1 - DA INCONSCIÊNCIA À CONSCIÊNCIA

Desde que a mônada, desprendida da substância universal, foi lançada à corrente da evolução, começou a desenvolver em si todas as qualidades que, individualizadas, haviam, com o tempo, de caracterizá-la. Ao começo, a inconsciência é o estado natural dos seres, que só pouco a pouco vão desenvolvendo em si a consciência que os há de tornar senhores de si mesmos e semideuses.

Toda a obra da evolução reduz-se a desenvolver o amor nos indivíduos. E como não há de ser assim, se Deus é amor? "Deus é todo o Amor", tem-se-vos dito; ora, estando todo o amor contido nEle, forçosamente todos os seres, que nEle têm sua origem, devem desenvolver esse amor em si. Não pode ser de outra forma.

E como se desenvolve o amor nos seres inconscientes? poderiam perguntar-me. Simplesmente: propendendo eles sempre para o melhor. O amor potencial, que há na essência de cada ser, é o que este tem de melhor, e todas as suas ações e operações objetivam desenvolver em si o amor, isto é: objetivam remover os obstáculos que impeçam a manifestação do amor com maior intensidade e sob aspecto mais elevado.

A criatura sempre busca a Deus, por mais atrasada que esteja no caminho do progresso. Busca-o da maneira que sabe e pode buscá-lo. Não terá consciência de que assim procede; mas, nem por isso busca menos a Deus. Se até o busca e procura compreendê-lo o infeliz que o nega, como não há de buscá-lo quem o não nega, porque nunca pensou nEle, por efeito de sua inconsciência? Até as plantas buscam a Deus e o amam. Não buscam a luz, o calor, a umidade? Tudo isso é o melhor para elas; é a garantia de sua vida. Buscando o que lhes convém, buscam o melhor, porque, ainda que inconscientes, amam a esse melhor, e esse melhor, que elas buscam e amam, é Deus.

Não há criatura alguma, por mais corrompida, por mais impura, por mais materializada, que não busque e ame a Deus. Haverá a que não ame alguma coisa? Se não encontrais animal nenhum sem amor, do mesmo modo que nenhuma planta, como pode haver criatura que não ame? E que é o que ama toda criatura? Que é o que busca? Busca a Deus e ama a Deus. Ignora-o? Não importa. Não deixa por isso de buscar e amar a seu próprio Pai, ao Ser dos seres, Aquele a quem deve a existência. E como deixaria de ser assim, se entre a causa e o efeito tem de haver inteira correspondência? De tal maneira estão unidos a causa e o efeito que se não concebe uma separada do outro. Algo da causa há sempre no efeito e é impossível a inexistência desta correlação. A causa obra no efeito, como essência deste. É o que se poderia chamar: seu espírito. Se a causa é o espírito do efeito, o efeito é a sua vestimenta, sua forma de manifestação.

Assim sendo e não podendo haver mais que uma Causa Absoluta, porque não há mais que um Deus verdadeiro, todos os seres e todas as coisas são efeitos dessa Causa e essa Causa é que os anima, isto é, está imanente em toda a obra gerada por Ela e manifestada.

Deus está, pois, em todas as coisas, em todos os seres. Pode-se agora deixar de compreender que o que há de divino no mais recôndito de cada ser busque a causa donde promanou e se esforce por manifestar-se?

É o que acontece em todos os seres e em todas as coisas. Seres e coisas tendem sempre para maior perfeição, que é buscada procurando uns e outros o melhor, buscando-a os seres racionais no que lhes satisfaz à alma.

E os malvados, os viciosos, os corruptos também buscam a Deus e demonstram amá-lo? Também, respondo. Porém, inconscientemente. Esses não têm a consciência suficientemente desenvolvida para compreenderem bem os fenômenos que com eles próprios se dão, no decurso de seu desenvolvimento, porque tudo no Cosmos progride, nada permanece estacionário e algum progresso realizam sempre os seres racionais, mesmo atrasados, ainda que o não percebam. O amor não deixa, por conseguinte, de se ir desenvolvendo sem cessar em todos os seres. Até o próprio ódio, a inveja, o ciúme e outros vícios ou defeitos, que se consideram negativos do amor, são manifestação viva deste e, pela sua expressão, sem que o pareça, os seres buscam a Deus, isto é, propendem para lhe facilitar sempre mais elevada manifestação de seu poder e divindade.

Talvez pareça absurdo o que venho dizendo, porém, não o é: é a própria realidade. O que há é que haveis formado uma idéia muito acomodatícia de como se deve manifestar o amor, e não considerais como manifestação sua o que não corresponda ao vosso modo de ver.

