará referência na Nota Bibliográfica.

Apesar de avêsso a qualquer propaganda, a sua fama de novelista atravessou a fronteira, e a sua obra começou a ser traduzida, constando muitas das suas novelas de Antologias — em catalão, espanhol, italiano, inglês, alemão e esperanto — dos grandes contistas universais. A título exemplificativo citaremos apenas “A Ladra”, do livro Contos do Dia e da Noite, publicada na coletânea Le Piú Belle Novelle di Tutti i Paesi organizada pelo editor Aldo Martello, de Milão.

Mas a riqueza complexa do temperamento de Domingos Monteiro não se compraz apenas na criação novelística e poética. Os assuntos de doutrina, crítica, sociologia e história interessam-no profundamente e nêles revela também excepcionais aptidões.

A publicação de O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS — História da Civilização — livro único em língua portuguêsa de que agora se publica uma edição brasileira, é a prova disso. Com êste livro, a que se segue O Homem Contemporâneo, Domingos Monteiro revela-se um dos mais notáveis pensadores portuguêses — o que é unânimemente reconhecido pela crítica responsável.

Domingo Monteiro prossegue na sua atividade literária, agora partilhada com as sua funções na Fundação Gulbenkian, onde é atualmente o Diretor do Departamento de Bibliotecas Itinerantes.

Os Editores

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1

RAZÃO DA OBRA

1 - CONCEITO DE HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO

Poderá parecer estranho que não seja, justamente, um historiador quem meta mãos à tarefa de escrever uma História da Civilização que tão necessária se estava tornando para preencher a lacuna existente na bibliografia portuguêsa. Há muito
que tal necessidade se manifestava, tanto mais que, se é certo que em outros países tal trabalho já fôra realizado, com mais ou menos sucesso, em Portugal nem sequer tinha sido tentado, com exceção de algumas obras subsidiárias, a que, embora valiosas, faltava o do espírito de conjunto imprescindível em empreendimentos desta natureza.

É verdade que tem sido dada a denominação de História ãa Civilização àquilo que o não é, pois que uma História da Civilização não consiste, como parece pensarem alguns autores, num simples registro cronológico de fatos, seguindo uma linha inflexível, determinada pela sua sucessão temporal. É, pelo contrário, um trabalho interpretativo que, com base nos acontecimentos históricos, gradua a importância relativa dêsses acontecimentos, conforme a sua inserção no humano e no social, e segundo a sua influência, que nem sempre é fàcilmente verificável, na estrutura, organização e transformação das sociedades.

O que interessa ao autor de uma História da Civilização é o caminho real que o homem percorreu, muito mais do que as vicissitudes, as contrariedades, aquilo que podemos considerar anedótico no seu longo percurso milenário. É, precisamente, a forma como o hc-mem reage em face dêsses obstáculos, a circunstância de os vencer, de os ladear, ou de se deixar dominar por êles, que têm maior importância. Mais ainda: são os meios que emprega nessa luta interminável e a sua atitude psico-social — que traduz o progresso ou a regressão da mentalidade coletiva — o que principalmen-te interessa. E para isso, quer dizer, para um estudo dessa natureza, não é necessário ser historiador. Diremos mais: é preciso não o ser para não se deixar dominar pela tirania adstrita a todo o conhecimento especializado. A História, no sentido preciso do têrmo, é hoje uma ciência que obedece a regras prefixas, a leis quase invariáveis, e que utiliza uma técnica definida e concreta que não pode infringir e a que se não pode esquivar sem prejuízo do fim em vista, que é, essencialmente, o da sua exatidão objetiva. Subsidiária dè outras ciências, tais como a Paleontologia, a Arqueologia, a Antropologia, a Etnologia, etc., a História tem que utilizar meios de investigação, que, originàriamente, não eram os seus, e perante suas conclusões se tem que curvar sem discussão. O trabalho do historiador tornou-se, assim, mais um trabalho de metódica ordenação que uma tarefa original dependente de um ponto-de-vista pessoal. E é nisso que consiste, principalmente, o seu proveito. A êsse repositório exato de fatos acontecidos e cientificamente comprovados, vão buscar-se, depois, os elementos necessários para uma visão de conjunto da História. Trata-se, porém, de uma tarefa diferente que, se exige cultura e, no sentido geral, inteligência, não carece do conhecimento especializado que a investigação histórica requer.

Eis por que não é necessário, para se escrever uma História da Civilização, ser historiador, na acepção precisa e concreta do têrmo, e o que deu coragem ao autor dêste modesto trabalho para, laboriosamente, escrever a sua.

Vejamos agora por que o não deve ser.

OS HISTORIADORES E A HISTÓRIA

O historiador sofre, necessariamente, da tendência de se preocupar com o pormenor. O estabelecimento rigoroso de um fato, de uma data, de um nome, é, para êle, a medida da sua capacidade de investigação e constitui a sua maior glória. Entretanto, êste rigorismo e esta meticulosa exatidão têm, relativamente, pouca importância para a visão de conjunto que é a substância viva de uma História da Civilização.

De fato, para a evolução da Humanidade, para as correntes, os grandes influxos que determinam os avanços e recuos, as modificações e transformações das sociedades constituídas, para aquilo que uma História da Civilização tem, principalmente, a considerar, pouco interessa que Napoleão se tivesse chamado Napoleão, e que Josefina, sua primeira mulher, não tivesse tido a morigeração de costumes de uma Lucrécia romana.

E, contudo, qualquer historiador, digno dfêsse nome, se sentiría desonrado se, a respeito de tão íntimos pormenores, tivesse cometido o mais pequeno êrro. No caso de Napoleão, que citamos como exemplo, para além do fragor das batalhas, o que, sobretudo, importa, em um estudo desta natureza, é a determinação causai do seu aparecimento, a razão por que, tendo sido um produto da Revolução Francesa e só por ela, em parte, explicável, contribuiu para a sua momentânea liquidação política, para a subversão interna do seu esplendor, ao mesmo tempo que foi, através- da sua dramática atuação histórica, um dos grandes fatores de disseminação das suas idéias pelo Mundo.

A História propriamente dita tem que se cingir, em primeiro lugar, à delimitação rigorosa dos acontecimentos, enquanto que uma História da Civilização deve preocupar-se com as suas causas e, principalmente, com as suas conseqüências.

O simples historiador limitar-se-á, portanto, a apresentar os fatos na ordem cronológica do seu decorrer temporal, atendendo, de preferência, ao seu volume histórico, quer dizer, ao lugar que ocupam no espaço e no tempo. O autor de uma História da Civilização te sura dos acontecimentos históricos, isto é, de procurar a terceira dimensão que, essencialmente, os define.

Numa História Universal, o nascimento de Platão, a invenção da Imprensa, a adoção do sistema de Co-pérnico, ocupam muito menor lugar que a invasão dos Medos, ou que as já citadas campanhas napoleônicas, e, contudo, êstes acontecimentos tiveram, em relação aos primeiros, uma importância muito menor para o futuro da Humanidade.

Não quer isto dizer que a maior parte dos historiadores se limite à simples exposição cronológica dos fatos históricos. Um certo número dêles — e essa tendência observa-se entre os modernos historiadores — procura dar uma visão interpretativa dos acontecimentos, relacionar os fatos segundo um critério de causa e efeito, o que, se representa, de certa maneira, um progresso, é muitas vêzes invalidado, quer pelo ponto-de--vista que preside a essa relacionação, quer pela necessidade cronológica da sua já mencionada sucessão temporal.

E que se não diga que se procura restringir o âmbito da História ou diminuir o seu mérito com esta observação.

A narração precisa e exata dos fatos históricos, independentemente do seu condicionalismo e da sua causalidade, constitui uma verdadeira necessidade científica, embora compita, essencialmente, aos interpretado-res da História averiguar do valor relativo dos acontecimentos e distinguir, de entre êles, independentemente do seu aspecto cronológico e especificamente histórico, aquêles que assumem uma importância real para a evolução da Humanidade.

2 - O QUE É CIVILIZAÇÃO ?

O que athás fica dito não explicaria, só por si, . quer a razão do aparecimento desta obra, quer os motivos que levaram o seu autor a abalançar-

-se a um empreendimento de tal envergadura.

De há muito já que, em tentativas de limitada repercussão, o autor demonstrara o seu interêsse pelos problemas histórico-sociais, problemas que estão na raiz de tôdas as inquietações e perplexidades do homem contemporâneo. Numa conferência, proferida em 1932 e publicada com o título de Crise de Idealismo na Arte e na Vida Social, já abordara o problema do destino do Homem, embora só sob um dos seus aspectos, tendo, pouco depois, realizado, na Universidade Popular Por-tuguêsa, um pequeno curso de História da Civilização, que, não obstante as suas lacunas e deficiências, provocou um grande interêsse e uma lisonjeira aprovação.

A favorável reação do público português, em geral tão indiferente aos problemas de alta cultura, em face de um assunto de índole, por assim dizer, abstrata, era um sintoma a considerar, por traduzir uma ansiedade que correspondia, de certa maneira, à própria ansiedade do autor dêsse trabalho.

Tratava-se, pois, de uma preocupação comum a um grande número de indivíduos, que precisava de obter solução — embora tal solução não pudesse ser outra senão a solução precária que os homens podem e sabem dar a problemas desta natureza.

Desde êsse momento em diante, o autor assumiu, para consigo mesmo, o compromisso de tentar averiguar as causas de uma inquietação que se tornava cada vez mais aguda e dramática e a que os acontecimentos posteriores, que culminaram na última conflagração mundial, tinham vindo dar ainda maior acuidade.

O homem que se sentia desiludido e até desamparado, depois da I Guerra Mundial, após o cataclismo devastador, nas almas e nos corpos, da II Guerra, começou a sentir-se repartido entre uma esperança desvairada e um desânimo sem limites, isto é, oscilando entre a convicção de estar assistindo ao acabar de um mundo — a que estava ligado por fundas raízes sentimentais, morais e até materiais — e a de estar na alvorada de um mundo nôvo, prenhe de esperanças mas também de desassossêgo e perigos, isto é, oscilando, como um pêndulo, entre o fim-de-tudo e o comêço-de--tudo.

No meio das suas perplexidades, a palavra civilização começou a andar na sua bôca, vazia de sentido ou falseada no seu significado, como uma preocupação constante, uma espécie de dolorosa interrogação, a que, pela imprecisão do seu conteúdo, mais difícil se tornava dar uma resposta satisfatória.

Estar-se-ia, de fato, no fim da Civilização ou no fim de uma Civilização? Estar-se-ia apenas assistindo a um momentâneo colapso, a uma espécie de recuo, para um avanço maior, ou à liquidação total do esforço milenário do homem?

Mas, o que significava, afinal, civilização? Qual o conteúdo específico de um têrmo a que parecia ligar-se tanta importância?

Todos, ou quase todos os homens, ao referirem-se a essa tão decantada civilização, por cuja integridade e futuro receavam, não lhe atribuíam mais do que um vago sentido no qual, heterogêneamente, se misturavam os mais diversos ingredientes, o que aumentava ainda mais a sua imprecisão.

E era esta a primeira e quase insolúvel dificuldade.

O MUNDO CONTEMPORÂNEO

A observação imparcial e desinteressada do mundo contemporâneo não era de molde a auxiliar semelhante empreendimento. Se, por um lado, o extraordinário desenvolvimento da ciência-e o desmesurado'incremento das técnicas poderiam criar, no homem contemporâneo, um sentimento de superioridade, em relação aos seus antepassados, por outro, a ressurreição brutal dos instintos, a suprema inconsciência com que se utilizava das suas descobertas, para a destruição dos seus semelhantes e até para a sua própria destruição, parecia tê-lo feito re-gressar a uma condição moral inferior à dos homens das cavernas.

Decorrentes dessa contradição de natureza geral, outras contradições, de menor alcance mas de conteúdo mais próximo e concreto, vieram tornar mais grave ainda a referida dificuldade.

Como e por que, depois de se ter exaltado a liberdade individual, de se ter erguido como lema a eminente dignidade da pessoa humana, se observava, agora, o fenômeno coletivo, embora revestindo diversas aparências, da absorção dessa liberdade individual por uma entidade abstrata, a que se chamava Estado?

Em que princípio moral se poderia basear a contradição que consiste e'm punir, severamente, o autor de um homicídio e exaltar, como um ato de heroísmo, o assassinato coletivo da população de uma cidade por meio de um bombardeamento de aviação?

Ao maior acesso de um maior número de indivíduos ao bem-estar material, fenômeno coletivo nitidamente observável, parecia ter correspondido, também, uma contradição de nova espécie: a da subversão do espírito que tornara possível êsse benefício, provocada por aquêles mesmos que dêle se beneficiavam. E o que tornava mais curioso êsse fenômeno era, justamente, a circunstância de serem os beneficiários os primeiros a protestar, esquecendo-se de que, sem êsse espírito, o sev protesto não podia ser ouvido nem sequer ser formulado... É o que sucede, freqüentemente, com as críticas acerbas à Revolução Francesa feitas pelos que, sem ela, perpetuariam, indefinidamente, a sua humilde condição de servos da gleba.

Não podendo negar os seus benéficos efeitos, — a igualdade civil perante a lei, a possibilidade de intervenção na formação e organização do poder político, o livre acesso aos bens materiais e espirituais do mundo (reservado durante séculos para um número limitado de privilegiados), o extraordinário incremento das ciências e das técnicas que só ela possibilitara, especialmente por uma mais larga base e um critério mais vasto na formação das elites — começaram a se insur-gir contra essa vasta experiência de cristianismo prático que viera contrariar e modificar a tirania cruel da seleção natural. Para êles, — alguns dos quais confessadamente cristãos, como Alexis Carrel — essa humana intervenção da ciência na proteção dos fracos (a fraqueza tem, aqui, um significado especificamente biológico) vinha contrariar os interêsses da espécie, que se encaminharia, necessàriamente, para o seu desaparecimento e para a sua extinção. Para êles, seria melhor deixar morrer as crianças débeis, não estorvar o caminho trágico das infecções, deixar proceder a natureza — cega e discricionàriamente — sem prejudiciais, embora generosas, intervenções.

Nada vinha confirmar esta perigosa doutrina. Muito pelo contrário, tudo vinha demonstrar que o homem se tinha tornado mais vigoroso, mais apto e mais duradouro.

A duração média da vida humana que, no século XI, era de 25 anos, ascendera a 32, no fim do século XVIII, e subira, rapidamente, por via da ação indireta dessa tão discutida Revolução, a cêrca de 60 anos, no primeiro quartel do século XX.

A extraordinária capacidade de realização prática do homem, sobretudo no campo material, era também de tal forma patente que parecia ter atingido o seu máximo desenvolvimento. Não podendo negar o que era evidente, as criticais começaram a incidir sôbre o aspecto espiritual da questão. Começou então a falar-se de rebaixamento espiritual, de subversão das elites, de diminuição da capacidade conceptiva e de defecção do homem, na sua qualidade de ser especificamente moral.

O incremento do bem-estar material, que possibilitara o aumento extraordinário da população e o livre acesso a tôdas as profissões, parecia ter trazido consigo — e aqui o problema torna-se, extraordinàriamente, mais complicado — uma imposição do gôsto comum, uma espécie de tirania multitudinária e anônima, de inferior qualidade. Por via disso, e mercê de um critério pragmático de especialização, ter-se-iam prejudicado os altos interêsses da cultura (no sentido de integração universal do conhecimento) e diminuído as possibilidades espirituais do homem.

Esta crítica, embora prejudicada pelo seu aspecto temporal, encerrava qualquer coisa de verdadeiro que impressionava os melhores espíritos, e é por essa razão que vemos homens de alta capacidade mental virem perfilhá-la, embora condicionalmente, como o faz Or-tega y Gasset — grande* figura do pensamento peninsular — na Rebelião das Massas.

AS REVOLUÇÕES MODERNAS

É certo que o aumento da população, o livre acesso às profissões, o aumento de bem-estar material e, principalmente, as revoluções mecânica e industrial — provocadas pelo aparecimento da máquina e pelo seu extraordinário desenvolvimento — criaram novos problemas, à primeira vista, insolúveis.

Por outro lado, a rápida divulgação das idéias através do livro e da imprensa, se chamara os homens a um convívio espiritual quase permanente, facilitando a disseminação da cultura, e se trouxera consigo o benefício da formação de correntes de opinião, definidas e atuantes, tornara possível, também, a direção do pensamento, o que parecia redundar em prejuízo da qualidade e até da liberdade dêsse pensamento.

Mercê dessa circunstância, o homem, aparentemente mais livre, tornara-se, em muitos casos, muito menos livre, conservando, apenas, uma ilusão de liberdade, por vêzes mais perigosa que a sensação dramática da sua perda.

Das revoluções mecânica e industrial, a que nos referimos, nascera uma nova classe — o proletariado — e, concomitantemente, fôra-se criando, também, uma outra classe constituída por aquêles que se beneficiavam, direta ou indiretamente, com o seu trabalho. E à medida que êsse mesmo proletariado se organizava para defesa dos seus direitos e prerrogativas, e ia tomando consciência da sua importância funcional, a classe dos dirigentes industriais também se organizava procurando criar uma espécie de privilégio econômico, que vinha provocar uma divergência, aparentemente irredutível, nos interêsses fundamentais da vida coletiva.

Os problemas políticos foram, por conseqüência, sobrepujados pelos problemas sociais e a importância das idéias baixou ao nível pragmático dos interêsses particular istas.

Daí também a orgânica política se ter transformado, oculta ou confessadamente, num processo subordinado de defesa das classes virtualmente em luta e, também, em grande parte, à inquietação gerada pelo receio das conseqüências dramáticas dessa mesma luta.

Além de tudo o mais, a facilidade e a rapidez dos transportes, aproximando os países mais separados e distantes, iam operando uma espécie de homogeneização das formas exteriores da vida coletiva, tendendo para a formação de um tipo único de civilização, e uniformizando, em conseqüência, os seus problemas e as suas soluções.

As sacudidelas dramáticas das duas últimas guerras, entre as quais se tinham esboçado novos tipos de orgânica política e social, todos êles com o fator comum de uma maior intervenção do Estado na vida coletiva e individual, vieram tornar ainda mais agudos êstes problemas.

O homem desiludido das suas antigas convicções, e ainda não confirmado nas suas novas crenças, tornara-se num ser desamparado, a que nem sequer o refúgio da vida espiritual, também abalada, podia trazer qualquer consolação.

Sentia, pois, cada um a necessidade de refazer e completar a sua própria experiência, o que só através da observação e interpretação dos fenômenos coletivos e dos fatos históricos podería conseguir. Tal tarefa, porém, estava fora do alcance da maior parte dos indivíduos, quer pela dificuldade da reunião dos elementos dispersos nas obras inumeráveis da especialidade, quer por circunstâncias particulares que são óbvias e em que não é necessário insistir.

Foi o conjunto destas circunstâncias que determinou, no autor deste trabalho, a necessidade inadiável de o fazer.

Através dêle, tentaria responder às ansiosas e torturantes perguntas que, embora em grande parte infor-muladas, andavam em tôdas as consciências e em todas as bôcas, e talvez conseguisse responder, também, às suas próprias dúvidas.

3 - O ELEMENTO MOHAL E SOCIAL

Como atrás já ficou dito, a primeira grande dificuldade a vencer consistia na fixação de um conceito geral de civilização, dificuldade tanto mais evidente quanto é certo que têm sido adotados, a êste respeito por todos aquêles que trataram dessa matéria, os conceitos mais diversos e até mais contraditórios.

No consenso geral, porém, — a que terá sempre que se atender como à opinião dos tratadistás — o conceito de civilização encerrava um elemento moral e social que, bem vistas as coisas, não seria de desprezar.

É isso, justamente, que explica a sua ansiedade e o seu receio, em face das formas conturbadas e tumultuosas do mundo contemporâneo, por parecer ao homem perplexo que, à medida que a ciência e a técnica se desenvolvem e a orgânica social, no sentido puramente mecânico, se aperfeiçoa, se vai tornando menos frequente a preocupação por aquilo que, sem o saber exatamente definir, êle reputa essencial. Trata-se, evidentemente, do sentimento de consideração pelo in-terêsse individual, e do respeito pelo que é uso' chã-, mar-se a liberdade de consciência, ao mesmo.-tempo que, de um sentimento coletivo, — íamos dizer gregário — de identificação por semelhança, ou seja, de solidariedade humana.

A visão do mundo contemporâneo oferece-nos, realmente, a contradição entre a submissão das massas a interêsses superiormente dirigidos, que nem sempre coincidem com os seus, e uma espécie de tirania do gôsto comum exercida, inconscientemente, por essas mesmas massas. ' - .

Dir-se-ia também que, difundindo-se (e os meios dessa difusão têm-se multiplicado indefinidamente: cinema, rádio, televisão, revistas e livros de vulgarização, etc.), a cultura se inferiorizara, tornando cada vez mais difícil a ação orientadora das elites, ao mesmo tempo que facilitara, aparentemente, o seu recrutamento racional.

Por outro lado, o extraordinário desenvolvimento da ciência e da técnica, exigindo mais intensa especialização, embora tomasse o homem mais apto para o exercício da sua profissão, viera prejudicar essa integração geral do conhecimento, a que já atrás nos referimos, desviando-o de certas preocupações de ordem geral, necessárias ao bom funcionamento da vida coletiva.

Está, pois, o mundo atual cheio de contradições, o que explica a perplexidade do homem moderno em face de problemas que, pelo menos na aparência, se apresentam sem solução.

Seja como fôr, o certo é que, num estudo desta natureza, — e para o estabelecimento, tanto quanto possível definido, do cohceito de civilização — ninguém poderá abstrair da atividade relacionadora e convergente do homem, isto é, da sua atividade subordinada ao humano e social, que é o substrato irredutível da sua consciência de ser moral.

Também a idéia de progresso (não no sentido técnico que, como adiante veremos, exprime coisa diferente, mas no sentido de melhoramento material, moral e espiritual) terá que ser levada em linha de conta, não obstante a opinião adversa de grande parte dos tratadistas.

E serão êstes os princípios gerais que. informarão o nosso trabalho, êstes e essa “terrível objetividade da inteligência”, — a que se referia Gasset numa das suas conferências — que, quando é seguida e respeitada, pode, por vêzes, levar a concluir contra aquilo que se deseja...

INTUITOS HO AUTOR

Jominado por essa idéia preconcebida da objetividade da inteligência, a única que pode assegurar uma relativa, embora sempre contingente, imparcialidade, não abstraiu, no entanto, o autor dos seus pontos-de-vista, isto é, de princípios informadores determinantes para a orientação do seu trabalho.

É certo que êsses pontos-de-vista, que são como que as direções impostas à atividade do pensamento pela própria maneira de ser do autor e pela sua estrutura mental e espiritual, não implicam, necessàriamente, qual quer intenção confessional ou doutrinária que invalidaria, por completo, o valor objetivo do seu trabalho. Tanto quanto era possível fazê-lo, absteve-se o autor de semelhante atitude, procurando não se deixar dominar pelas suas tendências naturais, isto é, pelas suas simpatias e antipatias, e tentando evitar, assim, os erros fundamentais da crítica interpretativa, que confunde, por vêzes, a atividade relacionadora no pensamento — que deve ser desinteressada — com a defesa de certas idéias e de certos interêsses. Não quer isto dizer, no entanto, que o autor se abstenha — partindo dos seus pontos-de-vista de que não pode abstrair — de, na sua atividade comentadora, apresentar os acontecimentos históricos segundo um juízo de valor que tem de ser, necessàriamente, preconcebido. Tôda obra pessoal — e o autor procurou fazer obra, tanto quanto possível, pessoal, o que nem sempre é fácil neste gênero de trabalhos — beneficia e enferma, necessàriamente, dessa particularidade.

Admite, por conseqüência, desde já, que êsses pontos-de-vista sejam criticados, e que muitas pessoas os considerem imediatamente errados, convicção antecipada que não produziu no autor qualquer hesitação ou esmorecimento, por saber, perfeitamente, que é o que sempre acontece, mais cedo ou mais tarde, a todos os pontos-de-vista...

Pelo que diz respeito, porém, à configuração material dos fatos históricos, quer o autor afirmar que se absteve de inventar história e que se limitou a apresentá-los tal como êles são apresentados e admitidos pelos melhores historiadores. O mesmo se dá com certos fatos e conclusões científicas a que teve de se referir, não fazendo, por sua conta, obra de investigação, para a qual não tinha nem os conhecimentos suficientes, nem a aptidão necessária. Esforçou-se, contudo, por evitar erros históricos ou científicos, compulsando as melhores obras da especialidade, de que fornecerá, para elucidação do leitor, no fim de cada capítulo, a nota bibliográfica.

O que lhe pertence, e aquilo de que assume inteira responsabilidade, é a sua opinião sôbre o valor relativo dos acontecimentos históricos, bem como os pontos-de--vista a que já fêz referência e que implicam, necessàriamente, determinadas conclusões.

Por via dêles e delas, provocará, por vêzes, na consciência interessada de quem lê, certas críticas e certos descontentamentos, mas isso não o pôde, nem o quis, o autor evitar, porque nunca pretendeu fazer obra — o que está fora dos limites das possibilidades humanas — que agradasse sempre e a tôda gente.

Êste risco, porém, aceita-o o autor, deliberadamen-te, desde que lhe concedam o mínimo que pretende, que é de que teve o propósito de fazer obra séria, e que, de certa maneira, o conseguiu.

CAPÍTULO 2 - NATUREZA E CONCEITO DE CIVILIZAÇÃO E DA SUA HISTÓRIA

O SIGNIFICADO DE CIVILIZAÇÃO

A evolução do sentido da palavra civilização não pode deixar de ser considerada num estudo desta natureza, e a sua fixação, isto é, a adoção definitiva do seu significado, torna-se, por assim dizer, essencial. Tôdas as palavras têm a sua história mais ou menos regular e acidentada, e tanto na sua fisionomia exterior — a forma gráfica com que se apresentam — como na sua essência — quer dizer, na sua significação — sofrem, através dos séculos, modificações e transformações sucessivas, para as quais concorrem os mais diversos fatores, até serem consagradas, com determinado sentido, pelo uso corrente. As misturas de raças, a influência de outros idiomas, as religiões, os costumes, os próprios aca itecimentos sociais e políticos têm uma influência dacisiva na vida das palavras. Por paradoxal que pareça esta afirmação, o certo é que, para a fixação definitiva do seu significado, tem mais importância a ignorância secular dos povos que as utilizam que a criteriosa e esclarecida opinião dos filólogos e dos eruditos.

A vida das palavras é tão perturbada como o destino dos homens, e as vicissitudes e aventuras por que passam têm um extraordinário interêsse para a história do pensamento humano. Sem elas, de fato, o homem ficaria desprovido da única forma revelada e verificável do seu pensamento, pois, na realidade, os homens pensam com palavras e estas podem, portanto, de certa maneira, identificar-se com o pensamento.

Antes das palavras há apenas uma vaga e informe percepção das coisas (inteligência conceptiva e motriz), antemanhã do pensamento, mas que não é ainda o pensamento em si.

Antes das palavras, o homem exprimia-se por gestos, por sons inarticulados, sem possibilidade real de comunicação com o seu semelhante, incapaz de lhe transmitir, a não ser atuando, as suas vontades e desejos. Muito menos se lhe tornava possível acumular e comunicar os conhecimentos rudimentares que ia adquirindo na sua precária e transitória passagem pela terra. A sua experiência perdia-se, pois, com a sua própria vida e, sem ela, isto é, sem o conjunto convergente das várias experiências humanas, sem a sua transmissão através da tradição oral e escrita, não só era impossível o progresso como até a transformação do rudimentar instinto de sociabilidade por semelhança em fator voluntário e consciente da organização das sociedades — condição essencial da civilização.

Sabido como é — e nisso são concordes todos ou quase todos os grandes biologistas do mundo — que os conhecimentos adquiridos, no decorrer da vida individual do homem, não se transmitem hereditàriamente aos seus descendentes, pelo menos de forma consciente, e que êstes, nesse aspecto, nada ficam a dever aos seus antepassados, a palavra assume uma importância fundamental, por assim dizer única, não só na criação, como na organização e desenvolvimento das sociedades.

Não quer isto dizer que o homem não progrida, biologicamente, independentemente dela, — o que parece ser fato também cientificamente averiguado — mas êsse progresso é infinitamente lento e incide apenas sôbre as faculdades perceptivas e motrizes do homem, isto é, sõbre as suas faculdades de caráter e de inteligência, que derivam, realmente, de disposições hereditárias.

Sem a palavra, porém, e sem o seu benfazejo poder de fixar os conhecimentos adquiridos e de os transmitir de geração para geração, por intelectualmente evoluído que o homem estivesse, isto é, por maiores que fôssem as faculdades de percepção e aquisição, por virtude do seu progresso biológico, o homem teria que refazer sempre, individualmente, á sua experiência e agiria cúmo se fôsse, não o último elo de uma cadeia multimilenária, mas o primeiro homem do mundo.

A PALAVRA E O HOMEM

Quando apareceu a palavra ativando as relações entre os homens e criando a tradição, — primeiro oral e depois escrita — a palavra que une as gerações e contribuiu mais do que tudo para o primeiro esboço da civilização?

O seu aparecimento perde-se na noite dos tempos, e só por meras presunções, cujo valor interpretativo é discutível, se pode fixar esta ou aquela época pré--histórica.

O que parece averiguado é que, como tudo o que se relaciona com o S9mem, a palavra sofreu uma longa evolüção, e que desde os primeiros sons emitidos com significação racional, simples prolongamento da sua atividade motriz, até ao momento em que o homem se dirige a si próprio, refletindo, e inaugura a época do pensamento, deve ter passado uma sucessão imensurável de milhares de anos. * 7

Segundo Boule, — para’ quem zo Homem de Neanderthal, de circunvoluções cepebrais simplificadas e lóbulos frontais pouco desenvolvidos, não passa de um ser de psiquismo rudimentar — só o Homo sapiens teria sido capaz dessa invenção.

Há, no entanto, quem contrarie tal opinião e admita, pelo fato de o Homem de Neanderthal inumar os seus mortos e os rodear de certos cuidados, que êste já era suscetível de pensamento racional, que, como ficou dito, pela sua identificação com as palavras é inadmissível sem elas.

Seja como fôr, em todo o período paleolítico já a palavra aparece, como o demonstram claramente as manifestações de atividade espiritual — artísticas, culturais e técnicas — como um instrumento realizado das relações sociais.

A PALAVRA “CIVILIZAÇÃO”

Voltemos, pois, à palavra civilização, cujo significado autêntico é necessário estabelecer para completa compreensão do objetivo desta obra e das matérias que ela abrange.

A palavra civilização é uma palavra de criação relativamente recente. Ao contrário, porém, do que sucede com muitas palavras, cuja origem é desconhecida ou, pelo menos, dúbia, a palavra civilização tem, desde o início, a sua evolução morfológica perfeitamente estabelecida, embora tenha sofrido variações através dos séculos e ainda hoje seja impreciso o sentido em que se emprega.

Parece não haver dúvidas de que a palavra civilização resulta das palavras latinas civilis e civilitas, que servem para designar não só a qualidade de cidadão romano, como as suas maneiras polidas e o seu procedimento delicado na vida de relação. Significa também a atitude do homem obediente a uma ordem objetiva e legal e respeitador dos costumes e da moral da sua época.

Ainda hoje a expressão homem civilizado, como habitualmente se emprega na conversa corrente, corresponde, de certa maneira, à antiga acepção romana, embora despida do seu conteúdo especificamente jurídico. Homem civilizado seria, pois, o homem de boas maneiras, de trato social amável, que se utiliza dos benefícios criados pela sociedade e os propaga, em oposição ao homem rude, o silvaticus, o homem dos bosques dos romanos, que não só repudia êsses benefícios, mas até os combate pela sua ignorância e intransigência.

À expressão homem civilizado, de uso corrente, está, portanto, ligada uma idéia de cultura, de apreensão e utilização inteligente dos bens do mundo, de compreensão e tolerância que implica, necessàriamente, um juízo de valor. Em face desta concepção, a civilização representaria um estado progressivo de melhoria constante, em oposição à barbárie representativa das formas rudimentares, estáticas ou regressivas das organizações sociais.

A ação de civilizar (tal como é concebida pela compreensão corrente) significaria, pois, a ação de instruir, de fazer progredir, de melhorar material e espiritualmente os povos de civilização inferior, obrigando-os a adotar uma civilização superior. Civilização seria, assim, na sua acepção dinâmica, a ação de civilizar.
Entretanto, êste conceito, à primeira vista racional, implica imediatamente uma contradição.

Como se pode realmente civilizar o que já é civilizado, embora de maneira inferior e diferente? E se a expressão civilizar exprime apenas tornar mais civilizado ou tornar diferentemente civilizado, como se pode se deve concluir da ação real que se observa, não podemos deixar de reconhecer que o conteúdo e substância íntima da palavra civilização nos escapa, se não no todo, pelo menos no que ela tem de fundamental.

Vemos, pois, que o aspecto dinâmico da civilização, que a ação de civilizar exprime, não só não serve para definir a palavra, mas de certa maneira contribui para desvirtuar o seu sentido.

Temos, portanto, que a examinar na sua acepção estática. Neste aspecto, o conceito de civilização confunde-se quase com o de estrutura da sociedade e com o da própria sociedade em geral. De fato, poder-se-á chamar civilização ao conjunto de características que as formas da vida coletiva revestem em determinada época. Mas como, em cada época, as características dos diversos grupos sociais são diferentes e muitas vezes opostas, teremos que pluralizar a palavra para abranger a totalidade dessas manifestações coletivas. E assim haveria que falar de civilizações (o que, apesar do plural, tem um sentido mais restrito) e não de civilização.

Delimitado desta forma, embora mais preciso, êste conceito não é suficiente para definir Civilização. Se o adotássemos, poderiamos reduzir a História da Civilização a uma série de esquemas que revelassem, em relação a cada época, a estrutura coletiva de cada grupo social. E, dessa forma, escapar-nos-ia um dos elementos fundamentais da Civilização, isto é, a energia atuante do homem e o seu esforço para criar e modificar essa mesma estrutura.

É-nos forçoso, pois, estudar, um por um, os elementos fundamentais que constituem a civilização, para estabelecer, definitivamente, o seu conceito.

2 - PERMANÊNCIA E VARIARIEEDARE

Numa sociedade estabelecida há a considerar x ’ (tal como nos organismos biológicos) uma parte residual permanente, que se transmite de geração para geração, e uma parte variável, que corresponde às transformações e aquisições constantes do ser coletivo. Permanência e variabilidade são, assim, dois elementos da civilização a considerar para a fixação definitiva do seu conceito.

De que forma se estabelece essa permanência e que variações podem interessar?

A permanência é estabelecida, nas sociedades, pela tradição, tal como nos sêres biológicos o é pela hereditariedade. Das variações só interessam aquelas que podem fixar-se e vir a constituir êsse fundo permanente que traduz a continuidade da sua estrutura, isto é, aquelas que contêm em si uma idéia de progresso. Êste progresso, porém, não pode ser tomado na acepção generalizada e ideal que corresponde, de certa maneira, embora erradamente, à própria idéia de civilização. A idéia de progresso, conquanto se não confunda com a de civilização, é, no entanto, uma idéia fundamental para se fixar o seu conceito. Sem êle nenhuma civilização seria possível. Entretanto, será necessário esvaziá-lo da acepção subjetiva que lhe empresta um sentido vago e de diminuto valor conceptual.

A idéia de melhoria, que na compreensão corrente lhe está ligada, também não é, completamente, exata. Temos, pois, de o considerar objetivamente, para atingirmos a sua significação precisa. Cada progresso, em si, não é útil nem prejudicial. Progredir significa avançar em determinado sentido. E êsse avanço nunca se sabe aonde conduz. Encerra, pois, uma idéia de movimento, movimento nem sempre uniforme, que se manifesta, muitas vêzes, apenas pela acentuação de determinadas características. Êsse progresso será útil, no sentido restrito (por exemplo, pelo .que diz respeito aos chamados progressos técnicos), quando se traduz numa maior eficácia em relação ao fim em vista. Em face de um juízo de valor, êsse progresso pode, também, ser prejudicial.

O PROGRESSO

Entretanto, como já dissemos, o progresso é um elemento essencial da civilização — uma idéia de movimento e de transformação inserindo-se sôbre uma idéia de fixação e de permanência. E estas duas idéias, aparentemente contraditórias, completam-se e são, no fundo, subsidiárias uma da outra. De fato, todo o progresso se perderia se não fôra a sua faculdade de se imobilizar e fixar. E é êsse progresso fixado que constitui, justamente, o fundo permanente da civilização. O que interessa, no entanto, é a convergência dos diferentes progressos parcelares. Mas o que se observa, de fato, são progressos definidos atuando em determinado sentido e conservando, entre si, uma relativa autonomia. Da interdependência que em certos casos se verifica, nem sempre se pode extrair uma regra comum. Assim, é costume ligar o progresso intelectual aos progressos técnicos, o que, por vêzes, é desmentido pelos fatos. A época histórica em que se verifica um maior progresso intelectual é, sem dúvida nenhuma, como o refere Sartiaux, o da Grécia antiga, nomeadamente do século VI ao III a. C., e, contudo, o progresso técnico é, durante essa época, quase nulo. Ó extraordinário progresso técnico que se observa em certos povos primitivos, de nível mental deficiente, e que se traduz pelo fabrico e hábil utilização de certos objetos, é também prova disso. E a razão desta aparente disparidade torna-se, relativamente, simples. Aos progressos técnicos corresponde uma certa forma de inteligência a inteligência motriz. Quanto aos progressos intelectuais, são o fruto de uma inteligência conceptiva, agindo, diretamente, sôbre si mesma. Tomado neste sentido, a idéia de progresso é correlativa da idéia de civilização. Fixação e variação progressiva são, pois, os dois elementos essenciais da civilização.

O progresso, ou melhor, os progressos que representam, como vimos, um movimento em determinado sentido, com acentuação de determinadas características, não são contínuos. A velocidade da sua progressão, por vêzes diminui, e chega a desaparecer para dar lugar a um movimento regressivo, que se traduz por uma reação em sentido contrário. Dá-se, então, uma paragem ou um recuo como aquêle que observamos através da História e de que poderá servir de exemplo o que se constata, logo a seguir à queda do Império Romano do Ocidente, com o advento da chamada Idade Média. Ao esplendor da Grécia antiga, ao seu extraordinário progresso intelectual, segue-se o período de sedimentação, representado pela civilização romana (mais conservador do que inovador), seguido, imediatamente, pela estagnação e até pelo movimento regressivo que, sob êsse aspecto, a Idade Média representa. Entretanto, é nesta, não obstante o seu aparente ador-mecimento, que se elaboram e geram as formas do mundo moderno e é através dela que se estabelece, mercê da conservação, embora precária, dos seus valores, a sua ligação com o mundo antigo.

Muitos e variados seriam os exemplos que poderiamos dar a êste respeito, mas bastam os que já citamos para comprovar o nosso asserto.

O avanço ou recuo da civilização depende, contudo, da correlação e convergência de todos ou parte dêsses progressos.

Uma sociedade em que o progresso intelectual ultrapasse o progresso da função da coordenação social ou o seu progresso moral, — definido como a faculdade de adaptação da conduta aos fenômenos da consciência — o que em parte se dá na sociedade contemporânea, revela uma civilização periclitante.

No exemplo citado da Grécia, foi, exatamente, essa falta de convergência do progresso técnico com o progresso de coordenação social e com o progresso intelectual que produziu o seu desaparecimento. A falta de progresso técnico tirou o valor prático às conquistas do espírito e impediu a sua comprovação experimental, que só veio a fazer-se muitos séculos depois, ao mesmo tempo que a falta de progresso na função de coordenação social enfraqueceu, social e politicamente, a Grécia, colocando-a à mercê de povos moral e intelectualmente menos evoluídos.

CIVILIZAÇÃO E CIVILIZAÇÕES

De tudo o que acabamos de dizer, parece resultar uma contradição ainda maior sôbre o conceito de civilização. Na realidade, essa palavra aparece, aqui, com duas significações, aparentemente contraditórias: uma puramente objetivà e estática, de “conjunto de características próprias de uma sociedade em relação a determinado grupo e a determinada época”, e outra de “esforço atuante do homem para a organização e, ao mesmo tempo, transformação progressiva dessas características”. Entretanto, esta contradição, que muitos tratadistas consideram fundamental, é, na realidade, ilusória. A palavra civilização exprime, de fato, sempre o esforço atuante do homem para a organização e transformação das sociedades. Êsse esforço, porém, é irregular, mas nem por isso deixa de ser um elemento permanente, embora tenha que se considerar, num trabalho desta natureza, o resultado dêsse esforço em relação a cada grupo social e a cada época. Nasce daí uma pluralização que, exprimindo as formas diferentes que a civilização reveste no tempo e no espaço, não atinge a uniformidade do seu conceito. A civilização de fato exprime-se sempre por êsse esforço atuante, embora revestindo as formas múltiplas das suas tentativas. Da individualização dessas formas resultou o plural civilizações, a que, por comodidade e necessidade de exposição, de vez em quando nos referiremos.

Poderão objetar-nos que algumas dessas civilizações se criaram, desenvolveram e extinguiram independentemente, e que em nada contribuíram para a civilização atual. Tal objeção não tem grande valor substancial porque, para o estudo dos elementos que contribuíram para a civilização contemporânea, — e é êsse o critério que preside à concepção da nossa História da Civilização — essas civilizações serão consideradas apenas como formas e como manifestações realizadas do mesmo esforço atuante, próprio de todos os homens e de tôdas as épocas,

Foi por essa razão que adotamos o título de História da Civilização e não o de História das Civilizações, que o fenômeno da uniformização que se observa na sociedade contemporânea (não obstante a sua aparente diversificação) ainda mais justifica.

PROGRESSO E CIVILIZAÇÃO

Estabelecido que o progresso em si não impli-'I“/ca) necessàriamente, um juízo de valor, e considerado o seu caráter restritivo e parcelar, a sua descontinuidade e a sua ocasional incidência sôbre êste ou aquêle fator de organização das sociedades, vejamos, agora, quais os progressos que podem interessar para o estabelecimento do conceito de civilização.

Fizemos já particular referência aos progressos técnicos dependentes da inteligência motriz, aos progressos intelectuais propriamente ditos, aos progressos científicos, subsidiários dos progressos técnicos e intelectuais, e aos progressos de organização e coordenação social,

O que se exprimem por uma maior integração do indivíduo na organização funcional das sociedades.

Vimos, também, que a interdependência dêsses progressos é bastante relativa e que êles se desenvolvem em séries que gozam de uma relativa autonomia. Essa autonomia, no entanto, não é de tal forma absoluta que um maior ou menor desenvolvimento de um dêsses fatores não tenha, necessàriamente, que influenciar os outros.

Assim, uma quebra no progresso intelectual teria, automàticámente, que refletir-se sôbre todos os outros, pois que a restrição do pensamento especulativo encurtaria, imediatamente, o campo de visão do homem, e essa restrição não poderia deixar de produzir efeitos limitativos sôbre tôdas as atividades humanas.

As próprias manifestações artísticas, que constituem uma outra série progressiva, particularmente independente, não podem deixar de ser influenciadas pelos progressos técnicos e intelectuais, e de ser condicionadas, em grande parte, pela orgânica da sociedade sôbre a qual exercem também uma particular influência.

Vê-se, pois, que, não obstante o seu desenvolvimento específico se fazer em linhas relativamente autônomas, todos êstes fatores têm importância, quer para o estabelecimento do conceito de civilização, quer para a civilização em si. È é mesmo a maior ou menor predominância de um dêsses fatores que serve para caracterizar, em relação a determinado grupo e a determinada época, o estado peculiar da civilização.

Entretanto, e apesar do que atrás fica dito sôbre a natureza do progresso, não podemos deixar de estabelecer um juízo de valor, não sôbre êsses progressos em si, mas sôbre aquilo que deve ser considerado o fim particular da espécie humana, e, por consequência, sôbre o critério que deve presidir a um conceito de civilização.

Objetivamente consideradas, tôdas as sociedades humanas, mesmo as mais rudimentares, quer as que o estudo, ainda deficiente, da pré-história nos oferece, quer as que, atualmente, são representadas por certos povos primitivos da África e da Austrália, são sociedades civilizadas, isto é, correspondem a um certo tipo peculiar de civilização. O que serve, pois, para as definir como tal, isto é, qual é o fato constante e comum, não obstante a sua espantosa dessemelhança, que, de certa maneira, as identifica, em face dêsse conceito geral? Fácil é ver que se trata do seu instinto de sociabilidade que, embora próprio de certos animais, no homem se traduz pela elaboração consciente das formas de cooperação. Ora, é justamente essa cooperação consciencializada que constitui o fundamento de tôdas as civilizações, podendo mesmo afirmar-se que, sem ela, a civilização não poderia existir. Essa cooperação, porém, estabelece-se em relação a um fim em vista. É, portanto, a natureza dêsse fim que tem, especialmente, de se considerar para o estabelecimento definitivo do seu conceito. E uma sociedade será mais ou menos civilizada, consoante se aproxima ou se afasta do seu objetivo natural.

