011 - A FENOMENOLOGIA ESPÍRITA

I - OS FENÔMENOS PARANORMAIS: SUA HISTÓRIA E SEU CONCEITO:

1 - O REALISMO FANTÁSTICO, CAMPO DA PARAPSICOLOGIA: - A Parapsicologia e seu campo:

A Psicologia trata de fatos psicológicos ou fatos relacionados com o psiquismo humano, a parapsicologia trata de FENÔMENOS. FENÔMENO é um fato extraordinário, que por esta razão tem uma auréola de prodigio e maravilhoso. E como as suas causas verdadeiras permanecem desconhecidas apresenta-se também, como "misterioso", tal tipo de fatos ou fenômenos existiram sempre, desde o início da humanidade até os nossos dias e existirão, provavelmente, enquanto existam os homens, pois todo fato, cuja verdadeira causa é desconhecida, torna-se misterioso e, consequentemente, aparece como maravilhoso e prodigioso.

Quando a causa se torna conhecida, o mistério desaparece e com ele essas qualidades de maravilha e grandiosidade; tais fenômenos maravilhosos e prodigiosos constituem o campo da Parapsicologia. Para o homem primitivo da floresta, pescador e caçador quase nômade, em luta permanente com os elementos naturais, para o homem cavernário fugindo sempre amendrontado do rigor das intempéries e dos ferozes animais famintos de carne humana; para esse homem que começava a ter consciência, tanto das realidades objetivas como de sua própria realidade objetiva, que pelo seu conhecimento superior começava a elevar-se por cima de seus parentes, os homídeos e hominóides, conscientizando a cada dia maiores áreas dessas realidades objetivas e subjetivas de que antes não tivera conhecimento e cujas causas íntimas ainda desconhecida; todo o mundo externo que observava devia-lhe parecer enormemente maravilhoso, prodigioso, misterioso e Fantástico.

Em especial, aqueles fatos ou fenômenos, cujas causas não podia conhecer e descobrir, deviam produzir-lhe uma admiração e inquietação extraordinárias. O raio e o trovão, as grandes tempestades, os terremotos; o vulcão e o fogo; o nascer e o pôr-do-sol de cada dia, a lua alternante e as inúmeras estrelas do firmamento; a chuva, a fertilidade multiforme de toda a criação, a fecundidade e a esterilidade animal e humana; a saúde e a doença, a vida e a morte, etc... deviam apresentar-se a seus olhos de homem primitivo, como fenômenos extremamente maravilhosos, misteriosos e intimidantes, posto que essas qualidades ainda hoje lhe vão anexas. Via seus efeitos que lhe maravilhavam, mas ao desconhecer suas causas ficava, por isso, intrigado e amedrontado. Percebia, assim, isto é, tomava consciência de que grande parte da "Realidade" que observava em roda de si (em volta de), era uma REALIDADE FANTÁSTICA.

2 - A Ciência avança, mas a maravilha continua:

É claro que para o homem dos nossos dias, conhecedor das causas de muitos desses fenômenos, seu mistério tem desaparecido e com ele grande parte de sua maravilha, mas, ainda existem hoje, como existiram em toda a história humana, numerosos fenômenos fantásticos, que seguem intrigando, maravilhando e intimidando (bem a seu pesar e sem atrever-se a confessá-lo) ao homem moderno. Pode tratar-se de um "simples" conhecedor e anunciar coisas e fatos ocultos do passado, do presente ou do futuro, com dias, meses ou centenas de anos de antecedência, ou fatos e acontecimentos conhecidos e anunciados a milhares de quilômetros de distância; ou de uma mesa que se eleva pelos ares, desafiando, ao menos "aparentemente", o princípio da lei da gravidade; ou objetos, que se movimentam, inclusive dentro de recepientes fechados e selados, sem nenhum agente visível; os ruídos e músicas e "vozes", que se ouvem, sem causa aparente; ou uma adolescente, que passeia de pés nus sobre as brasas, sem sentir dor e queimaduras; ou um analfabeto e ignorante, que, de repente, começa a falar línguas estranhas e desconhecidas.

Fala-se de respostas escritas em papéis, sem que ninguém tenha sido visto a escrevê-las; ou de curas e inclusive de operações cirúrgicas extraordinárias e instantâneas, realizadas por gente não especializada ou mesmo analfabeta; ou de aparições de fantasma de mortos, de aparentes materializações, de aparentes "incorporações" de espíritos desencarnados, de desdobramentos de personalidades, de supostos possessos e endemoniados, de supostos "milagres" e poderes extraordinários, atribuídos aos curadores santos ou leigos, aos feiticeiros, faquires ou bruxos...

Ouve-se falar em aparições de mortos, em casas mal-assombradas, em aparições de anjos, gênios, fadas, gnomos e assim por diante; lê-se relatos de homens com poder de olhar o futuro, de se manifestarem à distância, de obterem sortilégios fantásticos por meio de práticas mágicas; de homens capazes de adormecerem outros indivíduos e fazerem-nos obedecer cegamente a sua vontade, e mais outros muitos poderes maravilhosos...

E isto vem relatado em toda classe de documentos, da mais remota antiguidade até os nossos dias, em contos lendários de todos os tempos e lugares, e de todos os povos; narrativas tidas como verídicas, embora extraordinárias, transmitindo fatos sobrenaturais, de geração em geração, dos quais tem feito eco a maioria dos homens cultos de nosso século os considerem como simples produto da ignorância, da superstição e da ilusão humana, como se nunca tivessem realmente existido.

