O QUE É A RELIGIÃO BUITI?

Religião africana pouco conhecida, o Buiti baseia-se no consumo da iboga, uma raiz com propriedades psicoativas que, segundo os fiéis, seria uma espécie de "escada xamânica" que permitiria o acesso ao mundo dos espíritos.

A planta foi descoberta em tempos imemoriais, provavelmente pelos povos pigmeus africanos, e hoje é utilizada em rituais na Guiné Equatorial, em Camarões e sobretudo no Gabão.

Há dois tipos de Buiti: o tradicional que surgiu no século 19 - e o sincrético, o mais difundido, que é produto da fusão do primeiro com elementos de outros cultos africanos e da influência da evangelização cristã no continente no início do século 20. O momento mais importante na vida do buitista de qualquer destas correntes é o ritual de iniciação, que dura três dias.

Após preparar-se com um rigoroso jejum, o neófito ingere uma quantidade enorme de iboga que o coloca numa espécie de coma induzido. De acordo com os praticantes, nesse estado o espírito consegue sair do corpo e viajar até o mundo dos mortos, onde pode receber curas, revelações ou comunicar-se com seus ancestrais.

Ao longo de toda a cerimônia, o adepto é acompanhado pelos demais membros do grupo, que cantam, dançam e tocam instrumentos. ''A iboga é uma ciência que corrige. Por meio da planta, visitamos o lugar para onde iremos após a morte, só que antes de morrer.

É uma oportunidade de nos transformarmos", afirma a camaronesa Nanga Nga Owono Justine, iniciada há vinte e cinco anos na religião.

Sua mãe, a anciã Bilbang Nga Owono Christine, completa: ''Além da bebida sagrada, é preciso uma intenção forte e muita fé em Deus, que é o maestro de tudo."

Segundo alguns estudiosos, haveria uma diferença entre a iniciação no Buiti e ritos de passagem em outros credos: neste caso, a morte seria quase real (e não apenas simbólica), pois o fiel é colocado num perigoso estado de semi-suspensão da vida. Para outros, contudo, haveria um pouco de mistificação em torno dos relatos.

Seja como for, existem registros de mortes nos rituais. De acordo com os praticantes, isso pode ocorrer por dois motivos: incompetência de quem comanda a cerimônia ou má índole do neófito - se for um bruxo, durante a viagem astral seu espírito pode ir para uma zona de obscuridade e não voltar, causando a morte do corpo físico.

Apesar dos riscos, nos últimos anos vários estrangeiros têm se submetido à experiência, muitos deles atraídos pelas supostas propriedades terapêuticas da bebida.

"Há registros de cura de diversos males nos cultos Buiti, principalmente de dependência química, mas os praticantes não revelam como preparam a planta, deixando muito desse conhecimento em segredo", afirma Tonye Mahop, pesquisador do Jardim Botânico de Limbe, em Camarões.

Bia Labate - Revista das Religiões