O QUE É CRÉDITO CELESTIAL?

"CARTÃO COM IMAGEM DO CALVÁRIO
LEVANTA POLÊMICA EM TORNO DO USO
COMERCIAL DA FÉ."

A sociedade norte-americana já está acostumada com a associação de uma referência religiosa ao dinheiro: na nota de 1 dólar lê-se a frase 'In God we trust' (Em Deus confiamos).

Entretanto, um novo cartão de crédito trazendo a imagem das três cruzes do Calvário tem gerado controvérsia nos Estados Unidos.

Lançado por uma rede de produtos cristãos, a Family Christian Stores, em parceria com a empresa Mastercard, o cartão permite que a cada compra os clientes acumulem pontos que mais tarde são trocados por produtos nas lojas da rede.

A questão é que muitos fiéis têm argumentado que o uso de uma emblemática imagem cristã com fins monetários não seria aprovada por Deus.

Na verdade, a polêmica vem na esteira de um aumento mundial do uso comercial da fé. Desde bíblias e CDs até filmes e camisetas, o mercado de produtos religiosos cresce a cada ano.

Para se ter uma idéia, estima-se que no Brasil a venda de produtos a cristãos - que respondem por 88,5% da população brasileira - alcance 4 bilhões de reais ao ano.

Segundo alguns estudiosos, a relação entre religião e comércio é mais do que bem-vinda. "Demoramos muito para entender que o mercado da fé era um bom negócio", diz Antonio Kater Filho, teólogo com mestrado em Marketing.

Por outro lado, especialistas vêem uma contradição inerente ao uso mercado lógico da fé. "A venda subordina a identidade religiosa à cultura de consumo", afirma o cientista da Religião Jung Mo Sung, da Universidade Metodista, em São Paulo.

"O princípio do Evangelho é a igualdade entre todos. No mundo comercial, há uma distorção na qual quem compra mais vale mais."

Segundo o cônego Dario Bevilacqua, porta-voz da Arquidiocese de São Paulo, o comércio religioso é válido, desde que a venda siga a moral cristã, com honestidade no preço do produto.

"Os valores da fé devem manter-se em qualquer atividade", afirma.

Carla Soares