O QUE É HERESIA?

"USADO COMO JUSTIFICATIVA PARA PERSEGUIÇÕES AO LONGO DA HISTÓRIA,
O CONCEITO DE HERESIA REFERE-SE A QUALQUER ELEMENTO QUE QUESTIONE
UM DOGMA DE FÉ"

Derivado da palavra grega háiresis - que significa escolha -, o conceito de heresia tomou uma conotação negativa com o advento do Cristianismo, passando a significar uma rejeição ao próprio ensino apostólico. Ou seja, sob a ótica cristã, mais do que uma opinião divergente, a heresia é algo que traz em seu bojo uma afronta direta à doutrina oficial da Igreja.

"Algumas verdades definidas, como são chamados os dogmas, compõem o arcabouço dos princípios da Igreja. Quando alguém nega qualquer uma dessas proposições dogmáticas, é como se refutasse a própria instituição, e daí é tida como herege", afirma o monsenhor Dario Bevilacqua, porta-voz da Arquidiocese de São Paulo.

A concepção de heresia foi estabelecida ainda nos primórdios do Cristianismo, quando pipocavam manifestações contrárias ao que a nascente Igreja pregava. "Sempre existiram divergências, mas algumas não afetavam a doutrina oficial", diz o historiador Paulo Donizeti Siepierski, presidente da Associação Brasileira de História das Religiões.

"Foi ao longo do século 2 que as heresias começaram a ser realmente definidas e catalogadas. A partir daí, aqueles considerados hereges eram perseguidos." Esse combate à heresia, contudo muitas vezes assumiu um caráter de desmedida perseguição, cujo ápice foi a Inquisição. Também chamada de Tribunal do Santo Ofício, foi instaurada no século 13 com o objetivo de perseguir, julgar e punir todos aqueles tidos como heréticos. Sob as sombras inquisitoriais, milhares foram mortos e torturados em nome de Deus. Como no caso do filósofo e astrólogo italiano Giordano Bruno.

Em 1600, por afirmar que a Terra não era o centro do universo, o que contrariava a visão da Igreja na época, ele foi condenado à morte na fogueira. A diferença de opiniões, felizmente, tomou ares menos trágicos com o passar dos séculos. ''Até o período da Reforma, no século 16, a Igreja de certa forma conseguia conter as ditas heresias por meio de muita firmeza e arbitrariedade.

Mas depois dos reformadores ela perdeu os meios de controlar as opiniões divergentes", afirma Paulo Donizeti. "Isso ocorreu porque a Igreja não pôde mais contar com apoio do Estado." Como resultado, a instituição mudou a maneira de defender seus postulados. ''A Igreja não tem mais o poder daquela época, e, como a questão da heresia ainda existe, foi preciso encontrar uma forma mais branda de combate.

Assim, agora a doutrinação se dá por meio da tentativa de mostrar para os descontentes a verdade essencial dos dogmas de fé", diz monsenhor Dario Bevilacqua.

Embora a noção de heresia no geral seja considerada como uma particularidade do Catolicismo, os estudiosos também identificam-na em outros credos.

"Há grupos dissidentes em praticamente todas as tradições religiosas, por isso as heresias podem estar presentes também nessas crenças", afirma o teólogo Carlos Caldas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Como exemplo, pode-se tomar um grupo sectário do Islamismo. "Os muçulmanos consideram o grupo Ahamad, do Paquistão, como herético devido a divergências doutrinárias, como o fato de o movimento seguir uma interpretação própria do Corão", conta Paulo Cristiano da Silva, vice-presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas.

Karina Füsco - Revista das Religiões