O INSTINTO DE SOCIABILIDADE

O fato de as civilizações resultarem do instinto de sociabilidade, que no homem se torna em fator consciente de proteção do indivíduo e da espécie, mais acentua o caráter voluntário e finalista que lhe pretendemos dar.

É que, seja qual fôr a forma de civilização por nós estudada, vamos encontrar sempre, desde a primitiva organização em tribos e clãs até às complexas organizações atuais, êsse mesmo fator determinante. É certo que essa proteção nem sempre é devidamente assegurada, quer porque o estado rudimentar do seu sistema de coordenação não o permite, quer porque o choque com uma civilização dita superior, isto é, técnica e intelectualmente mais bem apetrechada, vem dissociar e subverter todos os seus elementos. Foi o que se deu com o desaparecimento da civilização pré-colombiana em virtude da conquista espanhola, ou, mais dramaticamente ainda, com o aniquilamento das tribos tasma-nianas, por efeito da ocupação inglêsa.

Claro que essa proteção da espécie foi subindo de grau no decorrer dos tempos, e, em conseqüência, a idéia do homem sôbre a espéicie também se foi alargando, isto é, passando da família ao clã, do clã à tribo, da tribo à nação, e da nação à raça. No estado atual em que se encontra essa idéia, ultrapassa já os quadros raciais e nacionais e tende a conglobar, idealmente, a humanidade inteira.

E que se não diga que o racismo americano, que parece ter recrudescido, e que a explosão brutal do racismo alemão vêm demonstrar o contrário. São estas manifestações, justamente, que denunciam a existência do fenômeno a que fazemos alusão.

Tôdas as vêzes que essa tendência de alargamento do grupo social se manifesta, esboça-se sempre uma reação que acaba por ser dominada, pois que a tendência para o alargamento do grupo humano e social é um elemento constante da civilização. Em tôdas as épocas chamadas de transição, essa reação tem sido observada. As lutas entre tribos que acabaram por se fundir, a resistência dos senhores feudais à vontade de unificação política, o recrudescimento dos nacionalis-mos em face da tendência de universalização, são exempios nítidos dessa reação. Mas é ela, precisamente, que vem demonstrar que a tendência existe como um fator natural da evolução da espécie e como elemento da civilização.

REGRESSÃO E ESTACIONAMENTO

Poderão, também, objetar-nos (e a objeção é, de fato, de considerar) que, através da já longa história da humanidade, se observaram fenômenos de regressão ou de estacionamento, que vêm desmentir o que afirmamos. A existência de várias idades-médias (houve idades-médias na Babilônia, no Egito, e, como é correntemente sabido, a seguir à queda do Império Romano do Ocidente) é apresentada como uma demonstração irrespondível.

Esquecem-se, porém, os que assim argumentam que a Civilização é um fenômeno naturalmente periférico, e que, porque se não transmite através da hereditariedade biológica, está sempre sujeita às vicissitudes dos fatores externos. A não-conjunção das séries progressivas que a determinam e a relevância de qualquer delas podem produzir — e, de fato, produzem — um desequilíbrio que ameaça e, por vêzes, subverte, parcialmente, a sua vida funcional. Foi o que se deu com a Grécia, — exemplo por nós já apresentado — em que a predominância do progresso intelectual, desacompanhado do progresso técnico e do de coordenação social, acabou por produzir, momentaneamente, o colapso da chamada civilização grega.

E chamamos momentâneo a esse colapso porque a civilização grega veio inserir-se, mais tarde, embora transformada, na civilização contemporânea, depois de atravessar o período de fixação da civilização romana e o período de elaboração, por assim dizer digestiva, da Idade Média.

Serve isso para demonstrar, também, que o esforço humano raras vêzes se perde e que a chamada subversão das civilizações é um fenômeno mais aparente que real, sobretudo se o analisarmos, não através de um critério restrito, mas consoante um critério histórico, que abranja, num único golpe de vista, a longa sucessão das gerações.

Vistos sob êste aspecto e medidos por esta escala, êsses períodos de estacionamento ou de recuo apresentam-se como pequenas manchas que não perturbam, de maneira fundamental, o sentido geral da evolução histórica. O que vemos desaparecer e aniquilar-se definitivamente, também por via de uma lei natural, são as civilizações rudimentares, ou melhor, adotando o critério que preside a êste trabalho, as formas rudimentares de civilização.

4 - CONCEITO DE BISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO

Resta-nos, agora, em face do que ficou dito, ^“estabelecer o conceito de civilização e da sua história. Antes, porém, façamos uma exposição sintética dos elementos que intervém na formação dêsse conceito, isto é, dos seus fatores de definição. Comecemos, pois, por considerar a civilização no seu aspecto estático, correspondente à teoria etnomorfológica, aquê-le cuja definição se encontra rigorosamente estabelecida e sôbre o qual tôdas, ou quase tôdas, as opiniões são concordantes.

Sob êsse aspecto, a civilização seria o conjunto de características próprias a cada sociedade, em relação a cada lugar e a cada época. -Em face dêsse conceito, como muito bem o faz notar Félix Sartiaux, civilização, confundir-se-ia com estrutura da sociedade. Escapar--nos-ia, assim, o seu elemento fundamental, quer dizer, o esforço atuante do homem para a transformação dessa mesma estrutura, o seu aspecto dinâmico, que é o seu fator mais considerável.

Entretanto, uma história da civilização não pode desprezar o aspecto estático e tem, naturalmente, que referir-se às diferentes características que as sociedades foram revestindo, mas apenas com o único fito de pôr em evidência as leis fundamentais do seu processo evolutivo.

Foi nessa ordem de idéias que fizemos notar que permanência e variabilidade eram os dois elementos constantes da civilização. Dêles resulta, necessàriamene, a idéia de progresso, idéia essa fundamental, seja qual fôr a acepção em que possa ser tomada.

Como vimos, essa idéia encerra, sempre, quer traduza a passagem do homogêneo para o heterogêneo, como pretende Spenceh, quer signifique a acentuação de determinadas características numa direção definida, uma idéia de movimento e corresponde ao fator constante, já referido, da variabilidade. E são, justamente, essas variações, por êle introduzidas na estrutura das sociedades, depois fixadas pela tradição, que constituem o seu elemento de permanência, isto é, que estabelecem a linha de continuidade do seu processo evolutivo.

Fizemos notar, também, que, porque a civilização é naturalmente um fenômeno periférico, ou melhor, superficial, essa linha pode ser sempre interrompida

— e, até, completamente secionada, como aconteceu em relação a certos grupos sociais — sem que se subverta ou se perca definitivamente o sentido geral da evolução da espécie humana.

Vem a propósito dizer, para evitar confusões, que, se é certo que o progresso não fica biologicamente inscrito, isto é, se não se transmite hereditàriamente e é apenas assegurado pela tradição, nada nos prova que, em virtude dêle, não tenha aumentado, biologicamente, a capacidade aquisitiva do homem, ilação que se pode tirar, em parte, da teoria do inconsciente coletivo de Jung.

Por ela — a ser admitida como verdadeira — se conclui que tôda ou parte da evolução humana fica inscrita no inconsciente individual, o que não pode deixar de determinar a sua maior ou menor disposição para assimilar o progresso, o que significa que, mesmo biologicamente, êsse progresso, embora não dê causa a transformações específicas, é sempre de considerar. Em face dêste conceito, a aptidão assimilativa de duas crianças — uma oriunda de um povo de civilização primitiva, outra de um povo de civilização avançada seria totalmente diferente. Mas isto é matéria, naturalmente controvertida, a que fazfemos referência apenas por um natural desejo de completa elucidação.

Fizemos notar, além disso, que, em face de um critério evolutivo que, não obstante as críticas mais acerbas, tem resistido vitoriosamente — e é aquêle que adotamos — o conceito de civilizações não se opõe ao de civilização, porque aquelas não são mais do que manifestações, gozando, de uma relativa autonomia, dêsse esforço atuante do homem, que é o seu elemento preponderante e fundamental. Por isso, como dissemos, preferimos a designação de História da Civilização à de História das Civilizações, mais restritiva e pouco conforme à tendência geral de uniformização das sociedades humanas.

A ESCOLA SOCIOLÓGICA

Não quer isto dizer que tenhamos pôsto, inteiramente, de parte os ensinamentos de outras escolas, especialmente os da escola sociológica de Durkheim e os dos ciclos culturais de Frobenius que, na sua última manifestação, — a da divisão em ramos (subdivididos em ciclos), um precoce e outro tardio* — trouxeram uma vasta e importante contribuição para o estudo da civilização.

A escola sociológica, pelo estudo dos tipos, das formas e das representações coletivas, e a de Frobenius, dela indiretamente derivada, pelo estudo da dispersão através do espaço e do tempo, das características próprias das diferentes sociedades (em relação às técnicas, às artes, às ciências, etc.), vieram contribuir, enormemente, para o conhecimento específico de determinadas características humanas e sociais, auxiliando, principalmente, o estudo das formas da sua difusão.* Ramo precoce — ciclos: totêmico, páleo e neomatriar-cal, sudanóide, austranozóide e méxico-andinóide. Ramo tardio — ciclos: pastoral, ártico, indóide, sinóide, paleom

A escola cíclica teve, concomitantemente, o mérito e o defeito de estabelecer classificações que, se, por um lado, auxiliam o estudo dos elementos da civilização, por outro, realizam agrupamentos que obedecem a um critério puramente subjetivo e, por isso, discutível.

A NOÇÃO DE PROGRESSO

Voltando à noção de progresso — que, como vimos, é fundamental — lembramos que se cada um dos progressos, em si, não é útil nem prejudicial, como já fizemos notar, e se uma civilização considerada sob o aspecto etnomorfológico não é boa nem é má, por constituir apenas uma forma da organização estrutural das sociedades, não podemos, no entanto, deixar de aplicar um critério teleológico ao seu conceito abstrato.

Se, para considerarmos uma sociedade civilizada ou não civilizada (e já vimos que tôdas as sociedades o são numa certa medida), não nos é necessário aplicar um juízo de valor e basta verificar objetivamente a existência cumulativa de certas funções consideradas como atividades sistematizadas e próprias para certos fins, o mesmo já não se dá quando se trata de a classificar, isto é, de determinar se uma sociedade é mais ou menos civilizada.

Aí o juízo de valor — que já vimos não ser essencial para o conceito de civilização como forma estática e estrutural das sociedades — é não só necessário, mas até imprescindível. Só através dêle, e por via dêle, podemos estabelecer e determinar o sentido positivo ou negativo da sua evolução.

Já vimos também que, conquanto a idéia de progresso seja fundamental, ela só por si, posta de parte a idéia de progresso indefinido, não seria suficiente para determinar êsse sentido. Para o estabelecimento de um juízo de valor é preciso, pois, determinar o fim próprio das sociedades humanas, visto que só em relação a êle podemos considerar se uma sociedade é mais ou menos civilizada.

RAZÃO DAS SOCIEDADES

Por que razão se constituem as sociedades? Qual o motivo por que elas apresentam formas cada vez mais complexas e diversificadas?

As sociedades formam-se, automàticamente, para defesa dos elementos que as constituem, sendo a sua complexidade determinada pela necessidade da sua proteção e expansão. O fim próprio das sociedades é, pois, o da proteção e expansão da espécie humana, considerada no seu aspecto total, e é, portanto, única e simplesmente, em relação a êsse fim que as podemos considerar mais ou menos civilizadas.

Mas esta espécie, aqui, não é um têrmo abstrato que se prestaria a tôdas as interpretações interessadas, mas um têrmo de conteúdo concretamente determinado que significa o conjunto de todos os elementos que dela fazem parte.

Assim, dentro dêste conceito, — o único admissível, até sob o aspecto puramente objetivo — uma sociedade será mais ou menos civilizada conforme assegure, melhor ou pior, a proteção, na acepção quer material, quer espiritual, dos indivíduos que a constituem^

Visto o problema sob êste aspecto, uma estrutura social que assegure a todos os indivíduos, considerados como seus elementos, uma maior proteção, corresponderá a um tipo de civilização mais avançada do que outra que, em nome de um conceito abstrato de espécie ou de uma desconvergência dos seus progressos autônomos, não consiga estabelecer tão eficiente defesa, ou a restrinja, apenas, a um grupo particular de indivíduos, isto é, a uma classe.

Poderão objetar-nos que fizemos intervir neste conceito, além de um juízo de valor propriamente dito, um autêntico juízo moral — o que confessamos ter feito propositadamente — dado que o homem é um ser especificamente moral, isto é, o único ser que exerce uma atividade relacionadora, classifica e julga os seus próprios atos e os alheios e está sob a alçada dos fenômenos da consciência.

É, pois, o progresso, na função de organização e coordenação social, o que primeiro tem que ser considerado num estudo desta natureza.

Todos os outros progressos, cuja relativa autonomia pusemos em relêvo, concorrem, subsidiàriamente, para êle que, se representa, de certa maneira, uma resultante, é, ao mesmo tempo, determinante dêsses progressos.

Dentro do nosso ponto-de-vista, a civilização representa, portanto, a forma orgânica e estrutural das sociedades, sempre moãificável pelo esforço atuante do homem, em relação ao fim próprio da espécie humana que é o da sua proteção e expansão.

Que êsse esforço tenha, por vêzes, um sentido negativo, não importa, pois terá que ser considerado, apenas, como uma fase, regressiva ou estacionária, dentro do sentido geral da evolução.

Segundo esta ordem de idéias, a História da Civilização será, pois, a história do esforço atuante do homem para organizar e coordenar as formas múltiplas e divergentes da sua vida coletiva, em relação ao fim próprio da espécie humana, que é o da sua proteção e expansão, e, concomitantemente, o estudo das características particulares que essas formas revestem em relação a determinado grupo e a determinada época.

BIBLIOGRAFIA %

Spencee (Herbert), Progress, its Law and Cause, 1857. Durant (W.), The Story of Civilization, N. I., 1937. Durkheim et Mauss, “Note sur la notion de civilization”,

Année Sociologigue, t. XII, 1913.

Montandon (G.), Traité d’Ethnologie Culturelle, Payot, 1934.

Sartiaux (Félix), La Civilization, Armand Colin, 1938. Boule (Marcellin), Les Fossiles.

Wells (H. G.), The Outline of History, l.° Vol., 1919. Fallaise (E. N.), The Origins of Civilization, Londres, 1928. Jung (C. G.), L’Homme à la Découverte de son Ame, Editions du Mont-Blanc, Genebra.

PRIMEIRA PARTE - DA FORMAÇÃO DA TERRA AO APARECIMENTO DO HOMEM

CAPÍTULO 1 - O MUNDO DESPOVOADO

1 - BREVE HISTÓRIA RA TERRA* ANTES DO APARECIMENTO DA VIDA

Não SE P0DE inciar a história do homem sem um ligeiro esfôrço da História da Terra, de tal forma esta condiciona, quer o aparecimento, quer o próprio destino daquele. A relação material descoberta pelos panteístas não é apenas uma invenção da poesia, mas uma realidade cósmica que se não deve desprezar. Foi no seio misterioso da Terra que se conceberam e geraram os primeiros germes da vida, e é nêles que se tem de ir procurar a confusa origem do Homem. De qualquer forma, direta ou indiretamente, ainda é ela que o alimenta e condiciona e determina a sua existência.

Antes, porém, de a vida ter aparecido, e milhões de anos antes de o homem se ter tornado — ou ter tido a ilusão de que se tornou, o que vem a ser o mesmo — a consciência do Universo, já a Terra percorria incansavelmente o espaço e girava, vertiginosa, sôbre si mesma. Era, primeiro, uma massa informe de matérias ígneas, que, segundo as modernas teorias dos sábios, se destacou do Sol, projetada no espaço, como outros planêtas em épocas diversas, pela fúria de uma daquelas tempestades cósmicas que, como é óbvio, são impossíveis de descrever.

Entretanto, nunca o Sol abandonou, completamente, êsse produtos das suas entranhas, visto que os obriga a percorrer uma órbita à sua volta, traçando uma curva que, no caso da Terra, vai variando da circunferência quase perfeita até à alongada elipse que é hoje o seu caminho.

Esta modificação insensível da órbita terrestre exerce uma extraordinária influência sôbre as condições climáticas do nosso planêta, mas tal assunto será versado no capítulo correspondente ao aparecimento da Vida.

Além dêsse movimento de translação, a Terra tem, como é sabido, um movimento de rotação em volta do seu eixo, que se vem tornando também, insensivelmente, mais vagaroso.

É de supor, até que, de comêço, êste movimento tenha sido de tal forma rápido, que os dias e as noites se sucediam dentro do espaço de poucos minutos, como é de acreditar que, num longínquo futuro, êsses dias e essas noites se alonguem desmedidamente, tornando compridas çorqo anos aç nossas horas atuais. Quando isto se der, a admitir que o homem tenha sobrevivido, quer às tempestades da sua consciência, quer às dificuldades exteriores de tôda ordem que se acumularão no seu caminho, tôdas as condições de vida se terão modificado, bem como a própria condição do homem, ao que faremos, também, oportuna referência.

Historiemos agora, embora sucintamente, as razões que levaram os sábios a concluir por esta longa existência da Terra.

Esta conclusão é, contudo, relativamente recente e foi só depois de um longo estudo e depois de um espantoso esforço interpretativo e experimental que a ela se chegou e que se conseguiu fixar a idade da Terra com uma certa precisão, isto é, com uma flutuação nas opiniões que não excede alguns milhões de anos...

Durante séculos e séculos, porém, o homem estêve convencido da sua criação recente, com exceção da filosofia indiana, que, embora muito vagamente, parece ter tido a intuição da. sua longa duração. Para os homens em geral, a Terra era uma coisa feita alguns milhares de anos atrás, idéia que provinha, em parte, de uma interpretação demasiado direta das Escrituras, hoje universalmente abandonada, mesmo por aquêles que têm de conciliar as suas convicções científicas com as suas convicções religiosas. Na História Universal ublicada por um grupo de editores de Londres — segundo refere H. G. Wells, no cap. I de The Outline o/ History — afirmava-se que o Mundo tinha sido criado no ano 4004 a. C. e no comêço do Outono.

INTERPRETAÇÃO DO VELHO TESTAMENTO

Esta precisão — fundada, como dissemos, numa interpretação literal do Velho Testamento, e com tudo o que possa ter de lisonjeiro para o espírito do homem — foi sendo ultrapassada e desmentida à medida que se iam desenvolvendo os conhecimentos humanos, sobretudo no que diz respeito ao campo geológico e paleontológico.

Entretanto, não foi sem acesa discussão e sem apaixonada controvérsia que esta nova teoria, baseada, em parte, na sedimentação das rochas e na atuação das forças que sôbre elas tinham exercido a sua ação modeladora e corrosiva, bem como na formação do hélio por desintegração do rádio, — o que pressupunha muito mais longos períodos de tempo — conseguiu estabelecer-se definitivamente.

É que, aparentemente, tal teoria, negando a hipótese de um mundo feito de uma só vez e de uma peça só, que se apresentava como uma casa mobiliada e já ocupada pelos seus habitantes definitivos, afigurava-se, aos espíritos dominados por uma ortodoxia religiosa, demasiado rigorosa, como uma satânica blasfêmia que vinha negar a intervenção divina na criação do Universo.

Também as teorias de Darwin, de Lamarck e de outros (a que faremos, na altura própria, oportuna referência), estabelecendo a doutrina da evolução das espécies e negando, por consequência, a criação de um primeiro homem, já com todos os seus atributos e qualidades humanos e tudo quanto a êle se refere no que diz respeito à sua passagem sôbre a terra, desde o pecado original até à sua expulsão do Paraíso, vindo confirmar, indiretamente, a hipótese de uma mais longa duração da terra, levantaram uma tempestade de protestos, cujo fragor ainda não se extinguiu inteiramente, e que, bem vistas as coisas, mesmo sob o ponto-de-vista religioso e espiritual, não tinha grande razão de ser.

Em nossa modesta opinião, os que por motivos limitadamente confessionais ainda hoje se insurgem\ contra estas teorias, cientificamente comprovadas, abstraem, em absoluto, do caráter simbólico das Escrituras, que, entre outros méritos elevados que possuem, têm o de estar redigidas em linguagem tão sibilina e tão imprecisa, que comporta, convenientemente interpretada, tôdas as inovações do conhecimento humano.

Na realidade, nada impede que, para a densidade misteriosa da consciência de Deus, cada dia da Criação corresponda aos milhões de anos a que essas teorias se referem, dado que o homem, para talhar a eternidade à medida da sua compreensão, teria, inevitàvel-mente, como o fêz, de a retalhar e dividir e de inventar os relógios. Também nada impede que a modelação, em barro, do homem corresponda à evolução das espécies hoje estabelecida, sabido como é que tôda a modelação se faz por tentativas e correções, até chegar à forma definitiva.

Quanto ao pecado inicial e à expulsão do Paraíso, podem corresponder a um princípio moral informador que traduz a certeza de que todo aquêle que tenta infringir as regras naturais e preestabelecidas da sua vida funcional será necessàriamente punido, isto é, sofrerá os inconvenientes dessa infração impostos pela própria natureza das coisas.

É também certo que, embora se tenha estabelecido uma teoria geral — como adiante se vai ver — da criação do Universo, a partir da nebulosa primitiva, a causa inicial e determinante continua e continuará oculta e misteriosa, podendo comportar, portanto, dentro do seu mistério indecifrável, qualquer explicação de natureza metafísica.** O autor entende dever ficar neutro nesta matéria que excede o âmbito, já extremamente vasto, dêste trabalho.

O ÉTER

Conquanto as teorias sôbre a composição do éter sejam ainda meramente presuntivas, o certo e que a sua existência já hoje não parece poder ser posta em dúvida. É êle que enche, portànto, êsse imenso espaço, aparentemente vazio, cuja medida incompleta nos é dada pela luz das mais distantes estréias em relação à sua velocidade de propagação. É, pois, através do éter que essa luz se propaga, como é através dêle que se exercem as múltiplas influências de uns astros sôbre os outros.

Mas que é, afinal, o éter? A teoria mais aceita é a de que se trata de um conjunto de partículas tão infinitamente pequenas que qualquer átomo material seria enorme em relação a elas. Além disso, tais partículas teriam a propriedade de oscilar (cada uma delas) em relação a um ponto fixo de que só muito ligeiramente se poderíam distanciar.

Posta de parte, pelas mais recentes descobertas no campo da Física, a teoria da imutabilidade e eternidade da matéria, conclusão a que se chegou através da constatação de que os átomos de rádio se destroem espontâneamente, isto é, se desintegram, dando origem ao hidrogênio e ao hélio, ao mesmo tempo que libertam uma quantidade de energia capaz de agir à distância sôbre outros átomos, houve quem concluísse que o seu meio de transmissão devia ser êsse mesmo éter, cuja substância (isto ainda no campo das meras suposições) seria aquela a que fizemos referência.

Quanob ao átomo, a sua natureza substancial parece hoje definitivamente estabelecida. * ** Será (e isto de uma forma esquemática e incompleta) constituído por uma pequena massa material carregada de eletricidade positiva em volta da qual giraria, tal como em um sistema planetário, um certo número de corpúsculos infinitamente mais pequenos (os elétrons) carregados de eletricidade negativa. ♦* Pelo que diz respeito à eletricidade em si, exprimir-se-ia. justamente, por essa faculdade de atrair ou repelir, cuja natureza é dependente do sentido do movimento provocado. Esta faculdade de provocar um movimento pressupõe, necessària-mente, um movimento anterior, o que leva a admitir que os átomos não são mais que porções limitadas do éter sujeitas a um movimento turbilhonar de que a eletricidade, a gravidade, a atração molecular e a própria atração universal não passariam de manifestações.

Sabido que um movimento resulta sempre de outro movimento restar-nos-ia, em face desta teoria, determinar a natureza do movimento inicial, onde reside afinal — sem grandes esperanças, por parte do homem, de decifração — o grande mistério da criação do Mundo.

AS NEBULOSAS

Vejamos, agora, como se partiría do éter (isto ainda no campo de meras e sutis suposições) para a constituição do nosso sistema solar, aquêle que especialmente nos interessa, visto que dêle faz parte a Terra, cuja história sumária nos propomos relatar.** Sôbre a constituição do átomo, achamos útil, também, a leitura do livro do Dr. Manuel Valadares.* É de aconselhar a respeito das grandes descobertas da Física moderna o excelente livro do ilustre professor português Dr. Manuel Valadares, Elementos de Física Atômica, publicado posteriormente à redação definitiva da presente obra. Sôbre a continuidade e descontinuidade da matéria e sôbre a teoria corpuscular, deverá ler-se, especialmente, o cap. IV (págs. 207-244).

Por qualquer razão ainda desconhecida, juntar-se--iam em certas regiões do espaço, estendidos como uma rêde, um certo número de elementos suscetíveis de se transformarem em matéria, que interceptariam, na sua passagem, as partículas (segundo Arrhenius, carregadas de eletricidade negativa) projetadas por outros astros já formados, partículas essas que, quando a tensão fôsse suficiente, começariam a lançar, através de tôda a sua extensão, descargas elétricas com um certo poder iluminante.

Seria esta, pois, a causa fundamental das nebulosas, explicando, ao mesmo tempo, a sua baixa temperatura (ao que parece, 200 graus abaixo de zero) e a sua luminosidade.

Bastava, no entanto, que no seio de uma dessas nebulosas se introduzisse uma porção de matéria (por exemplo, um pedaço de outro astro, da natureza dos meteoros) para imediatamente se gerar um centro de atração e uma série de movimentos desencontrados, que transformaria em calor a gelada radiação luminosa a que atrás nos referimos.

Êsse desencontro dos movimentos primitivos, que se iriam, insensivelmente, transformando num único movimento de rotação, provocaria uma divisão na massa geral da nebulosa, gerando outros centros de atração constituídos por massas menores, que, por seu turno, seriam obrigadas a um movimento de rotação em redor da massa principal.

Para Laplace, e no caso do nosso sistema solar, a nebulosa seria constituída por uma única massa esferoidal, incandescente, animada de um único movimento de rotação em volta de um eixo ideal. Essa massa, por ação da fôrça centrífuga, teria assumido uma forma elíptica, de que se separou, pela ação do arrefecimento, a parte equatorial, para formar anéis semelhantes aos anéis de Saturno. Ainda por via dêsse arrefecimento, dentro desses anéis, destacaram-se as substâncias que os compunham, o que seria devido ao seu desigual coeficiente de calor específico e aos diferentes pontos de fusão e de condensação. Em virtude da sua heterogeneidade, o anel teria acabado por se partir, para formar um globo que giraria em volta da massa principal e que percorrería uma órbita correspondente ao anel inicial. Como os anéis eram vários, ter-se-iam formado, assim, os diferentes planêtas que constituem o nosso sistema planetário, em que o Sol representaria, como centro de atração fundamental, o que restava, ainda da primitiva nebulosa incandescente.

O SISTEMA SOLAR

Seja como fôr, o que parece perfeitamente estabelecido é que, quer o nosso planêta, quer os outros planêtas que fazem parte do nosso sistema planetário, se destacaram do Sol, embora em épocas diferentes, o que se comprova pela sua diferente densidade. É curioso, até, o fenômeno, também cientificamente explicável, dessa densidade ser proporcional à época da separação e ser tanto maior quanto mais próxima ela fôr.

Assim, Saturno tem uma densidade inferior à da água, e Júpiter, Netuno e Urano, apenas um pouco superior. Já a Terra, Marte, Vênus e Mercúrio, planêtas de formação muito mais recente, têm uma densidade superior, o que resulta, possivelmente, do crescente estado de arrefecimento do Sol. A separação dos planêtas deve-se ter verificado, pois, quando o Sol se encontrava em estado gasoso, o que é confirmado pela sua forma aproximadamente esférica e pelo achatamento dos pólos. Também a circunstância de a substância dos diversos planêtas ser exatamente a mesma, embora diferentemente repartida (em Júpiter e Saturno predominam os metalóides e os metais alcalinos, e na Terra, Vênus e Mercúrio, os metais pesados), parece confirmar não só a sua origem comum, como até a hipótese de que os átomos não são mais que porções do éter, animados de movimentos turbilhonares.

Esta identidade dos seus elementos consitutivos foi verificada pela análise espectroscópica e, especialmente, pela interpretação das riscas de Fraunhofee, que, depois dos trabalhos de Foucault, Krichoff e Bunsen, servem para determinar a natureza dêsses mesmos elementos.

A lei de Bode, interpretada, depois, por Heinrichs, determinando que as distâncias dos planêtas a Mercúrio (o de mais recente formação) se traduzem por uma progressão geométrica, em que o primeiro têrmo é 3 e a razão é 2, exprime, pois, a condensação progressiva, regular e proporcional ao tempo da nebulosa solar, e estabelece a relação entre as suas distâncias respectivas e a época da sua formação, dado que, no Sol, no momento da separação dos planêtas, as substâncias que o constituíam já estavam agrupadas segundo as suas diferentes densidades.

2 - A IDADE DA TERRA

Historiada assim, sucintamente, a formação da Terra, que é que nos leva a concluir pela sua já longa duração?

Pelo que atrás ficou dito, é natural supor-se que a Terra, no momento da sua separação, estivesse em estado líquido ou mesmo gasoso, estado que só se foi modificando depois de um longo período de arrefecimento gradual.

A extraordinária elevação da temperatura não permitia a condensação da água que se encontrava em estado gasoso na atmosfera ou em suspensão, formando nuvens, fenômeno que sé verifica ainda em Vênus, conhecido como estréia da manhã, planêtá de formação mais recente, e que explica o seu brilho de tal forma excepcional que consegue entrever-se, mesmo depois de o Sol se ter erguido acima do horizonte.

Enquanto que os planêtas mais antigos e destacados do Sol em períodos de menor densidade (os astrônomos chamam viscosidade a êste estado peculiar dos astros), pouco ou nada nos podem elucidar sôbre a evolução da Terra, já o mesmo não se dá com os planêtas de formação mais recente, que devem estar seguindo o mesmo processo evolutivo que aquela já percorreu. E é, em parte, pelo estudo dêsse processo evolutivo e dada a identidade elementar existente entre êsses planêtas e a Terra que se chegou à conclusão do que deve ter sido a sua vida, antes de o arrefecimento gradual ter permitido a consolidação da sua crosta.

Logo que tal se deu, e assim que o arrefecimento permitiu a condensação da água, formaram-se (pôsto que a esfericidade da Terra era, de comêço, quase perfeita) três circunferências concêntricas, constituídas pelos três elementos — terra, água e ar — e, assim, a água deve ter recoberto inteiramente a superfície terrestre.

A FORMAÇÃO DOS CONTINENTES

À medida, porém, que êsse arrefecimento se foi acentuando (e tendo em vista a circunstância de o interior da Terra se encontrar ainda em estado líquido e a lei que determina que a contração dos sólidos, pelo arrefecimento, é mais lenta do que a dos líquidos), entre essa crosta sólida e o líquido que se contraía foi-se formando um espaço vazio que, imediatamente, perturbou a sua regular e geométrica esfericidade. É quase certo que, em virtude disso, se devem ter dado desabamentos internos, o que fêz com que a forma exterior da terra passasse de esférica a tetraédrica, elevando-se nuns pontos e rebaixando-se noutros, formando uma espécie de pirâmide de quatro faces, o que não podia deixar de ocasionar a separação da terra e da água, e a formação de continentes que seriam constituídos pelos cumes dessa pirâmide e pela porção das arestas que lhes ficava próxima.

A forma dêsses continentes não se conserVou, porém, desde a sua constituição primitiva, exatamente, a mesma, tendo sofrido vastas e profundas transformações, o que foi devido não só à continuação do já re-t ferido processo de contração — de que ainda hoje, ao que parece, se observam sintomas, nas regiões vulcânicas de formação mais recente — mas a muitas outras causas que vão desde a erosão até à modificação dos climas. Essa modificação, resultante, também, de diversos fatores, que serão oportunamente enunciados, fêz com que, no decorrer da longuíssima existência *da Terra, quer a configuração exterior dos continentes, quer a sua extensão, quer a sua elevação proporcionjal se tenham várias vêzes modificado.

É certo que, onde hoje existem continentes, houve, outrora, oceanos profundos, o que se demonstra pela descoberta, nas rochas, de fósseis de animais marítimos, como, também, pela razão inversa se pode admitir como comprovado que os oceanos atuais recubram continentes desaparecidos. É até provável que certas transformações fundamentais se tenham dado já após o aparecimento do homem sôbre a Terra e mesmo depois dêste se encontrar em estado adiantado do seu processo evolutivo e de ter adquirido certos atributos intelectuais.

É o que explica, justamente, o aparecimento de civilizações similares, separadas por oceanos, durante longo tempo intransponíveis (exemplo: a civilização As-teca e a civilização Egípcia), e até a existência de lendas como a da Atlântida e a alusão, inscrita nás Escrituras, a cataclismos como o Dilúvio, que pode não ser mais que uma reminiscência da inundação do Vale do Mediterrâneo, ocorrida, possivelmente, na época de transição do período paleolítico para o neolítico e talvez provocada pela elevação das águas do Atlântico que se deve ter verificado, pela fusão repentina dos gelos, no fim do último período glacial

O que nos leva, pois, a concluir pela longa duração da Terra é não só este demorado processo evolutivo, de que fizemos a descrição sumária, especialmente, o estudo sobre a sedimentação das rochas e a sua constituição, a que, seguidamente, também nos vamos referir.

3 - CONTRIBUIÇÃO BA GEOLOGIA

Como atrás ficou dito, é com base no estudo feito sôbre a sedimentação das rochas que se conseguiu determinar, em parte, a idade da Terra. Êste estudo, no entanto, não foi tão simples como, à primeira vista, poderá parecer, dado que a velocidade dessa sedimentação não foi sempre a mesma durante as diferentes épocas geológicas, e ainda porque, devido aos fenômenos orogênicos e às sucessivas transformações por que a Terra foi passando, a sobreposição das camadas sujeitas a compressões e a pressões violentas não se fêz com a regularidade que, primitivamente, se supunha. Sucede até, por vêzes, que a posição dos estratos chega a sofrer uma inversão, fazendo com que terrenos mais antigos apareçam recobrindo terrenos mais recentes. Por conseqüência, a interpretação dêsses estratos nem sempre é fácil, tendo-se criado uma nova ciência, — a tectônica — que tem, essencialmente, por objeto o estudo dos diferentes fatores que intervieram na formação e posição das camadas estrati-ficadas.

A observação prática veio, desta maneira, retificar o conceito teórico de que a ordem de sobreposição das camadas geológicas exprimia a sua idade relativa.

O extraordinário desenvolvimento que essa ciência atingiu veio permitir a correção de muitos outros erros, tais como aquêle que considerava os granitos e os gnaisses rochas primitivas, isto é, correspondentes às primeiras camadas de consolidação do Globo. Por via dela, sabe-se hoje que também estas rochas não passam de camadas sedimentadas e depostas pelas águas, sujeitas, depois, a temperaturas extremamente elevadas, que em parte as fundiram, e a violentas pressões que lhes deram a contextura que hoje nos apresentam.

A transformação e cristalização que se operou, por virtude dêsses fatores, chama-se metamorfismo — fenômeno geológico, frequentemente constatado.

Quanto à primeira camada de consolidação do Globo, nunca foi atingida pelo homem, de forma que sua natureza e sua constituição são apenas objeto de meras suposições.

Foi também a tectônica que, possibilitando o estudo meticuloso da formação das montanhas, isto é, da orogênese, permitiu, pela interpretação da discordância na orientação dos estratos, a classificação das grandes épocas geológicas de que adiante daremos um quadro sinóptico, a que faremos mais demorada referência.

É preciso notar, contudo, que, sem diminuir o valor da enorme contribuição da tectônica e do estudo das camadas estratificadas para a fixação da idade do nosso planêta, foi só depois da descoberta do rádio que essa fixação se pôde fazer com aproximada exatidão.

Calculado que são necessários onze milhões de anos para que um grama de óxido de urânio produza um centímetro cúbico de hélio, pode-se concluir pela quantidade de hélio que certos minerais contêm, quer a primitiva quantidade de urânio, quer o tempo que foi necessário para essa desintegração.

É certo que a velocidade dessa desintegração deve ter variado em relação às‘condições em que se operou (pois que nem tôdas são favoráveis à conservação do hélio), o que pode conduzir a diferenças importantes, que, em todo caso, não contrariam a hipótese da enorme duração da Terra.

Por êste processo, chegou-se à conclusão de que certas rochas do Ontário tinham 626 milhões de anos de existência, tendo sido encontradas na Suécia algumas com 1.400 milhões de anos, e ainda outras, em Ceilão, com 1.600 milhões.

A interpretação da idade da Terra pelas camadas estratificadas — que vem, em parte, corroborar aquela a que se chega pelo cálculo feito sôbre a desintegração do urânio — encontra, no entanto, uma grande dificuldade, e essa é a de que o homem, como já foi dito, não conseguiu chegar à primeira camada de consolidação, a que se dá o nome de litosfera, e muito menos à camada ígnea, — a pirosfera — que se supõe constituir o centro do nosso planêta.

O exame feito na lava dos vulcões permitiu, no entanto, concluir que se trata de um magma de ferro e de magnésio, que não exclui a possibilidade de se encontrar misturado com outros metais mais pesados, como o ouro e a platina (o que também se dá na litosfera), magma êsse que, com a profundidade, se torna cada vez mais homogêneo.

Pelo estudo dos tremores de terra e pela velocidade de transmissão das ondulações registradas pelos sismógrafos, concluiu-se, também, que estamos na presença de um meio, mais rígido que o aço, cuja densidade, calculada por Roche, é superior à do ferro.

Isto não quer dizer (embora alguns assim o tenham interpretado) que êsse meio seja sólido, dado que a enorme pressão a que está sujeito, imobilizando as suas moléculas, produz uma impressão de rigidez que não corresponde ao seu verdadeiro estado.

áS ERAS GEOLÓGICAS

As observações do homem permitiram, no entanto, estabelecer, pelo que diz respeito aos movimentos oro-gênicos que determinaram, por assim dizer, a fisionomia exterior da Terra, quatro grandes eras geológicas: a arcaica ou pré-câmbrica, caracterizada pelas rochas cristalinas, onde não se encontram vestígios de fósseis; a era primária, onde, no primeiro período, o câmbrico, aparecem já êsses vestígios; a era secundária, que é uma época de grandes modificações geológicas e de transformações de mares e continentes, e, finalmente, a era terciária, caracterizada pela existência de animais já bastante semelhantes aos que atualmente existem.

Se bem que a chamada era quaternária não seja mais que um prolongamento da terciária, por não se terem dado quaisquer modificações geológicas importantes além do comêço da erosão das montanhas alpinas, a circunstância do aparecimento do Homem, que coincide com um arrefecimento do clima e uma enorme extensão glaciar, permitiu, de certa maneira, a sua classificação em separado, por uma razão antropocên-trica, que é de considerar.

Para melhor compreensão, publicamos adiante um quadro sinóptico das referidas épocas, segundo as suas modificações essenciais.

A Época Primária é caracterizada pelo aparecimento dos primeiros fósseis, isto é, pelo aparecimento da vida, de que trataremos, mais longa e circunstanciadamente, no capítulo que se lhe refere.

4 - A VIDA NA TERRA

Pelo que ficou dito, pode, por conseqüência, A chegar-se à conclusão de que, só no que diz respeito ao período em que a vida aparece sôbre a face da Terra, — o que se constata pelo aparecimento dos fósseis — isto é, desde a era primária inclusive, a sua existência é, pelo menos, de 20 milhões de anos. Nada nos permite afirmar, no entanto, que a vida não tenha aparecido muito antes, pois que, tendo evolucionado, de formas extremamente simples até às formas complexas que depois apresenta, é natural que essás formas rudimentares não tenham deixado, sequer, os mais ligeiros vestígios. É, portanto, perfeita-mente possível que êsse longo período de 20 milhões de anos se prolongue até 100 milhões de anos, ou mesmo mais, como alguns pretendem.

Entretanto, pelos cálculos feitos sôbre a formação das camadas das diferentes épocas geológicas a que fizemos referência, é êsse segundo número de 100 milhões o que se apresenta mais provável — o que também é confirmado pelos cálculos teóricos de Lorde Kelvxn que, partindo da suposição de que a vida só se podería ter manifestado em data posterior àquela em que a temperatura da superfície da Terra fôsse inferior a 100 graus, e figurando a Terra como uma bola homogênea aquecida ao rubro, que fôsse arrefecendo lentamente (hipótese, aliás, muito diferente da realidade), chega, quer aos 100 milhões, quer aos 20 miIhões, consoante os fatores de correção que faz intervir no seu cálculo.

Que duração tem, porém, a Terra, anteriormente ao aparecimento da Vida, isto é, anteriormente à data em*que a sua superfície apresenta uma temperatura inferior a 100 graus?

Já vimos que, levando em conta a desintegração do urânio e a formação do hélio, se obtêm números que chegam a atingir 1.600 milhões de anos, o que torna possível uma existência de 2 bilhões de anos, que alguns, partindo do princípio de que a observação humana é ainda insuficiente e precária, prolongam até ao trilhão, desde o momento em que a Terra se desentranhou do Sol.

Estabelecida, porém, a verdade incontroversa da sua longa duração, o problema deixa de interessar, exceto para os especialistas em tão complicada matéria.

A INFLUÊNCIA DO SOL

Mais curioso é o problema da relação, por assim dizer filial, entre a Terra e o Sol, que se mantém, não obstante a sua brusca e espetacular separação.

De fato, o Sol continua a condicionar a existência da Terra, quer pelo que determina a sua evolução específica, quer pelo que se refere às formas da vida que sobre ela se manifestam.

No decorrer da sua longa existência, e em virtude dos movimentos orogenéticos provocados pela formação da sua crosta e pela contração subseqüente, a fisionomia da Terra mudou freqüentes vêzes até se ter estabilizado, relativamente, no fim da época terciária. Posteriormente ao período em que o nosso planêta era constituído por três camadas concêntricas, — terra, água e ar — por várias vêzes, como já foi dito, os mares e continentes mudaram de configuração. Poderia até, com uma aproximada exatidão, — trabalho êsse já em parte realizado — traçar-se os mapas relativos a cada época geológica, mas isso seria tarefa que só te-ria cabimento e oportunidade numa obra da especialidade.

Limitemo-nos, pois, a referir a influência direta que o Sol parece ter tido nessas transformações. À influência indireta já fizemos referência, pois todo o trabalho de orogênese, condicionado, como é, pelo arrefecimento da pirosfera, é ainda um produto do calor solar.

Pondo de parte a sua influência decisiva sôbre a vida, que estudaremos oportunamente, é o Sol que determina os movimentos da Terra, que tanta influência têm sôbre o seu destino.

É êle, também, que, pela evaporação e formação subsequente de chuva, ocasiona a erosão, um fenômeno tão importante que, no decorrer de muitos milhares de anos, modificou, por várias vêzes, a superfície da Terra. Pela mesma razão, dá nascimento aos cursos de água que cavam os vales, e, criando os ventos, pelas diferentes temperaturas das várias regiões, provoca o movimento das vagas que vão corroendo lentamente a substância dos continentes.

A influência da erosão — embora passe quase despercebida à observação quotidiana — é tão grande que, por via dela, se transformaram em planícies as mais altas montanhas. Foi o que aconteceu à cordilheira Huroniana, o mais antigo dos sistemas montanhosos terrestres, que se estendia desde a América, passando $ela Groenlândia e pelo Norte da Escandinávia, até à Sibéria. Foi o que, mais tarde, sucedeu, também, à cordilheira Caledoniana e o que virá a acontecer, um dia, ao Himalaia, aos Pireneus e aos Alpes, onde os efeitos da erosão já são visíveis.

Na sua multimilenária existência, mesmo no que diz respeito aos movimentos que a animam, — e que o Sol determina — a Terra passou portanto por grandes modificações. Quanto ao seu movimento de rotação, é natural que a sua velocidade tenha diminuído, de onde resulta uma mais longa duração dos dias e das noites. O seu movimento de translação, que, atualmente, descreve uma elipse, também tem sofrido variações, correspondentes ao grau de excentricidade da órbita que ela percorre. E essas variações podem ir desde a circunferência quase perfeita até uma elipse muito mais alongada.

Por outro lado, o ângulo formado pelo plano do Equador com o plano da eclíptica — que, a coincidirem, ocasionariam dias perfeitamente iguais às noites e suprimiriam as estações — que é hoje de 23° 27’ 21”, também sofre alterações que têm influência sôbre a duração das estações e, conseqüentemente, sôbre os climas.