3 - Importância decisiva do realismo fantástico na história antiga e moderna:

Indiscutivelmente aceito, embora erroneamente interpretado, no passado, criticado ou sistematicamente negado, nos tempos modernos; de fato, queiramos ou não queiramos, o realismo fantástico manteve uma importância decisiva através de toda a história antiga e moderna, fato eminentemente antropológico e humano, ele esteve presente desde os primórdios da humanidade. Fatos fenomenais pertencentes a esses realismo fantástico marcaram a conceituação espiritualista do mundo, bem como o início e a propagação e permanência da maior parte ou de todas as religiões do mundo, que com suas doutrinas verdadeiras ou falsas, influenciaram os povos e as sociedades de todos os tempos, determinando a marcha do progresso e da história humana.

Fazedores de "milagres" e "adivinhações" ou profecias foram sempre os "profetas" iluminados fundadores de todas as religiões ou movimentos religiosos, como Zoroastro, Buda, Moisés, Isaías, Jesus Cristo, e seus apóstolos, São Paulo, Mahomé, Lutero e muitos outros iniciadores de seitas religiosas modernas, todos eles tão influentes, social e historicamente, que, com suas doutrinas e feitos extraordinários, determinaram por si ou traçaram frequentemente o rumo da história e do progresso. Assim, toda a história dos povos orientais foi determinada pelo budismo, assim como a dos povos ocidentais o foi pelo cristianismo e mahometismo, e modernamente pelo catolicismo e pelo protestantismo.

Alexandre Magno, Júlio César e Napoleão foram três indivíduos extraordinários, que marcaram o rumo da história antiga e moderna dos povos ocidentais ao sabor de sua espada e de suas lendárias vitórias. Todavia, os três foram epiléticos, e suas fantásticas vitórias foram devidas, muito mais que a sua estratégia indiscutível, ao entusiasmo fanatizado de seus soldados em vista do misticismo de seus frequentes "transes" de epilepsia, o mal "sagrado" ou mal dos deuses, como era considerado antigamente, esse estado, tão temido como mal interpretado.

4 - Atitude lógica do pesquisador moderno perante o realismo fantástico:

É impossível que atrás de tanta fumaça não exista alguma classe de fogo, é impossível que fenômenos tão repetidos, através de toda a história, de todas as épocas, e de todos os povos, de todas as áreas geográficas, atestados por inúmeras testemunhas e vividos por multidões imensas, seja inteiramente inexistentes ou devidos exclusivamente a puro truque ou para sugestão, ilusão ou fantasia. O pesquisador moderno que queira proceder logicamente, em determinadas circunstâncias, ver-se-á obrigados a admitir os fatos, embora tenha que pôr em dúvida as interpretações e explicações destes, que a tradição os tem impingido.

Obedecendo o mandamento socrático: "Homo, nosce te ipsum", "Homem, conhece-te a ti mesmo", deverá pôr em pauta o estudo do HOMEM antes de tudo, admitir esses fatos humanos como humanos e psicológicos, e submetê-los a um estudo imparcial e objetivo, levando-os inclusive, na medida do possível, ao teste de laboratório. Em nada adiantará seguir negando o conteúdo histórico de uns fatos, cuja realidade histórica já fora, em geral, evidentemente comprovada, ou contentar-se em dar-lhes uma explicação demasiado simplista, atribuindo a FORÇAS EXTERNAS, aquela gênese que, talvez, fosse mais sensato achá-la dentro de si mesmo e no estudo de suas potencialidades internas.

Talvez, o erro mais crasso cometido pelo homem tenha sido o ter-se preocupado quase que exclusivamente das realidades objetivas externas e ter-se desinteressado completamente, pelo estudo de suas próprias realidades internas. E este nos parece o grande desafio do momento atual e o grande objetivo do cientista parapsicólogo e da própria Parapsicologia: Buscar soluções e explicações humanas e psicológicas para fatos humanos e psicológicos, dentro do possível antes de admitir facilmente, soluções externas, extra-humanas ou sobrenaturais, por mais simples e fáceis que nos possam parecer, só admissíveis após a improcedência demonstrada das primeiras.

Gênese da Interpretação Espiritualista dos Fenômenos Paranormais
A Pesquisa Pré-Científica e o Nascimento das Ciências Psíquicas
A Parapsicologia como Ciência Psicológica

5 - Conceito de Paranormalidade: É a qualidade específica que acompanha e caracteriza o fenômeno paranormal, o sujeito que o realiza, a faculdade ou função humana que intervém em sua execução e o estado especial em que o sujeito se encontra aoproduzi-lo. Em Parapsicologia este termo substitui com vantagem a palavra "Mediunidade" (mais preferida entre os espíritas e muito usada pelos metapsiquistas), para evitar as implicações filosóficas que a interpretação intervencionista dos espíritos lhe acarreta, como aconteceria com a palavra "santidade" ou sobrenaturalidade, que no passado também foram usadas quase no mesmo sentido, e a mesma finalidade, entre os meios religiosos.

O termo Paranormal, em sentido parapsicológico, refere-se ao que não é normal, no sentido usual da palavra, nem é anormal em sua significação específica de irregularidade patológica.

6 - O Sujeito Paranormal: A quem os espíritas chamam impropriamente de "médium", e a quem os religiosos confundiram muito frequentemente com um santo ou um profeta, possesso, endemoniado, bruxo ou feiticeiro, "é o ser vivo que produz ou através de quem se produzem os fenômenos paranormais". Aparentemente igual a todos os demais seres, de repente age diferentemente dos demais, para voltar logo a certa normalidade, por isso, não sendo um anormal, no sentido patológico, mas agindo às vezes de um não normal, achamos ilógico que lhe déssemos o nome de PARANORMAL.

Nelson Valente - História da Parapsicologia.