Por que odeia aquele que odeia? Indubitavelmente porque não o satisfaz o objeto de seu ódio, por haver posto seu amor nalguma coisa que, em seu conceito, lhe é superior. O amor ou preferência que sente por essa alguma coisa se traduz em ódio ou antipatia ao que não lhe preenche as aspirações ou constitui, a seu ver, um obstáculo para realizá-las. Vê-se, assim, que esse ódio e essa antipatia têm sua base no amor a algo que é tido por melhor. É uma forma defeituosa de manifestação do amor; porém, se por aí não se passasse, não se chegaria a maiores alturas. Sem essas concepções rudimentares e defeituosas, os que já se encontram em planos superiores de desenvolvimento não teriam alcançado esses planos.

Há quem cometa crimes. Supondes que a prática de tais crimes não tem sua base no amor? Sim, tem.

Esquadrinhai, buscai, indagai, penetrai até ao âmago dos mais horrendos crimes e lá encontrareis o amor como elemento fundamental do delito que vos horrorizou.

Nos indivíduos que se dão à libertinagem, nos que procuram os prazeres mundanos e se entregam inteiramente aos atos mais escandalosos, que é o que os impele a esses desregramentos? O amor ao prazer, ao melhor, sempre ao melhor. Não alcançam esse resultado? De acordo; porém, nas suas mentes e intenções estão a idéia e o propósito de conseguirem o melhor. A imperícia, a falta de experiência, a ignorância. as miragens fazem-lhes preferir o que os levará ao desengano, à dor, à expiação. Mas, tudo isso é fruto do amor, do amor que se vai desenvolvendo em tais indivíduos, e que, violentado, produz esses estados, para ensinamento e com o fim de depurar pelo sofrimento os seres, de modo que neles possa manifestar-se com mais verdade e pureza aquele sentimento. Tanto o ser mais depravado como o mais santo fundamenta seus atos na justiça e no amor, isto é, no amor à justiça. Talvez não vos pareça assim, porque o conceito que tendes do amor e da justiça é mais complexo; entretanto, dá-se como deixo dito.

Nada observareis em vossos irmãos, como nada em vós podereis observar, oriundo da vossa vontade, que não tenha por fundamento o amor à justiça, que é o amor a Deus. Porque o Deus que não é reconhecido ou compreendido toma nos seres racionais a figura da justiça, e o culto a esta é que os conduz a obrar como obram. Nos outros, o mesmo se dá que em vós. Conseguintemente, as diferentes e opostas maneiras de manifestar-se o amor a Deus, na Justiça, nada argúi contra as minhas afirmações.

A diversidade de graus no desenvolvimento espiritual dos seres é que produz manifestações tão diametralmente opostas de um mesmo sentimento. Começa-se esse desenvolvimento na inconsciência completa; a consciência alvorece depois e vai adquirindo corpo paulatinamente. Porém, no período da inconsciência e no de semiconsciência que lhe segue, vêem-se as coisas e se apreciam os sentimentos de maneira muito diversa do que eles são em realidade. Assim como, segundo a cor do cristal que tem diante dos olhos, é que qualifica os objetos aquele que os contempla, dizendo-os amarelos, azuis ou encarnados, quando não são de nenhuma dessas cores, também é assim que os indivíduos, em sua inconsciência ou em sua semi-consciência, apreciam as coisas e os sentimentos.

Passando da inconsciência à semi-consciência, o ser já se aproxima um pouco da realidade; depois, a semi-consciência conduz à consciência plena e, nesse estado, já se contemplam as coisas e os sentimentos tais quais são. Porém, do ponto de vista em que nos colocamos, também caminham para Deus, nas asas do amor que por Ele sentem, ainda que o não saibam exprimir, os seres inconscientes, do mesmo modo que os conscientes.

Se assim não fora, a obra de Deus teria o caráter de parcialidade, o que não é possível, e Ele deixaria de estar imanente em todos os seres e em todas as coisas, o que igualmente é impossível.

Em todos os fenômenos que se observam, intervenha neles ou não o homem, inconsciente ou conscientemente, palpita o hálito de Deus, porque coisa alguma há em que Ele não esteja.

Tudo nEle se move e realiza. Seu Amor em tudo transborda. Levado pelo amor divino, o ser inconsciente agita-se e atua em torno das suas preferências, tanto quanto o que conscientemente desempenha o seu papel na vida. O ser, hoje consciente, foi inconsciente ontem. O inconsciente de agora será o consciente de amanhã. Tudo progride, tudo evolve, ao influxo do amor divino, compreenda-o ou não a criatura humana.

Angel Aguarod