A deslocação do eixo da Terra — sempre possível e que, no decorrer de tantos milhões de anos, se deve ter verificado algumas vêzes — não deixou de produzir modificações importantes na temperatura das diferentes regiões do Globo.

Deve ter sido essa a causa, juntamente com à elevação das terras e a formação de montanhas elevadas, quer dos períodos glaciares, quer das variações climáticas por que o nosso planêta tem passado.

Quanto ao Sol, também tem sofrido transformações importantes, que se refletem sôbre todo o sistema planetário e, conseqüentemente, sôbre nós. Uma delas é a sua constante contração, provocada pelo arrefecimento e pela formação — posterior à da Terra — de Marte, Vênus e Mercúrio.

O seu diâmetro é hoje metade do que devia ter sido no momento do aparecimento da vida. É lícito, portanto, supor-se que êsse diâmetro tenha alcançado extensãq muito maior, o que teria ocasionado o desaparecimento das estações e das noites polares e, até, a supressão da noite em quase tôda a extensão da Terra.

A diminuição do diâmetro da massa solar, o abai-xamento da sua temperatura e a modificação da natureza da luz emitida por ela produziram sôbre a Terra importantes alterações e condicionaram, de certa maneira, tôda a sua evolução.

O estudo dessa influência, determinante e decisiva, far-se-á, em relação à criação da vida e às suas transformações, no capítulo seguinte.

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Valadares (Manuel), Elementos de Fisica Atômica, 1947.

CAPÍTULO 2 -O APARECIMENTO DA VIDA

MISTÉRIO DA CRIACÃO

DESDE TEMPOS IMEMORIAIS que OS homens procuram decifrar o mistério da criação da Vida. Primitivamente, problema religioso e filosófico (o Que Para alSuns homens permanece), se bem que continue por ora indecifrado, o impulso e desenvolvimento da ciência parece tê-lo transferido das alturas em que se debatia para as regiões menos elevadas da Química e da Física. Essa transferência, operada automà-ticamente pelos progressos incontestáveis dessas ciências, não se verificou, nem se verificará ainda, sem a mesma apaixonada controvérsia a que já fizemos referência no capítulo anterior a propósito da formação do nosso planêta e dos astros em geral. Diremos, até, que ganha uma maior acuidade que se manifesta pelo recrudescimento da atividade combativa dos conten-dores.

O autor pretende colocar-se à margem desta controvérsia, mas não pode deixar de a ela se referir, por se ver obrigado a enunciar, por uma razão sistemática e cronológica (embora sem tomar partido, pois não importam essencialmente à índole dêste trabalho), as diversas teorias a êsse respeito.

O que é certo, contudo, é que, se a explicação da formação do mundo, isto é, da matéria inorgânica que o constitui por forma diferente da consignada e precei-tuada nas Escrituras, já tinha parecido a certos espíritos apaixonados uma blasfêmia sem perdão, a explicação da vida independente do influxo divino e do fiat criador apresenta-se-lhes como um sacrilégio, uma tentativa herética de negação cbntra a própria essência da Divindade. Sucede, porém, que, dentro da sua ilimitada ambição, o homem não se contenta em procurar a explicação da vida no âmbito das reações fí-sico-químicas, mas procura, êle próprio, criá-la por êsses meios, parecendo, assim, querer substituir-se ao Criador e apossar-se, diabolicamente, do seu atributo fundamental.

Tal como dissemos no capítulo anterior, a questão parece-nos deslocada e a controvérsia sem razão de ser. O problema de Deus e da essência da divindade é um problema filosófico e espiritual que excede o condicio-nalismo a que obedece uma discussão racional.

Resolvido para uns por meio da graça divina, solução aceita por outros como uma interpretação comodista do Universo e insolúvel para a maioria dos homens, êle permanecerá sempre em suspenso sôbre a consciência do Ser como uma ameaça ou uma esperança.

É que não se trata, propriamente, de um problema religioso que exprime um fenômeno especificamente social (como veremos na altura própria, crença e religião nem sempre coincidem), mas está na raiz da sua inquietação espiritual e só pode ser resolvido, em separado, por cada homem.

E tanto assim é que, se o homem conseguir algum dia realizar a sua ambição de criar a vida, ainda continuará indecifrável a causa inicial que torna possível essa criação, seja por que meio fôr, e terá, pelo mesmo ato, contraditòr iamente, afirmado e negado a existência de Deus.

Tê-la-á negado pela substituição operada no fenômeno da criação, mas tê-la-á afirmado pela aquisição de um atributo que é próprio da divindade.

Poderiamos ir ainda mais longe. Essa pseudo-ofensa às Escrituras resulta apenas, como já o afirmamos, da sua interpretação demasiado direta. Nelas, quer a medida do tempo, quer os meios próprios da Criação, permanecem ocultos e prestam-se dentro do seu admirável e sábio simbolismo às mais diversas lu-cubrações.

Acresce que, se o homem tivesse descoberto a forma de criar a vida, não teria decifrado ainda o mistério essencial, isto é, a razão por que a matéria inanimada, através do seu longo processo evolutivo, acabou por adquirir a consciência de si mesma.

2 - DEFINIÇÃO DA VIDA - TEORIAS SOBRE O SEU APARECIMENTO

Uma das grandes dificuldades, senão a maior voz do pequeno estudo que pretendemos fazer sôbre a matéria dêste capítulo, consiste na definição de vida. De fato, esta definição, isto é, a caracterização da sua essência, não se encontra ainda feita em nenhum tratado, ou livro da especialidade, de forma a poder abarcar, numa expressão sintética, todos os seus elementos fundamentais. É, em geral, por antítese, quer dizer, por aquilo que não é, que se tem procurado definir aquilo que é. Mas esta forma de definição tem também prejuízos e graves inconvenientes. Por via dela temos visto, muitas vêzes, opor a morte à vida, quando, justamente, a morte é a única prova real, definitiva e convincente dêsse estado especial da matéria organizada. A morte é, como tôda a gente sabe, a conseqüência natural da vida, seu limite infranqueável, e por conseqüência uma categoria dependente e não utilizável em têrmos de definição.

É freqüente também a oposição entre coisas vivas e coisas inanimadas, o que provoca, imediatamente, a confusão entre vida e alma, fazendo intervir um elemento espiritual, que nada tem que ver com a essência da vida. Dessa confusão resulta a repugnância de certos espíritos em admitir (veremos, no estudo das diferentes teorias, que há também razões científicas em oposição) a geração espontânea da vida por ação dos fatôres físico-químicos.

A MATÉRIA ORGANIZADA

Pode, no entanto, dizer-se, desde já, que a vida é um estado especial da matéria organizada.

Temos que concordar, contudo, que esta definição, pelo seu caráter geral, não define, por si, coisa nenhuma, mas tem a virtude de fazer intervir a expressão matéria organizada — que preferimos à matéria orgânica, pela sua restritiva e quase abandonada significação química — e que é a única em que a vida se pode inserir e manifestar.

Resta-nos explicar em que consiste êsse estado especial. Êsse estado traduz-se — e nisso são concordes todos ou quase todos os tratadistas — pela faculdade que tem essa matéria de se reproduzir a si mesma, pelos seus meios próprios, quer na intimidade dos seus tecidos, isto é, crescendo, quer dando origem a outras porções de matéria organizada que dela se separam para viver independentemente. Para que isso se dê, precisa essa matéria de se alimentar, isto é, de procurar fora de si mesma os elementos necessários para a constituição da sua substância. É o que se chama nutrição, faculdade que, tal como a reprodução, é exclusiva do ser vivo. Poderá objetar-se que as coisas sem vida também crescem, mas a objeção é desvalio-sa, não só porque êsse crescimento é — ao contrário do que sucede nas coisas vivas — anárquico e ilimitado, como também, exclusivamente, dependente de fatores externos e determinado por circunstâncias exógenas.

Nada disso, no entanto, seria possível sem a faculdade que possuem as coisas vivas de se moverem por si mesmas.

Nesse movimento, gerado na intimidade da sua substância reside a própria essência da vida. ** Em certo sentido, pode também afirmar-se que as plantas se movem.

Outro fator ainda insuficientemente estudado, e até desprezado por muitos, é o da sensibilidade, que parece a certos tratadistas, também, uma das características da matéria viva. A restrição oposta é a de que muitas das coisas vivas não são sensíveis, argumento que resulta da identificação entre sensibilidade e consciência da sensação. Ora, como a sensibilidade é a faculdade de reagir aos fatores externos, ela pode existir, como é fácil de provar, mesmo nos sêres que não têm a consciência dessa reação.

Pôsto isto, poderemos aproximar-nos de uma definição, embora incompleta e imperfeita de vida, caracterizando-a como um estado especial da matéria organizada que se traduz pela faculdade de crescer dentro de certos limites e de se reproduzir a si mesma, moven-do-se e alimentando-se, isto é, buscando, por si, os meios para a constituição da sua própria substância, faculdade esta que se extingue, quase instantaneamente, por efeito da morte.

A GERAÇÃO ESPONTÂNEA DA VIDA

O homem é essencialmente um ser explicativo, não sendo de estranhar, por conseqüência, que, depois de ter tentado explicar o Universo, tente compreender a sua remota origem e procure, também, explicar-se a si mesmo. E é, justamente, essa ávida e insatisfeita curiosidade e êsse delírio interpretativo, o que, mais do que tudo, o individualiza, para além das diferenças somáticas e dos atributos intelectuais, dos outros sêres vivos.

A origem da vida, sem a decifração da qual êle nunca poderá chegar ao conhecimento íntimo da sua substância, foi sempre uma das suas grandes preocupações. A observação quotidiana dos fenômenos da natureza — para além das explicações confessionais e religiosas — inclinava-o, desde os tempos remotos, a acreditar na teoria da criação espontânea, mediante a qual os germes de vida, como o próprio nome indica, seriam gerados espontâneamente, no seio da terra ou na profundidade dos oceanos, por via da ação misteriosa das forças naturais.

Seguida por Arquimedes, perfilhada e exposta por Aristóteles, e nos tempos modernos por Joly, Pouchet, Musset e até por Lamarck, esta teoria levou o seu golpe mortal com as descobertas de Pasteur, que demonstraram a impossibilidade, pelo menos atual, da geração espontânea da vida.

Como o faz notar Edmond Perrier, com tudo o que estas descobertas tinham de proveitoso e de admirável, elas “vinham lançar uma perturbação profunda na filosofia científica impregnada da idéia justa de que cada fenômeno tinha causas próximas que determinavam, necessàriamente, a sua produção”.

Claude Bernabd, tendo introduzido nos fenômenos vitais a noção de determinismo, destruira a doutrina do vitalismo que subtraía êsses fenômenos às leis que regem a Química e a Física, e reconhecia, automàticamente, a possibilidade da formação da matéria viva por meio de reações físico-químicas.

A circunstância de a matéria orgânica ser, sempre, constituída por carbono, oxigênio, hidrogênio e azôto, aliados a oútros corpos simples, vinha ainda encorajar mais esta esperança. Huxley supôs até ter descoberto a substância fundamental da vida, a que deu o nome de protoplasma, — idéia que mais tarde repudiou — mas de tal forma persistiu na nomenclatura zoológica que o autor dêste trabalho ainda se recorda de lhe terem ensinado que a ameba era constituída por uma gôta de protoplasma nu — noção que ainda subsiste nos compêndios de Zoologia Elementar.

Em face da existência dêste protoplasma, desta geléia primitiva, como lhe chama Oken, autor da Filosofia da Natureza, êste persistiu sempre, contra a própria demonstração dos fatos, teimosamente, em afirmar a sua existência, mesmo depois de Huxley ter reconhecido que êste corpo gelatinoso (que chegou a ser identificado como protoplasma) não passava de um precipitado mineral produzido pelo álcool em combinação com água do mar contendo substâncias orgânicas. Não parecia, pois, demasiada ambição o conseguir-se, um dia, a sua obtenção pelos meios laboratoriais.

A síntese dos açúcares, conseguida por Berthelot, animava ainda mais êste propósito, que não se apresentava — em face do avanço da Química, que ia, uma por uma, reconstituindo certas substâncias cujo fabrico se supunha exclusivo dos organismos vivos — demasiado fantasista.

O protoplasma não passaria, portanto, de uma substância orgânica um pouco mais complexa, mas nada impediría que, com os progressos da ciência, a vida pudesse sair um dia, elementar mas fremente, do bôjo das retortas.

O reconhecimento da inexistência do protoplasma e da teoria, experimentalmente comprovada e estabeecida por Pasteur, de que os sêres vivos só poderíam resultar de outros similares sêres vivos, vinha destruir esta, aparentemente, justificada ambição e, de certa maneira, atacar, nos seus fundamentos, a própria doutrina da evolução das espécies.

Em face, no entanto, da incapacidade da criação da matéria viva e da impossibilidade da geração espontânea, parecia não restar aos homens de ciência outro recurso senão o de admitir, ou uma explicação metafísica da criação da vida, ou a teoria de Cuvier, * segundo a qual as espécies resultariam de um ato direto da criação e subsistiríam eternamente fixadas e imobilizadas nas suas formas primitivas.

Entretanto, tudo parecia comprovar a Teoria da Evolução, que as mais recentes descobertas da Paleontologia vinham demonstrar rigorosamente.

A dificuldade que se apresentava como insolúvel pareceu, a certa altura, ser resolvida pela adoção e modernização da doutrina de Montlivault, muito anterior a esta contenda científica e concebida numa altura em que os dados do problema nem sequer tinham sido postos em equação.

Para Montlivault (que formulou a sua teoria em 1821), a vida seria proveniente de outros'planêtas e espalhada, sob a forma de poeira vital, na superfície do Globo. Aí, então, tal como num terreno semeado, os germes frutificariam, dando origem às diferentes espécies vegetais e animais. Não nos diz o sábio como essa poeira vital conseguiría transpor as infinitas distâncias do espaço, nem a maneira como sobreviveria às geladas temperaturas do éter. Isto não impediu, contudo, que, dada a situação criada pelas experiências de Pasteur, esta teoria tivesse sido retomada, conquanto modernizada e revestindo outras modalidades, por alguns dos grandes sábios da segunda metade do século XIX.* Alguns dos discípulos de Cuvier, aceitando em princípio a sua doutrina, admitem, no entanto, que, em vez de uma só criação, tivesse havido criações sucessivas.

É o caso dos grandes físicos Helmholtz e Lorde Kelvin, e do botânico francês Filipe Van Tieghem, também referidos por Perrier, que a vêm perfilhar, embora sob o aspecto em que é formulada por Richteb e Cohn.

Para êstes dois sábios, a vida seria gerada nos cometas, tomando o aspecto de uma poeira cósmica que os mesmos iriam semeando na sua vagabundagem estelar. Êstes germes, dada a sua propriedade de resistirem às mais altas temperaturas, tomariam o nome de pirozoários (Preyer) e poderiam, também, segundo a opinião de alguns, ser originários das estrélas.

Esta teoria, cujos méritos aparentes são incontestáveis e que chegou a ser perfilhada por Arrhenius, que considerava que os germes deviam ser da natureza dos esporos — e, por consequência, capazes de resistir às mais baixas temperaturas — foi destruída por Becquerel, que demonstrou que êsses germes seriam eliminados pelos raios ultravioletas. Mas, mesmo que assim não fôsse, como o constata Boule nas conclusões finais do seu admirável trabalho Les Fossiles (Eléments de Paleontologie), o problema da origem da vida ficaria por resolver e teria sido, unicamente, afastado para regiões mais distantes.

CONDIÇÕES PROVÁVEIS PARA GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Posta a questão nestes têrmos, o problema tem que ser visto e considerado sob outro aspecto, qual seja o de se procurar saber se a criação da vida — que, nas circunstâncias atuais, parece impossível por geração espontânea — se podería ter verificado em tempos mais recuados, isto é, numa altura em que essas condições, quer geológica, quer climàticamente, eram totalmente diferentes. O ambiente físico deve, também, ter-se modificado no seu conjunto, sabido, como é, que as radiações solares variaram no decorrer dessa sucessão inumerável de milhares de anos na sua fôrça e na sua intensidade.

O Sol — que, como já fizemos notar, condiciona quer o aparecimento da vida quer a sua manutenção — pertence, atualmente, tal como a estréia Polar, ao grupo das estréias amarelas, isto é, a sua temperatura é já muito inferior à das estrélas brancas ou das estréias azuis de que a atmosfera contendo grande quantidade de hidrogênio e de hélio, atesta uma radioatividade muito mais poderosa. Além disso, essas estréias emitem radiações ainda não classificadas e cuja prove-niência se desconhece, e têm um espectro ultravioleta muito mais extenso do que o do Sol.

Nada impede, portanto, que se adfnita, tendo em vista que o Sol atravessou êsses diferentes estádios, que, em épocas recuadas, por via de mais intensas radiações, e dadas as condições diferentes que também deveriam existir à superfície da terra, o fenômeno, hoje impossível, da geração espontânea se possa ter verificado.

A síntese dos açúcares, conseguida por Berthelot, só se realizou com a intervenção das radiações ultravioletas, o que vem confirmar ainda mais esta última hipótese.

Aliás, o Sol, mesmo nas circunstâncias atuais, condiciona ainda, de maneira efetiva, a manutenção da vida. Sem êle, pode afirmar-se que a vida desaparecería instantâneamente da face da Terra, de onde pode chegar-se à conclusão de que a essência da vida é, afinal, a sua estelar radiação luminosa.

A IMPORTÂNCIA DA CLOROFILA

De fato, os hidratos de carbono, essenciais para a alimentação dos tecidos de todos os sêres vivos, são fabricados pela clorofila (substância albuminóide que, como é sabido, existe em quase tôdas as plantas e lhes empresta a sua verde coloração), com a ajuda imprescindível do Sol. A própria clorofila não se poderia formar sem a intervenção das radiações ultravioletas e, sem ela, seria também impossível a formação dos hidratos de carbono que vai, em parte, buscar na atmosfera e a existência da própria planta que, através das suas raízes, suga no solo e no subsolo os elementos minerais e azotados necessários para a sua subsistência

Ora, a vida animal é inteiramente dependente do reino vegetal, e só consegue subsistir e manter-se através de uma cadeia de fuzis que começa nessa obscura mas fundamental laboração da planta, cujo primeiro têrmo é a formação da própria clorofila.

Tôda a gente sabe que os animais herbívoros se alimentam de vegetais, que os carnívoros se alimentam dos herbívoros e que os onívoros, ao número dos quais pertence o homem, se nutrem de uns e de outros. Seja como fôr, a origem dessa complicada operação da nutrição tem que se ir buscar sempre aos dourados e providenciais raios de sol.

E que se não diga que certos peixes e certas plantas sem clorofila, como êsse dúbio cogumelo que parece marcar uma fronteira indecisa entre o reino animal e o vegetal — e tem o nome, um tanto ou quanto rebarbativo, de Fuligo septicum — podem subsistir sem o seu auxílio.

Os peixes carnívoros vivem da carne dos outros peixes, e os herbívoros — porque também os há — principalmente de algas microscópicas, de coloração verde, que constituem a sua alimentação essencial. Estas algas, que existem em todos os mares em quantidades prodigiosas, têm a propriedade de só subir à superfície nos dias claros, pois só nesses dias se podem utilizar dos raios ultravioletas, para o fabrico da sua clorofila. Nos dias tempestuosos abandonam a superfície, levando atrás de si a multidão inumerável de peixes que delas se aproveitam. É essa a razão por que, nesses dias, a pesca se torna, de maneira geral, menos frutuosa. Vê-se, assim, que o Sol, embora de maneira indireta, também condiciona e determina a vida na profundidade dos mares.

Quanto aos fungos, embora sem clorofila, têm a sua existência assegurada pelos seus costumes parasitários e não vêm desmentir esta comprovada teoria.

O Fuligo septicum, a que acima fizemos referência, dá, na opinião de Perrxer, uma certa justificação à teoria da geléia primitiva, imaginada por Oken, e tem ainda o mérito de, pela forma da sua nutrição (não se alimenta pela superfície, mas introduz na própria substância as partículas alimentares destinadas a serem assimiladas), nos dar uma imagem da transição entre o reino animal e o vegetal.

Em face do que fica dito a respeito da influência do Sol, é perfeitamente admissível — o que viría conciliar as aparentes contradições da ciência atual — que êste que ainda hoje fabrica a substância necessária à manutenção da vida lhe tenha dado origem mediante condições que, atualmente, já se não verificam.

CONCILIANDO TEORIAS

Desta forma, não teriam os homens que recorrer a qualquer explicação metafísica e, muito menos, que procurar expedientes e subterfúgios cósmicos, como o da poeira vital a que fizemos referência. Conciliar--se-iam assim as teorias que, nesta altura, — embora comprovadas pela experiência científica — parecem paradoxalmente em oposição, como a da evolução das espécies e a resultante das experiências de Pasteur.

De fato, a vida não pode ser gerada espontâneamente, mas só o não pode ser porque, na época presente, não se verificam as condições necessárias para isso. O próprio Pasteur o reconheceu, como o refere Boule nas conclusões finais do seu tratado de Paleontologia — Os Fósseis, a que já fizemos alusão. Assim, também, o determinismo de Claude Bernard continua de pé com a sua interpretação racional dos fenômenos biológicos.

É curioso notar, até, que muitas das antigas religiões dão ao Sol um papel primacial de Criador da vida que se reflete quer na sua dogmática, quer na sua ritologia formal, e revela uma maravilhosa intuição dos fenômenos naturais.

E nem sequer a circunstância do relativo insucesso da Química Orgânica em fabricar a matéria viva pode vir provar o contrário. Êsse insucesso traduz apenas a insuficiência dos meios laboratoriais e revela, per outro lado, a atual e relativa ignorância dos sábios.

Por si não prova nada, como também o não prova a impossibilidade de fabricai: o protoplasma que, de base física da vida, como o pretendeu Huxley, e de substância única, se transformou numa designação abstrata que exprime a matéria viva nas suas diferentes modalidades. Vem a propósito, também, sem entrarmos em pormenores da especialidade, impróprios da índole dêste trabalho, pôr em relêvo que o pequeno número de elementos essenciais para a constituição química da matéria viva — hidrogênio, carbono e oxigênio, combinados com outros elementos simples não exclui a possibilidade do seu fabrico laboratorial. De fato, quer os hidratos de carbono, quer as gorduras, quer os albuminóides e até mesmo os fermentos, são constituídos por êsses elementos associados a outros elementos simples, como o enxofre e o azôto. E muito se tem avançado nesse campo, porque, ao que parece, apenas certos albuminóides resistem às tentativas dos investigadores. Onde a dificuldade reside é no rigoroso doseamento dessas diversas substâncias, de forma que possam assumir as funções essenciais da vida, que são, como já dissemos, a nutrição e a reprodução. É preciso, entretanto, confessar que as recentes experiências de Stanley vêm rasgar, mesmo nessa complicada matéria, vastíssimos horizontes.

O sábio americano W. M. Stanley, dos laboratórios Rocke-feller de Princetown, assinalou que o agente patogênico de uma doença contagiosa dos vegetais (mosaico da vinha e das Solanáceas) não era nem uma alga nem um fungo, mas um corpo químico cristalizável. Tal verificação provocou, pelas suas consequências, a maior surprêsa nos biologistas, que viram desmentida, pela primeira vez, a noção de que a condição sine qua non dos sêres vivos era a constituição orgânica, cuja forma elementar seria a dos organismos unicelulares.

Ora, os vírus não excedem o estado molecular, e Stanley, tendo prosseguido nas suas experiências, constatou que, depois de os ter dissolvido em álcool e acetona, poderíam ser extraídos pelos processos químicos, sob a forma cristalizada e conservando a sua virulência primitiva. E tanto assim era que, inoculado o vírus do mosaico da vinha, depois de sujeito a êste tratamento, a doença manifestava-se. Estava-se, pois, na presença de cristais vivos, conceito que vinha revolucionar cs fundamentos da Biologia.

Entretanto, Stanley, com o escrúpulo de um verdadeiro sábio, atribuiu êste espantoso sucesso à impureza dos cristais e reservou, cautelosamente, a sua opinião a êsse respeito.

Trabalhando com outros vírus — o Bushy stunt — e segundo os métodos de Stanley, Bowden e Pieri, foram muito mais afirmativos e peremptórios. Depois de terem sujeito êste ultragerme a uma cristalização renovada quinze vêzes, após a dissolução em álcool, obtiveram cristais dodecaédricos, que conservavam a virulência primitiva e apresentavam tôdas as características dos sêres vivos, isto é, a de se reproduzirem, proliferando, e a de se alimentarem, assimilando o meio vivo que destruíam. Além disso, adaptavam-se quando mudavam de meio, revelando uma certa plasticidade.

Bowden e Pxeri vieram demonstrar, também, através das suas numerosas experiências, que os nucleoproteidos criados pela proliferação dos ultravírus eram diversos dos extraídos das células sãs dos vegetais onde se inoculavam, revelando, assim, não se tratar de entidades equivalentes.

E, embora êles não possuam a propriedade essencial dos sêres vivos, que é a de se nutrirem a partir de meio inorgânico, a verdade é que essa propriedade, de fato, é quase exclusiva dos vegetais. A diferença entre êstes cristais biológicos de Stanley e os cristais propriamente químicos é também importante porque, enquanto êstes aglutinam, sem nenhuma transformação, os sais em solução, aquêles assimilam e transformam a matéria viva.

Que significarão, pois, êstes virus-proteínas? Um estado menos avançado na evolução da matéria viva, ou resíduos dos materiais com que se elaboraram as primeiras células?

Serão produtos de uma tardia geração espontânea, manifestando-se num meio impróprio para essa misteriosa gestação?

Questão que continua em aberto e ainda na sua fase experimental, mas que traduz o problema mais perturbante da Biologia moderna.

Êste assunto encontra-se exposto em várias revistas da especialidade e, entre elas, num artigo do biólogo francês Jean Labadié. Inserimo-lo neste capítulo pelo extraordinário interêsse que tem para o assunto versado e não porque esta teoria esteja já cientificamente aceita e reconhecida.

AS FORMAS PRIMITIVAS DA VIDA

Mas que forma assumiría a vida nos recuados tempos em que foi gerada espontâneamente?

Admitida como provável a teoria da geração espontânea, mediante determinadas condições que atualmente não existem, é muitíssimo difícil, para além do campo das meras hipóteses, responder a esta pergunta. E isto porque nem a Paleontologia, a ciência mais indicada de tôdas para resolver o problema, pode, neste particular, vir sequer em nosso auxílio. O metamor-fismo dos terrenos arcaicos deve ter destruído, completamente, os vestígios das formas primitivas da vida, restando-nos apenas o recurso de, pelas suas manifestações posteriores e pelas leis que presidem à sua evolução, deduzir racionalmente as suas manifestações anteriores.

E êste o processo utilizado pelos maiores tratadis-tas da matéria e aquêle a que neste sumarissimo e elementar estudo teremos que recorrer.

3 - PLiNTAS E ANIMAIS

Não faltará quem, ao compulsar o índice desta A História da Civilização, tenha perguntado a si mesmo qual a razão por que nela foram introduzidos alguns capítulos «preliminares que não dizem respeito aos homens e nada parecem ter com as condições fundamentais da sua vida de relação e com os elementos que servem, essencialmente, para a construção do seu destino comum. Poderá até parecer à primeira vista — e o próprio autor confessa que a inclusão dêsses capítulos foi o produto de grande meditação e não se efetuou sem uma prolongada hesitação — que o estudo das condições físicas do planêta e das formas de vida anteriores ao homem era, francamente, desnecessário.

Entretanto, a decisão tomada não obedeceu, exclusiva nem principalmente, a um critério cronológico muito discutível, mas ao reconhecimento de que sem se estabelecerem as condições primordiais da vida e da sua evolução seria vã a tentativa de pretender explicar certos impulsos fundamentais do homem e até certas incompreensíveis mutações históricas que não podem ser interpretadas exclusivamente em face das condições sociais da sua existência, mas em que tem de ser levada em linha de conta uma causalidade e um condiciona-lismo físico e biológico muito anterior ao seu aparecimento, como entidade somática e espiritual independente.

A EVOLUÇÃO DO CONHECIMENTO PSICO-SOCIAL

É êsse o sentido atual da evolução do conhecimento psico-social que o autor perfilha e que iem a sua mais relevante manifestação nas investigações e nos trabalhos de Jung. Aceitamos como boa a doutrina — à falta de prova em contrário — de que o homem conquanto hoje possa pertencer a um quarto reino (como o pretende Maranon), que excede já o estrito condi-cionalismo da vida animal, é o produto de uma longa evolução que se revela pela primeira vez na célula isolada e simples, mas que talvez se perca, na sua origem, no gregarismo indiferenciado da chamada geléia primitiva. E talvez, até, que nas suas manifestações coletivas — pânicos, entusiasmos, movimentos de massa — êle reproduza, sem querer, as primeiras reações retráteis, em face do meio, dessa substância aglutinada.

Entre um rei e uma couve — diz Szent-Giorgyi, o grande fisiologista húngaro, Prêmio Nobel da Bioquímica, notável pela descoberta de algumas vitaminas e do mecanismo da àua.atuação no organismo — há uma diferença relativamente pequena.

Quer isto dizer qúe, por maior que seja a distância percorrida e por maiores que sejam as suas diferenciações, ainda se conserva, quer em relação ao tempo, quer em relação ao espaço, entre todos os organismos celulares, onde a vida se imprime e se realiza nas suas mais diversas manifestações, uma identidade e uma misteriosa solidariedade que não podem ser desprezadas num estudo desta natureza.

Por outro lado, Jung, no estudo que faz sôbre os sonhos, procura demonstrar, e de certa maneira o consegue, que o homem reproduz, simbolicamente, milhões de anos depois, através de reminiscências inscritas no seu subconsciente, imagens e visões de quando era apenas um simples réptil arrastando-se na lama viscosa do mundo primitivo.

Acresce ainda que, sem desmentir a sua qualidade de ser superior, dentro da escala biológica, beneficiado de atributos espirituais e intelectuais que só se manifestam (a manifestarem-se) muito rudimentarmente nos outros sêres, o homem conserva ainda, com êles, uma completa identidade celular.

Como o faz notar Perrier, “todos os organismos vegetais ou animais são formados por um conjunto de elementos geralmente microscópicos, apresentando a mesma constituição fundamental, que são designados pelo nome de células, elementos anatômicos, ou mais recentemente, por plastídios”.

Todos os sêres partem de um único plastídio, o ôvo, e mesmo quando se trata de sêres complexos, são sempre o produto da divisão repetida dêsse plastídio inicial, com a característica se conservarem, mesmo depois de unidos, uma relativa independência.

É o que se comprova, quer pela experiência come-zinha em relação aos vegetais, cujos fragmentos, quando secionados e transplantados, observando certas condições, reproduzem o ser original, quer por experiências como as de Alexis Carrel, que conseguiu conservar vivos, e até fazer crescer, pedaços separados de tecido conjuntivo e de tecido nervoso, em meios artificiais apropriados, sem o auxílio de qualquer organismo.

Os enxertos com que se obtêm excelentes resultados, quer em animais, quer em vegetais, são também uma prova disso. E é preciso não esquecer que Trem-bley, já em 1740, conseguira obter novos indivíduos dividindo, em diversos fragmentos, a hidra de água doce.

Foi essa idêntica subordinação às leis fundamentais da vida (de que acabamos de apresentar alguns exemplos) que une o homem aos organismos unicelu-lares, e as relações misteriosas, mas evidentes, que entre êles existem, que nos obrigaram à já referida, e aparentemente desnecessária, inclusão dêstes capítulos. .

AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES DA VIDA

Quais são, porém, as primeiras manifestações comprovadas da vida? Como já tivemos ocasião de dizer, êsse estudo só se pode fazer, em parte, por dedução, dado que o metamorfismo deve ter feito desaparecer os seus primeiros vestígios, além de que a sua conformação talvez não fôsse de molde a que os mesmos se conservassem.

Há, portanto, em relação às rochas sem fósseis, um período sem vida, o periodo azóico, que parece desmentido pela circunstância de algumas delas serem constituídas, em parte, por grafita e por óxido de ferro, cuja formação, na opinião de certos químicos, teria sido impossível sem a intervenção de sêres vivos. Mas isso é opinião muito discutível, pois não aparece firmada por nenhuma experiência decisiva.

O que parece assente é que a vida se manifestou, primeiro, exclusivamente dentro da água e que só muito mais tarde abandonou as ondas tépidas e viscosas dos mares primitivos, que, como se sabe, começaram por recobrir tôda a superfície do Globo, para se vir fixar na terra firme. A atestar o que afirmamos existe o testemunho dos primeiros fósseis, algas e pequenos sêres microscópicos, conhecidos por radiolários. Posteriormente a isso, e em rochas mais modernas, já aparecem vestígios de mais variada vegetação marítima, e de moluscos, vermes e peixes, que revelam ainda manifestações de vida especificamente aquática. Só muito depois é que se começam a inscrever nas rochas os fósseis dos grandes répteis, seguidos dos esqueletos das primeiras aves, que parecem dêles derivadas, e, finalmente, os dos mamíferos, entre os quais se contam muitas espécies hoje desaparecidas. Só posteriormente a isso tudo é que aparecem os macacos e, por fim, os homens, cuja adaptação à vida de relação, através das suas trágicas e dramáticas vicissitudes e das suas espantosas aventuras, é o objeto dêste trabalho e nos propomos relatar.

Entretanto, é curioso notar que, com as formas de vida superior que o estádio atual da evolução das espécies parece representar, ainda coexistem muitas formas de vida primitiva, quer no reino vegetal, quer no reino animal, o que nos podería fazer supor que a cadeia vital — com exclusão dos seus anéis secundários, correspondentes a espécies desaparecidas, que não são difíceis de reconstituir — ainda se encontra intata.

De fato, nos tempos primitivos, já havia bactérias, esponjas, equinodermos e moluscos, semelhantes às bactérias, ás esponjas e aos moluscos (como, por exemplo, as ostras) que povoam os nossos mares.

Tal coexistência, que se quis opor à teoria da evolução, é puramente aparente, porque se trata de manifestações de vida já muito modificadas e distanciadas das suas formas primitivas. Isto pelo que diz respeito aos animais. Quanto aos vegetais, cuja primeira manifestação (também aquática) parece ter sido a das algas, são também produto de uma longa cadeia evolutiva que, passando pelos fungos e por uma fase exclusivamente criptogãmica de grandes fetos arbóreos e de florestas sem flôres, atingiu as formas diferenciadas e superiores que hoje nos apresentam.

É ésse estudo a respeito dos animais e das plantas — sumarissimo, dada a natureza déste trabalho — que, com o auxilio da Paleontologia que, infelizmente, não nos elucida sobre a origem dos tipos orgânicos e das causas que os possam ter produzido, iremos fazer de seguida.

O AMBIENTE FlSICO PRIMITIVO

Nos tempos recuados e longínquos em que a vida se começou a manifestar sôbre a face da Terra eram, como dissemos, muito diferentes das atuais as condições do ambiente físico que rodeavam os primeiros seres rudimentares.

Depois do período em que a água se encontrava em suspensão na atmosfera (fase atual de Vênus), o mar tinha recoberto tôda a superfície da Terra. As suas águas, de formação recente, tinham uma temperatura muito elevada e um grau de mineração — pela porção de elementos, em suspensão na atmosfera, que devem ter arrastado na sua queda — muito diverso das águas dos oceanos atuais

Por outro lado, o Sol, cujo diâmetro era, pelo menos, o dôbro do que hoje apresenta, emitia radiações muito mais intensas e, possivelmente, algumas de natureza desconhecida, com cujo desaparecimento se deve ter extinto o misterioso poder de gerar espontâneamente a vida.

A Terra, por sua vez, — fato a que também já tivemos ocasião de aludir — girava em tôrno do seu eixo com maior velocidade, o que ocasionava dias e noites muito mais curtos, podendo admitir-se, por hipótese, que, sendo sempre variável o ângulo de inclinação do plano do Equador com o plano da eclíptica, tivesse havido um momento em que êsses dois planos coexistiram, ocasionando o desaparecimento das estações. * A própria órbita da Terra, isto é, o caminho que a Terra percorre em tôrno do Sol, também se modificou, devendo, de comêço, por virtude da maior fôrça de atração do Sol, ter sido representada por uma circunferência. É certo, porém, que o movimento real da Terra, isto é, a conjugação do seu movimehto de translação com o movimento de todo o sistema planetário, arrastado pelo Sol na sua vertiginosa viagem pelo espaço, não é, de fato, representado por uma elipse, mas por uma linha sinuosa formando todos os anos um anel como os de uma cadeia em parte distendida.

De qualquer maneira pode, pelo que ficou dito, concluir-se que tôdas estas condições têm variado no decorrer da longa idade da Terra, e que são elas, em grande parte, as responsáveis pelas aparentemente inexplicáveis mutações no que diz respeito à vida.
* O tamanho das estações continua a variar. O grupo formado pelo conjunto Primavera-Verão dura atualmente mais oito dias que o grupo Outono-Inverno. O contrário verificar -se-á dentro de 10.500 anos.
E. de fato, é de supor que o aparecimento e o desaparecimento de certas espécies animais e vegetais, as suas migrações e as suas modificações, tenham tido como causa, além de bruscos cataclismos, as variações de clima a que acabamos de aludir, embora de maneira muito geral. Veremos, de forma mais pormenorizada e convincente, à medida que formos estudando a fauna e a flora de cada uma das eras geológicas, a influência dêsses fatores nas transformações da vida.

Sôbre a interpretação dêsses fenômenos e os momentos em que se verificaram, as opiniões formuladas, por suposição e dedução, são, como é de calcular (aceitando tôdas a realidade e importância dos mesmos), muito dessemelhantes.

Os tratadistas estão, no entanto, de acôrdo em que, no início dessas recuadas eras, a temperatura à superfície do Globo era muito mais elevada do que atualmente. E é de presumir também — presunção geralmente aceite (exceto por Preyer com a sua já mencionada teoria dos pirozoários) — que a vida só se possa ter manifestado a partir do momento em que essa temperatura desceu abaixo dos cem graus. Outro fenômeno se deve ter verificado: o do aceleramento do processo vital, isto é, o de uma maior rapidez do ciclo fatal da vida, que se exprime pelo trinômio nascer-cres-cer-morrer, por via, especialmente, da maior intensidade e diversidade das radiações solares. Tal aceleração não podia ter deixado de ocasionar uma maior rapidez na evolução das espécies, e assim se operaram, com certeza, transformações das formas biológicas, em períodos muito mais curtos de tempo. Mas tudo isto são considerações gerais que apenas servem para estabelecermos um quadro, aliás muito impreciso, das condições que circunscreviam a vida nos primeiros tempos.

Esta, como é sabido, limitava-se às águas dos oceanos, o mesmo que dizer à Terra tôda, porque o mar a recobria ainda na época em que a temperatura ambiente já era inferior a cem graus.

A medida, porém, que os oceanos e continentes se foram separando, pelas causas já mencionadas nos capítulos anteriores, a vida foi acompanhando o fluxo das águas e se retirando com elas, mantendo-se nelas durante os períodos imensuráveis em que a Terra se conservou completamente estéril.

4 - A CONQUISTA DA TEDDA PELA VIDA

A conquista da terra pela vida foi uma longa e silenciosa contenda, feita de avanços e recuos, de audácias e de hesitações, como tôdas as guerras, e corresponde a uma fase de adaptação nem sempre bem sucedida, que se prolongou por muitos milhões de anos.

Ainda hoje há exemplos dessa hesitação biológica, o que acontece com certos mamíferos anfíbios, como, por exemplo, as focas que, vivendo habitualmente na água, apenas se utilizam da terra para amar e nascer. Êstes, pelo menos, têm o mérito de resolver o problema (até ao presente insolúvel) do parto dos mamíferos exclusivamente aquáticos. De fato, nenhum naturalista conseguiu ainda explicar perfeitamente o mecanismo do parto dos cachalotes e a razão por que os filhotes recém-nascidos não morrem por asfixia depois da ruptura do cordão umbilical. ** Compulse-se, a êste respeito, o curioso trabalho publicado no Boletim Pecuário, "Introdução ao Estudo da Indústria Baleeira Insular", por J. Mousinho de Figueiredo.

Mas as hesitações da natureza não se manifestaram, como não se manifestam ainda, só neste particular e sob êsse aspecto. Nesses primeiros tempos os mares — único reservatório da vida — eram habitados, em parte, por sêres indecisos, participando do vegetal e do animal, como se o seu destino biológico ainda não se tivesse fixado definitivamente. A escolha fêz-se muito depois por um processo que é similar ao da seleção natural, mas com efeitos menos decisivos. No entanto, ainda hoje há ihanifestações dessa indecisão, de que são exemplos vivos, além dõ Fuligo septicum, — a que já nos referimos — certas algas unicelulares, que se movem por meio de flagelos como os animais, correndo o risco de serem classificadas como Protozoá-rios, mas que a êle se subtraem pela formação de clorofila.

Isto sem mencionar os sêres microscópicos — as bactérias — que constantemente atravessam, no conceito dos sábios, as fronteiras dos dois reinos

A LEI DE SELEÇÃO NATURAL

É chegada a altura de aludirmos mais circunstanciadamente à lei da seleção natural — a que já fizemos menção indireta — e que parece presidir como uma vontade oculta, mas sempre presente, à evolução das espécies. A seleção natural tem-se, entretanto, prestado a interpretações que, mesmo no campo biológico, nos parecem erradas e que, na sua aplicação ao campo social, — a que, a seu tempo, faremos referência — têm consequências que oscilam entre ridículas e monstruosas. Como veremos, não implica, em absoluto, a predominância dos mais fortes, mas, justamente o que contraria êste critério, a vitória dos que possuem maior aptidão e poder de adaptação. Por via dêste ponto-de-vista, que é o verdadeiro, é que o homem conseguiu tornar-se o senhor da terra, pois nem a sua força física nem a sua falta de resistência aos agentes naturais, — infecções, rigores do clima, etc. — muito inferiores às dos sêres que o rodeavam, lhe poderiam, de outra maneira, ter assegurado o seu indiscutível domínio.

Êsse conceito exclusivo de fôrça, tão querido de certos espíritos e de efeitos sociais tão perigosos, é, além de uma inferioridade moral, um êrro de lógica, num mundo onde se extinguiram os mastodontes e os mamutes e onde ainda voam e sobrevivem as andorinhas ...

A fôrça, que de fato existe e é base da seleção natural, está oculta na intimidade do ser e não se revela da maneira direta e brutal que muitos apregoam, e não passa, muitas vêzes, do disfarce da fraqueza congênita dos que são insuscetíveis de se adaptar e, por consequência, de sobreviver.

A seu tempo veremos quais os terríveis efeitos históricos e sociais dêste conceito errado, mas circunscrevamo-nos, por ora, ao que se podia ter passado sob a égide da verdadeira seleção natural com as primeiras manifestações de vida.

A seleção natural significa, essencialmente, poder de adaptação.

Uma das características da matéria viva é justaumente êsse poder, sem o qual ela teria sido, necessàriamente, desintegrada e destruída pela fôrça cega dos elementos naturais. Trata-se, afinal, de uma forma de inteligência biológica a que os sábios, mais tarde, puseram o nome de instinto, procurando explicar, através de um têrmo de significação abstrata e vaga, as atitudes proveitosas e úteis dos chamados sêres destituídos de inteligência.

Dir-se-ia até que só a inteligência, no seu sentido mais elevado e quando reveste a forma de pensamento conceptivo, é que se pode considerar localizada no cérebro, pois parece, de fato, impregnar tôda a'matéria, de tal forma ela reage instantânea e proveitosamente aos obstáculos do mundo exterior.

Não foi talvez também sem uma razão inteligente, determinada pela mesma causa que se subtrai à compreensão humana, que os primitivos sêres foram constituídos por uma matéria viscosa, mais fácil de se agregar e de se reconstituir e podendo acompanhar mais fàcilmente as transformações rápidas do meio natural. Não possuindo outro processo de defesa senão o de procurar revestir as formas adequadas à sua segurança, teriam necessàriamente que ser constituídos por uma matéria plástica, fàcilmente moldável. E é curioso notar que, na evolução natural, só muito depois dos sêres terem adquirido um revestimento exterior, — carapaça ou concha, que protege o animal mas dificulta os seus movimentos — é que aparecem os vertebrados em que se reúnem as duas condições de resistência e mobilidade. Êles representam, por assim dizer, um estádio superior da vida em que a necessidade de constante adaptação morfológica já não é tão insistente e em que o instinto de segurança é sobrelevado — dado o conjunto de condições mais estáveis do meio exterior — não pela preocupação de se adaptar a essas condições, mas pela de as adaptar às suas exigências biológicas.

