O QUE É A IGREJA NATIVA AMERICANA?

Religião "oficial" de pelo menos 70 tribos indígenas nos Estados Unidos, o elemento central nos cultos da Igreja Nativa Americana é o consumo do peiote, um cacto com propriedades psicoativas comum no México e no sul do Estado do Texas.

Usado há mais de dois mil anos pelos nativos mexicanos, o cacto é considerado sagrado pelos índios norte-americanos, que, ingerindo-o, afirmam ter acesso ao mundo espiritual.

Segundo crêem, a planta funciona como uma chave de comunicação com o Grande Espírito, que se manifesta por meio das diversas divindades da natureza, como pássaros e outros seres, a quem os fiéis podem pedir cura, orientação etc.

Até ai tudo bem, não fosse por um detalhe: o peiote é considerado ilegal nos Estados Unidos - ele está classificado pelo Departamento de Justiça daquele país como uma droga alucinógena, nos mesmos patamares da heroína e do LSD.

Foi justamente para resolver essa pendenga que a Native American Church (seu nome em inglês) foi criada, em 1918.

"Ela se tornou uma igreja constituída com um objetivo: resguardar os direitos dos índios consumidores de peiote, que eram perseguidos pelas autoridades", afirma o professor de Religião Christopher Vecsey, da Universidade de Colgate, no Estado de Nova York.

"Com a institucionalização, os membros da igreja ganharam amparo legal, que inclui o direito de ingerir o peiote nos rituais sagrados."

"Ao comer o peiote, um cacto psicoativo, fiéis da Igreja Nativa Americana
ligam-se a divindades da natureza, como pássaros e outros seres."

Realizadas em típicas tendas indígenas, as cerimônias ocorrem à noite e costumam durar a madrugada inteira, terminando com um desjejum coletivo.

Além do consumo do peiote, há cantos, orações e sermões, geralmente a cargo de um sacerdote que comanda o ritual. "A Igreja Nativa Americana é essencialmennte uma doutrina oral, não há livros sagrados", diz Pablo Alarcón-Cháires, pesquisador da Universidade Autônoma do México e um dos cerca de 300 mil membros da igreja.

"Tudo é aprendido por meio da vivência nos rituais." Alguns adeptos, porém, crêem na Bíblia e reverenciam a Santíssima Trindade, fruto da influência, cristã na cultura indígena. Mas mesmo nesses casos os símbolos do homem branco são relaborados segundo a linha mestra do peiote: enquanto para os cristãos o vinho é o sangue de Jesus, para os índios o cacto sagrado é o corpo do filho de Deus.

Cláudia de Castro Lima - Revista das Religiões