O QUE É O NIRVANA?

Embora tenha servido de inspiração para nomear a banda norte-americana liderada pelo desregrado Kurt Cobain na década de 90, a palavra nirvana passa longe do fumacê rock'n'roll. Último estágio no caminho de evolução espiritual dentro da doutrina budista, o nirvana - que em sânscrito quer dizer "extinção do sofrimento" - representa um estado de absoluta quietude, pureza e sabedoria, que se contrapõe ao estado de samsara, como se denomina a existência ordinária caracterizada pela ignorância e pelo sofrimento.

"A palavra nirvana designa a conscientização da identidade entre o eu e o absoluto, sendo o resultado do apagamento de sentimentos negativos como ganância, ódio e ilusão", afirma o filósofo Scott Randall Paine, da Universidade de Brasília (UnB).

Ao longo da história do Budismo, contudo, surgiram diferentes interpretações sobre o que é o nirvana. "Nas escolas mais antigas, da linha Hinayana, é definido como a extinção de tudo que encadeia o homem à miserável existência do samsara, ou seja, a extinção da ignorância, da cólera e das paixões", diz o missionário budista Ricardo Mário Gonçalves, da Associação Religiosa Namdei Honganji Brasil Tetsuin, em São Paulo.

"Já nas escolas mais recentes, do Budismo Mahayana, desaparece a visão dualista que distingue nirvana e samsara. Não se trata mais de extinguir os desejos, mas sim de tomar consciência de que eles são vazios. E num enfoque mais psicológico, fala-se de uma metamorfose de consciência, em que nossa razão ignorante (samsara) é transmutada em sabedoria desperta (nirvana), da mesma forma que na alquimia uma matéria vil é transforrmada em ouro."

Segundo a tradição budista, para atingir o nirvana o fiel deve dedicar-se à meditação e à prática constante dos princípios estipulados pela doutrina, que incluem a máxima atenção às atividades cotidianas, a boa vontade em relação ao próximo e a concentração no modo de vida correto, entre outras ações.

O tempo para alcançar o estado de iluminação, contudo, varia segundo a vertente da religião. Escolas budistas de enfoque dualista falam em três kalpas, isto é, três grandes ciclos cósmicos de milhões de anos cada um como sendo o período necessário para atingi-lo, através de incontáveis vidas sucessivas. Já no enfoque não dualista do Mahayana,

Dentro da doutrina budista, o nirvana representa o estágio final no longo percurso até a iluminação basta tomar consciência de que não há nirvana a ser atingido, pois sempre estivemos nele. "Por esta ótica, todos os seres já estão no nirvana, só que a grande maioria não tem consciência disso", diz Ricardo Mário.

O termo nirvana aparece também no Hinduísmo e no Jainismo - doutrina indiana que surgiu no século 6 antes de Cristo -, porém com um significado diferente e desempenhando papel menor do que na doutrina budista.

Segunndo os estudiosos, é possível encontrar a mesma idéia expressa pelo nirvana em diversas outras crenças. "Existem conceitos análogos até no Cristianismo. Um exemplo é o mando de Cristo de semear e não olhar para trás, ou seja, o desprendimento, o desapego aos frutos dos seus atos", diz Paine .

Karina Fusco - Revista das Religiões