E o que se dá com a vida animal, a podermos admitir de início essa distinção, dá-se também com a vida vegetal. Vemos, de comêço, passada a fase indecisa em que a vida vegetal e a animal se confundem, o aparecimento das algas e dos fungos que correspondem, de certa maneira, aos primitivos sêres da escala zoológica. Tanto nas algas como nos fungos, a faculdade de adaptação ao meio é auxiliada pela sua especial conformação. A ausência de órgãos diferenciados, a não-existência de fibra lenhosa, a forma especial e habitual da sua reprodução, permitem-lhes uma sobrevivência que se tornaria difícil com organismos mais complexos e aparentemente mais resistentes.

Êstes primitivos sêres vegetais, de que ainda hoje há inúmeros representantes (mas também já evoluídos), são a contrapartida dos sêres viscosos e rastejantes da escala zoológica.

Tal como êles, também só muitos milhões de anos mais tarde é que se abalançaram à conquista da terra, onde as suas faculdades de adaptação se têm que combinar com um meio especificamente próprio para a sua manutenção e sobrevivência. Como a sua mobilidade se perde quase completamente (a terra não se presta à mesma vagabundagem proveitosa do meio aquático), a planta tem que escolher o terreno onde vai fixar raízes, terreno que tem, ao mesmo tempo, que a alimentar, visto faltar-lhe a onda propícia que, durante milhões de anos, a trouxe no seu dorso, para um dia a abandonar — quando os mares se começaram a retrair — sôbre uma praia inóspita.

Se a diferente conformação dos tipos zoológicos é mais difícil de se perceber, — e já dissemos que a Paleontologia pouco ou nada nos elucida a êsse respeito — a diferente conformação dos tipos vegetais encontra, desde logo, uma explicação na constituição diversa dos terrenos em que foi obrigada a fixar-se.

É possível até, e neste caso trata-se de mera suposição nossa, que as primitivas plantas tivessem, de comêço, a faculdade de mover-se por meios próprios, faculdade essa que só vieram a perder quando, mais tarde, pela definitiva escolha dos terrenos e a especial conformação do seu organismo, êsse movimento se tornou não só inútil como até prejudicial. Isto não quer dizer que as plantas não continuem a emigrar quando as condições climáticas se tomam adversas num ponto e propícias noutro. Usam, porém, para isso, de meios sutis, como seja o dorso dos insetos e a asa dos ventos, que se encarregam de conduzir o pólen e as sementes para onde e quando possam frutificar.

Seja como fôr, há, de fato, uma correspondência, não só virtual mas real, entre os tipos vegetais e os tipos animais, e, assim, poderemo§ comparar as plantas de caule ereto aos vertebrados. De fato, quer uns, quer outros, representam o ponto mais elevado na escala da sua evolução.

De todos os sêres, o que se nos apresenta como aparentemente mais evoluído (e não podemos afirmar que, em relação à espécie a que pertence, o fato seja verdadeiro) é o homem.

Nêle concorrem, além dos atributos comuns a todos os organismos vivos, atributos de ordem intelectual e moral que o diferenciam enormemente de tôdas as outras espécies animais. É isso que leva Mabanon, com a saborosa fantasia que o impõe como um puro espécime do gênio peninsular, a caracterizá-lo como pertencendo a um quarto reino que excede já o condicio-nalismo grosseiro da fatalidade zoológica.

Entretanto, também êle tem vivido sob a alçada da chamada lei da seleção natural e usufruído dos seus benefícios e prejuízos.

Como já vimos, pelo que dissemos atrás, esta lei e os seus efeitos têm que ser entendidos em têrmos hábeis.

É certo que, por via dela, muitos sêres considerados fracos (fraqueza no aspecto fisiológico, em relação à dureza e implacabilidade dos agentes naturais), que as condições atuais do progresso das ciências permitem salvar, não conseguiam sobreviver. Mas também não é menos verdade que não foram os mais fortes, os chamados portadores das virtudes animais, que conseguiram manter a perpetuação da espécie. Se a coragem e a fôrça contribuíram para isso, não menos contribuíram a fraqueza e o mêdo - forças de adaptação e conservação.

E, além do mais, contribuíram o entendimento e a inteligência que os puros adeptos da lei da seleção e dos seus efeitos, por vêzes cruéis, não parecem considerar devidamente.

Êsse entendimento e essa inteligência — não se trata de um pleonasmo mas de categorias psicológicas diferentes, como a seu tempo mostraremos — revelaram ser a verdadeira fôrça do homem. E assim a humanidade atual não é, necessàriamente, a descendente dos mais fortes nem dos mais corajosos (que sucumbiram, na sua maioria, nos ciclópicos combates primitivos), mas, porventura, e em grande parte, dos que por nêdo ou inteligência souberam fugir a tempo.

A SELEÇÃO NATURAL

Temo-nos, até agora, referido à seleção natural na acepção habitual em que esta expressão é tomada e não ao seu conceito especificamente científico, decorrente da teoria de Darwin e nascida, por dedução, dos seus postulados fundamentais: o aumento em progressão geométrica dos descendentes de uma espécie e a relativa estabilização numérica da mesma espécie. .

Dêles resultaria, necessàriamente, o princípio do struggle for life (luta pela vida), contra cuja especiosa e tendenciosa interpretação, quer no campo biológico, quer no campo social, nos insurgimos. Isto não significa, de forma alguma, negar nem a luta pela vida, que é evidente, nem a seleção natural que, com as modificações introduzidas pelos modernos biologistas, é fato científico incontroverso.

A seleção natural, conceito de caráter científico, nada tem que ver com a acepção comezinha e anedótica em que esta expressão é tomada e até socialmente utilizada. E não diz respeito, senão de maneira muito indireta e muito longínqua, à luta entre os mais fracos e os mais fortes, sempre culminada pela vitória dêstes últimos.

Trata-se, mesmo dentro do conceito aarwinista, de uma forma de escolha entre os sêres, que termina pelo domínio dos que se tornam mais capazes de sobreviver pela simples circunstância de terem adquirido novas características dentro das leis gerais da evolução. Entretanto, estas novas características, por serem o efeito de fatôres externos (quer na concepção darwinista, quer na concepção lamarckiana de adaptação às necessidades), traduzem-se sempre pela maior ou menor capacidade do ser para as adquirir e, sobretudo, transmitir. A certa altura, porém, o transformismo, isto é, a evolução lenta e imperceptível dos organismos, pareceu abalado pela nova teoria das mutações formulada pelo sábio holandês De Vries. Em face dela, a modificação lenta a que fizemos referência seria substituída por uma transformação brusca, isto é, por uma repentina mutação. Os fatôres externos perdem a sua importância fundamental e essa transformação tem como causa uma modificação dos fatôres hereditários, situados nos genes, provocada por razões internas até hoje desconhecidas. E isto mesmo com a reserva a que faz referência o Dr. George Montandon, no seu prefácio à tradução do Homem Pré-Histórico, do sábio professor alemão H. Wei-nert, “de que estas mutações não só q£o podem ser concebidas como uma transfiguração total dos sêres, como se verificam apenas entre os indivíduos da mesma espécie”.

Sucede até que a mutação pode já ter-se produzido sem se tomar visível, manifestando-se de maneira tão pouco espetacular como se se tratasse de um têrmo de evolução do transformismo gradual.

De qualquer forma e dentro do conceito original — independentemente do aspecto da sua revelação — a referida transformação é sempre brusca e traduz-se por uma repentina modificação química.

O que esta teoria, que os fatos parecem comprovar em grande parte, ainda não estabeleceu é se a mutação se verifica num único indivíduo da espécie, que depois a transmite hereditàriamente, ou em vários indivíduos ao mesmo tempo.

Seja como fôr, esta nova teoria veio, pelo menos aparentemente, desmentir quer a doutrina de Lamarck, quer a doutrina de Darwin, e com ela o conceito iá clássico da seleção natural. Não é esta, porém, a opinião de Huxley, que consegue conciliar numa única fórmula as suas irredutíveis divergências.

Para êle, a teoria das mutações é completada pela da seleção natural. Ao contrário do que diz Hogben, a seleção natural é diretiva e, porque o é, participa na criação evolu-cionista. Hogben, ao criticar o neodarwinismo de Heldane e.de Fisher, constata que êste assenta sôbre o conceito da hereditariedade particular, enquanto que o darwinismo se alicerça sôbre a hereditariedade comum.

- “Segundo Darwin — afirma Hogben — a evolução é um processo contínuo e a seleção é essencialmente criadora no sentido de que, sem ela, nenhuma modificação se poderá verificar. Segundo a doutrina moderna, a evolução é descontínua e a diferenciação das espécies pode sofrer períodos de estagnação. A seleção opera apenas como um agente destrutivo.”

Embora as objeções de Hogben, biologista de mérito, sejam de considerar, Huxley contraria-as nos seguintes termos:

“A evolução revelada pelos fósseis é, essencialmente, um processo contínuo. Além disso, os efeitos de uma dada mutação serão diferentes segundo as combinações que o gene modificado apresenta, e dependentes da ação do meio ambiente que os pode, também, encobrir e modificar. Desta forma, o resultado será que, para todos os fins práticos, muitas das variações de uma espécie, num dado jnomento, serão contínuas e muitas das suas modificações se traduzirão por variações progressivas, embora mínimas, de geração para geração.

Daqui resulta que nem as mutações nem a seleção são, por si só, geradoras de qualquer coisa de importante na evolução, mas que as duas, em conjunto, são criadoras.”

Muito pelo contrário, partindo dêsses dois princípios universalmente aceitos, vamos tentar, nas páginas que se seguem, mostrar como se operou a transformação, a evolução e, em muitos casos, a extinção das espécies vegetais e animais.

Para Isso teremos, embora sumàriamente, de nos referir às condições do meio, isto é, às transformações operadas no ambiente climático e geológico.

A PALEONTOLOGIA

A Paleontologia, auxiliar precioso da História Natural, vive sob a alçada das leis gerais da. Biologia. Não podendo vencer, totalmente, a dificuldade que consiste na pesquisa de fósseis, por meio de escavações a grande profundidade (seria necessário, por vêzes, escalar dezenas de quilômetros), a ela se deve, no entanto, a descoberta do que podemos chamar as pontes de passagem que permitem filiar certos grupos de plantas e de animais (hoje evoluídos) em grupos primitivos, com um grau muito menor de diferenciação. E só por via dela, pelo estudo apurado e prático’ dos fósseis e pela sábia aplicação e interpretação das leis biológicas, foi possível estabelecer essa necessária correlação.

Entretanto, é preciso dizer que o estudo dos fósseis não é uma ciência tão recente como à primeira vista podería supor-se. Por êle se interessaram os filósofos da Antiguidade e até os alquimistas da Idade Média, se bem que a verdadeira natureza dos fósseis só viesse a ser estabelecida e revelada por Leonardo da Vinci, no fim do século XV, e, ao depois, confirmada por Bernard Pallissy, no último quartel do século XVI.

É curioso referir até que Pallissy, simples oleiro de profissão, teve a audácia científica de sustentar, contra a opinião dos escolásticos doutores da Sorbon-ne, a teoria revolucionária da verdadeira origem das conchas e dos esqueletos calcificados dos peixes.

Mais tarde, já em fins do século XVIII, Gaillard, enunciando o princípio da continuidade das massas minerais, estabelece os fundamentos da estratigrafia.

É porém Buepon, grande naturalista francês, quem, nos seus livros Teorias da Terra e Épocas da Natureza — onde se estabelecem, para o nosso globo, uma duração de, pelo menos, 75.000 anos e a sua divisão em épocas — lança as bases da Paleogeografia, onde existem implícitas as idéias gerais da evolução.

Os fins do século XVIII e começos do XIX marcam o apogeu das ciências naturais.

Cuvier, criador da Anatomia Comparada e que enunciou o princípio genial da correlação das formas, embora criacionista e fixista, sugere, de maneira indireta, a noção fundamental e verdadeira do aperfeiçoamento gradual do mundo organizado. Pode assim considerar-se o verdadeiro fundador da Paleontologia moderna.

E o que Cuvier fêz com os vertebrados, fêz La-marck com os invertebrados, descobrindo e revelando o parentesco entre os fósseis conhecidos e as formas vivas atuais.

Lamabck, porém, tal como Saint-Hilaire, era evo-lucionista, tendo formulado na sua obra Filosofia Zoológica, publicada em 1809, o princípio, hoje geralmente aceito, de que os sêres descendem uns dos outros por transformações, sendo necessário estabelecer a sua genealogia.

Para encerrarmos êste ligeiro escôrço da história da Paleontologia, temos que lembrar ainda Marcellin Boule, a quem a ciência deve o seu máximo desenvolvimento, e os trabalhos mais recentes, mas valiosos, quer pelo seu conteúdo fundamental, quer pelo seu espírito inovador, do grande biólogo inglês Julian Hux-ley.

5 - O QUADRO GERAL DAS ERAS

M açamos agora um estudo sumário das formas / A vivas através das diferentes épocas, estudo êsse que reputamos necessário quer por uma razão cronológica, visto tratar-se de um livro que pretende referir-se a tôdas as épocas, quer por admitirmos o princípio da continuidade da vida, de que resultou o propósito de estudarmos o Homem antes de êle se ter revelado como tal. Para melhor compreensão, tracemos, porém, prèviamente, o quadro das Eras com suas divisões e períodos, segundo a classificação universalmente adotada.

A ERA ARCAICA

Comecemos, pois, pela Era Arcaica.

Esta Era corresponde, segundo Boule, a uma espessura de terrenos que excede os 50 quilômetros. Divide-se em dois períodos: ao primeiro, o Laurenciano, representado por 8.000 metros de rochas cristalinas e 6.000 metros de outras rochas destituídas de fósseis, segue-se o Algônquico, com mais de 15 quilômetros de espessura e em que aparecem os seus primeiros vestígios. Êstes dois períodos foram separados por uma época de grandes movimentos orogênicos, devendo ter--se começado a formar nela a cadeia huroniana a que já fizemos referência e de que se encontram ainda traços evidentes no Canadá Setentrional.

QUADRO DAS PRINCIPAIS DIVISÕES GEOLÓGICAS E DOS SEUS CARACTERES PALEONTOLÓGICOS

Eras e Períodos geológicos Plantas Inver- tebrados Verte- brados

QUATERNÁRIA OU ANTROPOZÓICA Holoceno Plistoceno Atuais Atuais Reino do Homem

TERCIÁRIA OU CENOZÓICA Plioceno MíOCENO Oligoceno Eoceno Reino das Angiós- pérmicas Reino dos Acéfalos e dos Gaste-rópodos Numulites V Reino dos Mamí feros

SECUNDÁRIA OU MESOZÓICA Cretácico JURÁSSICO Triásicü Reino das Gim- nospér- micas* Reino dos Amoni-tes e dos Belem- nites Primeiras Aves Reino dos Répteis

PRIMARIA OU PALEOZÓICA PÉRMICO Carbônico Devônico SlLÚRICO CÂMBRICO Reino das Cripto- gâmicas vascu- lares Reino dos Braquiópodos e dos Trilobites Primei ros Répteis Reino dos Peixes grandes

ARCAICA 1 Fósseis quase inexistentes

Os fósseis do período Algônquico, constituídos prin-cipalmente por radiolários (protozoários simples com carapaça siliciosa), foram descobertos na Europa Setentrional e na América do Norte, onde também há vestígios de bactérias e das simples algas azuis que deviam povoar as águas doces. A essas algas azuis, de que ainda há representantes na flora atual, se devem as massas calcárias de Montana, fenômeno semelhante ao que se observa nas águas termais de Yellowstone ark, onde estas algas, tantos milhões de anos depois,

formam idênticas concreções.

A pobreza de fósseis da Era Arcaica (pois a êste limitado número de espécies se reduz) é devida, principalmente, ao metamorfismo, fenômeno a que já aludimos várias vêzes.

A ERA PRIMARIA

A Era Primária, que se lhe segue, já é, porém, caracterizada por uma flora e uma fauna mais abundantes e definidas, sendo de notar que os terrenos a que corresponde são, em geral, muito-pregueados e formados por rochas sedimentares, por vêzes cristalizadas, o que lhes imprime uma facies primitiva.

Pelos estudos estratigráficos, chegou-se à conclusão de que esta era foi marcada, logo de início, por um longo período glaciar, período que se voltou a repetir no comêço da segunda fase. Foi assinalada, também, por grandes perturbações orogênicas e vulcânicas, tendo-se erguido nela completamente, embora em épocas muito distanciadas, as cadeias huroniana e herciniana, que correspondem à segunda fase atrás mencionada.

Foi nesta época, como o demonstrou Marcel Ber-trand, que se começou a observar o fenômeno da expulsão dos mares para o Equador e a conseqüente expansão dos’continentes para o Sul.

É curioso assinalar que, enquanto no Hemisfério Norte os continentes são representados por três massas, que no fim do período Carbônico lhes dão o aspecto de um grande arquipélago, no Hemisfério Sul existe um único continente, o de Gonduana (cujo nome lhe vem da parte atual da Índia que lhe corresponde), e que preenchia o espaço hoje ocupado pelo Sul da Ásia, Atlântico-Sul, África e América do Sul, continente que se deve ter conservado unido até ao comêço da Era Secundária. A esta conclusão se chegou não só pelo estudo dos terrenos, mas principalmente pela aplicação prática dos princípios gerais da Paleontologia e da Bio-geografia. É uma ilação que se tira da existência de formas vegetais comuns e da idêntica evolução da fauna terrestre. Também pelo estudo dessa fauna e dessa flora se estabeleceu, rigorosamente, a evolução climática do Globo. Ficou-se sabendo, assim, que êsse clima variou intensamente, passando, por vêzes, do tropical ao ártico, o que se explica quer pela deslocação periódica dos pólos, quer pelo alteamento das terras, quer pela modificação geográfica dos continentes. Constatou-se, desta forma, a existência de glaciares na China e na. Austrália, no início do Câmbrico, enquanto que no Devônico êsses glaciares aparecem na África do Sul, ao mesmo tempo que a Europa e a América do Norte são flageladas por um clima desértico. Mas a constatação mais impressionante é a de que, no Silúrico, a terra se beneficiou de um clima subtropical uniforme, conclusão a que se chegou por se terem verificado, em tôdas as latitudes, idênticas formações coralíferas. Para êste fenômeno os sábios ainda não encontraram explicação científica convincente. Outro fenômeno impressionante é o da abolição das estações durante o período Carbônico. Pelo estudo dos restos fósseis dos caules e pelo exame das asas dos enormes insetos de então, concluiu-se que a temperatura devia ser elevada e constante e a atmosfera límpida, dadas as côres vivas das asas, ainda hoje .visíveis, dos fósseis dêsses mesmos insetos. A pequena ou quase nula amplitude térmica deduz-se do fato de os caules não apresentarem sinais da estrutura concêntrica que marca a seqüência das estações e a sua passagem.

Embora sejam várias as explicações para esta abolição das estações, não se pode excluir aquela a que já fizemos várias vêzes referência, isto é, a coincidência do plano do Equador com o plano da eclíptica.

No Pérmico, o clima ameno do Carbônico é substituído por um clima desértico que se estende a tôda a Terra.

A VIDA VEGETAL

Vejamos, agora, a evolução da vida vegetal.

Temos que considerar, em primeiro lugar, a flora aquática e, em especial, as algas de que começam já a revelar-se formas diferenciadas e pluricelulares. As primeiras formas terrestres a aparecer são os musgos que, segundo Perrier, não passam de algas modificadas com um talo que se ramificou pouco a pouco, esboçando folhas e formando um órgão de fixação.

Mesmo posteriormente a esta conquista da Terra, os grupos vegetais não são muito numerosos. Durante tôda a era dominam as Criptogâmicas, aparecendo, no último período, as Gimnospérmicas, de que algumas espécies chegaram até nós.

Entretanto, com as Criptogâmicas vasculares, que já possuem verdadeiros órgãos diferenciados e onde a seiva percorre vasos apropriados, a flora primária atinge o seu pleno desenvolvimento. Dela fazem parte as Pteridófitas — cavalinhas e fetos gigantes de troncos enormes e poderosas raízes que constituíram as grandes florestas de então — e, também, no último período, algumas Fanerogâmicas — árvores de grande porte já com flores masculinas e femininas. Algumas destas árvores atingiam 30 e 40 metros de altura e eram semelhantes às nossas araucárias. Entre êstes dois grupos, e estabelecendo a transição entre êles, devemos mencionar ainda as Pteridospêrmicas, com folhas semelhantes às dos fetos e que já possuíam sementes.

A VIDA ANIMAL

No reino animal, os primeiros vestígios fósseis dizem respeito aos Protozoários, de invólucro rígido, e em especial aos Foraminíjeros, de carapaça calcária. Dos rotozoários de consistência mole, constituídos pela tal gôta de protoplasma nu, perderam-se, como é óbvio, todos os traços, o que não quer dizer que não possamos afirmar a sua anterior existência.

Nesta época encontram-se mais ou menos representados todos os invertebrados, alguns característicos de cada um dos seus períodos e de que, embora com alterações, ainda hoje há exemplares. São êles os Celen-terados — os mais simples dos animais pluricelulares — representados, atualmente, pelas hidras, os corais e as anêmonas, merecendo especial atenção, entre os desaparecidos, o subgrupo dos Graptólitos, próprios dos terrenos silúricos e câmbricos e muito abundantes em Portugal nos terrenos xistosos.

Êstes Graptólitos são a forma mais simples de colônia animal, com os vários indivíduos a se comunicar entre si por um canal comum de que são apenas di-vertículos.

Representam uma transição para a forma definitiva de animais mais complexos que, depois de terem passado por uma fase em que cada indivíduo assume uma função diversa, retornam à condição de partes diferenciadas do mesmo indivíduo, restabelecendo, assim, a unidade do ser.

Não podemos deixar, também, de fazer referência aos Braquiópodos, — sêres característicos desta época e muito abundantes nos terrenos primários portuguêses — animais estranhos que, parecendo exteriormente, pela sua concha bivalve, moluscos lamelibrânquios, têm uma constituição interior semelhante à de Vermes que tivessem sofrido uma cefalização.

Ponhamos de parte os Vermes, que existiam na Era Primária e de que parecem ter derivado grupos hoje completamente distintos, como os Equinodermes e os Moluscos. Êstes Equinodermes, cuja larva é semelhante a um verme com cinco segmentos, que nada livremente, só por modificações ulteriores (pré-adaptação ao meio exterior e taquigênese, isto é, apressamen-to da ortogênese) aquiriram a carapaça calcária e o aspecto radiado que os caracteriza. E o mesmo se dá com os Moluscos — animais de corpo mole — que, de extremamente simples no início da Era Primária, posteriormente e por transformações sucessivas acabaram por assumir o aspecto de verdadeiras obras de arte natural. Outro curioso grupo possivelmente derivado dos mesmos, é o dos Artrópodos que, como o seu nome indica, são animais com apêndices locomotores articulados. As suas formas mais simples começam a aparecer no Câmbrico, e ainda hoje se encontram, embora excepcionalmente, alguns raros representantes seus nos limites do desaparecido continente de Gonduana.

Devemos mencionar também, como derivados dêles, os Trilobites, os Crustáceos mais representativos da Era Primária que, não obstante a sua extraordinária abundância e a sua disseminação por todos os mares, se extinguiram de todo. O seu desaparecimento, biologicamente estranho, só pode ser atribuído, e isto por dedução, . a terem servido de alimento a outras formas mais desenvolvidas de Artrópodos melhor armados, pelos seus órgãos de preensão e trituração, para os combates implacáveis da concorrência vital.

Temo-nos referido, até aqui, a sêres exclusivamente aquáticos, pois tudo leva a crer, como já o afirmamos, que foi no seio das águas — mas não nas águas profundas, como a princípio se supôs — que a vida primeiro se manifestou. A primitiva hipótese foi posta de parte por não se encontrarem vestígios, nas águas profundas, das formas arcaicas que se supunha habitá-las. Foi, pois, a fauna pelágica (das águas superficiais) a mais abundante e aquela que, pela sua capacidade de adaptação e potencial evolutivo, deve ter iniciado a conquista da Terra. Fê-lo, certamente, por intermédio de sêres pouco numerosos e com uma conformação especial para se defenderem da instabilidade ambiente e da escassez dos meios de subsistência.

Os ovos dêstes animais (quase todos hermafrodi-tas) eram volumosos para assegurar, nos primeiros tempos, a sua subsistência, o que revela uma sábia previsão da natureza. A natureza é econômica. E se os ma-, chos servem apenas, biològicamente, para perpetuar as espécies (veremos mais tarde como os efeitos desta lei se repercutem, também, na espécie humana) é lógico que êles sejam aproveitados no seu máximo rendimento.

Para isso, ou o macho se funde com a fêmea num único organismo, como acontece com a maioria dos vermes e com alguns moluscos, ou fica reduzido a proporções mínimas, uma espécie de parasita da fêmea, que se mantém convenientemente grande. É o caso da Bonélia — de que foram encontrados em Portugal alguns raros exemplares no Portinho da Arrábida* — em que a fêmea tem a configuração e o tamanho de uma noz verde-garrafa ao mesmo tempo que o macho, que vive fixado no corpo da fêmea, não ultrapassa as dimensões de um ser microscópico.

Só depois de um estádio nas águas doces é que os sêres vivos atingiram a terra firme, primeiro sob a forma de Anfíbios, de que continua, atualmente, a haver exemplares e, finalmente, com as diferentes formas que depois apresentam.

Para isso tiveram, porém, de desenvolver'membros para caminhar e de sofrer modificações no seu aparelho respiratório. Esta modificação fêz-se, entretanto, por etapas. De comêço possuíam brânquias, para viver na água, e só mais tarde adquiriram pulmões, embora rudimentares.

Onde a adaptação definitiva às condições de vida terrestre se efetuou mais ràpidamente foi, porém, em determinados grupos de Artrópodos, como os Aracnídeos e os Miriápodos.

Dos Aracnídeos o grupo dos escorpiões deve ser o mais antigo, não só por ser o primeiro a aparecer (já se encontram vestígios nos últimos tempos do Silúrico), mas porque o seu aparelho respiratório (pelo que se sabe da sua anatomia atual) representa a forma mais simplificada de órgãos de respiração aérea.

Dos Insetos não se conhecem fósseis antes do período Carbônico, mas êsses fósseis estão, em geral, bem conservados. Os Insetos primitivos revelam menor diversidade do que a que caracteriza os atuais, pertencem aos grupos que possuem metamorfoses incompletas e são notáveis pelo seu grande tamanho, pois muitos dê-les — como a libélula do Carbônico — exibem asas coloridas com 70 centímetros de envergadura.
O aparecimento dos Insetos marca uma nova fase na conquista da Terra, pois contribuíram imensamente para a expansão e propagação da vida.

A disseminação das plantas, que se fazia, apenas, com o auxílio das águas e dos ventos, passa a fazer-se, também, por seu intermédio função essa em que atualmente colaboram. Também foram êles que inauguraram as asas na vida biológica fato de incalculável importância.

, SURGEM OS VERTEBRADOS

Esboçada, em linhas gerais, a evolução dos sêres até à conquista da Terra — isto é, até ao momento em que atingiram respiração aérea e órgãos locomotores — vejamos agora como apareceram os Vertebrados, grupo a que pertencem os homens.

A êsse respeito sabe-se apenas que os animais de corpo mole ou, quando muito, endurecido por um invólucro rígido, a que fizemos referência, acabaram, ao cabo de lenta e continuada série de fenômenos desconhecidos nos seus pormenores mas inteligíveis nas suas linhas gerais, por adquirir um eixo de sustentação do corpo tal como acontece aos vegetais. A ponte de passagem entre êles e os invertebrados deve ter sido o Anfioxo, de que ainda aparecem exemplares nas águas oceânicas e, até, nas costas portuguêsas.

Como em muitos outros aspectos de evolução, a Paleontologia revela, aqui, uma grande lacuna, pois se nos elucida sôbre as formas primitivas dos Peixes, — talvez por falta de escavações suficientes ou das suas pequenas possibilidades de fossilização — pouco ou nada nos diz sôbre a sua verdadeira origem. Entretanto, está provado que os Vertebrados surgem nesta era, — a partir do Devônico — quer nas terras, quer nos mares.

Os primeiros a considerar são os Batráquios, com a sua respiração mista e uma fase embrionária complexa que parece reproduzir as fases da sua lenta e multimilenária evolução. Descobertos pela primeira vez no Devônico, apresentam uma corpulência enorme em relação aos atuais, pois alguns chegam a atingir 2 metros de comprimento. Aparentados com os Peixes pela existência de uma espécie de opérculo, possuem dentes e são carnívoros. Em compensação, porém, já são, nos últimos períodos, bastante semelhantes aos Répteis e é com os Répteis que se consolida definitivamente a conquista da Terra, pois são os primeiros sêres que possuem, desde que nascem, uma respiração exclusivamente pulmonar.

Tendo surgido no fim da Era Primária (período Pérmico), são de pequena estatura e apresentam um esqueleto primitivo que sugere vastas possibilidades de evolução.

Também no Pérmico aparecem, pela primeira vez, os Anomodontes e os Terodontes (fósseis encontrados na Europa e na África Austral), Répteis que, pela configuração do crânio, disposição da bacia e morfologia da coluna, se aproximam bastante dos Mamíferos.

A ERA SECUNDARIA

Na Era Secundária, mais curta em duração e melhor conhecida, as massas continentais do Hemisfério Norte — que, como vimos, eram semelhantes a um grande arquipélago — começam a consolidar-se em tôrno dos terrenos primários. Cria-se, assim, o continente sino-siberiano, que se estende por quase tôda a Asia, dando-se, também, uma junção entre a terra es-candinávia e a terra algônquica. Entre êstes dois continentes formou-se, necessàriamente, uma espécie de Mar Mediterrâneo.

No Hemisfério Sul começa o desmembramento do continente de Gonduana, que se divide em dois: um continente Africano-Brasileiro e um continente Aus-tralo-Indo-Malgae.

Admite-se, além disso, a existência de um continente no espaço ocupado pelo Pacífico atual.

A Era Secundária, ao contrário da Primária, caracterizada por sucessivos avanços e recuos dos mares e por uma orogenia tumultuosa, parece ter sido relativamente tranqüila, se bem que haja vestígios de erupções vulcânicas e se assista, já no fim, ao comêço da elevação dos Carpatos e a modificações que conduzem à formação definitiva dos continentes atuais.

Também no Hemisfério Sul, no fim desta era, são importantes as transformações. O continente Australo--Indo-Malgae, já separado em três pedaços no Juiássico, desmembra-se completamente, devendo, nessa altura, ter desaparecido o hipotético continente do Pacífico.

A evolução climática da Era Secundária é suficientemente conhecida. De início a temperatura parece ter sido elevada e constante em todo o Globo, o que se infere da existência de formações coralíferas em latitudes elevadas, de uma flora tropical, e da larga disse minação de Répteis. Posteriormente, contudo, deve ter--se dado um arrefecimento progressivo do Equador para os pólos, pois deixa de se fazer, a partir de certas latitudes, a formação de massas coralíferas, começando então a aparecer árvores de folhas caducas que indicam a necessidade de se proteger contra um clima hostil.

As Criptogâmicas vasculares e as Gimnospérmicas, que caracterizam o fim da Era Primária, sofrem, também, grandes transformações. As Criptogâmicas apro-

• ximam-se cada vez mais das suas formas atuais, ceden-

do o seu domínio às Gimnospérmicas, que chegam a atingir 30 metros de altura como o atestam as florestas petrificadas do Triásico da América. Destas Gimnospérmicas algumas chegaram até nós quase nas suas formas primitivas, como essa espécie de pequenas palmeiras conhecidas por Cycas, abundantes nos países tropicais e que servem de elemento ornamental nas regiões temperadas.

A modificação mais importante da flora secundária é, porém, o aparecimento das Angiospérmicas, que surgem, possivelmente, nos fins do Cretácico. As Angiospérmicas marcam a última etapa do desenvolvimento vegetal e caracterizam-se, como é sabido, pela existência de órgãos reprodutores inteiramente diferenciados — flôres definitivas que a natureza se encarregará de colorir e perfumar para atrair os insetos e assegurar, dessa maneira, a propagação das espécies.

VIDA ANIMAL.

A fauna do Globo apresenta durante esta época modificações muito importantes e muito curiosas. Sobre os Invertebrados, de que algumas espécies vão desaparecendo, nada há a acrescentar de especial ao que dissemos atrás. Mas já não se dá o mesmo com os Vertebrados. Assistimos, atrás, ao aparecimento das suas formas primitivas — os peixes Ostracodermes — e historiamos, embora de maneira geral, os aspectos que foram revestindo para passarem de uma vida exclusivamente aquática para uma vida terrestre. Isto não quer dizer que alguns, de que são representantes os peixes atuais, não tivessem adotado, definitivamente, o seu meio primitivo. Mas, mesmo nesses, a evolução se deu no mesmo sentido, que é o da ossificação gradual do esqueleto.

BATRÁQUIOS

Quanto aos Batráquios, que conservaram durante a Era Primária a forma arcaica, vão assumindo, aos poucos, o aspecto que revestem as suas formas atuais.

Esta era caracteriza-se, porém, pelo extraordinário desenvolvimento dos Répteis. É a época dos monstros, chamados impròpriamente antidiluvianos, — sabe-se lá quantos dilúvios não houve antes e depois? — cuja sombra pré-histórica ainda povoa, por um processo desconhecido de rememorização arcaica, a imaginação delirante dos loucos e a fantasia criadora dos artistas. Dêles nasceu, possivelmente, o mito dos dragões e talvez o misterioso pavor que ensombra as noites trágicas de certos psicopatas.

Revestindo as formas mais diversas e os mais diversos tamanhos, terrestres ou aquáticos, todos êles possuem, de início, a característica comum de terem dentes idênticos, implantados numa maxila superior, constituída por várias peças.

Alguns são pequenos e rastejantes, como a maioria dos répteis atuais; outros, porém, caminham aos saltos, o que é atestado pelo tamanho menor dos seus membros anteriores, e assumem proporções ciclópicas que, no caso, por exemplo, dos Dinossauros, chega aos 30 metros e mais de comprimento.

No Período Triásico são também abundantes os Teromorfos, que predominaram no Pérmico, forma primitiva de Répteis que estabelece a ligação entre as duas épocas. Dêles derivaram os Terodontes que, como o seu nome indica, têm uma dentição semelhante à dos Mamíferos. E se lhe fazemos especial referência é porque, segundo as melhores opiniões, dada a conformação do seu esqueleto, dêles devem ter derivado os referidos Mamíferos.

Também no Triásico (primeiro período da época secundária) aparecem os Quelônios, de que são hoje representantes, embora muito evoluídos, os cágados e as tartarugas.

Nos dois períodos seguintes continuam a revelar-se as formas mais diversas de Répteis e entre elas os Mo-sassáurios, que chegam a atingir de 2 a 15 metros de comprimento e que apresentam as características de terem trocado gradualmente o seu habitat terrestre por uma vida exclusivamente aquática. Tendo seguido uma evolução contrária à da maior parte dos sêres vivos,

— e talvez por isso, apesar da sua grande abundância

— o seu período áureo foi curto, desaparecendo definitivamente no fim do Cretácico.

É a ocasião de nos referirmos aos Crocodilos — uma das poucas formas atuais sobreviventes dos grandes Répteis — que atingiam, então, ainda maior corpulência. De todos os Répteis eram os mais aperfeiçoados anatômicamente, pois o seu coração possuía já as quatro cavidades que caracterizam o coração das Aves e dos Mamíferos. Segundo Pekrier, admitindo uma velocidade de crescimento lenta como a dos atuais (o que é muito discutível) e dado o seu enorme tamanho, — alguns excediam 35 metros — a duração média da sua vida oscilava entre 500 e 600 anos.

Mas as formas mais representativas desta época fabulosa são as dos Dinossauros, cujo comprimento vai de alguns centímetros a três e mesmo quatro dezenas de metros. São as espécies mais abundantes e também as mais ferozes, como o atesta a sua possante dentadura.

Entre êles, é curioso mencionar os Avipélvicos, assim chamados por terem uma conformação da bacia semelhante à das aves e por serem freqüentemente bípedes. Ao contrário do que se podia supor, não são antepassados das aves, representando apenas, segundo as mais abalizadas opiniões, um ramo desviado de antepassados comuns.

Todos êstes Dinossauros, depois de uma longa passagem pela Terra, desapareceram bruscamente, e Boule atribui êste brusco desaparecimento a modificações geográficas e climáticas a que não se puderam adaptar, dado o grau elevado da sua evolução.

Também é de considerar a hipótese dos seus ovos serem destruídos pelos mamíferos cuja evolução estava no início e se iria precipitar daí em diante.

Não podemos, no entanto, terminar êste ligeiro es-côrço sôbre os Répteis da Era Secundária sem nos referirmos a unia das suas formas mais interessantes, que marca, por assim dizer, um dos episódios mais curiosos da conquista do mundo pelos vertebrados.

É a dos répteis voadores ou Pterossauros, de grande cabeça, pescoço longo, tronco reduzido e com cauda, que se extinguem definitivamente no Cretácico.

Embora semelhantes às aves, não são considerados, também, seus antecessores, mas formas distintas de convergência da evolução dos sêres para a conquista do ar por um processo de adaptação semelhante ao dos morcegos.

Entretanto, esta conquista do ar pelos vertebrados através dos Pterossauros é puramente transitória e só se toma definitiva com as aves. Só elas, de fato, pelas suas características (ossos leves e ocos, asas, solidamente implantadas e bem musculadas, e grande mobilidade da coluna cervical), conseguiram tornar o ar o seu elemento natural.

Os primeiros exemplares datam do fim do período Jurássico. Dos dois fósseis encontrados no calcário li-tográfico da Baviera, em 1876, um dêles é o conhecido Archeopterix, que se encontra atualmente no museu de Berlim. Trata-se de um animal estranho, misto de Ave e de Réptil, com asas como as aves, cauda guarnecida de penas e bacia semelhante às corredoras atuais mas com dentes implantados em alvéolos.

Depois dêste tipo, que se pode considerar intermediário, as aves aparecem com tôdas as suas características habituais a partir do Cretácico.

É ainda nesta era que surge o grupo mais diferenciado dos Vertebrados — o dos Mamíferos — já com todos os caracteres dos atuais mamíferos inferiores.

Os seus fósseis foram encontrados pela primeira vez em 1812, perto de Oxford, nos terrenos do Jurássico, parecendo no entanto que na América — o que se deduz de ulteriores descobertas — deviam ser muito mais abundantes.

Êstes Mamíferos primitivos são todos de pequeno porte, mas evidenciam já grande adaptação a diferentes modos de vida. Assim, alguns são herbívoros e outros carnívoros, embora sejam todos aparentados com os Marsupiais — os primeiros representantes dos verte-fósseis é indiscutível.

O nome de placentários resulta do fato de o embrião se desenvolver no útero materno, alimentando-se à custa da mãe através da placenta. Na verdade, com exceção dos Monotremos, — os mamíferos mais rudimentares que são ainda ovíparos — todos os outros são vivíparos. Os Marsupiais representam, portanto, uma transição entre os dois grupos, pois a evolução embrionária não é totalmente intra-uterina, terminando na chamada bôlsa marsupial. Entretanto, só no Cretácico é que aparecem Marsupiais nitidamente definidos.

Pela grande abundância de Mamíferos placentários que se observa logo no início da Era Terciária, é forçoso chegar à conclusão de que o seu aparecimento é muito anterior, fato confirmado pelas escavações feitas no Cretácico da Mongólia, onde a presença dos seus fósseis é indiscutível.

A ERA TERCIÁRIA

Se a Era Secundária pode ser considerada pobre em fenômenos orogênicos que apenas se manifestam mais violentamente nos últimos tempos pela formação das Montanhas Rochosas e da Cordilheira dos Andes, a Era Terciária é caracterizada pelo levantamento dos grandes continentes, tais como hoje se nos apresentam.

A Atlântida da Era Secundária — a Atlântida que se tem prestado a tão imaginosas fantasias — vai desaparecendo lentamente para dar lugar ao oceano Atlântico, conservando apenas sôbre as águas os cumes das suas mais altas montanhas, representadas atualmente pelas ilhas dos Açores, pela ilha da Madeira e pelas Canárias.

O grande Mediterrâneo da Era Mesozóica vai também diminuindo de tamanho, até se reduzir às suas atuais dimensões. No início do Oligoceno formam-se os Pireneus, e nos fins do Mioceno, no meio de ciclópi-cas convulsões vulcânicas, levantam-se, abruptamente, os Alpes e o Himalaia. Esta atividade vulcânica não se circunscreve à Europa e manifesta-se, ainda mais violentamente, nos terrenos que constituem hoje as Américas do Norte e do Sul.

O último grande movimento orogênico, aí observado, traduz-se por um nôvo levantamento das Montanhas Rochosas, que adquirem então, descontada a erosão que começa já a rebaixá-las, a configuração que possuem atualmente.

VIDA VEGETAL

Pelo que diz respeito ao clima, observa-se, no decorrer desta era, um arrefecimento gradual, sendo curioso fazer notar que só nos pólos a temperatura ainda se conserva, relativamente elevada e constante. As estações, que tinham desaparecido, começam, de nôvo, a diferenciar-se e os invernos a serem, correspondentemente, mais longos, o que se deduz do maior desenvolvimento das árvores de folhagem caduca. Êste arrefecimento produz um extraordinário incremento da vegetação, em especial das Angiospérmicas, que, como vimos, tinham aparecido nos últimos períodos da Era Secundária.

Nos terrenos úmidos formam-se extensos prados de Gramíneas, formação que coincide com o grande aumento de Mamíferos ruminantes. Entretanto, à medida que o arrefecimento se acentua, a vegetação vai-se deslocando para o Sul, tornando-se muito abundantes as árvores de grande porte.

VIDA ANIMAL

Se bem que a distribuição geográfica dos Invertebrados seja diferente, as suas espécies atingem, nesta época, o seu estádio atual.

Quanto aos Insetos, aumentam em número mas diminuem em tamanho, tendo-se chegado à conclusão, pelas espécies que então existiam na Europa, que esta se deve ter beneficiado, durante um longo período, de um clima quase tropical.

Dos Vertebrados observa-se, como já foi dito, o desaparecimento brusco dos grandes Répteis. Persistem apenas os pequenos Répteis (com exceção dos crocodilos, que também diminuíram de tamanho), que já revestem as suas formas atuais.

As Aveç perdem completamente a fisionomia repti-liana, aproximando-se, ràpidamente, da configuração que hoje nos apresentam. Dada a sua extraordinária abundância em todos os continentes, os fósseis mais importantes desta época são os dos Mamíferos. Revelam, em relação aos primitivos exemplares, modificações substanciais que correspondem, de certa maneira, às transformações geológicas e climáticas sofridas pela Terra.

Aparecem ainda as formas inferiores, Mamíferos ovíparos como os Monotremos, representados atualmente pelo ornitorrinco e pela équidna. Podem ser considerados animais de transição e são um precioso auxiliar para a história dos sêres vivos, pois apresentam formas mais rudimentares do que qualquer outro grupo de Mamíferos.

Os Marsupiais — a que já fizemos referência a respeito da Era Secundária — persistem na Terciária e até na Quaternária, com o canguru. É, porém, com os Mamíferos placentários, isto é, com as formas mais elevadas dêste grupo na escala zoológica, que a fauna terciária atinge o seu máximo desenvolvimento. Êstes Mamíferos adaptam-se a todos os meios e a todos os modos de vida, tornando-se, nesta era, com manifesto prejuízo das outras espécies animais, os senhores da Terra.

Como acontece sempre que se desenvolvem formas muito diferentes, muitas delas desapareceram completamente ou deixaram raros representantes na fauna atual. Contam-se, entre estas últimas, o grupo dos Proboscídeos, de que possuímos um único gênero, o elefante, com duas espécies — a africana e a asiática — e que são os mais corpulentos animais terrestres de hoje. Êstes animais atingiram, na Era Terciária, formas gigantescas, de que é exemplo o Mastodonte, com as suas prêsas de mais de três metros de comprimento.

Mas os Mamíferos não conquistaram apenas a terra firme. Alguns preferiram, por circunstâncias e razões desconhecidas, retomar à sua primitiva situação aquática. Os membros transformaram-se, então, em barbatanas e a cauda adquiriu a configuração de um leme. Foi o que aconteceu com os Cetáceos, que substituíram, pela sua corpulência, os Répteis dos tempos secundários, pois alguns, como certas baleias, chegam a atingir 30 metros de comprimento. E também entre êstes Mamíferos aquáticos se observa a distinção entre carnívoros e herbívoros, de que são representantes atuais os Sirenídeos.

As formas terrestres vão, entretanto, modificar-se e apresentar os aspectos mais variados, especialmente no que diz respeito à dentição e à adaptação dos membros.

A dentição começa a manifestar-se de acordo com a forma de alimentação, do mesmo modo que' o processo de locomoção passa das formas plantígradas, em que tôda a pata assenta sôbre o solo, às formas un-gulígradas (mediante estados intermédios — o digití-grado e o falangígrado), que permitem maior velocidade de marcha.

