QUAL A DIFERENÇA ENTRE
XIITAS E SUNITAS?

"OS PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS SÃO PRATICAMENTE OS MESMO.S.
A DIVERGÊNCIA ENTRE XIITAS E SUNITAS É FRUTO DE UM ANTAGO-
NISMO NA ESCOLHA DE SUA LIDERANÇA SUPREMA".

A diferenciação entre xiitas e sunitas, principais ramos dentro do Islamismo, deu-se ainda durante a formação da religião muçulmana, após a morte do profeta Muhammad (Maomé), ocorrida em 632. O motivo? Justamente um antagonismo no modo de enxergar a sucessão do primeiro líder. Enquanto os xiitas crêem que apenas os descendentes diretos de Muhammad podem ocupar a posição de califas ou imãs como são chamadas as autoridades máximas na política e religião -, os sunitas aceitam como guias qualquer muçulmano proeminente. "Para os sunitas, o chefe supremo precisa mostrar um conhecimento inegável do Corão e das leis muçulmanas. Já os xiitas seguem apenas urna liderança que tenha laços familiares com o profeta, diz o sheik Jihad Hassan, vice-presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica (Wamy) na América Latina.

A cisão tomou forma durante o governo de Ali Abu Talib, genro do profeta. Ali foi assassinado após disputas pelo posto de califa e, como resultado, deu-se a divisão. A palavra xiita significa precisamente "partidário de Ali", ou seja, aquele que acredita que o genro de Muhammad e sua descendência seriam os legítimos reepresentantes do profeta na Terra. Já o termo sunita deriva da Sunna - segunda fonte doutrinária do Islã, que contém os dizeres e ações de Muhammad - e se refere aos que seguem seus preceitos. "As divergências entre os dois grupos residem basicamente em relação à liderança, e não tanto quanto às práticas doutrinárias", afirma Mamed Mustafá Jarouche, professsor do Centro de Estudos Árabes da USP.

Do ponto de vista teológico, a primeira distinção dá-se em relação ao caráter divino dos líderes. Para os sunitas, são apenas homens íntegros com profunda compreensão do Islã. A comunidade xiita, por sua vez, tem por verdadeiro que os imãs, por descenderem do profeta, também são seres abençoados por Allah. ''A maior parte dos xiitas crê na volta do décimo segundo imã, que teria desaparecido e voltaria para redimir o povo muçulmano dos seus erros", diz Mamed.

As duas ramificações diferem ainda quanto às cidades sagradas: além de Meca, Medina e Jerusalém, eleitas por ambas, os xiitas incluem na lista Karbala e Najaf. Além disso, alguns xiitas adotam o casamento temporário, que pode ter duração predeterminada, uma prática abolida pela ala sunita. "Esse era um costume pré-islâmico, que a maioria acredita não ter sido aprovado pelo profeta", afirma sheik Jihad. Os "partidários de Ali" também praticam a autoflagelação - postura condenada pelos sunitas - num ritual que celebra o martírio de um dos filhos de Ali. "Nesse sentido, os xiitas assemelham-se aos cristãos, que começaram sua religião com a morte brutal de seu líder", diz Mamed. "Existe uma sensação de perda e culpa que está incutida na crença xiita."

Hoje em dia, os sunitas representam cerca de 90% do povo islâmico. Apenas no Irã, no Iraque e em Bahrain as populações são majoritariamente xiitas. Segundo os religiosos, no Brasil, onde a grande maioria dos muçulmanos também é sunita, a convivência entre os dois povos é harmoniosa. "Há apenas um embate de idéias, que de forma alguma prejudica o convívio e a amizade entre todos", afirma sheik Jihad.

Thiago Velloso - Revista das Religiões