Transfiguração

Fenômeno Espírita: "Transfiguração": Podendo o Espírito operar transformações na contextura do seu envoltório perispiritico e irradiando-se esse envoltório em torno do corpo qual atmosfera fluídica, pode produzir-se na superfície mesma do corpo um fenômeno análogo ao das aparições. Pode a imagem real do corpo apagar-se mais ou menos completamente, sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou, então, visto através da camada fluídica modificada, os traços primitivos podem tornar outra expressão (..)

(..) o fenômeno resulta, portanto, de uma transformação fluídica, e uma espécie de aparição perispíritica, que se produz sobre o próprio corpo do vivo e, algumas vezes, no momento da morte, em lugar de se produzir ao longe, como nas aparições propriamente ditas (..)

O LIVRO DOS MÉDIUNS - ALLAN KARDEC - 2ª PARTE - CAP. VII - TRANSFIGURAÇÃO

Passemos a tratar do fenômeno TRANSFIGURAÇÃO que consiste na modificação do aspecto de um corpo vivo. Eis, a respeito, um caso cuja perfeita autenticidade podemos garantir, ocorrido entre os anos de 1858 e 1859, nas cercanias de Saint-Ëtienne: Uma jovem de uns quinze anos gozava da estranha faculdade de se transfigurar, ou seja, de tomar em dados momentos todas as aparências de algumas pessoas mortas. A ilusão era tão completa que se acreditava estar na presença da pessoa, tamanha a semelhança dos traços do rosto, do olhar, da tonalidade da voz e até mesmo das expressões usuais na linguagem. Esse fenômeno repetiu-se centenas de vezes, sem qualquer interferência da vontade da jovem. Muitas vezes tomou a aparência de seu irmão falecido alguns anos antes, reproduzindo-lhe não somente o semblante, mas também o porte e a corpulência.


Um médico local que, muitas vezes, presenciara esses estranhos fenômenos, querendo assegurar-se de que não era vitima de ilusão, fez interessante experiência. Colhemos as informações dele mesmo, do pai da moça e de muitas outras testemunhas oculares, bastante honradas e dignas de fé. Teve ele a idéia de pesar a jovem no seu estado normal e durante a transfiguração, quando ela tomava a aparência do irmão que morrera aos vinte anos e era muito maior e mais forte do que ela. Pois bem: verificou-se que na transfiguração o peso da moça era quase o dobro. A experiência foi conclusiva, sendo impossível atribuir a aparência a uma simples ilusão de ótica. Tentemos explicar esse fato, que sempre foi chamado de milagre mas que chamamos simplesmente de fenômeno.


A transfiguração pode ocorrer, em certos casos, por uma simples contração muscular que dá à fisionomia expressão muito diferente, a ponto de tornar a pessoa quase irreconhecível. Observamo-la frequentemente com alguns sonâmbulos. Mas, nesses casos, a transformação não é radical. Uma mulher poderá parecer jovem ou velha, belo ou feia, mas será sempre mulher e seu peso não aumentará nem diminuirá. No caso de que tratamos é evidente que há algo mais. A teoria do perispírito vai nos por no caminho. Admite-se, em princípio, que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências. Que, por uma modificação das disposições moleculares, pode lhe dar a visibilidade, a tangibilidade e em consequência a opacidade. Que o perispírito de uma pessoa viva, fora do corpo pode passar pelas mesmas transformações e que essa mudança de estado se realiza por meio da combinação dos fluidos.


Imaginemos, então, o perispírito de uma pessoa viva, não fora do corpo, mas irradiando ao redor do corpo de maneira a envolvê-lo como uma espécie de vapor. Nesse estado ele pode sofrer as mesmas modificações de quanto separado. Se perder a transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, velar-se como se estivesse mergulhado num nevoeiro. Poderá mesmo mudar de aspecto, ficar brilhante, de acordo com a vontade ou o poder do Espírito. Outro Espírito, combinando o seu fluido com esse, pode substituir a aparência dessa pessoa, de maneira que o corpo real desapareça, coberto por uma envoltório físico exterior cuja aparência poderá variar como o Espírito quiser. Essa parece ser a verdadeira causa do fenômeno estranho — e raro, convêm dizer, — da transfiguração. Quanto à diferença de peso, explica-se da mesma maneira que a dos corpos inertes. O peso próprio do corpo não varia, porque a sua quantidade de matéria não aumenta, mas o corpo sofre a influência de um agente exterior que pode aumentar-lhe ou diminuir-lhe o peso relativo.. É provável, portanto, que a transfiguração na forma de uma criança diminua o peso de maneira proporcional.


Concebe-se que o corpo possa tomar uma aparência maior que a sua ou das mesmas dimensões, mas como poderia tornar-se menor, do tamanho de uma criança, como acabamos de dizer? Nesse caso, o corpo real não deveria ultrapassar os limites do corpo aparente? Por isso não dizemos que o fato se tenha verificado, mas quisemos apenas mostrar, referindo-nos a teoria do peso específico, que o peso aparente poderia também diminuir. Quanto ao fenômeno em si, não afirmamos nem negamos a sua possibilidade. No caso de ocorrer, o fato de não se poder explicá-lo satisfatoriamente, não o informaria. É preciso não esquecer que estamos no começo desta ciência e que ela ainda está longe de haver dito sua última palavra sobre este ponto, como sobre muitos outros. Aliás, as partes excedentes do corpo poderiam perfeitamente ser tornadas invisíveis.


A teoria do fenômeno da invisibilidade ressalta naturalmente das explicações precedentes e das que se referem ao fenômeno de transportes. Teríamos ainda de falar do estranho fenômeno dos agêneres, que por mais extraordinário que possa parecer à primeira vista, não é mais sobrenatural do que os outros. Mas como já o explicamos na Revista Espírita (02/1859), achamos inútil repetir, aqui, os seus detalhes. Diremos apenas que é uma variedade de aparições tangíveis. É uma condição em que certos Espíritos podem revestir, momentaneamente, as formas de uma pessoa viva, a ponto de produzir perfeita ilusão.