Perhier faz notar, até, um aspecto muito curioso da evolução pelo que diz respeito às funções dos membros anteriores e posteriores: enquanto êstes se tornam mais sólidos, e parecem firmar-se mais vigorosamente sôbre o solo, aquêles tendem a assumir funções diversas, tornando-se mais pequenos nos animais que saltam, ou adaptando-se ao vôo, como nos Quirópteros. Veremos, a seu tempo, a relevância desta observação pelo que diz respeito ao Homem, em que a especial configuração dos membros superiores e a formação das mãos contribuiu quase tanto para a civilização como a sua capacidade craniana e o pêso e diferenciação da massa cerebral.

No período Eocênico encontram-se já representadas quase tôdas as espécies atuais, sendo idêntica a fauna da Europa e da América do Norte, o que, daí em diante, devido as transformações geológicas, deixará de acontecer.

Aparecem já os Roedores, os Perissodáctilos (hoje representados pelos cavalos e cuja genealogia completa é fácil de estabelecer pelos fósseis encontrados), e os Artiodáctilos, que compreendem a maioria dos atuais ungulados, cujas formas extintas e antecedentes das contemporâneas apresentam, por vêzes, bem estranha configuração.

Os Insetívoros, atualmente raros e de que persistem apenas alguns exemplares, por via de adaptações especiais, eram então, muito numerosos.

Os Carnívoros, ainda hoje tão abundantes, e que parecem ser originários do Hemisfério Norte, adquirem, nesta época, uma grande diversidade de formas, depois desaparecidas, ou que chegaram até nós mediante grandes modificações.

Só durante o Plioceno é que atingiram a América do Sul e, muito mais tarde, a Austrália, onde, por isso, se conservam e mantêm algumas das suas formas primitivas.

Foi porém no Oligoceno que se éxtinguiu a maior parte das formas eocênicas e que se estabeleceram, definitivamente, as bases da fauna atual, pela formação de grupos diretamente antecedentes dos nossos cavalos, dos nossos ruminantes, etc.

O período que se segue marca um nôvo avanço na evolução dos sêres, com o aparecimento dos macacos antropomorfos. O grupo mais primitivo parece ter sido o dos Lêmures, que aparecem no início do Eocênico e cujos atuais representantes habitam a África, a Indo-Malásia e Madagáscar, tendo desaparecido completamente da Europa e da América do Norte desde o Oli-goceno.

É aos Símios que pertencem os grupos mais diferenciados de macacos, de cérebro mais desenvolvido, disposições anatômicas mais evoluídas e inteligência superior à dos outros Mamíferos, com exceção do Homem. Dêles fazem parte o grupo dos Antropomorfos — chimpanzé, gorila, orangotango e gibão — últimos ramos duma longa e bastante diferenciada cadeia evolutiva.

A ERA QUATERNÁRIA

Na Era Quartenária, também conhecida por Era Glacial e que não passa, pelos fenômenos geofísicos e pelas características da fauna e da flora, dum prolongamento da Terciária, os mares tinham, sensivelmente, os contornos dos atuais. O que a caracteriza, contudo, é justamente êsse avanço e recuo dos glaciares formados nas grandes cadeias de montanhas e que provocam sucessivas, embora espaçadas, oscilações de clima. Mas o que a individualiza e separa de tôdas as outras é um critério antropocêntrico que não pode deixar de ser respeitado, justificado pelo aparecimento do Homem.

Foram vários os períodos glaciares e interglaciares e a êles faremos mais demorada referência, nos capítulos seguintes, a propósito da sua influência sôbre a modificação, a extinção e o aparecimento das raças humanas.

É possível até que a sua diferenciação como Homem — teoria hoje aceita por alguns dos mais notáveis antropologistas e paleontologistas — se deva principalmente, se não exclusivamente, a essa instabilidade e a êsse inusitado rigor do clima.

Mas nem só sôbre o Homem agiu êsse pendular e sistemático avanço e recuo dos glaciares. A fauna e a flora também se modificaram, com especial predominância, naquela, dos grandes mamíferos, como o mamute, o elefante antigo, o rinoceronte, etc. e, nesta, com o estabelecimento das espécies vegetais contemporâneas.

A localização geográfica, quer destas espécies animais, algumas das quais se extinguiram completamente, quer das espécies vegetais, é hoje muito diferente da dos primitivos tempos, pois diferentes são, também, as condições climáticas das diversas regiões.

Assim, é certo e sabido que ao último período glaciar, que marca, possivelmente, o desaparecimento do Homem de Neanderthal e a exclusiva predominância do Homo sapiens, correspondeu, na África do Norte, na hoje estéril região do Saara, um período pluvioso que a transformou num vergei florido.

Muitas outras, em tudo o que se refere ao Homem e ao que o rodeia, foram as transformações sofridas, mas isso já diz respeito aos capítulos seguintes, em que, propriamente, se inicia o estudo de organização e evolução social do Homem, objetivo deste trabalho.

CAPÍTULO 3 - A GRANDE SOMBRA PRÈ-HISTÓRICA

O APARECIMENTO DO HOMEM E AS TEORIAS SORRE A SUA

ORIGEM

Expusemos, nos capítulos antecedentes, o suficiente para enquadrarmos o Homem no seu ambiente natural, fazendo o estudo, embora sumário, da origem e evolução da Terra e dos sêres que a habitavam até ao momento em que,
presumivelmente, o Homem aparece sôbre a face da Terra, não como um fenômeno subitâneo e misterioso — uma instantânea consciencialização do destino cósmico do Universo — mas como uma conseqüência natural do seu desenvolvimento. Posta de parte quer a doutrina teológica, quer a fixista, do seu inopinado aparecimento e criação, cujos adeptos conscientes vão rareando cada vez mais, e estabelecida, definitivamente, a origem comum, embora ainda indecifrada, de tôdas as formas da vida, resta-nos estabelecer uma ponte de passagem entre êsses sêres ditos inferiores e aquêle que é o objeto especial do nosso estudo.

Em que época apareceram os primeiros Hominí-deos? Quais os têrmos da evolução que estabelecem ligação com as espécies imediatamente superiores? São êstes os problemas, em parte resolvidos e em parte por resolver, que constituem a matéria do presente capítulo. Êstes problemas prendem-se, como não podia deixar de ser, com o problema evolutivo, a que já fizemos referência, com o das conexões intercontinentais, a que já aludimos também no nosso breve escôrço sôbre as modificações geológicas através dos tempos, e, principalmente, com o das ligações dos Homi-nídeos aos Primatas. É esta a parte mais obscura, embora a importância e quantidade dos documentos encontrados que serviu, por um lado, para aumentar a confusão e contrariar preceitos estabelecidos, por outro, tenha vindo esclarecer a questão nos seus aspectos fundamentais.

A PRÉ-HUMANIDADE

Assim — salvo algumas teimosas exceções que não são de considerar — já ninguém põe em dúvida a existência de uma pré-humanidade, e o problema perdeu, de uma vez para sempre, o seu caráter metafísico.

A transição dos tipos humanóides para os tipos caracterizadamente humanos será estudada a seguir, mas teremos antes de estabelecer uma data aproximada do seu aparecimento sôbre a Terra, a respeito da qual os tratadistas mais notáveis ainda não chegaram a completo acordo, de expor as várias conclusões sôbre a forma do seu aparecimento.

Para os poligenistas, de que Giuseppe Sehgi foi o principal representante, os Hominídeos seriam originários de seres de natureza diversa, o que explicaria as diferentes raças atuais. Esta doutrina, porém, hoje quase abandonada, foi muito abalada pelos estudos de anatomia profunda e pela possibilidade de mestiçagem fecunda de tôdas as raças humanas. Em contraposição com ela, o monogenismo de Haeckel de Sena e de Cuénot de Nancy faz partir a Humanidade de um único ser que tivesse adquirido, subitamente, características especiais ou, quando muito, de um único casal — como se Adão e Eva se tivessem evadido das páginas da Bíblia para caírem sob a alçada das leis da evolução...

Mais conforme, porém, com os atuais conhecimentos e com os resultados da investigação científica é a ologênese de Daniel Rosa de Modena, doutrina que tem como principais defensores Colosi, Stefanelli e o bem conhecido antropologista Dr. Geohge Montandon.

Para os ologenistas, os primitivos Hominídeos constituem uma única espécie, de que fazem parte não penas um, mas numerosos indivíduos que, por seu turno, teriam derivado, por uma mutação repentina, também de uma única espécie antecedente. Esta doutrina, que contraria, à primeira vista, a hipótese de um único berço da Humanidade e que parece mais conforme com a dispersão das diferentes raças sôbre a Terra, repousa sôbre o princípio ortogenético do desenvolvimento pelas forças internas, concedendo aos fatores externos apenas o poder, bastante limitado, da modelagem exterior dos tipos humanos.

De tôdas as doutrinas é, à falta de melhor, a mais considerada, não obstante a simultaneidade do caráter quase milagroso da criação, através de tôda a Terra, de tipos idênticos, sôbre que, erradamente, parece assentar.

O APARECIMENTO DOS HOMINÍDEOS

O problema da data do aparecimento dos Hominí-deos é conexo, como não podia deixar de ser, com o da sua ligação com os Primatas. Como muito bem faz notar o Dr. George Montandon, “depende da altura em que, na escala dos níveis geológicos, a linha humanói-de se enraiza”. E o sábio professor de Etnologia, esclarecendo o seu asserto, acrescenta: “Da situação dês-se nível depende, além de uma determinação cronológica, um problema de morfologia zoológica, porque, segundo essa situação, o primeiro antepassado dó Homem pode ter sido um predecessor, um contemporâneo, ou um sucessor das diversas espécies antropóides extintas ou ainda existentes com tudo o que possa comportar de relações eventuais de parentesco com elas.”

Tal como em tudo, as opiniões dos tratadistas não são unânimes sôbre a data do referido aparecimento, ou melhor, empregando a terminologia de Montandon, sôbre a altura dos níveis geológicos em que os Homi-nídeos pela primeira vez se manifestam.

Para a escola conhecida pela do Quaternário, de que o célebre antropologista alemão Weinert é o principal representante, os primeiros Hominídeos teriam aparecido no início da Era Quaternária ou, quando muito, no fim da Terciária, isto é, há cêrca de um milhão de anos.

A total ausência de fósseis, ou de quaisquer outros documentos relativos aos Hominídeos na Era Terciária, corrobora esta doutrina, visto terem que se considerar os eólitos não como produzidos pelas mãos do homem primitivo, mas como produtos da natureza.

É certo que dentro desta hipótese o tempo para a gestação da Humanidade se torna muito limitado, mas ela é conexa com a doutrina hoje mais seguida de que a separação somática dos Hominídeos se deve ter feito a partir de um dos grandes antropóides da época, como o afirma o Dr. George Montandon.

A escola do Terciário, chefiada pelo grande antro-pologista americano Osborn e seguida por Wendei-reich, diretor do Pôsto de Paleontologia Humana de Pequim, o mais importante da atualidade, não perfilha esta opinião.

Em face das suas conclusões, quer os Hominídeos, quer os Antropóides, seriam os descendentes de um antepassado comum existente no início da Era Terciária que teriam seguido caminhos diferentes. A descoberta do Sinantropus parece corroborar esta opinião.

Haveria assim duas linhas de Primatas, uma formada pelos antepassados extintos dos atuais Antropóides e outra de que fariam parte o Australopitecus e o Sinantropus de Pequim, que conduziría ao Homem. Entretanto, ainda não foi descoberto, no Terciário, o referido tronco comum, deficiência que não permite considerar esta teoria fora do campo especulativo e dedutivo.

A importância dos fósseis ültimamente descobertos e o grande desenvolvimento que, a partir de Quatre-fages, Hamy, Marcellin Boule, Eugène Dubois, descobridor do Antropopitecus, têm assumido os estudos de Paleontologia Humana permitem-nos, no entanto, fixar idéias a êste respeito.

E as mais importantes são a da origem animal do Homem, a do seu parentesco evidente com os Antro-póidès (em especial com o chimpanzé) e a da existência de uma Humanidade intermediária hoje desaparecida.

2 - MACACOS* E BOMENS

Estabelecemos na primeira parte dêste Capítulo, de maneira definitiva, a origem única da Humanidade. Posta de parte a hipótese do aparecimento simultâneo de diferentes raças de Hominídeos, proveniente de raças diferentes de Ântropóides, resta-nos estabelecer o caminho percorrido, isto é, a linha evolutiva até atingir a conhecida etapa do Homo sa-piens, de que parece derivar, em linha reta e sem quaisquer modificações importantes e essenciais, a humanidade atual. Êste problema é necessàriamente conexo com o da origem das raças, complicado, desde o seu início, pelo critério adotado da origem comum do Homem. A êste último problema nos referiremos oportunamente, e por várias vêzes, focalizando os seus diferentes aspectos, dada a suma importância que parece ter assumido para a união ou desunião dos homens a partir dos meados do século XIX. Veremos, no decorrer dêste trabalho, à parte a origem comum dos homens que representa, desde logo, uma machadada para o orgulho racista, como o critério de diferenciação em raças, assenta, muitas vêzes, sôbre bases artificiais e falsas, e como o eugenismo biológico, que sôbre êle repousa, pode, por vêzes, funcionar como um elemento perigoso para o progresso e para a marcha normal da Humanidade. O próprio encrespamento dos cabelos e a pigmentação da pele, que durante tantos anos foram considerados de altíssima importância, tidos e havidos como argumentos fundamentais para o estabelecimento e comprovação da doutrina poligenética, perderam hoje, em face dos estudos de anatomia profunda, parte dessa importância e são considerados apenas como modificações produzidas pelo meio exterior que não invalidam a unidade essencial e original da espécie.

O LUGAR DE ORIGEM DA HUMANIDADE

Mais importante — e, por isso, a êle nos vamos referir — é o problema do lugar de origem da Humanidade, isto é, do seu berço, dado que, em face da hipótese ologenética, ao contrário do que parece, difícil será de aceitar o aparecimento simultâneo dos Hominídeos em diferentes lugares da Terra.

Estamos, portanto, em presença da concepção do Paraíso Terrestre, o que mais uma vez vem comprovar o alto valor simbólico dos livros sagrados.

O preceito do ex oriente lux tão querido dos românticos, alicerçado sôbre uma tradição secular, mediante a qual tôdas as civilizações caminhariam do Oriente para o Ocidente (no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio — frase consagrada), e que estabelece que o berço, da Humanidade estaria situado aproximadamente no centro da Ásia (mais propriamente no planalto do Tibete), parece destituído de sério fundamento em face das modernas conclusões da Paleontologia e da Antropologia.

Poderão objetar-nos que nos tempos pré-históricos — e, pelo que diz respeito à civilização propriamente dita — o fato se afigura incontestável, e que a marcha da Humanidade, isto é, a predominância das sucessivas civilizações, se faz realmente no sentido clàssicamente admitido. O apogeu e decadência dos Impérios Sumerianos, do Egito, da Grécia, de Roma, com a final instalação da civilização contemporânea (essa mesmo com a relevância da América do Norte e deslocando-se para Ocidente), parecem comprová-lo. Trata-se, contudo, — e a seu tempo o demonstraremos — de mera circulação de retorno em que deve ser considerada, como manifestamente irrelevante para as conclusões definitivas, a pequena margem temporal que a história nos concede. Quando traçarmos o mapa do que supomos ser a marcha real da Humanidade, vernos-emos em face de uma circunferência sôbre uma terra planificada, com o centro situado no vale do Danúbio e traçado por um raio que descreve um movimento contrário ao até agora admitido. Simplesmente a primeira parte do percurso, isto é, a mais longa, perde-se da vista do observador superficial por estar mergulhada na sombra ainda mal esclarecida da Pré-História. Desta curva, que levou algumas centenas de milhares de anos a percorrer apenas a parte ascendente, correspondente aos últimos seis a sete mil anos, é que nos aparece visível, embora frouxa e bruxulean-temente iluminada. Daí as conclusões apressadas a que chegaram certos historiadores e o estabelecimento de aforismos a que corresponde, apenas, um mero valor mítico e poético.

Mas se o preceito a que fizemos referência ainda pode ser sujeito a controvérsias, no que se refere à marcha aparente ou real da Civilização, o mesmo já se não dá na parte que diz respeito ao Paraíso Terrestre, isto é, ao berço da Humanidade.

Quanto a isso, é desde já lícito afirmar, sem receio de sérias objeções, que, se a sua situação geográfica pode ainda ser discutida, o centro da Ásia deve, desde logo, ser excluído dessa possibilidade.

De fato, em face das mais recentes descobertas da Antropologia e da Paleontologia, não se pode inferir outra coisa.

OS ASCENDENTES

Como é sabido, o Homem, que ao que parece não foi criado de uma só vez por inspiração divina, também não descende do macaco. Adotando a classificação do Quaternário, de que Weinert é o mais alto expoente (e que se apresenta como a mais admissível em face de não se encontrarem vestígios de Hominídeos no Plioceno, último período do Terciário), a sua revelação como Homem, ainda que na fase do que, usando a terminologia vulgar, podemos denominar de Homem-macaco, apenas se fêz no início da Era Quaternária.

Para essa escola, bem como para a maior parte dos antropologistas dignos dêsse nome, — mesmo para os que seguem a do Terciário — o Homem e os restantes Primatas não seriam mais que ramos destacados, por mutações sucessivas, de um antepassado comum. Ao Homem correspondería o último têrmo da divisão, isto é, teria sido o último na escala temporal a destacar-se dêsse tronco comum, quando êsse antepassado se encontrava num estado mais adiantado da sua evolução. E tal separação ter-se-ia dado em face de condições climáticas e geológicas — a que faremos oportuna referência — que teriam facilitado a sua transformação morfológica e espiritual em Homem.

Isto não exclui, evidentemente, o seu parentesco com certos Antropóides, o que faz com que Weinert adote a classificaçãp de Sumoprimatas, na qual inclui o Homem, o chimpanzé e o gorila. Quanto ao Gibão, que se revela como um Antropóide sobrevivente da Era Terciária, parece posta de parte a idéia do seu parentesco com o Homem, o mesmo se dando com o Orangotango que, não obstante a sua conformação que podia justificar dúvidas, — e, de fato, durante muito tempo as justificou — é apenas um ramo destacado em época diferente e evoluído em sentido diverso.

Os estudos de anatomia profunda mostram, até, que existem muito menos semelhanças entre o orangotango, o chimpanzé e o gorila, que entre o Homem e êstes Antropóides.

DUAS LINHAS

Em face disto, e pôsto de parte o gibão (que, em todo o caso, ainda subsistia na Europa juntamente com os Hominídeos), teremos de estabelecer duas linhas partidas do antepassado comum, uma que conduz ao orangotango e outra aos Primatas. E, em face delas, teremos, necessàriamente, que concluir pela exclusão do centro da Asia como berço da Humanidade.

De fato, é o centro da Asia e da Malásia a região habitada imemorialmente pelo orango, e nela se encontram os fósseis característicos que marcam, indiscutivelmente, as fases da sua evolução. Ao mesmo tempo que isso se dá, registra-se uma total ausência de fósseis do tipo humanóide e chimpanzóide que, seno errada a nova hipótese, não podiam deixar de coexistir com os do orango, nos níveis geológicos até agora explorados.

É certo que tal hipótese pode ainda ser contrariada por novas e mais cuidadosas explorações, mas tal não é logicamente de admitir, desde que se considere que a evolução geológica e climática da referida região era a mais adversa possível para o estabelecimento do Homem na sua fase inicial.

A Ciência é necessariamente falível, e ninguém, mais do que o autor dêste trabalho, desconfia do dog-matismo orgulhoso dos cientistas e reconhece a precariedade e transitoriedade manifestas das suas conclusões. Esta desconfiança, no entanto, diz apenas respeito a essas mesmas conclusões e não, propriamente, ao método e ao processo científicos. Por via dêles se pode chegar a descobertas, isto é, ao estabelecimento de fatos concretos, de que é apenas discutível a interpretação. O que o autor também se insurge — e supõe que legitimamente — é contra a adoção de uma única forma de conhecimento e contra a primazia que o espírito chamado científico quis, egoistamente, estabelecer em seu favor. Entretanto, não pode deixar de reconhecer o alto valor da CIÊNCIA e a sua determinante influência — também errada e preconceitosamente negada por alguns — para a evolução progressiva da Humanidade.

Excluída a Ásia com os fortes argumentos que acabamos de expor, e posta de parte a América por unânime consenso de todos, os tratadistas da matéria, dada a circunstância de ter começado, assim como a Austrália, a ser habitada nos tempos proto-históricos, resta-nos a Europa e a África, esta última, apesar das recentes descobertas de Broon, com menos probabilidades do que a primeira.

A EUROPA COMO BERÇO

De fato, é êste continente, e especialmente o centro da Europa (o vale do Danúbio, na esclarecida opinião de Weinert), quem mais condições oferece para essa misteriosa e quase milagrosa gestação do Homem primitivo.

Como é sabido, e dentro da hipótese mais lógica e fundamentada, foi no início do primeiro ou segundo período glacial que o Homem, pela primeira vez, se revelou como tal. A transformação do clima, o desaparecimento da floresta tropical que cobria a Europa no período anterior, o avanço lento, mas implacável, dos glaciares, devem, mais do que quaisquer outras razões, ter contribuído para a sua formação. E, concomitante com ela, a descoberta e a imprescindível utilização do fogo, como condição sine qua non de sobrevivência, devem ter feito o resto, isto é, ter produzido as necessárias transformações somáticas e espirituais que, pela primeira vez, concederam ao antropóide evoluído, que juntamente com os chimpanzés e os gorilas habitavam a Europa, a su^q«^lidade de Homem. Em face do progressivo arrefecimenbajio clima, só restavam a êstes Sumoprimatas ou a fuga ou a 'morte.

A terceira solução, que foi a seguida pelo antepassado do Homem, essa só poderia ser utilizada por aquêle que possuísse um potencial evolutivo capaz de transformar, em face das circunstâncias adversas, as características morfológicas e espirituais da espécie.

* É o tal poder de adaptação a que nos referimos

como base da lei da seleção natural, e mediante o qual a HumanidaJÍ tem podido subsistir e evolucionar.

» O que deve ter sido essa adaptação do Homem primitivo às circunstâncias adversas constitui ainda um capítulo relativamente obscuro da mais remota Pré--História, mas, em face dos modernos conhecimentos da ciência, podem desde já estabelecer-se as suas linhas gerais.

Entretanto, vejamos quais as razões que militam a favor da hipótese de Weinert, isto é, daquela que considera a Europa ó berço da Humanidade, e, mais particularmente, o vale do Danúbio. É necessário considerar em primeiro lugar os fósseis encontrados a que, subseqüen temente, ao traçarmos a linha evolutiva do Homem até à sua etapa histórica, faremos circunstanciada referência. O estudo dos fósseis, contudo, embora essencial, não pode ser desacompanhado do estudo das condições geológicas e climáticas determinantes da maior ou menor possibilidade de sobrevivência e de expansão do homem primitivo. E é, justamente, nesse particular que a hipótese de Weinert, que também perfilhamos, encontra a sua melhor justificação. De fato, nenhuma outra região do mundo oferecia, ao tempo, condições mais favoráveis para a elaboração da Humanidade' primitiva, o que, se não exclui a possibilidade do seu berço ter sido em qualquer outra região do Globo, — a África do Sul, por exemplo — estabelece em seu favor uma margem substancial de probabilidades.

De fato, reconhecida, pela descoberta dos fósseis, a existência dos Sumoprimatas no referido vale, e a dificuldade quase insuperável da sua emigração em massa para regiões mais favorecidas no início do período glaciar, cujo primeiro sintoma deve ter sido o desaparecimento da floresta tropical, temos que considerar um local liberto de geios como o da sua possível fixação. Ora, é precisamente o vale do Danúbio aquêle que se encontra nestas condições. Apertado entre os gelos do glaciar alpino e aquêles que descendo da Escandinávia chegaram a ocupar todo o centro da Alemanha, representa um espaço liberto, relativamente extenso, onde o homem, imobilizado pela barreira gelada que o cerca, encontra reunidas tôdas as condições possíveis de vida. E embora a sua existência seja difícil e dolorosa, como tem sido, e será sempre, a existência dos homens, é nessa dificuldade que não se mostra insuperável que êle vai encontrar justamente o primum móbil que o fará subir na escala animal, transformando-se morfológica e espiritualmente até adquirir a sua condição de portador da consciência universal.

O seu porte oblíquo transformar-se-á, pela fôrça das circunstâncias, em porte inteiramente vertical; as suas mãos imperfeitas ganharão, mercê da fatura e modelagem obrigatória dos objetos, a agilidade milagrosa que fará delas um maravilhoso instrumento de cultura, e até a sua voz rouca e gutural deixará de ser a expressão dos seus instintos primitivos para servir de fator essencial de convivência e solidariedade humanas.

AS ETAPAS DO PROGRESSO BIOLÓGICO HUMANO

Fixadas as idéias gerais sôbre a evolução da espécie humana até o seu aparecimento sôbre a terra, resta-nos estabelecer as sucessivas etapas que marcaram o seu progresso biológico, que teria, necessariamente, de conduzir à humanidade atual, esta, apenas, a meio--curso da sua longa e trabalhosa caminhada.

Tivemos ocasião de fazer notar, logo na primeira parte do nosso trabalho, que essa palavra -progresso tem que ser entendida em têrmos hábeis. Não se trata, pois, do chamado progresso indefinido, isto é, de uma transformação em vista de uma melhoria constante e em relação a uma idéia preconcebida e a um critério subjetivo, mas de um movimento que pode admitir fases de regressão e de recuo e que se traduz por uma acentuação das características essenciais da espécie.

Nesse aspecto, o progresso biológico da Humanidade é um fenômeno inegável, apenas contestado pelos observadores de vista curta. É certo que, sujeito, como estabelecem as modernas teorias, a mutações mais ou menos repentinas, não pode ainda ser nitidamente constatado nos tempos históricos, mas é preciso não esquecer que o raio visual do historiador mal chega a atingir uma dezena de milhares de anos, período muito curto em relação à duração do Homem.

Entretanto, admitida a teoria unitária da ologê-nese, isto é, a teoria da origem múltipla mas única da espécie, podemos, desde já, constatar um processo de diferenciação com o estabelecimento de raças diferentes, fenômeno de que dependerá em grande parte, como adiante verificaremos, o futuro e a evolução da Humanidade. Caminhará ela para uma unificação voluntária ou involuntária através da mestiçagem, ou assistir--se-á à separação, cada vez mais nítida, dos seus diversos elementos que há de conduzir, implacàvelmente, a uma luta sem tréguas?

O que, quer sob o aspecto prático, quer sob o aspecto ideológico, atualmente se observa não nos fornece diretamente uma resposta, dividindo-se as opiniões dos tratadistas não sôbre aquilo que poderá vir a acontecer, mas sôbre o que lhes parece desejável ou não. A êsse respeito emitiremos também, oportunamente, a nossa opinião, limitando-nos, por ora, a expor os dados do problema, no que diz respeito, apenas, à humanidade primitiva.

Que os Hominídeos são um ramo destacado dos Antropóides está, como vimos, definitivamente estabelecido, não podendo restar dúvidas que os macacos atuais (adotamos aqui a terminologia vulgar), embora provindos da mesma origem, pertencem a ramos separados em épocas e circunstâncias diferentes, o que quer dizer que não correspondem a uma fase — ainda não evoluída — dessa mesma humanidade. Dêsses, os que mais se aproximam dos homens são os gorilas e, especialmente, os chimpanzés, que, daqui em diante, deixaremos confinados nos limites bem definidos da Zoologia.

Vejamos, pois, como dêsses Hominídeos — para os quais adotaremos a classificação mais comezinha, mas mais eloqüente, de Infra-homens — se partiu para o aparecimento da Humanidade com tôdas as suas características essenciais. A seu tempo tentaremos estabelecer um critério, embora meramente teórico e circunstancial, que justifique esta classificação, isto é, a distinção nitidamente diferencial entre os Antropóides (macacos, na designação comum) e os Infra-homens, e entre êstes e o Homem propriamente dito. E procuraremos fixar também o momento a partir do qual poderemos designar êsse ser estranho e de nebulosa origem pelo apelativo fraternal que hoje lhe damos. Problema difícil que comporta as mais diversas soluções, mas a que nos esforçaremos, mais tarde, por dar uma resposta. Para isso, porém, é-nos necessário estabelecer prèviamente as diferentes fases da sua evolução.

Segundo o critério de Weinert, — que, nesse particular, nos parece o mais esclarecido dos antropologis-tas — o estudo dessas etapas terá que ser feito não só em relação aos fósseis encontrados, como também aos níveis geológicos a que, já atrás, fizemos referência.

Êsses níveis — que, segundo o seu parecer, são atualmente sete poderão variar em número, ao sabor de novas descobertas, e dizem respeito às fases conhecidas da evolução da Humanidade.

O PRIMEIRO NÍVEL

• O primeiro nível corresponde à transição entre a época Terciária e a Quaternária, que, como é sabido, não pode ser rigorosamente delimitada no tempo. Ela fixa o momento em que os Sumoprimatas habitavam exclusivamente a África e a Europa Central e Ocidental (entre êles o dríopiteco — macaco das árvores) e aquêle em que o desaparecimento da floresta tropical e os primeiros prenúncios de glaciação marcam, presumivelmente, pelo aparecimento e utilização do fogo, por parte de um dos ramos dêsses Sumoprimatas, as primeiras atitudes especificamente humanas.

De entre os fósseis descobertos, o que leva Weinert a adotar como sítio de eleição para berço da Humanidade o vale do Danúbio, é, justamente, o do Drio-pitecus rhenanus, cuja dentição de leite apresenta características humanóides mais acentuadas que as do Australopitecus africanus.

E se é certo que as mais recentes descobertas de Broom — o segundo australopiteco (Australopitecus transvaalensis) — parecem desmentir esta convicção pela acentuação mais intensa dessas características, a verdade é que o próprio Broom situa a sua descoberta no Plistoceno Superior, o que exclui a hipótese de poder figurar entre os antepassados da Humanidade. Esta descoberta tem, no entanto, o mérito de, pela primeira vez, ter demonstrado a existência de Sumoprimatas semelhantes ao Homem e a sua expansão até a África Meridional.

O fóssil de Sterkfontein (também descoberto por Broom em 1938), e a que foi dado o nome de Parantro-pus robustus, inteiramente bípede e que não se servia dos braços para a locomoção, corresponde ao Plistoceno Médio, e vem corroborar a nossa hipótese, sendo o exemplo nítido, pelas suas características simultâneamente humanóides e simiescas, do ser de transição.

O SEGUNDO NÍVEL

O segundo nível, correspondente ao Plistoceno Primitivo, isto é, ao início da época quaternária, é, a nosso ver, o mais importante para o estudo da origem e elaboração da Humanidade primitiva. E é a seu respeito que as dúvidas e controvérsias dos antropologistas se manifestam mais intensas, sobretudo no que se refere à idade dos fósseis encontrados.

Abster-nos-emos de intervir nesta discussão da especialidade, para a qual nos escasseia competência, e nos parece de menor interêsse para a índole do nosso trabalho, limitando-nos a expor os fatos principais e as conclusões que dêles se podem tirar.

O PITECANTROPO

A descoberta fundamental é sem dúvida alguma a do Pitecantropo, feita pelo holandês Dubois.

A volta dessa descoberta travaram-se as discussões mais intensas e mais apaixonadas. E temos que con-

• fessar que sobram razões para isso.

O Pitecantropo parece ser, pela sua conformação morfológica, o Hominídeo que estabelece a transição entre o Antropóide propriamente dito e a espécie Homo, na sua expressão já realizada. De fato, conservando características acentuadamente chimpanzóides, nêle foi reconhecido, mais tarde,, o seio frontal que representa, por assim dizer, a marca registrada da Humanidade. Trata-se, pois — e a êsse respeito já não se suscitam dúvidas — de um Homem-macaco, um Infra-homem na classificação que adotamos. Estaria, portanto, situado entre o Antropóide propriamente dito e as formas superiores representadas pelo Homem de Neanderthal. A hipótese degenerativa que o aponta como um exemplar involuído de uma espécie superior deve — pela sua localização temporal e geológica — ser inteiramente posta de parte.

Mas, sendo assim, como e por que foi êste fóssil descoberto em Java, isto é, justamente numa região onde as formas chimpanzóides, de que parece resultar, são, em absoluto, inexistentes? Qual a razão, também, por que os fósseis correspondentes não foram encontrados no local onde, segundo as melhores hipóteses, se situou o berço da Humanidade, isto é, no vale do Danúbio?

Aparentemente insolúvel, o problema encontrou, mais tarde, uma resposta que nos parece satisfatória.

Entre o momento da formação da Humanidade propriamente dita e a do aparecimento, sôbre a Terra, do Pitecantropo, deve ter decorrido um período de, pelo menos, 100 mil anos, período êsse que justifica perfei-tamente uma deslocação que, à velocidade de 10 quilômetros por dia, se efetuaria em dois anos apenas.

O Homem é, essencialmente, um ser que se desloca, e a vadiagem, tão condenada e verberada por certos moralistas, uma das características da sua essencial humanidade.

Enquanto que os animais só emigram em obediência às leis da espécie, ou impelidos pelos seus instintos naturais, o homem fá-lo, as mais das vêzes, em obediência a uma fantasia cujas leis não foram, felizmente, ainda esclarecidas nem catalogadas. E nem é sequer uma curiosidade natural que justifica êste fervor ambulatório, mas qualquer coisa de mais profundo e misterioso, que se oculta na intimidade do ser.

Seja como fôr, esta explicação parece, de fato, a mais natural, embora contra ela se eleve a objeção, também razoável, de que, sendo assim, se deveríam ter encontrado no caminho, presumivelmente percorrido, fósseis da mesma espécie, o que, na realidade, não se dá.

Para isto há, no entanto, uma resposta: a de não se ter repetido, ainda, o acaso propiciatório que levou Dubois à sua descoberta.

O AFRICANTROPO E O SINANTROPO

A revelação posterior da existência do Africantropo e, finalmente, do Sinantropo veio dar azo a discussões da mesma natureza e suscitar novos problemas.

Situados, segundo as melhores opiniões, no mesmo nível geológico do Pitecantropo — o do Plistoceno (não esqueçamos que êsse nível congloba uma quantidade imensurável de milhares de anos), apresentam, no entanto, quer sob o aspecto morfológico, quer no que diz respeito aos índices cefálicos e à capacidade craniana, modificações indicativas de que se trata de etapas da mesma linha evolutiva, em que o Pitecantropo representa o têrmo inferior, isto é, o têrmo mais primitivo.

Da localização geográfica dos fósseis (o Africantro-• po foi descoberto na África Oriental, e o Sinantropo na região de Pequim) pretendeu tirar-se a ilação fácil de que cada um dêles era o representante originário de uma das grandes raças humanas atuais.

Assim, o Sinantropo seria o antepassado da raça mongólica, e o Africantropo, o da raça negra. Nada autoriza, no entanto, semelhante conclusão e, como sempre, vem a verificar-se que o raciocínio fácil e aparentemente mais lógico é o inimigo direto do espírito científico.

De fato, como já vimos a propósito do Pitecantropo (êste, descoberto em Java, mas oriundo da Europa Central), a localização geográfica da descoberta dos fósseis pode não ser de grande importância.

Na verdade, é perfeitamente inadmissível que os atuais javaneses sejam os descendentes diretos do discutido Pitecantropo. O que parece provado é que êle representa uma fase uniforme da Humanidade primitiva, donde derivaram, por razões que serão oportunamente enunciadas, as diferentes raças humanas. Quanto a estas, cujo aparecimento e evolução obedece a leis extraordinàriamente complicadas, é também errado escaloná-las no tempo. O seu aparecimento deve ter sido quase simultâneo, e a sua evolução específica — ameaçada pela mestiçagem que também contribuiu para a sua formação — deve ter dependido de maior ou menor segregação geográfica. O momento em que essas raças se diferenciam do tipo originário não é nosso conhecido, mas nada, nos atuais conhecimentos científicos, contraria a hipótese ologenética da sua origem comum.

Pelo que diz respeito ao Africantropo, podemos, contudo, afirmar que, morfològicamente, coisa alguma nos autoriza a considerá-lo como um ascendente da raça negra. Muito pelo contrário, êle parece ter sido um dos antepassados do Homínio da Rodésia (embora nos faltem os elos da cadeia), êste, segundo as melhores opiniões, de raça branca.

E o mesmo se dá quanto ao Sinantropo, que, pela referida razão da proximidade geográfica, já tem sido apresentado como o ascendente dos japonêses. Quando muito, poderia ser considerado o antepassado dos Ainos, uma raça branca, segregada no norte do Japão.

O que já está perfeitamente estabelecido é a origem diretamente antropopitequiana dos australianos atuais. Êles representam, como se sabe, uma sobrevivência original da Humanidade primitiva. Razões de segregação geográfica evitaram, durante milhares de anos, qualquer espécie de mestiçagem, e a sua evolução — embora sua antiguidade seja a mesma de tôdas as raças humanas — deve ter sido retardada pelo ritmo calmo e uniforme da sua existência biológica. O que nos autoriza a pensar assim é a constatação singular de que a morfologia média do osso frontal (própria do Pitecantropo e de tôda a Humanidade primitiva), que dá um aspecto peculiar ao seu perfil, só se encontra, hoje, nesta última raça. Tal hipótese, suficientemente fundamentada por razões anatômicas, é também corroborada pela proximidade do arquipélago de Sonda, que deve ter servido de ponte de passagem ao Antropopiteco de Java.

Para não tornar fastidiosa a nossa exposição, não faremos referência às descobertas de outros fósseis que também serviram de base (e continuam servindo) a substanciosas controvérsias antropológicas, para só registrarmos os fatos e as conclusões que nos pareçam fundamentais.

Entre elas há que destacar a de que o tipo pitecan- '

tropiano constitui uma etapa da Humanidade primitiva, se situa na sua linha ancestral e é um têrmo uniforme e imprescindível da sua evolução e elaboração.

Êsse tipo representa, nitidamente, a transição entre o Antropóide propriamente dito e o Homem primitivo, merecendo em absoluto a classificação que lhe damos de Infra-homem, ou aquela, ainda mais comum, de Homem-macaco. '

O Africantropo e o Sinantropo, embora ligeiramente mais evoluídos, encontram-se nas mesmas circunstâncias e demonstram a grande expansão geográfica que, conquanto fôsse muito limitado o número de indivíduos, já se observava nesse período, por assim dizer preparatório, da Humanidade.

Para evitar confusões, não podemos deixar de fazer notar que a uniformidade a que nos referimos não exclui certas diferenças morfológicas (que se observam até em indivíduos da mesma família) e mesmo a existência de raças diferenciadas. O que é preciso fixar, como conquista definitiva da ciência antropológica, é a origem comum das mesmas raças.

O HOMEM DE HE1DELBERG

A etapa janterior segue-se uma fase de transição que, à falta de melhor, podemos classificar de proto-neandertaliana. Mas, enquanto sôbre a primitiva etapa, não obstante as controvérsias, se pode estabelecer uma idéia definida — qual seja a de que corresponde ao aparecimento do Infra-homem, isto é, ao elemento intermédio entre o Antropóide e o Hominídeo pròpriamente dito — o mesmo não se dá no que diz respeito a esta última fase. Com ela entramos num campo de meras suposições e de dúvidas até agora insolúveis, que incidem, qüer sôbre a sua duração e a sua posição cronológica no tempo, quer — o que é mais grave — sôbre a exata significação dos fósseis encontrados. São êles: a mandíbula de Mauer (Homem de Heidelberg) e o crânio de Steinheim. Impossível seria dar neste trabalho, que não aspira a ser um tratado de Antropologia, um resumo, ainda que imperfeito, das hipóteses a seu respeito estabelecidas. Basta que se saiba que os tratadistas não chegaram a acordo sôbre a época geológica a que pertencem, e muito menos sôbre a sua posição na linha evolutiva que conduz ao Homem. Entretanto, a opinião mais aceita é a de que o Homem de Heidelberg, pela conformação morfológica do seu crânio (teoricamente reconstituído), não passaria de um antepassado do Homem de Neanderthal, apresentando já certas características de Hominídeo. Quanto ao crânio de Steinheim, pela sua delicadeza e fragilidade e pelo arredondado do occiput (também comum às fêmeas dos chimpanzés), seria o ascendente direto do Homo sapiens, — o que Weinert contesta com fundamentadas razões — dêsse mesmo Homo sapiens cujo inesperado aparecimento, na época denominada do Paleolítico Recente, constitui um dos mais graves e, até agora, não completamente Resolvidos problemas da Antropologia.

O HOMO SAPIENS

Como é sabido, o Homo sapiens é, geralmente, admitido como o antepassado da Humanidade atual, excluindo-se da sua linha ancestral o Homem de Neanderthal, que passaria, assim, a ser um ramo colateral absolutamente extinto.

Tal opinião parece, entretanto, demasiado ortodoxa a certos espíritos reflexivos que não concebem a possibilidade da extinção total de uma espécie que chegou a ocupar uma grande extensão geográfica e já era constituída por numerosos indivíduos. A hipótese da sua destruição violenta, por parte do Homo sapiens — incomparavelmente mais evoluído e civilizado — é, contudo, parcialmente aceita com a simples reserva da sua mestiçagem em grande escala com o elemento vencedor, o que explicaria certas características neander-talianas que ainda hoje se observam. A êste problema nos referiremos mais longamente na altura conveniente, não só pelo interesse puramente científico, mas pelos ensinamentos que comporta quanto à forma de estabelecimento e desenvolvimento da civilização. A fôrça destrutiva das organizações sociais mais avançadas (apesar de tôda a fraseologia romântica e de todos os disfarces hipocritamente sentimentais) sôbre as organizações sociais menos evoluídas é um fenômeno incontestável, quer se manifeste, de maneira direta, por meio de assassinatos coletivos (processo específico do Homo sapiens), quer pelo meio hipócrita da intoxicação alcoólica je do trabalho escravo, sistema próprio do i homem moderno, a quem não repugna, também, de vez em quando, para desenfastiar, um massacrezinho sanguinolento. A extinção da raça tasmaniana (a que já fizemos referência) não deve ter ficado, nesse particular, atrás, em requinte e crueldade, ao que se deve ter passado entre o Homo sapiens e o de Neanderthal nesses primitivos tempos. O problema de se saber se tais destruições são ou não necessárias para o estabelecimento de uma humanidade superior continua em aberto e tem servido para justificar as mais absurdas e desumanas prepotências.

Como a seu tempo veremos, o fundamento das guerras, mesmo o das atuais, e possivelmente das futuras, consiste, principalmente, nesse instinto essencial de exclusão e de domínio, sejam quais forem as aparências ideológicas com que se justifiquem. Essa necessidade de aparentar não deixa, contudo, de ser proveitosa e representa já um avanço de incalculável valor. É nela, até, que reside, de certa maneira, uma das grandes esperanças da Humanidade.

O HOMEM DE NEANDERTHAL

O que acabamos de dizer a respeito da etapa pro-toneandertaliana e do mistério que a envolve só é aplicável ao Homem de Neanderthal quanto à sua origem e, especialmente, ao seu brusco e espetacular desaparecimento.

Ao contrário do que sucede com o Homem de Hei-delberg, representante da última fase, — e que pode ter sido um antepassado seu — podemos estabelecer, quanto ao Homem de Neanderthal, quer a área já bastante extensa da sua expansão, quer, o que também é importante, a sua exata localização na sucessão temporal.

Denominado por Schwalb, Homo primigenius, isto é, o primeiro da sua espécie, esta designação só é utilizável em relação à época geológica a que pertence, sôbre a qual não existe, atualmente, a menor dúvida. É ela a do último período interglaciar, — a época quente que mediou entre o período glaciar de Rist e o último período glaciar conhecido pelo de Wurm — que corresponde, sob o aspecto cultural, ao Paleolítico Médio. Esta fase, que se prolongou, segundo as melhores opiniões, até aos meados do último período glaciar, — constatação que resulta da circunstância de alguns dos seus fósseis se encontrarem associados com fósseis de animais das regiões frias — pode considerar-se uma fase perfeitamente definida. Situa-se, quer geológica quer antropològicamente, entre o nível do Antropopi-teco, isto é, do Infra-homem, e o do Homo sapiens, que se lhe seguiu. Sob o aspecto evolutivo da civilização, que especialmente nos interessa, teremos de dividir esta época em dois períodos: um quente, que corresponde ao primeiro musteriano, e outro frio, correspondente ao segundo.

, Pelo que diz respeito à sua disseminação geográfica, o Homem de Neanderthal tem visto, mercê das mais recentes descobertas, cada vez mais aumentada a área da sua expansão. Confinado primeiro, pelos sábios, na Europa Ocidental e Central, foi aumentando, gradualmente, o seu domínio a todo o Mundo Antigo, não sendo de excluir a hipótese da sua existência na África do Norte, na África Meridional e até na Asia, onde a presença do Sinantropo a torna perfeitamente admissível. Acresce que a descoberta de fósseis de caráter nitidamente neandertaliano na Palestina, e até em Java, demonstram não só a sua presença nessas regiões geográficas, como, principalmente, a grande disseminação a que fizemos referência.

