O QUE É UM SHEIK?

Nem tendas, nem desertos. O muçulmano que deseja tornar-se um sheik (do árabe xêkh, "velho") deve primeiro ir para a sala de aula de alguma faculdade de Teologia Islâmica. E, caso more no Brasil, precisa de um passaporte: não há instituições desse tipo no País. Os destinos mais comuns são a Síria e a Arábia Saudita. "Muitos procuram o Iêmen, onde há a vantagem de fazer um 'estágio' em Oratória, especialidade necessária caso o sheik queira ser orador em uma mesquita, afirma o sheik Mohammad Amame, coordenador de ensino religioso do Colégio Muçulmano Brasileiro, em São Paulo.

Seja como for, a formação de um futuro sheik visa aprofundar o conhecimento do muçulmano em questões religiosas, legais e cotidianas. Assim, o currículo conta com disciplinas de jurisprudência, questões civis e história islâmica. Os cursos têm quatro anos de duração, com possibilidade de especializações, como mestrado e doutorado. Uma mulher também pode ser sheik - só que, depois de formada, não pode conduzir as orações dentro das mesquitas, função restrita aos homens.

Cabe ao sheik a coordenação das atiividades da mesquita e a orientação dos fiéis. "A vida do muçulmano gira em torno de duas funções: casar-se e garantir-se financeiramente. O sheik é a primeira pessoa procurada pelos fiéis em caso de brigas familiares e acertos matrimoniais", afirma Abdul Nasser, diretor da escola da Liga da Juventude Islâmica do Brasil, sediada em São Paulo. "Nesse sentido, para entender melhor as questões que vai enfrentar, um sheik deve ser casado." De fato, na hora de escolher o novo sheik de uma mesquita, a comunidade costuma preferir pessoas casadas e bem-estabelecidas.

O cargo de sheik é vitalício. No entanto, em caso de desobediência às prescrições do Corão, ele pode ser destituído do posto. "É raro isso ocorrer, mas quando um sheik não é aceito na comunidade, ou deturpa a mensagem do Islamismo, não pode mais aconselhar seus irmãos de fé e é afastado", afirma sheik Jihad Hassan, vice-presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica na América Latina.

Há ainda situações em que um sheik renuncia ao cargo. "Nesses casos, ele não perde o título, apenas deixa de exercer a função", diz ele.

Ao contrário das crenças em que o sacerdote é considerado um interlocutor do fiel com Deus, o sheik é visto mais como um modelo de conduta. Segundo Abdelbagi Osman, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, não existe intercessor entre o muçulmano e Allah. "O cargo de sheik é fundamentalmente educativo, por isso é preciso ter responsabilidade naquilo que se faz", diz.

Os estudiosos concordam com essa visão. "A fé islâmica é fruto de uma relação direta entre o fiel e Deus. Nem mesmo Maomé serve de intermediário; ele é um 'mensageiro' da lei divina', diz o teólogo Fernando Altemeyer Júnior, da PUC de São Paulo. "Se há algum intermediário, certamente este é o Corão, e não o sheik."

"DEPOIS DE QUATROS ANOS ESTUDANDO
TEOLOGIA ISLÂMICA, O FIEL CONQUISTA
O DIPLOMA DE SHEIK".

Olívia Fraga - Revista das Religiões