Eis por que a raça de Neanderthal, embora segundo as opiniões de alguns completamente extinta, assume particular importância numa História da Civilização, pois corresponde a um período bastante característico dessa mesma Civilização, como adiante se verá. Aliás, a sua extinção sem descendentes, problema que, de seguida, iremos abordar, não se encontra completamente comprovada, conquanto seja admitida pela grande maioria dos tratadistas da matéria, com a quase exclusiva exceção de Weinert.

Mas mesmo que assim tivesse sido, e a Raça de Neanderthal não tivesse correspondido a uma fase biológica primitiva da Humanidade atual, ela interessar--nos-ia como uma etapa singular e característica da civilização que não poderia deixar de ter influência no seu processo evolutivo.

Antes de mais nada, queremos fazer notar que empregamos a designação de Raça de Neanderthal apenas como expressão genérica e comum, porque muito bem sabemos que não pode ser tomada especificamente como uma raça, pois, como o recorda Weinert, “por raça apenas se pode considerar uma subdivisão no sentido horizontal entre as formas simultâneamente vivas de uma mesma espécie”. E isso só se poderia dar se, na referida época, tivessem existido outras raças como têr-mo de comparação, o que não se verifica.

A expressão raça também poderia ser empregada em oposição às da Humanidade contemporânea, isto é, como se entre ela e as dessa humanidade não pudesse existir qualquer conexão genética, o que não se encontra, no parecer de Weinert, que perfilhamos, perfeitamente comprovado.

Quais os argumentos pró e contra?

Aquêles que consideram o Homem de Neanderthal um simples ramo colateral já extinto da Humanidade fundam a sua convicção na sua conformação anatômica, algo diferente da do homem atual, e sobretudo no pequeno espaço de tempo que, a partir da primeira metade do último período glaciar, ficaria ao Homem para realizar essa evolução.

 circunscrição à Europa dêste grupo humano — que é subjacente na doutrina dos prosélitos desta escola e errada, como já vimos, porque a área da sua expansão se estende a todo o Mundo Antigo — é tendente a demonstrar a inexistência de parentesco entre o Homo sapiens, vindo de fora, e o grupo considerado aborígine da Europa. Como se demonstrará, também êste argumento não colhe.

TEORIAS OPOSTAS

Entretanto, ouçamos as razões dos que perfilham a teoria oposta e, especialmente, a esclarecida e fundamentada opinião de Weinebt. Diz êle: “Para nós, a recusa em admitir a descendência do Homem, a partir do Homínio de Neanderthal, não é suficientemente motivada. As diferenças reveladas pelo estudo anatômico não são uma razão bastante para representar o Nean-dertaliano como um ramo colateral extinto: seria necessário, para isso, admitir que a Natureza tivesse sido incapaz de imprimir às características neandertalianas a morfologia própria do Homo sapiens atual.

“Relativamente ao decorrer da vida sôbre o Globo, o tempo disponível foi, evidentemente, muito curto, mas quando se pensa no número de gerações que preenchem êsse espaço de tempo, as modificações constatadas já não representam um obstáculo. É possível apresentar exemplos de mutações que se realizaram num período de tempo muito menos longo.”

E, logo a seguir, apresenta a razão que nos parece fundamental:

“Quando se considera a distribuição geográfica de tôdas as formas aparentadas com a raça neanderta-liana, parece, imediatamente, bizarro que sôbre tôda a extensão do Globo habitado pelos Hominídeos não se tivesse encontrado, no decorrer do Paleolítico Médio, senão restos do suposto colateral extinto, enquanto que os fósseis dos nossos verdadeiros antepassados só aparecem, subitamente, depois do apogeu do último período glaciar. Os nossos antepassados devem ter chegado, um dia, de algum lado, e seria de fato bastante difícil que êles tivessem escapado aos nossos olhares investigadores. Além disso, constata-se que certos fósseis que se consideravam como antepassados do Homo sapiens, no bloco neandertaliano, apresentam maiores conexões com êste tipo do que com o homem atual.”

Para perfeita elucidação do problema, vejamos, agora, embora de forma muito sumária, quais as características anatômicas do Homem de Neanderthal, mas tendo em consideração que êsse estudo é feito a partir do esqueleto, com exclusão das partes moles e pilosas, sôbre as quais entramos no campo das meras hipóteses e suposições.

Ora, só para os casos de extrema diferenciação é que o estudo do esqueleto é considerado perfeitamente elucidativo. E de tal maneira assim é que, se é fácil distinguir o crânio de um branco do crânio de um negro característico, essa facilidade já não se verifica em relação ao crânio de um mongol ou de um ameríndio, cujo fenótipo (tipo aparente) é, no entanto, diverso do do branco.

CARACTERÍSTICAS RACIAIS

O Homem de Neanderthal é, de fato, bastante diferente do Homo sapiens, sob o aspecto anatômico, nada nos indicando, no eptanto, que entre um e outro não possa ter havido conexões genéticas. Indicaremos aqui, para elucidação do estudioso, muito sumàriamente, as características essenciais e diferenciais de que se encontram nos livros da especialidade, para o qual o remetemos, se êste problema o interessa, os pormenores mais detalhados. Trata-se de um ser com a estatura média de 1,60 m, de grande crânio, que na linha longitudinal chega a atingir 222 mm e mais (enquanto que o Homo sapiens raramente excede 210mm), testa excessivamente curta, em relação à altura da do Homo sapiens, e grandes e protuberantes arcadas supracilia-res. São, justamente, estas últimas que, em relação aos fósseis do mesmo nível geológico disseminados por todo o Mundo, marcam o tipo neandertaliano. Não obstante o tamanho exterior do crânio, a extraordinária espessura dos ossos faz com que a sua capacidade craniana seja menor que a do Homo sapiens. Os braços, que alguns antropologistas apresentam como demasiado longos e semelhantes, nesse particular, aos dos Antro-póides, não o são na realidade, apresentando as mãos (excessivamente curtas e largas) certas características humanas.

A conformação da espinha, a direção das apófises espinhosas das vértebras cervicais, o seu pescoço curto e forte, levam a admitir que o Homem de Neanderthal tivesse uma postura ligeiramente inclinada para a frente, o que seria ainda mais acentuado pela especial conformação do fêmur. E és justamente, a propósito da morfologia do fêmur que se têm travado as mais acesas discussões, e alguns têm chegado à conclusão de que o Homem de Neanderthal não passa de um ramo colateral da Humanidade, completamente extinto. Tra-ta-se de um osso espêsso e pesado em que a diáfise é recurvada para a frente, de maneira especial. O osso da perna é, necessàriamente, correspondente ao fêmur, com um perônio retilíneo e espêsso. A rótula, esta — em contraposição com o que acontece com o homem contemporâneo — reconhece-se, também, pela exagerada espessura ântero-posterior.

Segundo a opinião de muitos autores, esta conformação especial dos membros inferiores, revelando um desvio evolutivo da linha humanóide, confirma, inteiramente, a hipótese, já apresentada, de ramo colateral. Entretanto, para outros e para Weinert, tal peculiaridade anatômica não constitui razão suficiente para se chegar a semelhante conclusão.

COMPARANDO FÓSSEIS

O estudo comparativo dos fósseis encontrados, em especial os de Ngandong, em Java, e os da gruta de Sukhul, na Palestina, reconhecidos como neandertalia-nos, com o fóssil da Capela dos Santos, tão pormeno-rizadamente estudado por Boule, mostram não só a sua enorme expansão geográfica como, também, as diferentes modalidades apresentadas pelo referido tipo.

É curioso notar, até, que os esqueletos da gruta de Sukhul exibem diferentes tipos de fêmur (alguns semelhantes ao do homem moderno), ao mesmo tempo que conservam a característica neandertaliana da exagerada espessura das arcadas supraciliares. Isto serve para demonstrar, não só a possibilidade evolutiva que alguns autores negam, justificando, também, a opinião de que o Homem de Neanderthal (pelo menos uma parte dos seus indivíduos) constitui uma fase intermediária na linha evolutiva da Humanidade. E é, de fato, natural que assim seja, porque não faz sentido que uma espécie tão largamente disseminada tenha desaparecido misteriosamente da face da Terra, expulsa por outra espécie, vinda não se sabe de onde e de que não se encontra um único fóssil no mesmo nível geológico.

E nem sequer os dois achados — apresentados em contraposição — o crânio de Broken-Hill (Homínio da Rodésia) e o Homem de Pitdown, podem constituir argumento a considerar. Quanto ao Homínio, está hoje reconhecido o seu parentesco neandertaliano, não estando suficientemente esclarecido o caso do Homem de Pitdown.

Além do mais, não fazia sentido que os descendentes de um único indivíduo tivessem conseguido dominar e aniquilar, de uma vez só, uma espécie tão largamente espalhada sôbre a Terra.

Vejamos, pois, o que se deve ter passado:

Como está suficientemente provado (sobretudo pelas recentes descobertas dos fósseis da Palestina), o tipo neandertaliano não só se encontrava em todo o mundo antigo como, — o que é mais importante — embora conservando características comuns suficientes para o identificar, se manifestava em graus diferentes da sua evolução. E embora, no que diz respeito ao seu nível geológico, se não possa falar numa verdadeira segregação racial, a verdade é que a êsses diferentes graus evolutivos devem ter correspondido graus de cultura e de civilização mais ou menos avançados.

Êste critério, embora conjetural, tem o mérito de vir resolver tôdas as dúvidas e todos os problemas. O brusco desaparecimento, nos meados do último período glaciar, do Homem de Neanderthal, acompanhado do súbito aparecimento do Homo sapiens, ficaria assim devidamente explicado, sem necessidade ,do recurso a hipóteses mais ou menos fantasiosas, sôbre a origem desta misteriosa espécie.

Dentro de tal teoria — que perfilhamos por nos parecer a mais lógica — o Homem de Neanderthal teria correspondido a uma etapa da linha evolutiva da Humanidade, não passando o Homo sapiens de um grupo mais evoluído da mesma espécie, provindo, porventura, da região mediterrânea, que teria, mercê da sua superioridade cultural, absorvido e dominado o primeiro.

Tal hipótese não exclui, evidentemente, a destruição de grande parte dos indivíduos do grupo mais atrasado, mas êsse é sempre, como já o fizemos notar, o fenômeno característico do choque entre duas civilizações, uma mais primtiva e outra mais avançada. A existência dêsses combates não é meramente suposta e encontra-se, hoje, suficientemente comprovada para que a possamos negar. Não se trata, porém, de uma destruição em massa, mas de uma forma cruel de domínio militar, perfeitamente explicada pela superioridade dos meios, — o Homo sapiens, como adiante veremos, já possuía armas de arremêsso (fundas e arcos) — que não exclui totalmente a aglutinação e a absorção por meio de mestiçagem. É isso que explica a permanência de características neandertalianas, ainda hoje nitidaifiente observáveis em certos indivíduos.

Quando fizermos o estudo das civilizações primitivas, voltaremos a abordar êste problema de que, agora, enunciamos apenas os dados fundamentais.

A circunstância de admitirmos uma certa diferenciação entre os diversos grupos geográficos do Homem de Neanderthal não implica, necessàriamente, o reconhecimento da existência, neste nível geológico, de raças definidas. Não quer isto dizer que elas não tenham existido, mas apenas que, em face dos documentos existentes e da nossa total ignorância sôbre as partes moles e capilares dos indivíduos, elas não podem ser reconhecidas como tal.

O mesmo já se não dá, inteiramente, como vamos ver, em relação ao nível geológico que se lhe segue.

O PERÍODO PÓS-NEANDERTALIANO

Tem sido muito discutida a existência de um período de transição que podería tomar o nome de pós--neandertaliano. Os fósseis encontrados, e em especial os da gruta de Premost, na Morávia, não são, na opinião da grande maioria dos antropoiogistas, suficientemente elucidativos. O que nêles se observa, como em outros fósseis correspondentes ao mesmo período, é uma concomitância de características do tipo de Nean-derthal e do tipo de Cro-Magnon, que mostra bem que a passagem do Hominídeo para o Homem propriamente dito não se fêz sem uma longa fase de transição. Não se pode falar, contudo, de um tipo comum pós--neandertaliano, de tal forma são variáveis as referidas características e discutível a época a que os mesmos fósseis correspondem.

A fase que se lhe segue é a mais importante de tôdas para o estudo a que estamos procedendo.

A seu respeito já se pode falar de homens no sentido absoluto e é nela, também, que se esboçam as características fundamentais das diferentes raças-humanas. Determinada e voluntariamente, distinguimos as épocas geológicas e as etapas de evolução do Homem, das suas fases culturais. São estas últimas que importam, essencialmente, a uma História da Civilização e, como veremos (embora alguns bons autores as façam coincidir), seria errada a sua justaposição. A medida do tempo para as primeiras é puramente matemática, enquanto que para a última é necessària-mente subjetiva.

Aliás, como já alguns tratadistas observaram, é muito difícil ou quase impossível êsse ajustamento, o que nitidamente se constata com o que se refere ao chamado período paleolítico.

Como se sabe, êste período terminou no Egito três ou quatro mil anos antes de Cristo; na Dinamarca, mil e seiscentos anos antes e, ainda hoje, prossegue (embora esteja prestes a atingir o seu fim com a extinção da raça australiana) no centro da Austrália.

A nossa intenção é, pois, a de conduzirmos o Homem pelo caminho próprio, que é o especificamente biológico, até à sua situação presente, mostrando os processos de unificação e diversificação que atualmente se observam, para depois, adotando a cronologia adequada, o apresentarmos no quadro complexo da sua vida de relação.

Como já atrás ficou dito, o aparecimento do Homo sapiens diluvial, que correspondería à última fase do homem de Neanderthal, tendo sido admitida a doutrina de que o tipo de Neanderthal corresponde a uma etapa evolutiva da Humanidade e que o Hono sapiens não passa de um grupo mais evoluído da mesma espécie, que destruiu e absorveu o grupo mais atrasado.

Vejamos, pois, quais são os sinais da sua passagem sôbre a Terra e como se parte dela para o Homo sapiens e para o estabelecimento das diferentes raças atuais.

Weinert, cuja sistemática adotaremos nesta parte do nosso estudo, estabelece a distinção entre o Homo sapiens diluvial, que correspondería à última fase do Plistoceno e ao Paleolítico Recente (isto é, aos períodos Aurinhaciano, Solutriano e Madaleniano, da classificação francesa, e compreendería todos os homens de tôdas as raças existentes no Globo), e o Homo sapiens aluvial, que correspondería já ao Período Holocênico, de que faz parte a época em que vivemos.

Todos os tipos humanos que os fósseis referentes a êste primeiro período geológico revelam, pertencem, direta ou indiretamente, ao tipo Cro-Magnon.

E se é certo que em determinadas regiões êstes tipos apresentam características especiais (particularmente em França), não podemos excluir desta classificação os outros fósseis encontrados. O que se começa a observar é uma certa diferenciação profunda que nos faz pensar, legitimamente, numa segregação racial precoce. Se a origem averiguadamente monofilética da Humanidade explica a uniformidade do tipo dos Hominídeos, a fase especificamente humana — e essa inaugura-se com o Homo sapiens de que o tipo Cro-Magnon faz parte — caracteriza-se por um processo de diferenciação contínuo e cada vez mais acentuado.

E se, no Homem de Neanderthal, tal diferenciação é quase imperceptível, isso resulta da circunstância da sua civilização própria ser pouco avançada e ainda muito rudimentares os seus processos de autodomesticação.

A partir desta etapa, poderá começar a falar-se, propriamente, de raças, isto é, como atrás dissemos, de subdivisões no sentido da linha horizontal da Humanidade. A expressão espécies, que alguns autores empregam, é errada e não tem razão de ser, porque o que distingue as espécies é a impossibilidade da sua mestiçagem — impossibilidade que, como se sabe, não se observa entre as raças humanas.

Por outro lado, não obstante a aludida diferenciação, parece-nos lícito empregar a designação de Homo sapiens para todos os fósseis dêste nível, embora alguns dêles nos apresentem características acentuada-mente negróides ou mongolóides. A similitude de culturas — revelando nesse estádio um nível de desenvolvimento mental idêntico e formas de organização social semelhantes — autorizam-nos a tal, além de que a sua conformação anatômica ainda se conserva, fundamentalmente, a mesma nas suas linhas essenciais.

AS DESCOBERTAS DE FÓSSEIS

Antes de entrarmos, porém, no estudo da origem das raças — estudo, como veremos, imprescindível para a compreensão da evolução das sociedades — teremos que passar em revista, embora sumàriamente, as numerosas descobertas de fósseis dêste nível geológico, e as diferentes conclusões a que, em face dêles, se pode chegar.

Conquanto se não possa estabelecer uma linha nítida de separação entre os diferentes níveis geológicos, — o tempo geológico conta-se por milhares de anos — podemos considerar esta fase como iniciada a partir da segunda metade do último período glaciar de Wurm. As condições climáticas são idênticas, portanto, às que se observam na segunda parte do nível anterior, e é por isso natural que a disseminação e expansão da espécie humana seja, aproximadamente, a mesma que nesse nível se constata. Como é sabido, uma barreira de gêlo intransponível impedia, a partir da Europa Central, a expansão das espécies zoológicas e, por isso, o Homem que vivia, de comêço, quase exclusivamente da caça, seguia invariàvelmente, nos seus trajetos e nas suas excursões, o caminho percorrido pelos animais. O seu domínio parava, também, nos limites por êles atingidos. E é, até, curioso observar que, enquanto na época atual os animais seguem os homens e têm o seu destino condicionado pela sua vontade (referimo-nos aos animais domésticos, evidentemente), nesses primitivos tempos em que o pastorício não tinha ainda sido inaugurado, era o homem quem seguia os animais e quem tinha que obedecer às leis da sua instintiva tranropo comprova de maneira indiscutível a existência de Hominídeos, a verdade é que nada se descobriu até hoje que diretamente se refira aos Neandertalianos ou aos Homens do Paleolítico Recente. E só no extremo Sul, e na parte exterior dos seus limites, na Ilha de Java, é que a sua presença, novamente, se torna provável.

A África é, sobretudo, interessante pelos fósseis descobertos na parte Este e Sul, de que se podem inferir certas ligações com o desenvolvimento racial da Europa.

Pelo que diz respeito à Austrália e à América, — estas totalmente excluídas como berço da Humanidade — continuavam ainda desabitadas quando do aparecimento do Homem diluvial, pois só no fim desta época, quando se deu uma súbita e vasta expansão do habitat humano, é que elas começaram a ter — especialmente a Austrália — um certo interêsse antropológico. Como já se disse, é na Austrália que — por via de uma segregação geográfica forçada — ainda hoje se encontram e se conservam (fenômeno biológico dos mais curiosos) as formas primitivas da raça branca.

Como vamos constatar, será, no entanto, a Europa, mais que qualquer outra região, que nos fornecerá os documentos necessários para o estudo da marcha evolutiva das civilizações primitivas. Por elas veremos como a manufatura grosseira dos fragmentos ósseos da época dos Hominídeos se transformou, gradualmente, nos instrumentos delicados e nas manifestações já superiores que a sua arte, posteriormente, revela. Assistiremos assim, percorrendo as suas sucessivas etapas, ao desabrochar da sua vida econômica e a todos os grandes fenômenos que revelam a marcha, espiritualmente ortogenética, da Humanidade.

Êste estudo é auxiliado pela observação dos atuais povos primitivos, sendo preciso notar que, se sob o aspecto econômico êstes. ainda se encontram na fase paleolítica, nada nos comprova que não estejam já cultural e socialmente muito mais avançados que o Homem diluvial, ou mesmo que aquêle que habitava o Globo há cêrca de dez mil anos.

3 - AS RAÇAS RUMANAS

É nnessa época que o têrmo raça adquire a categoria de uma expressão adequada, pois é nela que assistimos (sem pôr inteiramente de parte a hipótese de uma segregação racial precoce) à formação definida das grandes raças humanas. São elas, como se sabe, a raça branca, a raça mongol e a raça negra, correspondentes, no critério de Weinert, às linhas média, fria e quente da Humanidade.

Pela forma como o problema é por nós apresentado, pode-se desde já concluir que somos adversários de uma sucessão cronológica e que admitimos a formação cumulativa dêsses tipos diferenciados da mesma espécie a partir de uma origem comum. É também o critério que adotamos para a formação das sub-raças da Europa, com a única exceção da raça australiana, que viu retardada a sua evolução e ainda, atualmente, representa as formas primitivas da linha média, a que pertence, em virtude de uma segregação geográfica forçada.

Por consequência, e a nosso ver, a doutrina que apresenta o negro como um homem primitivo — doutrina que fêz escola no século passado — é inteiramente errada.

O que está averiguado é a segregação racial a partir de uma origem comum, pois, como o diz Weinert, “é inútil insistir sôbre o fato de que o Homem diluvial, alargando o seu habitat, formou raças (embora oriundo monofilèticamente de uma única raça da Humanidade primitiva que habitava numa área limitada) e daí se espalhou, criando uma Humanidade nova sôbre a Terra inteira”.

A partir de quando e como podemos considerar definitiva a diferenciação racial, tripartida, a que aludimos? É ainda sôbre os documentos fósseis, e especialmente sôbre os encontrados na Europa, que temos que nos basear. E o mesmo teremos que fazer para o estudo da formação das sub-raças da Europa.

Como Weinert o diz, a tentativa de reconhecer raças no Homem diluvial é muito antiga, tendo-se ido mesmo, em seu entender, demasiado longe na determinação das sub-raças.

O APARECIMENTO DAS RAÇAS

A afirmação que fizemos do aparecimento das raças neste nível geológico não implica, necessàriamente, que a sua diferenciação seja de tal maneira nítida que possamos estabelecer, a partir dêle, uma linha con-dutora que vá desde as suas origens, claramente definidas, até às raças contemporâneas. Isso só se observará posteriormente e ainda com uma certa reserva sôbre as referidas origens, que ficarão sempre mergulhadas na sombra provocada pela ausência de documentos esclarecedores.

É preciso notar, aliás, que tal como sucede em tudo o que se refere à evolução, — expressão aqui empregada na sua significação geral — à medida que a Humanidade vai progredindo, se constata uma aceleração no seu processo evolutivo a que não é estranha a atividade cultural dos grupos humanos. É o que se chama autodomesticação, fenômeno já de natureza social, a que faremos, na altura própria, a merecida referência. O tempo que de metafísico se conservara, durante milhões de anos, especificamente geológico, assume, ràpi-damente, um caráter antropológico a que tem de ser aplicada uma medida subjetiva. O seu caráter friamente matemático dissolve-se ao calor das atividades humanas, o que produz a justaposição de cronologias díspares, que são a causa subjacente de certas confusões. Voltaremos a êste problema quando nos referirmos à inserção dos chamados acontecimentos históricos entro da evolução natural das sociedades. Por ora,

basta-nos registrar essa aceleração do processo de di-

ferenciação e enunciar as suas causas fundamentais.

A diferenciação começa, como é sabido, por um certo disformismo sexual, que já se constata entre os antropóides. À uniformidade sexual, que, muitas vêzes, se verifica nos animais inferiores entre o macho e a fêmea — e que mal permite distingui-los — segue--se o estabelecimento de características morfológicas sexuais, logo acompanhado de uma certa variação individual, de comêço contrariada pela amofixia, isto é, pela tirania sexual do chefe do grupo.

À medida, porém, que as atividades culturais se vão desenvolvendo, mais se acentua essa variação individual, causa determinante da diferenciação racial. A importância dos fatores externos não especificamente sociais como a autodomesticação — condições geológicas e clima — é também decisiva, mas age sobretudo como adjuvante da diferenciação genética. Mas isso diz respeito, essencialmente, à Biologia e à Antropologia.

O que é necessário pôr em relêvo é a ação do Homem sôbre si mesmo, tão importante ou mais importante do que a que é exercida pelo meio exterior. E é por via dela e do sentido em que se manifesta que essa diferenciação racial virá a assumir, mais tarde, uma expressão quase dramática.

A uniformidade e a pequena variação individual que ainda se observa no Homem de Neanderthal resulta, necessàriamente, do seu pequeno ‘desenvolvimento cultural. Eis por que, com respeito a êle, não se pode falar ainda propriamente em raças, embora se esbocem ligeiras diferenciações que já são transmitidas genètica-mente. Quanto ao Homo sapiens, do Paleolítico Recente, já o problema se torna diferente, dado que a sua atividade humana já é suficientemente rica em elementos culturais. É por isso que, se ainda não se pode falar em raça branca, negra e mongol, já com êle começam a aparecer as características que mais tarde as diferenciarão nitidamente.

A RAÇA NEGRA

Comecemos, pois, pela raça negra, erradamente considerada durante muitos anos como uma sobrevivência retardada da Humanidade primitiva. Por paradoxal que isso pareça, é, justamente, na Europa e não no Sul e Leste da África (onde aparecem documentos fósseis característicos da expansão da linha média da Humanidade) que foram descobertos os primeiros documentos fósseis com características acentuadamente negróides. Queremos referir-nos aos esqueletos da Gruta de Grimaldi, pequena aldeia italiana situada junto da fronteira francesa, a algumas centenas de metros da povoação de Menton, estação antropológica de relativa importância.

É certo que, a propósito dêstes esqueletos, se travou e se continua a travar uma acesa discussão.

Para Weinert, — cuja opinião, em parte, temos perfilhado, por o considerarmos o mais avisado dos antropologistas — a circunstância de os referidos esqueletos apresentarem características acentuadamente negróides apenas significa que essas características já eram comuns a certos indivíduos do Paleolítico Recente e não que elas representem a origem de uma linha que conduza necessàriamente à raça negra.

As descobertas feitas em África dos fósseis dêste período também não são suficientemente elucidativas, pois que todos conservam o tipo comum de Cro-Magnon, sendo necessário o conhecimento das partes moles e capilares para uma suficiente identificação. A êste respeito já fizemos notar que o Homínio de Broken Hill, de data anterior, não podia ser considerado um antepassado certo da raça negra, o mesmo se dando com fósseis posteriores, como o crânio de Springbock--Flats. Êste último, entre outros, como Weinert põe em relêvo, apresenta uma forma que tanto se podia encontrar na Europa Ocidental na época de Cro-Magnon, como na África Meridional.

E nem mesmo com os indivíduos de pequena estatura a questão fica resolvida. Os Boximanes e os Pigmeus foram tidos e havidos, durante muito tempo, quer como sobreviventes atuais dos antigos negros, quer da primitiva Humanidade. Esta última questão está fora de causa, ficando apenas em aberto — dada a persistência de certas características ancestrais — o problema de êles serem ou não uma forma sobrevivente dos negros primitivos. Uma coisa, porém, é certa: é que tanto os Pigmeus como os Boximanes podem ser considerados da espécie do Homo sapiens, não só por certos pormenores morfológicos, como também, e principalmente, pelas afinidades culturais com o espírito europeu, reveladas pelas pinturas rupestres que lhes são atribuídas e pelas formas usuais de inumação por êles adotadas.

Temos, pois, que concluir que não se pode precisar, ainda em relação a êste nível geológico, a data certa da aparição da raça negra, embora se tenha que reconhecer o fato de que certos homens, desta época, merecem — como Weinert também o diz — o nome de negróides ou de Negros primitivos.

A RAÇA MONGOL

A maior incerteza reside no problema da raça mongol. Alguns autores quiseram considerar o crânio de Chancelade como o de um antepassado da raça mongol, e isto pelas suas semelhanças com- o crânio dos Esquimós primitivos, tidos e havidos como um ramo colateral da referida raça. O certo, porém, é que a sua perfeita identificação ainda não pôde ser feita, embora tenhamos que considerar que ambos pertencem à linha fria da Humanidade e que entre êles existem inegáveis conexões. Os índices cefálicos, as dimensões dos crânios dos fósseis dêste período, não autorizam — dado o desconhecimento das partes moles e capilares — o reconhecimento incontestável do tipo mongol.

Fica, portanto, em aberto, em relação a êste período, o problema da origem dos indivíduos de cor amarela, olhos oblíquos e cabelos lisos.

Posta de parte a Europa, a questão agravar-se-ia mais, porque a hipótese de uma raça oriunda das estepes do Nordeste da Ásia seria ainda muito menos justificada, pois que, no que diz respeito a fósseis elucidativos, existe uma enorme lacuna entre a época do Sinantropo e o Período Mesolítico. As condições climáticas que se devem ter observado nessa região e nesse período também não são de molde — dada a impossibilidade de manutenção da vida animal (a tundra estava completamente gelada) — a autorizar semelhante suposição.

Como o exame das manifestações culturais do Paleolítico Recente — especialmente as da sua pintura naturalista, que tão fielmente reproduz tipos humanos, todos de características europóides — também não a corroboram, a questão torna-se mais complicada, restando-nos acreditar numa mutação repentina que se poderia ter dado em qualquer dos grupos que perseguiram as renas na sua migração através do antigo continente, na época da retirada dos gelos. Quando estudarmos as raças, tais como hoje se nos apresentam, veremos até que ponto esta última hipótese se justifica.

O HOMEM DE CRO-MAGNON

Deixamos, propositadamente, para o fim dêste ligeiro escôrço sôbrê a diferenciação racial no Paleolí-tico Recente o problema das sub-raças européias, inteiramente ligado ao aparecimento do Homem de Cro--Magnon.

O Homem de Cro-Magnon caracteriza-se, como é do conhecimento vulgar, por um crânio pesado, elevado e especificamente dolicocéfalo, com ângulos mandibu-lares quadrados e salientes e órbitas extremamente baixas, muito largas, que atingem o índice orbitário, excepcional, de 56. Quanto à sua estatura, reconhece-se, hoje, haver uma enorme variação individual, embora seja comum uma ossatura forte — especialmente a dos membros — e provida de pesadas articulações. Isto sôbre o aspecto morfológico, pois, quanto ao aspecto cultural, tudo leva a crer — como adiante veremos — numa civilização quase uniforme do Paleolítico Recente. O tipo Cro-Magnon é particularmente importante para a caracterização da linha média de que estamos tratando. Esta expressão linha média não tem a significação de linha intermédia ou de transição, mas apenas a de posição relativa entre os dois limites considerados extremos da espécie humana. Também não significa que se possa passar de um para o outro através dela.

Como já foi claramente explicado, a Humanidade era relativamente uniforme — à parte ligeiras diferenciações individuais — na época dos Hominídeos, e, assim, nenhuma das raças poderá ser considerada antecessora da outra. A sua origem é comum e as três linhas partem, cumulativamente, do mesmo ponto. Isto no que diz respeito à sua origem biológica. O mesmo já se não poderá afirmar, tão peremptòriamente, quanto à sua origem geográfica, dado que os fatores climáticos e a influência do meio exterior, determinando modificações genéticas que se foram acentuando por ortogênese, devem estar na raiz das diferenciações raciais. O clima temperado para a raça branca, o frio para a mongol, e o tropical para a negra, devem ter sido os grandes modeladores das diferentes características morfológicas. Por isso, Wexnebt chama à raça negra, a linha quente, e à raça mongol, a linha fria. Aos fatores climáticos encontram-se ligados, também, a maior ou menor abundância de víveres e os sistemas de alimentação, decisivos, na opinião de alguns autores, para a formação das raças. Assim, no parecer dêstes últimos, a pequena estatura dos Pigmeus e dos Boxi-manes seria devida exclusivamente ao isolamento e segregação forçada da floresta tropical e, principalmente, à escassez de alimentos.

Isto no que se refere à teoria que faz depender a classificação racial, principalmente, da pigmentação da pele e do aspecto dos cabelos.

Uma outra doutrina existe, em que essa classificação é determinada, quase exclusivamente, pelo formato db crânio. À discussão do mérito relativo das diferentes teorias voltaremos no capítulo dedicado especialmente às raças. Por ora basta-nos saber que, mesmo nesta matéria, aparentemente esclarecida, a diferenciação racial do Homem continua sujeita a apaixonadas controvérsias. Como, ao depois, veremos, até os próprios grupos sanguíneos têm sido tomados em linha de conta por alguns autores, tendo-se chegado ao extremo — mas com estrondoso insucesso — de se querer fazer, por meio dêles, a caracterização das sub-raças. Foi o que aconteceu na Alemanha nazi, com a raça judaica, mesmo depois dos cientistas terem chegado à conclusão de que uma grande parte dos alemães tinha o mesmo grupo sanguíneo dos orangotangos.

Esta uniformidade do grupo sangüíneo constata-se numa única sub-raça — os Ameríndios, servindo hoje, sob o aspecto de investigação, apenas para a determinação negativa da paternidade. Quando muito se observa, sem que disso se possa chegar a qualquer conclusão científica, maior ou menor predominância de qualquer dos grupos, consoante as raças.

O problema das sub-raças europóides — de que teriam derivado as sub-raças européias contemporâneas

— começa a ser posta, como já dissemos, com particular insistência, a propósito do período geológico que estamos tratando, correspondente ao Paleolítico Recente. Contribuiu para isso a descoberta de fósseis que, no parecer de alguns autores, representavam desvios evidentes do tipo mais generalizado e comum de Cro--Magnon. São êles, principalmente, o crânio de Combe--Capelle e o crânio de Chancelade.

Quanto ao primeiro, quis-se ver nêle o protótipo de uma sub-raça definida, a aurinhacina, e o antepassado da raça nórdica. O mesmo sucede, aliás, com o crânio de Chancelade, de características diferentes, que também passa por ancestral dos esquimós.

Vejamos, pois, se estas opiniões têm qualquer justificação. O Homem de Combe-Capelle tem queixo regular, isto é, nem proeminente nem fugidio, em oposição ao queixo de Cro-Magnon, forte e aguçado. O crânio é alongado e gracioso, mas, em compensação, conserva as órbitas baixas, comuns ao tipo de Cro--Magnon. O único esqueleto que se possui mostra que a sua estatura é, aproximadamente, a dos Neander-talianos.

Todos os outros crânios até hoje apresentados como pertencendo a esta suposta raça — bem como os esqueletos — não convencem inteiramente da sua existência. Vai longe o tempo em que Klaatsch, poligenista convicto, tinha chegado à conclusão de que a raça auri-nhaciana era descendente, em linha reta, do orangoango, e já hoje se leva à conta de variações individuais o que se tomava como característica exclusiva de um grupo humano.

As mesmas observações se podem aplicar ao Homem de Chancelade, de quem se quis fazer, também, o ascendente do tipo nórdico, em contraposição com o de Cro-Magnon, que seria o antepassado do tipo dálico. É certo que as suas órbitas são mais levantadas que as de Cro-Magnon, mas há qualquer coisa na observação de conjunto dêsse crânio — aliás mal conservado

— que ainda faz lembrar êste último tipo.

CONCLUSÕES

Pôsto isto, podemos chegar às seguintes conclusões: o tipo Cro-Magnon é o tipo predominante no Paleolítico Recente para todo o Mundo antigo, e, por isso, a classificação de Homo sapiens se estende a todo êle e está na origem de tôdas as raças. É possível, e até provável, que tanto elas como as sub-raças da Europa se tenham começado a formar neste período, mas, por mais bem formuladas e fundamentadas que sejam as hipóteses, ainda hoje não podemos determinar, nem no tempo, nem no espaço (com exclusão da raça negra), quer o momento, quer o local da sua formação.

Muitos mistérios subsistem e, entre êles, o da formação da raça mongólica, de que se não encontram

— dada a lacuna que vai do Sinantropo (êsse mesmo, só teoricamente seu ascendente) até ao fim do Mesolí-tico — os elementos de transição. Teremos, pois, que admitir que a sua formação se fêz a partir do Homo sapiens por meio de brusca mutação, quando da retirada dos gelos, num grupo perseguidor da rena. Seria então a Sibéria a sua origem, e o frio o grande modelador. À falta de melhor, é a única hipótese admissível. É certo que o subsolo da Ásia não tem sido tão rebuscado como o da Europa e da África, mas seria bastante improvável que se fôssem encontrar fósseis correspondentes a períodos onde, pelo rigor do clima, a vida não podia subsistir.

A respeito da raça negra, já podemos ser um pouco mais afirmativos. Excluindo os esqueletos de Grimaldi (que, não obstante o aspecto negróide, não podem ser tomados como tipo de transição) e os fósseis encontrados na África do Norte (como se sabe, ligada antro-pològicamente à Europa), resta-nos o centro e a parte oriental, onde, com tôdas as probabilidades, ela se deve ter elaborado, a partir, também, do tipo comum do Homo sapiens. Vemos, portanto, que se se desconhece o momento em que a transformação se deu, se sabe, ao menos, o local da origem, o que é muito importanté.

Tal como se deve ter dado com a raça mongol, o clima (neste segundo caso excessivamente quente) e as condições peculiares do meio exterior foram a causa desta segregação racial. O isolamento milenário a que foram sujeitas acentuou as diferenças essenciais, mas não foi tão longe que conseguisse desmentir a origem comum e a identidade da espécie.

4 - ESQUEMA GEBAE BA EVOLUÇÃO BO HOMEM

Esboçando assim, sumàriamente, o problema da origem das raças, tentemos estabelecer um quadro que, com início no Pitecantropo, marque os caminhos biológicos percorridos pela espécie humana até aos tempos históricos.

Como não pode deixar de ser, pelo que atrás ficou dito, teremos que deixar uma larga margem de inde-terminação, que a falta de elementos comprovados justifica, mas que, em todo o caso, como se vai ver, não impede o traçado de uma linha geral.

O quadro por nós estabelecido é, como não podia deixar de ser, meramente presuntivo, visto que o problema da posição relativa do Pitecantropo, do African-tropo e do Sinantropo continua sujeito a apaixonadas controvérsias. A origem das raças permanece ainda nebulosa e os seus critérios distintivos extremamente variáveis. Para além dos que se baseiam na pigmentação da pele e na maior ou menor abundância da camada pilosa ou na sua estrutura, existem — pôsto de parte o que se funda nos grupos sanguíneos — os que derivam da diferente conformação anatômica, o que faz com que os tipos humanos sejam agrupados de forma muito diversa do que admitiam e preconizavam as teorias clássicas. Em face dela, as raças consideradas como negras (v. g., a australiana) reconhecem-se, hoje, como pertencendo à linha média da Humanidade e, por conseqüência, à raça branca. Êste critério tem sido, por assim dizer, aperfeiçoado e já hoje existe quem fundamente as diferenças raciais, única e simplesmente, na conformação craniana.

O aparecimento inopinado da braquicefalia — dado que o homem primitivo era uniformemente dolicocé-falo — vem justificar, em parte, esta última concepção. Não interviremos numa discussão que se alicerça em hipóteses mais ou menos fundamentadas e sôbre a qual não foi dita ainda (e sê-lo-á algum dia?) a última palavra.

Que existem raças diferentes é um fenômeno inegável, mas isso não interfere — dada a possibilidade absoluta da sua mestiçagem — na unidade essencial da espécie Homo. É êsse o fenômeno que queremos pôr em evidência e é partindo dêsse critério unitário — dado que tal diferenciação é sempre reversível — que traçamos a linha condutora da nossa História da Civilização. O que importa estabelecer — e é o que vamos tentar fazer, de seguida, como prometemos no início dêste capítulo — é o critério que distingue o Homem das outras espécies animais, isto é, determinar o momento a partir do qual o podemos considerar como Homem.

Já vimos que, biologicamente, o que define a passagem do Antropóide para o Infra-Homem é, de certa maneira, a sua pose ereta e a utilização dos membros anteriores para funções diferentes das da marcha. Isso, no entanto, não é só por si suficiente para a sua classificação como Homem. A própria utilização do fogo (não confundir com a sua desoberta, isto é, com a descoberta do processo de o provocar) também não pode ser adotada, exclusivamente, como critério diferencial. Quando muito, servirá para identificar o Hominídeo na primeira fase da sua elaboração humana.

Durante séculos, o Homem foi classificado como o animal que fala. A palavra seria, portanto, a característica essencial do ser humano. A verdade, porém, é que — posta mesmo de parte a hipótese da existência de um conjunto de certos sons, com significação permanente e utilizados por certos animais — a palavra só aparece num estádio relativamente avançado da evolução humana e em substituição de uma linguagem prática de gestos e de atitudes. Só quando o Homem deixa de ter uma necessidade imediata de atuação é que a palavra aparece com uma reserva de atos futuros e correspondendo já a uma fase adiantada de reflexão.

B — Variante admissível. O Sinantropo e o Africantropo seriam têrmos mais avançados da evolução da espécie, a partir do Pintecantropo.

OBS. Segundo outra teoria, seguida por numerosos tratadistas e que nos parece improvável, o Homem de Neanderthal e o Homo sapiens teriam origens diversas, tendo êste como antepassado o Homem de Piltdown, de que se conhece um único fóssil. A falta de elos da cadeia contraria, inteiramente, esta hipótese.

Que critério estabelecer, pois, para a sua diferenciação? Em nosso entender, o Homem define-se como o ser que utiliza, transforma e aperfeiçoa, gradualmente, os meios naturais. É o fabrico de objetos com um fim prèviamente imaginado que o caracteriza. É certo que outros animais (v. g., as formigas, as abelhas, os castores, as aves quando constroem os seus ninhos) também transformam os meios naturais. A diferença consiste em que tal transformação, sôbre ser instintiva e automática, corresponde a um fim imediato e não é suscetível de melhoramento.

No Homem, essa transformação tem um caráter mediato e corresponde a uma forma de pensamento que, por assim dizer, se insere, como uma reserva futura, no objeto fabricado. Êste pode não ter uma utilização imediata e servir, como sucede quase sempre, para o fabrico de outros objetos. Ora, aqui é que existe a diferença que consiste na primeira síntese harmônica entre o espírito e a matéria. É na revelação do seu espírito de previdência, na antecipação reflexiva que tal ato significa que se encontra a característica essencial da espécie humana. O Homem é o único ser que tem a noção do tempo, isto é, que sabe que alguma coisa se passou antes dêle e que alguma coisa se virá a passar depois. E é a partir do momento em que êle procede como tal, isto é, a partir do momento em que a noção do tempo se toma, nêle, um fenômeno de consciência, que se pode considerar como Homem. Os outros sê-res são meramente espaciais. O Homem é um ser temporal, tendo criado, assim, uma nova dimensão que o identifica e superioriza. E é através dela que conseguirá evadir-se, cada vez mais, da tirania da sua vida instintiva.

BIBLIOGRAFIA

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DA LUTA INDIRETA E INDIVIDUAL COM OS ELEMENTOS ATÉ PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SOCIAL

CAPÍTULO 1 - O HOMEM PALEOLÍTICO

Conduzimos o Homem pelos caminhos ' da Geologia, da Paleontologia, da Biologia e da Antropologia — ainda difíceis e ensombrados — até ao momento em que nos pareceu que o podíamos designar como tal, isto é, até àquele em que, tendo adquirido a noção do tempo, êle assumiu a consciência de si mesmo. A partir dessa data, o Homem toma-se um ser antropocêntrico, isto é, um ser que tenta explicar o Universo em função de si próprio. Tal atitude, ao contrário do que afirmam certos especuladores teóricos, é perfeitamente natural e não representa orgulho despropositado, mas a única posição que lhe permite estabelecer entre o Universo cósmico e a sua consciência individual uma relação indissolúvel e permanente. De fato, é com os seus olhos que o Homem vê, com as suas mãos que palpa, e com a sua consciência que elabora a Teoria Geral do Conhecimento, que lhe permite localizar-se dentro do Tempo e do Espaço. É por isso inteiramente lógico que, ao sentir-se dependente do que o rodeia, o Homem sinta também que êsse Universo só existe por si e na medida subjetiva em que o compreende e interpreta.

Eis por que, tendo-o deixado no capítulo precedente no limiar da Pré-História e tendo-o conduzido por um caminho fora dêle, de agora em diante temos que condicionar a nossa narração por aquilo que dêle exclusivamente depende.

É certo que não pretendemos assegurar que o caminho percorrido tenha sido o que realmente estabelecemos. .. Provindo da primeira célula viva que está na origem de todos os sêres, fizemo-lo chegar até ao Homo sapiens, cuja ascendência é indiscutível, partindo do Antropóide como antepassado comum, através do Pitecantropo e do Homem de Neanderthal, sôbre cuja posição na linha ancestral do Homem existem, nos meios científicos, as mais diversas interpretações. .Reconhecemos, no entanto, que, embora o sentido geral da marcha deva ter sido o que traçamos, as coisas podem não se ter passado assim, podendo mesmo admitir, como alguns autores pretendem, e entre êles Boule, que, quer o Pitecantropo, quer o Homem de Neanderthal, não passem de ramos colaterais extintos e não façam parte da sua ascendência dirfeta.

Mas isso não muda os dados do problema, e a teoria que perfilhamos, por nos parecer a mais fundamentada, tem, pelo menos, o mérito de estabelecer as coordenadas que marcam a posição a partir da qual êle atua como Homem na sua vida de relação.

É aqui que começa o domínio da chamada Pré--História.

O QUE É A PRÉ-HISTÓRIA

Mas o que é Pré-História? Também neste particular e no que diz respeito aos limites que circunscrevem a ciência que dela trata, — admitindo que como ciência possa ser considerada — os homens não chegaram a acordo. Mas ponhamos de parte as suas controvérsias e admitamos — aceitando a concepção geral, por assim dizer popular — que por Pré-História se deve considerar o período da História do Homem de que não existem documentos escritos nem revelações diretas e pro-prositadas da sua passagem sôbre a Terra. É certo que com isso nos arriscamos a ter que admitir uma forma paradoxal de Pré-História recente, que tem o nome de Etnologia, e se refere à história dos atuais povos primitivos. Mas o inconveniente é pequeno em face da comodidade da definição.

É, pois, dêsse longo e misterioso período que vamos tratar, utilizando-nos dos elementos de interpretação ao nosso alcance, tão variados e, ao mesmo tempo, tão complexos, que vão desde o talho rudimentar dos primeiros objetos e dos primeiros utensílios de pedra — os eólitos — até à análise das lendas e dos mitos, forma transposta de tradição oral, enquanto não nos fôr possível (segundo a teoria de Jung) trazer à superfície, isto é, ao conhecimento lógico e racional, por meio de uma psico-análise profunda, os elementos fundamentais do inconsciente coletivo.

Mas a análise dêstes documentos terá que ser cuidadosamente feita tendo em vista que êsse período da História do Homem é muito mais importante para a interpretação da sua conduta social e para a determinação do seu destino que a última fase — período ca-racterizadamente histórico — da sua passagem sôbre a Terra. É que, de fato, foi nesse longo e obscuro período que se elaboraram tôdas as condutas e se fizeram as descobertas fundamentais que permitiram e justificaram o seu progresso posterior. A descoberta do fogo, a criação da palavra, a utilização racional do meio exterior — a invenção das armas e dos utensílios essenciais, para a sua sobrevivência — pertencem a êste período. Não lhe podemos ligar, portanto, a pequena importância que certos historiadores lhe têm atribuído.

O Homem é um ser que, quer sob o aspecto biológico, quer sob o aspecto histórico, tem uma infância prolongada. E é talvez isto — no que estão de acordo certos espíritos esclarecidos — que lhe permite uma integração valorizadora e progressiva dos dados da experiência.

Nisso também se distingue dos outros sêres vivos, sêres naturalmente especializados, de infância muito mais curta e de evolução muito mais rápida.

Mas nem só sob o aspecto material êste período tem importância. Também sob o aspecto espiritual o temos que considerar especialmente,, pois é nêle que se esboçam e se elaboram os fundamentos de tôdas as suas condutas, isto é, da sua atitude racional e psicológica em face da sua vida de relação. De fato, é nêle que aparecem, embora em embrião, tôdas as' instituições sociais que, depois, no decorrer do período histórico, iremos estudar em pleno desenvolvimento. Assistiremos, assim, à formação das crenças, à criação do poder, à constituição da sua vida econômica e à manifestação cada vez mais intensa do seu instinto de superação, expresso das mais diferentes maneiias, que vão desde a ambição de domínio até à transformação de uma tendência mágica e utilitária numa tendência estética a que se pôs o nome de Arte. O instinto da Forma e da Beleza também é próprio do Homem e sempre se manifestou desde os mais recuados tempos, quer de forma afetiva e concreta pela sua atitude eletiva no Amor, quer de forma abstrata por êsse desejo de expressão misteriosa e profunda que conduz às manifestações artísticas.

E não é de admirar que isto se tenha dado porque, se compararmos o período histórico com êsse período ante-histórico, ficaremos admirados da pequena extensão dêste em face daquele. A proporção de 1 para 10 pecará ainda por deficiência, pois se atribuirmos, exageradamente, 10 mil anos de duração ao chamado período histórico (e de fato êle não excede seis ou sete mil anos), não podemos atribuir menos de 100 mil anos — e isto adotando uma cronologia curta — só ao período chamado paleolítico.

Mas o tempo, que joga a favor desta gestação complexa e profunda de tôdas as atitudes e condutas especificamente humanas, tem pouca importância no que se refere a êste período e ao estudo a que, sôbre êle, vamos proceder.

De fato, não é sôbre a fixação de datas ou de acontecimentos — a que teremos necessàriamente que recorrer na fase histórica — que êle incidirá, mas sôbre as atitudes gerais, fora do tempo e do espaço, dum ser ainda impessoal e alheio a designações. O Homem neste período é sempre e só o Homem — fora de todo o condicionalismo temporal e verbal — e o investigador terá que proceder ao seu estudo como aquêle que, ao contemplar a imensidade do oceano, procura a direção das correntes e as leis que regem a criação das vagas.

A VIDA DO HOMEM PALEOLÍTICO

De que forma vivia o Homem Paleolítico? Quais as suas instituições próprias, se instituições se lhe podiam chamar? A que obedece a designação que lhe é dada? Por que poderiamos adotar ainda essa designação, ou mais propriamente a de Neolítico, para algumas raças contemporâneas ou quase contemporâneas?

Finalmente: qual a importância da sua conduta psico-social para a marcha e evolução da Civilização?

A resposta à primeira pergunta tem que ser naturalmente cautelosa, pôsto que uma das condições da ciência histórica é a sua exatidão e ainda porque os documentos encontrados (aqui a palavra documentos toma a acepção de vestígios) não são suficientemente elucidativos. É com esta significação que consideramos documentos quer os rudimentares utensílios de pedra que o homem fabrica, lascando-a e facetando-a, trabalhosamente, quer os que resultam da sua atuação direta ou indireta sôbre o meio natural — cinzas, ossos de animais, restos alimentares, etc. E todos êles têm que ser interpretados cuidadosamente, tendo em vista não só as condições geológicas do seu aparecimento, como a sua relacionação com os outros documentos encontrados.

Entre êsses documentos têm especial importância (para além dos utensílios que comprovam o avanço técnico da sua organização social) as manifestações diretas da sua atividade, tais como a sua pintura e, principalmente, os seus túmulos, prova de que a inu-mação dos mortos é uma das mais antigas práticas humanas. A essa inumação se quis atribuir, desde logo, uma significação religiosa, hipótese que parece arredada, como veremos, pelo menos a respeito dessa fase primitiva da civilização.

Quando procedermos ao estudo, embora sumário, dos documentos encontrados, a essas inumações nos referiremos para estabelecermos o que nos parece ser o seu verdadeiro significado.

Procuremos, por ora, traçar um quadro de conjunto do que deve ter sido a vida social do Homem Paleolítico, para depois interpretarmos cada um dos seus elementos e partirmos, daí, para o estudo dos fenômenos que estão na raiz de certas manifestações da civilização contemporânea e de certas condutas do Homem atual.

Para isso é necessário que não nos esqueçamos que esta designação — Homem Paleolítico — abrange (por assim dizer, cobre) um longo período de mais de 100 mil anos, e que as manifestações da sua atividade, por mais que queiramos fugir à tirania do tempo, não podem deixar de ser interpretadas cronologicamente. É isso que justifica a classificação em Paleolítico Antigo, Médio e Recente, universalmente adotada. Tal classificação interessa, no entanto, mais a outras ciências com limites estabelecidos, e a ela nos esquivaremos, sempre que pudermos, para estudar o aparecimento e desenvolvimento dos fenômenos fora de qualquer classificação usual.

A vida social do Homem Paleolítico tem, como não podia deixar de ter, um fundo especlficamente instintivo e gregário. A solidariedade que os reúne é uma solidariedade por semelhança muito próxima ainda da que preside à reunião, em bando, de certos animais. Nela não intervém, senão muito escassamente, um fator voluntário, que só virá a revelar-se, mais tarde, em face da consciência de um perigo comum e da necessidade de o combater. Por isso as suas agremiações coletivas têm um caráter acidental, ameaçadas constantemente de dissolução logo que o perigo desaparece.

Essa é também a razão por que os primeiros utensílios encontrados não são mais do que uma substituição daquilo que a natureza, através da evolução biológica, lhes tinha retirado: as suas armas naturais.

Privado de garras e de prêsas, com fôrça muscular e agilidade muito inferior à dos sêres que o rodeavam, cercado pelos perigos de um universo manifestamente hostil, o Homem tinha, sobretudo, — para além de se alimentar — a necessidade de se defender.

Êsses instrumentos — machados, bastões, simples pedras afeiçoadas rudimentarmente — não são mais, afinal, do que um prolongamento da sua natureza, e um produto, revelado, da sua inteligência primitiva.

O pavor reina nesses recuados tempos e é sob o signo do mêdo que a civilização começa a organizar-se e a evoluir.

A FAMÍLIA PALEOLÍTICA

O Homem Paleolítico vivia em pequenos bandos, criados, conforme foi dito, ao sabor das necessidades — bandos fàcilmente dissociáveis, logo que a pressão do perigo, ou que a razão que presidia à sua reunião acidental (por exemplo: a inumação dos mortos, ou a perseguição da caça), desapareciam. A célula orgânica que estava na base dessa rudimentar organização social seria, presumivelmente, a família. Não a família — unidade afetiva, jurídica, econômica e moral — como hoje a conhecemos e interpretamos, mas o produto de uma acidental reunião de indivíduos de sexos diferentes, criada ainda, exclusivamente, sob o signo dos impulsos do instinto e, por isso, também mais fà-cilmente dissolúvel. As razões econômicas que hoje, mais que quaisquer outras, presidem à sua continuidade eram quase, senão totalmente, desconhecidas, e as próprias razões afetivas apenas um reflexo condicionado pela lei imperativa da perpetuação da espécie. A lei que dominava era a lei do mais forte e por isso o poder — embora se tratasse, na sua essência, de uma organização comunitária — era exercido por aquêle que, pela sua fôrça, podia obrigar direta e coativa-mente os outros a obedecer-lhe. Aliás, é o que, de maneira indireta e hipocritamente mascarada, se tem procurado fazer, sempre, através da já longa história do Homem.

O chefe do grupo não era, contudo, ao contrário da opinião seguida por muitos historiadores, necessà-riamente o mais velho. Podemos até afirmar que não seria com certeza o mais velho, dado que êsse respeito pela velhice, condição de experiência mas também de fraqueza, era, nesses primitivos tempos, completamente desconhecido. É êle que está na base da gerontocra-cia grega e moderna e filia-se a razões complexas, nessa época totalmente insubsistente. Ao estudo da geronto-cracia, uma das instituições importantes para a compreensão de certos fenômenos histórico-sociais, procederemos, na altura oportuna, demoradamente. Por ora, basta-nos constatar que, em relação ao Homem Paleo-lítico, ela ainda se não tinha esboçado, dada até a circunstância de que a velhice — tal como hoje a concebemos — era, nessa época, completamente inexistente.

De fato — e tendo em conta as condições hostis do meio exterior e a precária defesa que lhes podia ser oposta — raros eram os indivíduos que ultrapassavam os 25 anos e mais raros ainda os que chegavam à idade provecta dos 30.

Mas, como neste mundo condicional tudo tem um valor relativo, é também possível que nessa idade — atendendo à dureza da luta pela vida e às ásperas condições do meio ambiente — os homens acusassem um desgaste fisiológico só comparável ao que é hoje apresentado pelos homens de 60.

Por isso a expressão de velho — com que são classificados, paleontològicamente, fósseis de indivíduos de 30 anos — não é, totalmente, descabida. .

Aliás, o respeito pela velhice é uma virtude relativamente moderna, devendo confessar-se que não tinha, nesses tempos, demasiada justificação. A tirania do pai, a sua brutalidade que chegava ao extremo da expulsão — e algumas vêzes ao próprio filicídio — quando os filhos ameaçavam tornar-se seus competidores, explica, de certa maneira, a atitude dos filhos que não hesitavam, também, quando o pai envelhecia ou ficava inutilizado pelos duros combates que era obrigado a travar no decorrer da sua áspera vida, em expulsá-lo ou, mesmo, aniquilá-lo. Em Portugal, na Serra do Ge-rês, há uma pedra a respeito da qual, ainda hoje, se mantém a tradição oral milenária de que servia para os filhos atirarem os pais para um precipício quando êstes atingiam extrema velhice.

z Durante muito tempo deu-se a êsse impiedoso fenômeno a repugnante explicação econômica de que os filhos pretendiam, assim, evitar o sacrifício de alimentar uma bôca inútil. A razão é, no entanto, muito outra: trata-se nada mais nada menos do que uma competição direta (luta pela posse da fêmea, do alimento ou do domínio), ainda não adoçada pelos elementos espirituais que a evolução da civilização viria, mais tarde, a introduzir-lhe.

Não quero, no entanto, dizer — por muito que custe confessá-lo — que essa competição ainda hoje não se manifeste, embora de maneira indireta, e não se revele — sobretudo no período da adolescência — no surdo mal-estar e na irritação latente que costuma manifestar-se, nessa altura, entre pais e filhos. O que se deu — e é êste o grande benefício da civilização — foi uma sublimação criada pela concepção de que o domínio do pai — de que, de fato, êle nunca desiste — se perpetua, biológica e espiritualmente, através da sua descendência. Isto sob o aspecto exclusivamente familiar e direto, porque sob o aspecto indireto continua a manter-se entre as diferentes gerações (por maior que seja a influência da educação e das idéias morais) uma surda oposição que se manifesta em todos os ramos da atividade humana e que é a causa fundamental das grandes transformações.

Entretanto, é necessário não esquecer que uma geração só abandona o domínio que exerce efetivamente quando, de todo em todo, não tem possibilidade de o manter, não hesitando em sacrificar a mocidade às suas idéias, ao seu bem-estar e à sua concepção de vida.

É isso que explica que, num mundo dominado, sejam quais forem os regimes e a ideologia que os informa, por uma gerontocracia mais ou menos disfarçada, as guerras sejam decididas e provocadas pelos homens de mais de 40 anos, e combatidas e sofridas, principalmente, pelos rapazes de 20.

É certo que o aspecto com que êstes fenômenos se manifestam é totalmente diferente, mas não consegue ocultar, do observador imparcial e experimentado, as suas causas profundas.

ASPECTOS SOCIAIS E MORAIS

Também o matriarcado, — poder da mulher sôbre o agregado social — cuja existência nesses grupos sociais primitivos não está suficientemente esclarecida, e apenas se pode presumir pela análise etnológica dos grupos primitivos atuais, deve ter tido a sua origem no comportamento especial dos indivíduos do sexo masculino. A Mulher representou sempre, pela sua especial conformação física, pela sua particular inaptidão para a luta direta pela existência, o elemento sedentário e agregador do grupo social, que ainda era, nessa altura, valorizado pela situação particular de prêsa cobiçada e de prêmio de vencedor. Menos sujeita do que o Homem — apesar da sua intervenção, hoje mais intensa do que anteriormente, na vida social — ao desgaste e aos perigos da luta pela existência, ela representava, também, o elemento de permanência, em redor do qual os grupos humanos se formavam e se desenvolviam. Embora acompanhasse o Homem, como é de crer, na sua vagabundagem e nas suas deslocações, determinadas pelas migrações dos animais e pela procura de alimentos, outra — que não a de lutar com o inimigo ou com os animais ferozes, ou perseguir a caça — era a tarefa, por assim dizer social, que lhe estava assinada. A ela competia velar pelo fogo — o que faz crer que a sua utilização foi primitivamente acidental — e, principalmente, cuidar dos filhos e educá-los. Não é, pois, de estranhar que a sua influência se tivesse tornado determinante, quer sob o aspecto afetivo, quer sob o aspecto social.

Como elemento de permanência, assegurava a continuidade da família e da espécie; como elemento social, mantinha, através da tradição oral, as regras coletivas, tàcitamente estabelecidas, e transmitia as formas elementares de conhecimento. E se não podemos falar ainda em poder, no sentido jurídico e político, — poder êsse que só posteriormente aparece e que, como veremos, tem, na sua origem, um fundamento religioso — pràticamente, isto é, no sentido de determinação das condutas, temos que o considerar como tal.

Vem a propósito fazer notar que a afirmação que tem sido feita — e que acabamos de corroborar — de que a mulher foi sempre encarregada de velar pelo fogo resulta de uma simples presunção e dedução lógica. Ela encontra-se, contudo, nitidamente, embora simbolicamente, comprovada pelo culto das vestais encarregadas de velar pelo fogo sagrado, de que ainda são, hoje, reminiscências esclarecedoras as lâmpadas votivas acesas junto de certas imagens e do túmulo dos soldados desconhecidos. Tal reminiscência reproduz um costume antiqüíssimo, representado, primitivamente, pela necessidade essencial de se conservar o que era difícil ou quase impossível de se obter.

Também a repugnância pelo incesto e a punição que lhe estava adstrita — possivelmente a regra moral mais antiga da Humanidade — teve a sua origem na atitude particular da mulher que deve ter procurado preservar, em seu proveito e alheio, as filhas dos apetites sexuais dos pais e dos irmãos. Não é esta a explicação que Dubkheim — um dos mais esclarecidos e argutos tratadistas dêstes problemas — nos dá de semelhante regra na sua Memória sôbre a Proibição do Incesto. Para êle, trata-se apenas de um tabu, proibição de caráter religioso ligado às organizações totêmias e expresso, socialmente, pelo casamento exogâmico, ainda hoje praticado por certas tribos australianas. Quando nos referirmos mais circunstanciadamente ao totemismo — de que não se encontram vestígios, pelo menos nos primeiros períodos da época paleolítica — verificaremos como êste costume é inaplicável à origem desta regra moral.

Afirmamos que o Homem Paleolítico (estamos ainda tratando da sua fase mais primitiva correspondente ao Paleolítico Antigo) vivia em pequenos grupos acidentais, formados e dissolvidos ao sabor das necessidades. Isto quer dizer que êstes grupos não têm um caráter especlficamente político, e nem sequer como clãs (forma inicial das organizações políticas) podem ser tomados, visto faltarem-lhes o fundamento moral e religioso que os caracteriza.

Quando estudarmos os clãs (não confundir com tribos, êrro comum largamente espalhado), veremos, nitidamente, a diferença que existe entre as associações inorgânicas determinadas pela solidariedade por semelhança e pelo sentido gregário da espécie, e as associações voluntárias e organizadas (embora comunitárias e de poder político disseminado) representadas pelos clãs.

De qualquer forma, porém, o grupo humano a que nos estamos referindo é a base de tôdas as organizações sociais futuras e nêle fervilham as tendências que, mais tarde, se hão de estratificar em definidas formas sociais.

Chegou, portanto, a altura de pormos em relêvo uma carência, ou melhor, uma aparente inferioridade do ser humano, que, a nosso ver, é paradoxalmente a causa da sua ascensão em relação aos outros sêres e a razão determinante de todo o progresso social. Queremos aludir à sua carência de especialização e, principalmente, à sua quase absoluta inadaptabilidade biológica. Enquanto que os outros sêres vivos são incapazes de modificar o meio ambiente e têm, por isso, de acompanhar (para poderem sobreviver) as suas transformações, com co-relativas transformações biológicas (mudanças de pêlo, quer na côr quer na espessura, manifestações miméticas, etc.), o Homem que não se adapta biologicamente vê-se obrigado a criar condições exteriores de sobrevivência. E é êsse esforço consciente que substitui e compensa a sua (nesse particular) inferioridade biológica, que está na raiz da sua evolução espiritual. É certo que é êle, também (como adiante veremos), o criador de necessidades artificiais que, um dia, possivelmente, o levarão ao risco da sua própria destruição. Mas isso é uma circunstância inelutável, que faz parte do ciclo fatal do seu destino.

O CONCEITO DE HOMEM PALEOLÍTICO

Qual a razão da expressão universalmente usada de Homem Paleolítico?

Como é sabido, as exigências de exposição criaram, sempre, uma necessidade cronológica, acompanhada das suas concomitantes designações. O Homem, com a sua tendência de ordenação interior e exterior, é um ser que classifica (por assim dizer, rotula) não só o que o rodeia, mas também as formas virtuais e incorpóreas do seu passado e do seu futuro. É esta a tendência que está na origem da sua atividade verbomotriz, de que nasceu a palavra, instrumento ideal de relação e de comunicação. Também isto o separa dos outros sê-res e se baseia sôbre a sua consciente noção do tempo, de que já pusemos em relêvo sua fundamental importância.

Como haveria êle, pois, de designar êsses tempos indeterminados de que estamos tratando? Várias foram as classificações propostas e assentes sôbre uma ordenação científica relativamente arbitrária, e tôdas gozaram de um perecível e temporário favor. Dessas classificações, subsistiram apenas duas: uma de caráter geológico, e outra — que também adotamos por comodidade de exposição — de caráter arqueológico, ou melhor, relativa aos meios materiais da sua atividade. À primeira classificação fizemos já largas referências quando, sumàriamente, nos referimos à evolução geológica do nosso planêta, tendo o cuidado de pôr em relêvo a sua inaplicabilidade à evolução social do Homem, e de frisar, também, a sua não-coexistência com a classificação arqueológica. *
* Alguns dos têrmos da classificação paleontológica (aplicada à História) ainda hoje subsistem, como, por exemplo, a designação de Idade da Rena. Trata-se, porém, de uma simples expressão literária de limitado valor científico.

AS IDADES

A expressão Idade da Pedra (universalmente adotada) significa a idade em que os homens empregavam instrumentos de pedra para a transformação do meio natural, e engloba, como é sabido, o Período Pa-leolítico e o Período Neolítico. A ela se segue a Idade do Bronze e a Idade do Ferro, classificação também baseada no elemento natural de que são construídos os referidos utensílios. É essa a classificação que adotaremos, recordando, novamente, que a existência atual ou recente de povos que se encontram em regime se-mipaleolítico ou neolítico, e que as datas em que, em relação aos diferentes povos, êsses períodos terminaram, tornaram imprecisos os seus limites e nos obrigam a abstrair, de certa maneira, da sua essência temporal.

Quanto às expressões paleolítico e neolítico, baseadas nessa classificação, têm uma origem grega (de li-thos, pedra), acompanhadas dos prefixos (também de origem grega) que designam o antigo e o moderno.

O que distingue, contudo, na sua essência, as duas expressões é a forma como êsses utensílios foram (ou são) trabalhados pelos homens. Assim, o Período Paleolítico corresponde ao Período da Pedra Lascada, e o Neolítico ao da Pedra Polida.

Por uma questão de rigor histórico, devemos, desde já, afirmar que êstes dois períodos se interpenetram e que a pedra lascada continuou a ser largamente usada durante o Período Neolítico.

Aliás, como vamos ver, o valor desta classificação não é especificamente arqueológica e baseia-se na atitude do Homem e no desenvolvimento das suas possibilidades em face do meio natural.

Queremos fazer notar, também, que a existência atual de povos (ditos selvagens) em que se conservam certas características do Homem do Período Paleolítico ou Neolítico não significa, exatamente, que êsse período se tenha prolongado até aos nossos dias, nem invalida uma certa classificação cronológica. Êsses povos, em que uma segregação geográfica (não absoluta) retardou a evolução técnica e científica, só sob o aspecto material se podem comparar aos povos primiÉ nelas que os homens passam as longas noites de inverno e dormem os seus sonos inquietos, perturbados pela necessidade de uma vigilância contínua e por an-gustiosos pesadelos. E é nas suas paredes que, ao sabor de um instinto natural — que traduz, concomitantemente, uma certa emoção artística e uma atitude mágica e utilitária — êles fixam, de forma linear, mas que atesta uma naturalidade e uma visualidade que assombram, os seus anseios e preocupações.

Quando fizermos mais longas referências a essas manifestações artísticas, veremos a sua exata significação. Por ora, basta-nos pôr em relêvo o seu aparecimento e assinalarmos a sua existência como uma das primeiras e mais significativas manifestações espirituas do Homem Primitivo.

A VIDA RELIGIOSA

Outra dessás manifestações é a da construção de túmulos rudimentares, isto é, a da inumação dos mortos, a que se quis ligar — a nosso ver, erradamente — uma significação religiosa.

Como já foi dito, a existência do Homem Paleolí-tico era ameaçada, constantemente, por inúmeros perigos, de que acabava, em geral, por ser vítima e, por isso, de maneira geral, o Homem Paleolítico morria em idade muito jovem. Daí o concluir-se — com a facilidade com que, em geral, se tiram conclusões — que a idéia da morte dominava e ensombrava, nesses recuados tempos, a sua consciência. Entretanto, isto não é verdadeiro. É certo que o Homem Paleolítico vivia apavorado, dominado pelo receio concreto e também abstrato das formas hostis do Universo que o rodeava, o que não quer dizer, contudo, que temesse a morte ou que, tal como acontece ainda hoje à maior parte dos homens, sequer a admitisse ou acreditasse nela. E era justamente porque não acreditava na morte, que construía túmulos — casas de habitação para aquêles homens que, por fingimento ou disfarce, ou por razões naturais desconhecidas, tinham assumido essa atitude imóvel ou adormecido daquele sono profundo de que podiam acordar de um momento para outro para se vingar ou fazer mal. Não se tratava, pois, de uma atitude religiosa, mas de uma cautela que nem sequer re-sultava da idéia do duplo (desdobramento material, e espiritual do homem), que preside à concepção animista e que é uma das idéias mais antigas da Humanidade. Quando muito exprimia uma concepção pré-animista, a do cadáver-vivo, de que o vampiro medieval é um símbolo e uma sobrevivência.

O fenômeno pròpriamente religioso só começa a esboçar-se no fim do Paleolítico Recente, com manifestações evidentes no decorrer do Neolítico. Desde já chamamos a atenção para a confusão estabelecida, por alguns tratadistas, entre magia e religião. Entre elas, contudo, há só uma aparente relação, dado que a magia é uma manifestação do instinto utilitário do homem, uma tentativa empírica de exercer o seu poder sôbre as coisas que o cercam. A religião nasce do seu desejo de superação, do seu não-conformismo material e pressupõe, sempre, a idéia de um intermediário divino, isto é, de um poder que transcende as possibilidades do homem. Pragmàticamente, podemos considerá-la um ramo das crenças (veremos no decorrer dêste trabalho que elas não se limitam exclusivamente à religião), uma das místicas e um processo de evasão da sua limitada contingência material.

Sob o aspecto espiritual e em relação à magia, revela já um estádio superior de civilização, pôsto que, enquanto esta é indiferente a qualquer moral e cura apenas dos resultados práticos, aquela tem, necessària-mente, de partir de uma concepção de Bem e de Mal (concepção ao mesmo tempo social e divina) e, basean-do-se sôbre regras de conduta definidas, funciona, na sua origem, como fundamento do direito e do poder político ao mesmo tempo que procura fins que excedem à utilidade próxima dos homens.

Podemos, até, afirmar que sem uma crença (e veremos como os homens, mesmo os que se consideram indiferentes à religião, transformam sempre as suas ideologias em místicas) a vida de relação dos homens, garantida pela consciência moral do indivíduo, se tornaria impossível.

AS DIVISÕES DO PALEOLÍTICO

Sob o aspecto arqueológico, — cuja cronologia adotaremos — êste período divide-se em Paleolítico Antigo, Médio e Recente. Esta divisão tripartida é, a nosso ver, justificada e, embora os seus limites sejam, por vêzes, imprecisos, e êstes diferentes períodos se interpenetrem, correspondem, de fato, a fases diferentes da evolução da civilização primitiva. E dizemos diferentes e não progressivas porque, nelas, se observam também — tal como nos períodos históricos — períodos de regressão nítida, que contrariam a idéia geral de progresso indefinido. Entretanto, é preciso acentuar que visto de longe, e medido o tempo com a idéia preconcebida do seu infinito decorrer, o aspecto geral do conjunto — e é o que interessa — é o de um progresso, irregular, sujeito a fases negativas, mas constante.

Comecemos, pois, pelo Paleolítico Antigo, que corresponde, paleontològicamente, ao Homem de Neander-thal e pelo aspecto mais rudimentar das suas indústrias. Um dos aspectos que choca e que se torna necessário por em relêvo é — não obstante a vastíssima área da sua disseminação — o da uniformidade dessas indústrias.

Antes, porém, de entrarmos no seu estudo circunstanciado, examinemos a chamada questão dos eólitos que, não obstante o esforço dos investigadores e dos tratadistas, não se encontra ainda, inteiramente, resolvida.

Os eólitos são — para aqueles que os consideram como produtos de manufatura humana — os primeiros utensílios fabricados pelo Homem.

Trata-se, no entanto, de simples pedras aguçadas ou laminadas, que tanto o podiam ter sido pela fôrça dos agentes naturais, como pela ação voluntária do Homem. Ora, é nisso, justaménte, que consiste o problema. A circunstância de muitos dêsses eólitos terem sido encontrados em terrenos tão antigos que a existência do Homem não seria de supor, leva a adotar, por alguns tratadistas, a primeira das hipóteses. Entretanto, êsses eólitos foram descobertos, também, e com relativa frequência, em terrenos mais recentes, o que, novamente, estabelece a dúvida, embora o não tenham sido em aglomerados tão numerosos que daí se possa tirar a conclusão certa de uma ação consciente do Homem. A particularidade, porém, de, tal como êles se apresentam — fabricados ou não — servirem para fins úteis, podendo funcionar como armas, machados, perfuradores, etc. leva a uma segunda hipótese que apontamos pelo seu fundamento lógico e pela conclusão que, dela, se pode tirar. E esta é a de que não tendo sido fabricados pelo Homem, foram, pelo menos, por êle escolhidos e selecionados com critério voluntário de utilidade. E é esta escolha consciente — a muitos títulos admissível — que pretendemos acentuar, porque, a ter-se dado, como tudo leva a crer, marca a existência de uma operação lógica e uma precedência do espírito sôbre a ação, que é de considerar. Vemos, através dela, que, antes de transformar o meio natural, o Homem sabia já aproveitar-se dêle, o que nos apresenta desde o início a técnica — ao contrário do que parece suceder atualmente, em que ameaça subverter a ciência e o espírito — como um fenômeno subordinado.

Devemos fazer notar, contudo, que a questão dos eólitos continua ainda em aberto, e que os não podemos considerar definitivamente como os primeiros utensílios fabricados pelo Homem.

O PALEOLITICO ANTIGO

O mesmo já se não dá, em relação ao Paleolítico Antigo, com as descobertas em Chelles, circunvizinhança de Amiens (de onde deriva a denominação de indústria Cheliana), que englobam utensílios que são, comprovadamente, produtos de manufatura humana. Pode, até, afirmar-se, tal é a perfeição do seu acabamento e a sua complexidade, que se trata já de uma indústria desenvolvida, muito longe da sua fase inicial, de que, aliás, se não encontram outros vestígios senão os decantados eólitos. *

A circunstância de se apresentar associada a fósseis do elefante antigo, do rinoceronte de Merk e do hipopótamo (considerados como os animais característicos do período quente da Época Quaternária) comprova a sua grande antiguidade e demonstra a sua utilização pelo Homem de Neanderthal (habitante humano exclusivo da Terra nesse período), o que destrói, em parte, a hipótese de Boule, do seu psiquismo rudimentar.* Além da indústria Cheliana, há a considerar, em relação a êste período, as indústrias Aculiana e Micoquiana, que lhe são posteriores. Fazemos, no entanto, especial referência apenas àquela que nos parece mais significativa.

Descobertas semelhantes foram feitas em Clacton--on-Sea (isto no que diz exclusivamente respeito à Europa), sempre associadas à mesma fauna, embora o nível a que foram encontrados os utensílios e os fósseis seja muito menos profundo que o do Somme (situado entre 30 a 40 metros).

Mas em que consistem, essencialmente, êsses utensílios?

Mortillet, a quem se deve parte dessas descobertas e a denominação de Cheliana (universalmente adotada) dada a esta indústria, considerava a hipótese de um utensílio único, embora utilizado para vários fins.

Era o coup-de-poing (cuja tradução em português — punhada, sôco — não nos parece adequada) constituído por um pedaço de sílex trabalhado por percussão.

A circunstância, porém, do aparecimento de peças bifaces, formadas por um corpo muito bem trabalhado 4

e terminadas por uma ponta cuidadosamente talhada em forma de buril ou de instrumento cortante — ora curva, ora pontiaguda — vem desmentir, em parte, esta hipótese. A sua semelhança com os utensílios ainda hoje usados pelos Esquimós, Índios da Califórnia e pelos Australianos, todos êles munidos de empunhaduras de couro ou de hastes vegetais resistentes, leva-nos, até, a crer que assim fôssem utilizados pelo Homem Paleolítico, o que demonstra já um estádio avançado na técnica do fabrico.

Juntamente com êsses utensílios bifaces aparecem, também, peças unifaces, de caráter mais uniforme, e que, conquanto podendo servir para diferentes fins, demonstram um grau muito menor de especialização.

Isto leva a crer que, embora encontradas juntamente, representam um estádio menos avançado de industrialização. Mas, mesmo neste particular, continuamos no campo das meras hipóteses dedutivas.

O PALEOLÍTICO MÉDIO

Quanto ao Paleolítico Médio, — classificação que tem sido contestada por não se justificar, no conceito de alguns tratadistas, a sua individualização — corresponde a um período temperado e frio da época quaternária, encontrando-se as suas descobertas a um nível menos profundo e associadas a fósseis característicos da fauna fria, como o mamute e a rena.

A êste período, conhecido por Musteriano, — da gruta de Moustier, onde foram feitos os principais achados — corresponde uma utensilagem que não demonstra (pelo contrário) um grande avanço industrial. Trata-se de peças unifaces, na sua maioria, que por vêzes se encontram misturadas (o que sucede na própria gruta de Moustier) com peças bifaces. Nesta, a face biface aparece intercalada entre dois níveis unifaces, o que dificulta o seu esclarecimento cronológico. A circunstância de, em vastas regiões da Europa, não se encontrar uma indústria biface, mas caracteristica-mente uniface (portanto Musteriana) e gfsociada a uma fauna quente, mostra, mais uma vez, a precariedade das classificações e demonstra o cuidado com que deve ser interpretada a tipologia. De qualquer maneira, porém, uma conclusão se pode tirar desde já: é a de que, sob o aspecto industrial, o Paleolítico Médio representa uma fase de regressão.

O PALEOLÍTICO RECENTE

Quanto ao Paleolítico Recente, também denominado Paleolítico Superior (por referência ao seu nível geológico), divide-se, essencialmente, em três períodos: o Aurinhacense, com uma indústria análoga à Musteria-na, mas em que se esboçam formas especiais, as chamadas pontas de Andi (do abrigo de Andi), e em que (fato notável) aparecem, pela primeira vez, utensílios de osso; o Solutriano (do jazigo de Solutré), cuja posição cronológica (anterior ou posterior ao Aurinhacense) tem sido muito discutida, caracterizada pelo aparecimento de utensílios espalmados e planos, as folhas (folhas de loureiro e de salgueiro), mas em qué a indústria de osso parece ter sido abandonada; e, finalmente, o Madaleniano, em que a indústria lítica se apresenta decadente e em que os utensílios, sob o ponto-de-vista estético, são — embora variados sob o 4 aspecto utilitário — marcadamente inferiores. Em contraposição, a indústria do osso — constituída por espátulas, punções, agulhas finas, muitas vêzes de marfim, e finamente ornamentadas e trabalhadas — atinge o seu máximo desenvolvimento.

O que caracteriza, porém, êste período (referimo--nos, em conjunto, ao Paleolítico Recente), e lhe dá primacial importância para uma História da Civilização, é o aparecimento das primeiras manifestações artísticas, representadas por gravuras, esculturas e pinturas parietais. O problema da sua autenticidade, criado pela idéia de qualquer interessada mistificação, está hoje, por virtude de análise cuidadosa que foi feita e do reconhecimento científico da sua antiguidade (parte das pinturas estão recobertas por formações es-talactíticas que levaram milhares de anos e formar-se), inteiramente resolvido no sentido afirmativo.

AS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS

E o que, desde logo, assombra é a sua perfeição, especialmente sob o ponto-de-vista naturalista. Estas manifestações estéticas que aparecem já bastante longe da sua origem, e de que não se encontram, no entanto, as formas antecedentes, vêm chamar a atenção e pôr em relêvo um dos problemas fundamentais da História Humana e da própria condição do Homem — o da criação artística.

A Arte, como é sabido, é uma das formas de expressão do Homem, possivelmente aquela que mais próxima está da sua personalidade. Por isso, o fenômeno artístico que aqui, pela primeira vez, se manifesta — e cuja natureza permanece senão misteriosa, pelo menos irrevelada — assume, sobretudo na sua origem, particular importância. Segundo alguns, trata-se, apenas, de uma tendência utilitária, de um processo mágico de assegurar — em virtude de uma crença irra-ciocinada — o domínio do Homem sôbre as coisas e sôbre os animais. Esta teoria, que de forma alguma nos convence, nasce do exame e da análise da primitiva pintura parietal. De fato, ela reproduz, em linhas sóbrias e nítidas, — na sua primeira fase — com extraordinária exatidão, a forma e o movimento dos animais. E porque o Homem reproduz o que o preocupa, o que o rodeia e aquilo de que depende, vá se tirar a conclusão fácil de que se trata de um simples sortilégio tendente a assegurar, pràticamente, o seu domínio.

A carência de imaginação que esta arte primitiva revela, a sua falta de idealismo, não implicam, necesàriamente, que se trate de um simples fenômeno automático de reprodução, a que preside, exclusivamente, um sentido utilitário. Veremos, através do nosso estudo, que essas duas tendências artísticas — a realista e a idealista — alternam, sucessivamente, no longo desfiar dos tempos e que, de maneira direta ou indireta, ou melhor, de maneira concreta ou abstrata, traduzem sempre, não um estado de conformidade, mas um estado de exaltação, ora da realidade objetiva, ora da realidade interior. A Arte nasce, pois, a nosso ver, de um instinto de superação do Homem, da sua essencial perplexidade em face do mistério da Vida. Como na religião, mas de maneira menos interessada, o Homem procura, através dela, a sua ligação com o Cosmos e é por isso que, nos seus primórdios, Arte e Religião andam, muitas vêzes, unidas.

As primeiras manifestações artísticas do Paleolítico Recente — primeiras manifestações de Arte conheèi-das — aparecem, na Europa, no Período Aurinhacense e são constituídas, especialmente, por estatuetas de mulheres de formas exageradas e exuberantes. O seu exame dá-nos, à primeira vista, a impressão de casos de esteatopigia que, como se sabe, é uma característica racial dos Boximanes. Isso levou alguns tratadistas a identificar uma suposta raça aurinhacense com a raça boximane. Uma análise mais pormenorizada contraria, no entanto, esta teoria, hoje posta de parte pelos autores mais bem informados.

Além das referidas estatuetas, também foram encontradas gravuras de homens e de animais sôbre pedra, uma espécie de baixos-relevos, e pinturas, ou melhor, desenhos parietais, a negro e a vermelho.

Durante muito tempo supôs-se que o Período So-lutriano, que se lhe segue, marcava uma por assim dizer decadência artística, mas as descobertas feitas pelo Dr. Henhi Martin, em Roc, de blocos cobertos de baixos-relevos, que se podem considerar os melhores espécimes de Arte Quaternária, vêm provar o contrário.

É, porém, no Período Madaleniano que a Arte Pa-leolítica atinge o seu máximo desenvolvimento e expansão, quer pela variedade das suas manifestações, quer pela sua perfeição.

O abade de Breiul, que tem um curioso estudo sobre a pintura paleolítica, mostra-nos como evoluiu ela de traços quase lineares, através de desenhos monocro-mos (em amarelo, vermelho e negro) até às pinturas policromas que, com o seu cuidado dos relevos e dos pormenores, são magníficos exemplos de uma arte realista vigorosa. Essa evolução pode ser seguida partindo dos exemplares da gruta de Niaux (Ariège), onde se encontram os melhores desenhos lineares, até às grutas de Altamira, em Santander (na Espanha), célebres pela sua pintura animada e policroma. >

OS UTENSÍLIOS PALEOLÍTICOS

Muitíssimas conclusões se podem tirar, quer do exame dos utensílios usados pelo Homem no Período Paleolítico, quer das manifestações da sua Arte.

Quanto aos primeiros, o primeiro fato que deve chamar a nossa atenção é o da sua relativa uniformidade, através da vasta área em que se encontravam disseminados os indivíduos, ainda pouco numerosos, de que era constituída a espécie humana. Isto vem corroborar a nossa hipótese de uma espécie única, ou antes, dê uma única raça de homens, através de todo o Globo. Trata-se, evidentemente, do Homem de Nean-derthal, a que fizemos, no capítulo anterior, largas referências, embora haja quem lhe aponte como pre-decessores (o que não se encontra, de forma alguma, comprovado) o Homem de Mauer, de que se possui só uma mandíbula, e o Homem de Piltdown, *de que se encontrou, apenas, um crânio incompleto.

Quando traçarmos a cronologia absoluta dos tempos quaternários, veremos, então, como todos êstes fatos — os geológicos, os paleontológicos e os arqueológicos — se relacionam. Por ora, limitemo-nos a apontar esta circunstância da espécie única, na qual não deixaremos nunca de insistir.

A segunda conclusão que podemos tirar do exame da utensilagem paleolítica é a de que, não obstante a existência de períodos de regressão, um progresso nítido e constante, em relação a todo o conjunto, se pode observar. De fato, partindo dos eólitos, cuja significação é, como vimos, discutível, encontramos, primeiro, uma série de utensílios pouco diferenciados que nos fazem pensar na existência de um utensílio único e aplicável a tôdas as funções. No Paleolítico Recente, porém, já a sua diferenciação é bastante acentuada para nos fazer pensar num grau de especialização relativamente avançado.

São êsses utensílios, constituídos essencialmente por machados, facas, perfuradores, punhais, pontas de azagaias ou de flechas (na última fase), armas de defesa e de arremêsso, muito semelhantes, como já dissemos, aos que ainda são hoje usados pelos Esquimó^ Australianos e índios da Califórnia. Isto não quer dizer, no entanto — não obstante o auxílio que a Etnologia pode prestar a êste gênero de estudos — que o seu grau de avanço social seja, comparativamente, tão elevado como o dos selvagens atuais.

Nestes, como é sabido, existe uma organização política que, embora rudimentar, já é bastante diferenciada para podermos considerar, separadamente, cada um dos seus elementos. A formação do poder obedece a regras preestabelecidas e já se pode fazer uma nítida distinção entre governantes e governados. A sociedade paleolítica (se assim se pode chamar) é amorfa e in-diferenciada, e se é certo que existe, por vêzes, uma forma prática de domínio, é uma forma precária e acidental, que resulta, necessàriamente, de circunstâncias diretas. É a fase da Horda, em que o grupo age, na sua luta contra os elementos, como um indivíduo isolado, sem que a cada um compita, diferenciadamente, uma função.

Pelo exame da utensilagem, pode também chegar-se à conclusão de que o Homem vivia exclusivamente de caça e, possivelmente, de raízes e frutos silvestres, isto pela razão negativa de, nela, se não encontrar nada que, de longe ou de perto, se pareça com ferramenta agrícola — o que é corroborado pelos desenhos e pinturas que representam, sobretudo, animais e cenas movimentadíssimas de caça.

Tal gênero de vida não propiciava um aumento substancial da população, qu^só se verifica quando o Homem se sedentariza e descobre o pastorício e a agricultura. Mas isso só vem a dar-se na, que já é hoje costume chamar-se Revolução Neolítica — uma revolução tão importante, sob o aspecto da evolução social, como a moderna industrialização.

Também a cerâmica, ligada ao fenômeno de seden-tarização, só vem também a aparecejr mais tarde, com o Neolítico, exprimindo, sob o aspecto culinário e ornamental, um progresso considerável.

O Homem Paleolítico alimentava-se, como foi dito, de frutos silvestres, de carne crua ou simplesmente assada, só tendo descoberto mais tarde os prazeres da gastronomia. E embora êste aspecto do avanço social tenha sido singularmente desprezado, o certo é que o grau de civilização de um povo também se pode medir por aquilo que come e pela forma como o come.

Os adornos do Período Paleolítico — colares, bra-celetes, enfeites de tôda a ordem, de que se encontram magníficos exemplares — mostram bem que a Arte não tem, exclusivamente, no seu inicio, o caráter utilitário que se pretendeu atribuir-lhe. Pelo contrário, é, essencialmente, uma resposta a essa ansiosa busca da Beleza que, como uma inquietação sublime, acompanha o Homem desde os seus primeiros passos. Ela significa, também, uma espécie de prolongamento da personalidade, uma tentativa da sua plena realização. É neste sentido, um pouco abstrato e indefinido, que temos de a tomar, pois que, de forma alguma, lhe servem os limites precisos e pragmáticos com que a pretenderam circunscrever. E a própria existência excepcional de artistas, isto é, de indivíduos em quem o sentido da Beleza é mais elevado e em quem é maior a capacidade da sua realização, vem apenas confirmar o nosso asserto. ^ pois, através dêles que essa inquietação se liberta 9 se realiza, embora 0 sentido da Beleza corresponda/çomo foi dito, a uma tendência geral da Humanidade. ’ -

A existência de adornos numa época tão recuada vem definitivamente comprová-lo, e é até curioso notar a sua extraordinária semelhança — pois na forma e concepção pouco diferem — com os que, ainda hoje, são usados pelas senhoras da nossa sociedade e pelos negros africanos.

Com uma vida de relação limitadíssima e ainda não sistematizada, uma existência vagueante de perseguidor e perseguido, desconhecendo completamente a agricultura e o pastorício, que, mais tarde, o hão de fixar à terra, não sabendo construir ainda^nem casas nem barcos, o que só virá a acontecer no comêço do Neolítico, com uma linguagem imperfeita eSudimen-tar, 0 Homem não dispensava já êsse apetite de valorização e êsse desejo de agradar, que a existência de adornos traduz e que estão na base de uma mais humana organização social.

CAPÍTULO 2 - A DESCOBERTA RO FOGO

A utilização do fogo, como tudo leva a crer, deve ter sido meramente acidental e ter-se-á verificado muito tempo antes de o Homem ter descoberto a maneira de o provocar.

Tendo aparecido por virtude de uma causa natural — queda de um raio, incêndio espontâneo de matérias inflamáveis, etc. etc. — cedo o Homem se apercebeu da sua importância, isto é, quer do seu efeito destruidor, quer da sua utilidade. Oscilando, como todo o ser primitivo, entre o pavor e a curiosidade, o fogo deve ter provocado no seu espírito rudimentar as mais desencontradas reações. E é por isso que nós o vemos inscrever no subconsciente coletivo e gerar, através dos tempos, quando já se perdeu a memória consciente das alegrias e dos pânicos, uma série de ações com significação simbólica e até religiosa, a que já fizemos atrás referência, quando aludimos ao culto das vestais e às lâmpadas votivas. E é isso mesmo que nos faz crer — com uma razão justificada — que a sua acidental utilização precede à sua descoberta, pois só assim se compreende que fôsse guardado e venerado como um deus.

Tal como a idéia da morte, em que o Homem, fundamentalmente, não acredita, — morte, perda total da consciência do ser individual — o fogo foi um dos grandes modeladores da personalidade humana.

Começando por ter uma utilidade acidental e precária no período anterior ao período glaciar de Wurm (período quente) e a que corresponde a chamada indústria cheliana e aculiana, a que já aludimos, êle torna-se, logo no período seguinte, o de Wurm (período frio), não só uma necessidade essencial, como até, uma condição de vida. De fato, sem êle, o Homem não te-ria resistido ao clima glacial e às condições do meio ambiente e não pederia ter sobrevivido. A identificação filosófica entre o Fogo e a Essência da Vida, que vamos mais tarde encontrar nos gregos não é destituída de fundamento e filia, nesta circunstância, a sua razão de ser.

Mas nem só, neste particular, — tão importante que dêle dependeu a sua vida — o fogo teve influência sôbre o destino do Homem. De certa maneira, imobilizando-o junto do seu calor e da sua proteção, o fogo obrigou o Homem a pensar, ou melhor, a refletir. Impedido do movimento exterior, da ação que liberta, o Homem teve que procurar no movimento interior, isto é, no pensamento, um derivativo compensador para a sua forçada imobilidade. É, de comêço, um pensamento sem palavras, vago como uma sombra movediça, mas em que se começam a inscrever, como entidades próprias, a que êle sente necessidade de dar um nome, as imagens concretas do seu mundo exterior. Tal como acontece com os seus desenhos, essas imagens vêm despidas e nuas, sem o concurso de qualquer fantasia, mas criam, çomo não podia deixar de ser, uma nova realidade conceptiva, em que se esboçam já condutas e em que se elaboram as crenças, isto é, a percepção antecipada das ações futuras. A noção do tempo, vaga e informe, concretiza-se e torna-se mais densa e o Homem começa a distinguir entre o que se passou, o que se está passando e o que se vai passar.

É êste um elemento fundamental para a formação da sua consciência de Homem Primitivo, isto é, para a criação do supra-eu, em que os seus atos se refletem.

O momento em que o Homem transformou a utilização acidental do fogo na sua descoberta, não se pode, evidentemente, precisar. Por simples presunção, é de admitir que ela tenha resultado, acidentalmente também, do próprio fabrico dos utensílios e ao tempo do período glaciar de Wurm, isto é, no Paleolítico Médio, período em que o fogo se tornou uma condição de existência. O seu descobridor teria sido, portanto, o Homem de Neanderthal, único representante, nessa data, da espécie humana. Não restam dúvidas de que êle se utilizava dêle, pelos vestígios encontrados, sendo muito possível que, ao talhar o sílex para fabricar a sua ferramenta (e é preciso que não esqueçamos que a indústria musteriana que lhe corresponde era certamente fabricada por percussão), êle tenha aprendido a aprisionar a faísca que dessa percussão resultava. O concurso, também acidental, de algumas folhas sêcas deve tê-lo coadjuvado, sendo certo que a percussão de duas pedras de sílex é ainda um dos sistemas usados pelos selvagens contemporâneos para acender as suas fogueiras. É exato que esses selvagens tem outros processos mais modernos, — fricção da madeira ou compressão do ar num tubo de bambu — mas não abandonaram ainda o primitivo processo da percussão a que aludimos e que nos parece — dado o elemento natural com que eram fabricados os utensílios — a hipótese mais racional.

O ACORDAR DO PENSAMENTO

Seja como fôr, a descoberta do fogo é a invenção fundamental da Humanidade, não só pela sua utilidade imediata, mas, principalmente, pelos seus efeitos indiretos. Por isso a ligamos com o acordar do pensamento, nascido também, como a faísca do sílex, de uma espécie de percussão entre a consciência primitiva do Homem e a realidade exterior.

Obrigando o Homem à imobilidade para poder aproveitar dos seus benefícios, aumentando o seu poder de observação pela necessidade de o alimentar e dominar, o fogo contribuiu para transformar o pensamento, de prolongamento direto da atividade motriz, em função reflexiva, em que se começam a esboçar, embora embrionàriamente, as duas grandes formas da atividade mental, traduzidas pela criação de um mundo imaginário e pela observação do mundo sensorial, isto é, pelo pensamento especulativo e pela sua adaptação à experiência.

É certo que nem só o fogo, nem mesmo principalmente o fogo, foi o instigador do pensamento. A sua causa fundamental — mas essa tão especificamente biológica, que não é, por isso, de se considerar num estudo desta natureza — consiste na posição ereta do Homem e, sobretudo, na utilização, para fins diferentes da marcha, dos membros anteriores. À sua diferenciação corresponde um desenvolvimento cerebral considerável, sem o qual o pensamento se continuaria a esfumar nas formas difusas e diretas da vida instintiva. O desenvolvimento dos centros de Broca, que condicionam tôda a atividade mental, é feito paralelamente ao desenvolvimento das mãos, sendo certo que a posição ereta contribuiu para a intensificação do sentido visual ao mesmo tempo que provocou a diminuição do sentido olfativo, por se ter tornado menos necessária a sua função orientadora e seletiva.

Podendo, pela sua posição ereta, ver o Universo em tôdas as direções, o Homem tomou consciência não só da sua situação especial, como da ilimitada grandeza dêsse mesmo Universo. Isso deve ter-lhe provocado quer uma sensação de libertação, quer uma sensação de irredutível ansiedade, que estão na base da sua atividade reflexiva. São êstes dois novos elementos, porventura os mais importantes para a formação da sua consciência, que não podemos deixar de considerar. Para essa forniação contribui, certamente, a sua vida de relação, criando uma forma embrionária de direitos e obrigações, isto é, a primeira forma de reajustamento social que, correspondendo a uma limitação, a circunscreveu e identificou.

A PALAVRA HUMANA

O pensamento no Período Paleolítico, na sua função conceptiva, não atinge, ainda, o seu pleno desenvolvimento, mas é nêle, e logo na primeira fase, que a palavra — o principal elemento para a formação da sua consciência — se insere, quase como uma fôrça material, nessa faculdade geral de idear e de conceber que o pensamento representa. Podemos, até, afirmar, de tal forma o pensamento se molda e se cor-poriza em palavras, que o Homem pensa com palavras e que êste, que as gerou, começa, daí em diante, a depender delas. O Homem transforma-se então nesse animal falador que, no 'dizer de Pierre Janet, “age as suas palavras e fala os seus atos”. Para êle, o mestre da Psicologia moderna, a palavra é um estado intermediário entre duas percepções, uma atividade relacionai em que se encerra o germe das ações futuras. Nasce, por conseqüência, da consciência da noção do tempo, ao mesmo tempo que é um elemento substitutivo da sua atividade motriz. Por via dela — e isto teve uma extraordinária influência sôbre o seu desenvolvimento social e psíquico — o Homem conseguiu evitar muitos esforços físicos e atuar e fazer atuar, sem exemplificar pràticamente os seus atos, ao mesmo tempo que encontrou o meio ideal de conservar os frutos da sua experiência e de os acumular e transmitir pela tradição, que dela inteiramente depende.

Pôsto o problema desta maneira, a palavra tornou--se um fator de progresso, quer ativando a vida de relação entre os homens, quer conservando e transmitindo as formas elementares do seu conhecimento. Até que ponto o Homem Paleolítico se serviu dêste meio de comunicação e até que ponto o desenvolveu, não o sabemos nós. É natural até que, na sua primeira fase, o seu vocabulário fôsse extremamente limitado e ca-racterizadamente onomatopaico. Estamos ainda muito longe do meio de expressão que se cindirá em diferentes línguas e se tornará, com os gregos e os chineses, no meio ideal para corporizar e fixar as formas superiores do pensamento abstrato. De qualquer maneira, porém, nunca mais, desde que o Homem a criou, a palavra deixará de se expandir em todos os sentidos e de se tornar de tal forma poderosa que é gó por si suficiente para aproximar e separar os homens.

Iremos oportunamente chamando a atenção para esta dupla fôrça da palavra que, tornada uma entidade própria, age, ora centrípeta, ora centrifugamente.

É, no. entanto, conveniente fixarmos desde já que, sendo a primeira forma (e a mais poderosa) de libertação do seu mundo interior, ela permitiu ao Homem atuar fora do Tempo e do Espaço.

CAPÍTULO 3 - O HOMEM NEOLÍTICO

A distinção entre o Paleolítico e o Neolítico foi, durante muito tempo, fundada, exclusivamente, sôbre a forma como a pedra era trabalhada para o fabrico dos utensílios. Esta distinção revelou-se, a breve prazo, não só insuficiente e incompleta, como até
inexata, obrigando os tratadistas a procurar melhor critério definidor. Os utensílios do Neolítico continuaram, durante longo tempo, a ser trabalhados por percussão e a serem feitos de pedra lascada, sendo a pedra polida uma exceção que, só por si, não revelava a extraordinária modificação que se estava operando. De fato, a partir da retirada dos gelos, começou a verificar--se na Europa um afluxo de gente nova que estava produzindo, pela introdução de novos hábitos e costumes e pela inauguração do pastorício e da agricultura, uma autêntica revolução social. E são justamente êsses hábitos e costumes e o aparecimento de formas desconhecidas de atividade humana que caracterizam êste nôvo período. Com êle começa uma renovação total que subverte o existente e que transforma, completamente, as condições de vida do homem. A população até aí escassa, aumenta desmedidamente; os aglomerados humanos, precários e de formação acidental, que vagueavam pelas planícies européias, agrupam-se de forma regular, fixam-se ao terreno e constroem casas. A horda transforma-se em clãs e tribos e a vida familiar organiza-se com base num fundamento moral e jurídico que, daí em diante, com maiores ou menores modificações, presidirá ao seu destino. E com o sistema de trocas — que a criação da riqueza baseada na agricultura e no pastorício justifica — estabelecem-se os fundamentos da vida econômica que, doravante, tanta influência irá ter sôbre a evolução social.

A apreensão violenta dos bens — causa de lutas terríveis entre os Homens Paleolíticos — e a própria caça, forma principal de subsistência, perdem a sua importância fundamental e tornam-se atividades subsidiárias.

No Paleolítico, os Homens aproveitam-se dos recursos naturais e apossam-se dêles; no Neolítico, começam a criar êsses recursos, inaugurando o seu domínio sôbre as forças da Natureza. Neste aspecto, esta revolução é a revolução fundamental da Humanidade, podendo afirmar-se que tôdas as instituições do mundo moderno nela existem em germe, e que tôdas as condutas humanas que, ao depois, se vieram a desenvolver ativamente nela se encontram esboçadas.

Sob o aspecto propriamente industrial, — dando à palavra indústria a significação arqueológica — o Período Neolítico caracteriza-se, também, pelo aparecimento da cerâmica, que já no Mesolítico faz a sua acidental aparição.

Qual a causa fundamental desta efervescência transformadora? Qual a origem, a proveniência dês-ses homens que, por assim dizer, invadem a Europa?

Êste último problema já foi por nós estudado quando tratamos da evolução biológica no Homem. A nosso ver, o Homo sapiens (com as suas diferentes modalidades — Cro-Magnon, Chancelade, Grimaldi) que produz esta transformação não é o produto de uma espécie nova, de uma raça com uma origem biológica diferente. Trata-se apenas — e já explicamos as razões do nosso asserto — de um ramo mais evoluído do Homem de Neanderthal, que, tendo emigrado da Europa, perante a invasão dos gelos, para regiões mais favorecidas, a ela volta, depois de sofrer uma evolução mais rápida, quando as condições se tornam, novamente, favoráveis.

A efervescência que se manifesta logo no início do Período Neolítico tem, em primeiro lugar, como causa de aumento substancial da população, de que é testemunha o número avultado de esqueletos encontrados, e as novas condições climáticas já bastante semelhantes às que atualmente se verificam.

O NOMADISMO

O nomadismo. vagueante dos primeiros grupos humanos desaparece e, quando muito, transforma-se — mercê do pastorício, que implica a domesticação de animais úteis — num nomadismo racial que a busca de pastagens determina. Por outro lado, a agricultura que, no seu primeiro estádio, — o das sementeiras sem adubos e dos grãos simplesmente enterrados — ainda favorece a deslocação acidental das massas humanas em busca de terrenos ainda não esgotados, acaba — com a descoberta do arado e da enxada e com o emprêgo do estrume de animais — por fixar o Homem à terra e lançar as bases das primeiras civilizações urbanas. Com a estabilização forçada a que o seu nôvo modo de vida o obriga, o Homem sente a necessidade de construir casas e de ativar a sua convivência social que, mercê da troca de serviços, se irá tornando cada vez mais intensa.

E é curioso notar que êsses dois sentidos da atividade humana — o nômade e o sedentário — nunca mais deixarão de manifestar-se, ora completando-se, ora guerreando-se, persistindo o primeiro sempre teimosamente, não obstante tôdas as vantagens e benefícios que a sedentarização oferece.

Formam-se, assim, duas maneiras de ser, duas ten-dênciaS caracterológicas que, aparentemente opostas, vêm dar ao ser humano a rica variedade psico-social que ainda hoje nos apresenta.

O gôsto de aventuras e o apetite das riquezas têm a sua origem nestas duas opostas tendências do ser e, embora se manifestem irredutíveis, colaboram uma com a outra, para além da vontade manifesta dos homens, na criação do seu destino comum.

De comêço, ela levou, porém, ao aparecimento de povos nômades e povos sedentários de interêsses nitidamente opostos, e de características essencialmente diferentes. Do embate dos primeiros — mais combativos e mais orgulhosos, cuja unidade resulta da comunidade do sangue e da fôrça das instituições fundadas nessa comunidade: família, clã, tribo, etc. — com os segundos, agremiados pelo imperativo dos interêsses comuns e das tarefas coletivas, resultaram, como iremos ver, acontecimentos da mais alta importância que, mesmo nos tempos históricos, ainda se manifestarão ativamente, imprimindo à história do Homem uma espécie de movimento pendular, que ainda é hoje observável.

A emigração em massa, o instinto de apropriação e conquista, e as próprias viagens de turismo não são mais do que manifestações dessa tendência ambulatória a que também preside, muitas vêzes, a\ necessidade econômica. E se é certo que, hoje em dia, com exceção de alguns grupos humanos que ainda vivem do pas-torício, não há, propriamente, povos nômades — e êles perderam, como tal, a sua importância — isso não quer dizer que essa tendência primacial da espécie tenha desaparecido e não se manifeste, embora de maneira difusa, dentro dos grupos sociais e, às vêzes, até con-traditòriamente, dentro da consciência do Homem sedentário.

Seja como fôr, foi a fixação à terra, que se inaugura com o Neolítico, que permitiu a transformação da di-vagaçãa exterior na divagação interior e, assim, o desenvolvimento das formas mentais com todos os seus atributos, — reflexão, espírito de observação e ideação criadora — sem os quais nenhum progresso estável da Civilização teria sido possível. E se a Humanidade deve ao Homem que caminha uma parte do seu patrimônio (sobretudo no sentido geográfico e político), é exclusivamente ao Homem que pensa que ela deve a exploração racional e a conservação e transformação dêsse patrimônio.

Como já dissemos, tôdas as condutas humanas foram esboçadas logo no início dêste período e, por isso, tem-se procurado a causa e a origem — verdade seja, que sem as encontrar — dessa inopinada transformação do Homem. O desenvolvimento das várias funções — técnicas, econômicas, artísticas, religiosas, etc. — explica os efeitos, mas a causa tem de se ir procurar nessa dupla e oposta manifestação do espírito do Homem que pela primeira vez se verifica: a de se utilizar racionalmente dos dados da experiência e a de imaginar para além dessa mesma experiência.

DO PALEOLÍTICO AO NEOLÍTICO

A transição entre o Período Paleolítico e o Neolítico não se fêz tão ràpidamente como a distância temporal a que estamos colocados nos permitiría supor e é isso que nos explica a existência de um período intermediário e a denominação do Mesolítico, que lhe é universalmente dada.

O desaparecimento brusco da indústria paleolítica e o aparecimento, também brusco, de uma indústria de características totalmente diferentes — exprimindo modos de vida totalmente diversos — fêz, durante longo tempo, acreditar numa espécie de lacuna impreenchível que começou a ser interpretada das mais imaginosas maneiras. E o que mais impressionava era que, nas descobertas feitas principalmente em França pelo grande arqueólogo Mortillet, — a quem a ciência pré-histórica tanto deve como inve§tigador — logo por cima do nível em que se encontrava essa bem caracterizada indústria paleolítica, aparecia a nova indústria a que

— circunstância impressionante — para além de uma renovação de armas e utensílios faltava qualquer espécime da bela arte animalista que individualiza, ini-ludivelmente, o Paleolítico Recente.

Como na fauna que acompanha o nôvo grupo industrial, embora composta de cervídeos, falta, absolutamente, a rena, Mortillet admite que os habitantes

— quase todos caçadores de renas — tenham emigrado em sua perseguição, tendo sido substituídos por uma raça invasora provinda, possivelmente, do Cáucaso e da índia, com costumes diferentes e uma civilização mais evoluída.

Como o faz notar A. Vayson de Pradenne, esta hipótese não tem qualquer justificação lógica ou científica. O adoçamento do clima e o aparecimento de animais úteis em substituição da rena e, por conse-qüência, o aumento substancial de meios de abastecimento, fàcilmente apropriáveis que neste período (cha-memos-lhe de transição) se verifica, de forma alguma corrobora essa emigração em massa. E se é certo que um nôvo tipo de Homem assinala a sua presença e vem confirmar a hipótese, hoje comprovada, de uma migração de fora para dentro, isso não implica a fuga nem o desaparecimento total da espécie indígena, fato a que já anteriormente nos referimos.

Descobertas posteriores de indústrias de transição vieram resolver o problema. Trata-se de uma indústria lítica de pequenas dimensões e de uma indústria de osso e de chifre constituída especialmente por arpões, em que a matéria-prima rena é substituída pelo veado. É a indústria aziliana, assim chamada por ter sido descoberta por Prette, na gruta de Mas d’Azil, em Ariège.

Uma outra indústria, a tardenosiana, — da região de Fére-en-Tardenoise — trazida à luz pelo já citado Mortillet, tem a característica principal de te? como elemento natural o sílex, e ser constituída por pequenos utensílios de formas geométricas, — triângulos, trapézios e segmentos de círculos — entre os quais se destaca um curioso instrumento a que foi dado o nome de microburil. É a chamada indústria microlítica, que vem caracterizar êsse período. A questão ficou completamente esclarecida com o exame do Mesolítico Nórdico.

Como é sabido, todo o Norte da Europa estêve, durante o Período Paleolítico, coberto pelos gelos e, assim, a presença do Homem só se começa a assinalar ao tempo da retirada dêsses gelos, no fim do último período glaciar que corresponde à época mesolítica. A civilização no Norte inaugura-se, pois, com o Mesolítico, de que se fêz a descoberta de importantes indústrias — em sílex, osso e chifre — aparentadas longinquamente com o aziliano e com o tardenosiano e que uma razão, principalmente cronológica, vem identificar.

É a indústria maglemosiana, — de Maglemose — da qual se conclui, pelos restos ósseos que a acompanham, êste fato importante: o da domesticação dos cães que, pela primeira vez, fazem sua aparição como companheiros do Homem.

OS UTENSÍLIOS DE PEDRA POLIDA

Como já o fizemos notar, não é a circunstância de alguns utensílios serem fabricados em pedra polida que caracteriza o Neolítico. Êsses utensílios, que só aparecem, com relativa abundância, na última /ase, são,e comêço, extremamente raros, mesmo quando já se-deram transformações fundamentais que o individua-’ lizam como uma nova época. São elas o aparecimento da cerâmica — de que o Mesolítico, período de transição, já nos fornece alguns exemplares — e principalmente, o início <Ja agricultura, com o cultivo de cereais-e de algumas plantas têxteis, e a domesticação de animais que inaugura o pastorício.

Pelo exame dos restos encontrados no fundo dos lagos — detritos e objetos caídos das casas lacustres que também aparecem, pela primeira vez, nesta época — chegou-se à conclusão de que a flora útil, cultivada, já era constituída por 200 variedades e que se tinham domesticado, pelo menos, cinco espécies: o cão, o porco, o boi, o carneiro e a cabra.

Êstes resíduos — que a vasa do fundo dos lagos conservou — são também bastante elucidativos sôbrea alimentação, os costumes e a vida social que, em relação à que se presume existente no Paleolítico, se apresenta extraordinàriamente evoluída. Sabe-se, assim, que, se o Homem Neolítico ainda recorria à pesca e à caça para a sua subsistência, — o que se reconhece pelos ossos encontrados de veado, boi selvagem e javali — ia procurar o seu principal sustento, o que mostra um estádio muito avançado da sua evolução, ao produto do seu trabalho. A sua alimentação sumária e primitiva de frutos silvestres, raízes e carne de animais selvagens foi sendo gradualmente enriquecida e, logo, de comêço, o pão — uma espécie de pão grosseiro, feito de farinha moída entre duas pedras — faz a sua aparição, juntamente com a cerveja, obtida pela cocção de cereais fermentados. As maçãs, as peras, as uvas, também contribuem para ela e, possivelmente, a carne de boi — do boi que muitos supõem, de princípio, reservado para os holocaustos e para os sacrifícios sangrentos — também começa a ser utilizada, embora parcimoniosamente.

Isto sumàriamente, no que diz respeito à alimentação. Mas a agricultura não traz só êste benefício.fc Com ela — e com o cultivo das plantas têxteis a que acima nos referimos — inaugura-se a tecelagem, tendo-se encontrado não só peças dos primitivos teares manuais, como até restos de tela fabricados com linho grosseiro.

À medida que o tempo vai passando vão-se acumulando as descobertas, e os progressos tornam-se evidentes em todos os ramos da atividade humana, quer material, quer espiritual. Êsses progressos e essas transformações sucessivas justificam a divisão em épocas que também é aplicada a êste período, mas que é variável, no tempo, em relação aos diferentes povos e regiões.

Como também já tivemos ocasião de dizer, a Etnologia, ou seja, a ciência que estuda os costumes e instituições dos atuais povos selvagens, é um precioso auxiliar para a interpretação dos hábitos e costumes dos povos primitivos. E a primeira regra a tirar dos seus ensinamentos é a de que o exame da utensilagem e do elemento natural com que é fabricada não é um índice seguro para podermos aferir do avanço das instituições e do progresso geral da civilização.

Povos existem (ou existiram), como alguns da América Pré-Colombiana, que, conservando os seus utensílios de pedra, apresentam um grau muito mais avançado de civilização do que o que foi atingido por outros, na Idade do Bronze ou do Ferro. Vê-se, pois, o cuidado com que é necessário examinar os diferentes elementos de interpretação e o escrúpulo que é necessário ter para se poderem tirar conclusões.

OS TÚMULOS

Um dos progressos mais convincentes do Período Neolítico é o que se refere à construção de túmulos. Dela se podem extrair, logicamente, conclusões importantes para o estudo a que estamos procedendo. De fato, desde a simples inumação do Paleolítico, passando pelo período dos túmulos cavados no solo, de seção arredondada, até aos monumentos megalíticos (dol-mens simples ou em galeria) e aos simples cofres de pedra recobertos por uma laje (muito semelhantes aos túmulos medievais e que marcam o início da Idade do Bronze), há um longo caminho percorrido. Sem aceitarmos a subdivisão do Período Neolítico segundo a forma dêsses túmulos, — subdivisão adotada pelos arqueólogos escandinavos — e que nos parece demasiado parcelar, não podemos deixar de lhes atribuir a importância que merecem. De fato, o cuidado com os mortos — e é esta a primeira conclusão a tirar — traduz logo uma intensificação do sentimento místico que, no Período Paleolítico, apenas se esboçava. Por seu turno, êste sentimento místico, assim exacerbadamente manifestado, significa, como veremos, que a Humanidade atingiu a fase religiosa característica, o que pressupõe, desde logo, um marcado avanço espiritual. Já não se trata de um animismo simples — o reconhecimento da existência de um duplo (dissociação do corpo e da alma e idéia fundamental de imperecí-vel e universal sucesso) — mas de um verdadeiro culto dos mortos em que parece reconhecer-se, já, a influência de sêres invisíveis e poderosos — característica essencial das religiões. Esta conclusão, que adiante esclareceremos, é muito importante e, sem admitirmos completamente a lei dos três estados de Comte — o religioso, o metafísico e o científico, — não podemos deixar de reconhecer a predominância cronológica dês-tes três fenômenos tal como o grande pensador a estabeleceu.

Isto sob o aspecto especificamente espiritual. Porque, quanto ao aspecto material, que a simples presença dos túmulos megalíticos põe em relêvo, temos que constatar, também, que a sua construção implica, desde logo, um esforço coletivo considerável, que só te-ria sido possível com um aglomerado humano numeroso e com uma organização social avançada.

Mas a existência de túmulos não é importante, apenas, sob os aspectos acima considerados, pois fornece, com a utensilagem lítica e os objetos com que, em geral, eram inumados os mortos, um elemento de investigação de inapreciável valor.

AS DIVISÕES DO NEOLÍTICO

O Período Neolítico no decorrer do qual se deu, por assim dizer, a instalação da Humanidade nos seus quadros raciais atuais divide-se, segundo Vouga, — cuja classificação adotamos — em Período Arcaico e Período Recente que, por sua vez, se subdivide em Neo-, lítico Médio, Neolítico Recente e Período Eneolítico.

O Período Arcaico — que constitui um bloco homogêneo e é como que um prolongamento do Meso-lítico — caracterizou-se pela suá uniformidade geográfica, uniformidade essa que vai desaparecendo à medida que os povos se vão diferenciando e que as sub--raças européias se vão definindo. É durante o Neolítico Arcaico que os três principais tipos físicos, que os antropologistas estabeleceram no meio da confusão racial da Europa, fazem a sua aparição. São êles: o tipo nórdico, mediterrâneo e alpino, classificação um tanto teórica, mas que tem, pelo menos, o mérito de tôdas as classificações: o de auxiliar a exposição. O prejuízo que dela decorre de estabelecer quadros fictícios — cada ve^ maior, à maneira que se vai acentuando a homogeneização das raças da Europa (fenômeno característico dos tempos modernos) — não é, em relação à época que estamos tratando, ainda muito de considerar. Por isso a adotaremos — com as reservas feitas — porque a ela correspondem, de fato, — sobretudo em relação ao tipo alpino e ao tipo nórdico — diferentes modalidades do Neolítico.

Quanto ao Período Eneolítico a que acima fizemos referência — de ceneus, expressão latina — e que diz respeito à sua fase final e ao início da época histórica, é caracterizado pelo emprêgo simultâneo da pedra e do bronze e prolonga-se, na Europa, até ao 2.° milenário a. C. — época em que se inaugura definitivamente, em relação ao nosso continente, a Idade dos Metais.

Na fase média e recente do Neolítico Recente, há, sobretudo, a considerar, em relação aos tipos raciais e à situação geográfica, o Neolítico dos Palafitas — casas lacustres — e o Neolítico Nórdico.

Quanto ao primeiro, conhecido, também, por Período Robenhausiano, — do Robenhausen, no lago de Rfefficon, na Suíça — caracteriza-se, como já foi dito, pela existência de casas lacustres que se reúnem em aldeias de relativa importância, ligadas à terra por pontes bastante longas e protegidas pela construção de diques. Tais obras, independentemente do mais, atestam, só por si, a existência de aglomerados importantes e uma organização social complexa que já deve comportar uma certa divisão de trabalho. A existência de tribos — a que faremos, adiante, mais demorada referência — é já fora de dúvida, e o agregado social já deve ser regulado por regras preestabelecidas, sem as quais essas importantes realizações materiais teriam sido impossíveis.

Pelos restos encontrados e perfeitamente conservados, pode-se aferir dos vários progressos nos ramos diferentes da atividade humana.

A alimentação — que, como já foi dito, vai ainda buscar parte dos seus recursos à caça e à pesca — torna-se mais rica e variada. Os homens alimentam-se de frutos de árvores cultivadas. Um pão grosseiro faz a sua aparição e podem-se — pelos referidos resíduos — identificar, pelo menos, três espécies de trigo, duas de cevada e duas de milho. Em compensação, só há conhecimento de uma planta têxtil: o linho, na sua variedade de folhas estreitas.

O mesmo progresso se observa na utensilagem e nos ornamentos. A madeira, os ossos, os crifres e a pedra servem de matéria-prima, consoante o uso que lhes é destinado. Com a madeira constroem-se — além das casas — os arcos e as maças. Com os ossos fabricam-se punhais, tesouras e pontas de tôda a espécie. O chifre — de veado, sobretudo — serve para o fabrico de arpões e de azagaias, sendo empregado, também como a madeira, para cabos dos utensílios de pedra que constituem a parte mais importante do seu — chamemos--lhe assim — equipamento industrial. É com ela — especialmente com pedra dura e com sílex — que constróem os machados que derrubam as árvores, as enxós com que amoldam a madeira, as foicinhas com que ceifam as ervas e os cereais, e as facas — conhecidas por oulok — para usos domésticos. Os raspadores, característicos do Paleolítico Recente, ainda subsistem, e os buris — embora raros — continuam em uso.

Também com a pedra são fabricadas as pontas de flecha e mós (como ainda hoje) para esmagar os grãos.

A descoberta de fusos, pentes de cardar, pesos para estender o fio, etc., atestam um grande desenvolvimento da tecelagem que devia servir para o fabrico do pano de linho grosseiro — de que era feita, com o concurso de peles curtidas de animais, a sua indumentária.

A baixela, se assim se lhe pode chamar, era fabricada com madeira (escudelas) e com barro cozido (pratos e vasos).

Os objetos de adômo — pentes, botões, brincos, etc.

— têm como matéria-prima quase exclusivamente o osso e o chifre.

Uma circunstância negativa — a que já aludimos

— assinala êste período: é o desaparecimento da arte naturalista paleolítica, e mesmo a quase total inexistência de qualquer forma de arte plástica. Só na zona oriental da Áusjtria — onde também existe uma civilização lacustre — é que foram encontrados alguns ídolos grosseiros em terracota e pequenas figurinhas em argila em forma de crescente ou de chifre recurvado, a que talvez se possa atribuir uma significação religiosa. Isto não quer dizer*que a impulsão artística tenha desaparecido ou sofrido uma regressão, mas apenas que o Homem, voltado para si mesmo, começa a dar mais importância às formas interiores do que às exteriores, que dominavam anteriormente as suas concepções artísticas — o que já se reconhece pela introdução de um nôvo elemento de imaginação traduzido pelo simbolismo das formas esquemáticas, perfei-tamente reconhecível nas elucidativas, embora raras, manifestações artísticas dêste período que chegaram ao nosso conhecimento.

O NEOLÍTICO DO NORTE

O estudo sôbre o Neolítico do Norte é feito sobretudo com base nos Kgõkkeumõddinger (restos de cozinha), muito abundantes na Europa do Norte.

Trata-se, na realidade, de depósitos importantes, testemunhas da ocupação humana (que na Escandinávia, como se sabe, só começou após o fim do último período glaciar) e que compreendem, além dos referidos restos alimentares, pedras trabalhadas e outros utensílios. Correspondem, na sua primeira fase, — que os arqueólogos escandinavos classificam de Velha Idade da Pedra — a um modo de vida rudimentar que vai buscar os seus recursos à caça e à pesca. Na segunda fase, denominada Nova Idade da Pedra, — e que os mesmos arqueólogos dividem em cinco períodos, segundo as formas dos túmulos — a utensilagem lítica, que na primeira fase era constituída por raspadores, machados, perfuradores e facas de lâminas alongadas, torna-se mais abundante e mais complexa, compreendendo punhais, foicinhas, facas em forma de crescente e pontas de flecha, admiravelmente bem trabalhadas. O mesmo se dá com a cerâmica, a princípio grosseira, e com os objetos de osso e de chifre, logo abundantes desde o início.

No período final — o dos túmulos em forma de cofres de pedra — começam já a aparecer os objetos de cobre e de bronze, o que mostra estar-se numa fase de transição.

A existência de megálitos — dolmens e sepulturas em galeria — prova a existência de uma população numerosa que, por um exame de conjunto, deve estar socialmente mais atrasada que a do Neolítico francês ou suíço.

Os dolmens a que acima fizemos referência, e sôbre os quais existe uma variada literatura, são muito abundantes na França, sobretudo na Bretanha, onde se descobriram alguns milhares de espécimes, e até em Portugal, onde o período dolmênico corresponde ao espaço de tempo que medeia entre o 3.° e o 2.° milenários a. C.

Também em Portugal, como na França, se encontram os menires, — grandes pedras a pino — sôbre cuja significação simbólica, comemorativa ou expiatória, se têm formulado várias hipóteses, sem se ter chegado a uma conclusão definitiva.

Êsses menires — quando alinhados em círculo — tomam o nome, um tanto ou quanto rebarbativo, de cromlechs.

CRONOLOGIA DOS TEMPOS QUARTERNÁRIOS

Expostos, de uma maneira sumária, o equipamento industrial e as condições materiais de vida do Período Neolítico, tal como se pode inferir dos documentos encontrados, e antes de entrarmos no estudo das instituições sociais e da sua evolução durante êsse período, esbocemos, por uma questão de revisão e de fixação de idéias, um quadro da cronologia absoluta dos tempos quaternários, de forma a integrar e relacionar, tanto quanto possível, os fatos geológicos, paleontoló-gicos e arqueológicos mais significativos, e em que seguimos, embora com modificações, as preciosas indicações do grande arqueólogo francês A. Vayson de Pra-DENNE.

Embora, como já dissemos, uma medida exata de tempo não seja aplicada à duração do Período Paleo-lítico e Neolítico, várias têm sido as presunções científicas a êste respeito, tôdas elas baseadas em deduções lógicas mais ou menos discutíveis. Dentre essas destacaremos a que tem gozado de maioj’ fortuna, dada a competência e a seriedade científica do seu autor. É a do grande antropologista inglês Osborn, extraída da 3.a edição do seu livro Men of the Old Stone Age.

Segundo a sua opinião, os inícios de cada período seriam os seguintes:

Cheliano — 100.000 anos a. C.

Aculiano — 75.000 anos a. C.

Musteriano — 50.000 anos a. C.

Aurinhacense — 25.000 anos a. C.

Solutriano — início indeterminado mas terminando cêrca de 16.000 anos a. C.

O início do Madaleniano correspondería a esta última data e terminaria com o fim do último período glaciar, 10.000 anos a. C.

O Mesolítico, com os seus dois períodos, — Aziliano e Tardenosiano — ocuparia os dois milhares de anos seguintes.

Finalmente, iniciar-se-ia o Neolítico, 10.000 anos a. C., ocupando o Período Antigo até 7.000, o Médio ou Lacustre de 7.000 a 3.000, data em que começaria na Europa o Eneolítico, que se prolongaria até 2.000. Nessa data inaugurar-se-ia o Período do Bronze, que, na Ásia, teria tido o seu início muito mais cedo, por volta do quarto milenário a. C. A Idade do Ferro, posterior àquele, também teria os seus começos na Asia em data anterior à da Europa.

É isto que, nas suas linhas gerais, nos ensina o Prof. Osborn, sendo certo que só devemos tomar em consideração o que se refere ao período proto-histórico que se inicia com a fase eneolítica.


A PRÉ-HISTÓRIA IBÉRICA

Não podíamos terminar esta sumária exposição sem fazer um ligeiro esboço geológico, arqueológico e antropológico a respeito da Península Ibérica e especial mente de Portugal.

O núcleo central da Península emerge das águas logo na Era Arcaica, numa zona que, cobrindo a Galiza e o norte de Portugal, Minho, Trás-os-Montes e parte da Beira Alta — se estende passando pelo Alto Alentejo até a Serra Morena. O seu aparecimento é atribuído ao enrugamento caledônico — a perturbação orogênica do início da Era Primária — e torna-se mais acentuado com o enrugamento Hercínio, que data da segunda metade do Período Carbonííero. A esta última manifestação orogêniçjtse deve, na opinião dos melhores autores, a formação da Meseta Ibérica e o aparecimento de dobras montanhosas com a orientação NO-SE, hoje ainda representadas, em Portugal, não obstante o seu desgaste de milhões de anos e uma acentuada pene-planificação, pelas serras do Marão, Valongo, Monte-muro, Buçaco, São Mamede, Ossa e a do Caldeirão, no Algarve, isto para só citar as mais importantes. O maciço granítico de que é constituída quase totalidade do norte de Portugal data, por conseqüência, da referida época.

No fim da Era Primária novas perturbações se verificam e assistimos à formação completa dos Montes CantáricoS, do Sistema Lusitano-Castelhano, dos Montes de Toledo e da Serra Morena.

No fim desta Era, uma grande parte de Portugal tinha emergido das águas, com exceção do litoral do Algarve, do centro-litoral, onde atualmente se encontram Lisboa, Santarém e Leiria, e parte do Baixo Alentejo, mais propriamente da Bacia do Sado.

A Era Secundária — relativamente calma sob o aspecto orogênico — é assinalada por um longo trabalho de sedimentação que vem, quer em relação a Portugal, quer à Península Ibérica em geral, acrescentar novas terras às que primitivamente haviam emergido. No fim desta Era, apenas a Bacia do Sado, a orla litoral que vai de Peniche até Espinho e uma faixa cada vez mais restrita do litoral do Algarve continuam imersas e é nela que assistimos à formação dos terrenos onde assenta, hoje, Lisboa.

Na Era Terciária, nova perturbação orogênica de caráter violento volta a agitar o nosso planêta com grandes repercussões sôbre a Península. É a época da ormação dos Alpes e das montanhas exteriores à Meseta, — a Cordilheira Bética e os Pireneus — começando a Península a assumir a configuração, que hoje nos apresenta. É marcada, também, para Portugal pela formação de duas linhas de fratura que cortam o Maciço Galaico-Duriense, tão importantes para a nova modelação do relêvo e, sobretudo, para o aparecimento dos rios. Há em Portugal numerosos vestígios dessas perturbações e entre êles o que é representado pela Serra do Caramulo, que parece marcar o extremo limite ocidental de uma dessas fraturas, havendo também quem lhes atribua o aparecimento, à superfície, das fontes termais em que, como é sabido, é muito rico Portugal.

A Era Quaternária vem encontrar a Península quase com a configuração atual. Pelo que diz respeito a Portugal, — e tendo-se formado, no fim da Era Terciária, as Bacias do Tejo e do Sado — apenas alguns terrenos junto da costa e na bacia do Tejo se encontram ainda em produção aluvial. É a época da formação dos terraços fluviais, — com os seus diferentes níveis — fenômeno estudado em Portugal pelo Dr. Lantensach, que conseguiu identificar quatro para o Douro, na Régua, três para o Minho, em Valença, e dois para o Lima. * O mesmo fenômeno se observa no Tejo onde, nos níveis mais baixos, foram encontrados pelo Prof. Fleury os célebres resíduos de comida tão importantes para o estudo da Pré-História.

A Era Quaternária foi marcada, como é sabido, pelo aparecimento de sucessivos períodos glaciares, de que vamos encontrar vestígios apenas nos depósitos da Serra da Estréia. Podemos, portanto, afirmar que a sua extensão em Portugal foi relativamente limitada. Nesse particular, o clima português foi sempre beneficiado pela Natureza e extraordinàriamente propício ao desenvolvimento e expansão do Homem.

Os estudos a êste respeito são, apesar dos esforços de alguns tratadistas, bastante incompletos, e a Pré--História de Portugal não se encontra — não obstante as circunstâncias favoráveis da sua evolução geológica — mais esclarecida que a de outros países.
* Consulte-se a êste respeito a Geografia de Portugal, do Prof. Amorim Girão.

Às condições geológicas e climáticas favoráveis, a que atrás fizemos referência, em relação a Portugal, correspondeu, de fato, uma população pré-histórica de cuja existência são testemunho os vestígios paleolíticos, abundantes, sobretudo, na zona litoral e em especial nos arredores de Lisboa. Dêles fazem parte os célebres concheiros de Muge e as estações paleolíticas das Caldas da Rainha, Leiria, Mealhada, etc.

Êstes vestígios são muito mais raros na zona interior e dêles há apenas notícia em Chaves, Lafões, Eivas e pouco mais. As indústrias de que se encontraram alguns utensílios desirmanados são similares às indústrias peculiares do Paleolítico, a que já nos referimos, sendo certo que em Portugal, como em tôda a parte, o Homem de Neanderthal deve ter reinado, nessa época, como senhor exclusivo.

Uma hipótese é no entanto preciso considerar: a de, pela circunstância de não têrmos sofrido as durezas da época glaciar, tal benefício ter apressado a evolução do Homem de Neanderthal e Portugal ter sido, juntamente com o Norte da África e o Médio Oriente, uma das retortas em que, partindo do Homem de Neanderthal se poderia ter fabricado o Homo sapiens, que viria, a partir de certa data, a dominar o Mundo. Trata-se, evidentemente, de uma mera hipótese que não nos parece inteiramente de desprezar pelos arqueólogos e pelos antropologistas.

A corroborar esta suposição há a circunstância de à pobreza relativa das nossas estações paleolíticas (sobretudo no que diz respeito a manifestações artísticas) corresponder uma relativa abundância de manifestações neolíticas, especialmente no que se refere à sua fase megalítica. Dela encontramos numerosos diretos — monumentos funerários de relativa importância: antas, dolmens e túmulos de galeria — e documentos indiretos expressos pelas denominações, alusivas a êstes monumentos, ainda hoje dadas a diferentes povoações.

Entre os documentos diretos basta-nos citar a Anta de Pendilhe, em Vila Nova de Paiva, a Lapa do Repilau, conhecida também por Anta de Lobagueira, em Viseu, e o dólmen dos Agros de Junqueira, em Macieira, de Cambra.

As expressões anta, antela, arca, mamoa, morouço, com que são designados ainda hoje certos lugares do território português, mostram, como o faz notar o Prof. Amorim Girão, quer a existência de uma população relativamente numerosa, quer a sua distribuição de preferência junto dos cursos de água, no litoral e, em particular, no Norte de Portugal.

Como já o dissemos ao tratar do Período Paleolítico em geral, a fase megalítica atesta — além de uma população numerosa, um estádio avançado de civilização — tanto sob o aspecto material, como sob o aspecto espiritual, pois que tais monumentos com serem o produto de uma forte organização social são também o testemunho evidente e indiscutível de que essa população já tinha atingido a fase religiosa característica.

Êstes vestígios do Homem Primitivo em Portugal vão-se acentuando cada ’vez mais à medida que nos aproximamos da fase proto-histórica, em que se tornam tão elucidativos que' quase podemos demarcar, com certa precisão, os principais agrupamentos da população.

F I M .