1 - A GUERRA E SUAS CAUSAS

Desde tempos imemoriais, desde a infância da humanidade terrestre e em todas as latitudes do planeta, a guerra existiu, exercendo decisiva influência no destino dos indivíduos e das sociedades. É a guerra santificada e maldita, acariciada e repelida, desejada e temida, desenvolvendo as mais opostas manifestações do espírito humano.

São muitas as almas sensíveis e aspirantes a um estado de coisas mais perfeito do que o existente e a uma maior felicidade do que a de que se goza na Terra que atribuem à guerra todos os males e por isso a maldizem, cifrando a sua futura felicidade e a da humanidade terrena na garantia de uma paz completa e perpétua. Essas almas, de sentimentos nobilíssimos e já um tanto evolvidas, atribuem à guerra todos os males que possam apresentar-se-lhes à visão espiritual. Não encontram na guerra coisa alguma que a desculpe; ao contrário, nela tudo o que observam é mau, abominável, pelo que a abominam e maldizem.

Outros cantam as excelências da guerra e lhe dedicam inúmeros hinos de louvor, atribuindo-lhe o progresso que a humanidade chegou a realizar. E não há dúvida que os que prestam culto à guerra, pelas palavras e pelos atos, principalmente pelos atos, constituem a maioria.

Não vos dá que pensar esta verdade evidente, comprovável a todo momento?

Qual dos dois grupos terá razão? O fato de haver nascido a guerra com o homem terrestre e não registrar a história um pequeno intervalo que seja, em todo o orbe durante o qual haja cessado a guerra, não vos diz coisa alguma respeito à sua condição?

Não será natural essa universalidade da guerra, em todos os tempos e em todos os países, uma vez que dela não se viu livre povo algum, nem século algum dos transcorridos desde que a espécie humana tomou posse do planeta?

Não vos diz esse fato que a guerra, no período decorrido da evolução da espécie humana, desde que esta saiu das garras da animalidade inferior, do bruto, até aos vossos dias, é congênita da mesma espécie?

Indubitavelmente. Nisto, bem o vedes, não há exceção. Não tem havido povo, nem indivíduo, que não haja passado pelo período guerreiro, em o qual esse estado não tenha predominado, manifestando-se conforme à sua natureza o sentimento belicoso de cada um.

Não vos revela este fato que esse sentimento faz parte da própria evolução do ser e das sociedades, os quais, no curso do seu evolver, têm que passar por um período, por uma fase caracterizada pelo transbordamento do sentimento belicoso, não para entorpecer a dita evolução, mas para favorecê-la?

Tudo na evolução tem seu paralelo.

Vede o planeta Terra, contemplai-o em seu passado e ainda em seu presente, e não vos será difícil perceber por quantas revoluções geológicas teve que passar, até conseguir a formação de uma Crosta sólida que permitisse estabilizar-se nela a planta humana e sobre ela habitar, como o teriam feito antes seus precursores: os animais de todas as espécies. E, desde que a superfície terrestre se tornou apta à habitabilidade do homem, quantas outras revoluções geológicas e sísmicas não se têm produzido e se produzem ainda! Hoje mesmo, não vos oferece a Terra o espetáculo de fenômenos de convulsões sísmicas, de erupções vulcânicas, de terremotos apocalípticos, que destroem regiões e arrasam cidades, submergindo-as e deixando por toda parte montões de ruínas? Tudo isso é, na ordem física, o equivalente das guerras, na ordem humana.

A própria evolução do planeta traz as guerras, isto é, os cataclismos geológicos, vulcânicos e os terremotos, que contribuem para aperfeiçoá-lo. Está isso na Lei. Ora, num planeta que ainda se acha nestas condições de instabilidade quereríeis que a humanidade que o povoa vivesse em permanente paz, sem que coisa alguma lhe alterasse a tranqüilidade? Não pode ser. Para tal habitação, tal habitante. Há de haver perfeita correspondência entre os povoadores de um planeta, entre o grau evolutivo por eles alcançado e o que alcançou a habitação que lhes coube por sorte. Nada há de arbitrário na Criação, cada coisa está em seu lugar e os habitantes têm que ser dignos da habitação.

Assim, tende por certo que, enquanto no planeta Terra continuarem a produzir-se cataclismos geológicos, sísmicos, marítimos e de qualquer outra espécie, com uma violência que causa terror a seus habitantes, a guerra permanecerá, sem se extinguir entre estes, porque o estado do globo não permite uma população de Espíritos que hajam conquistado, por seu progresso, o estado da paz suprema, para gozá-la por merecimento próprio.

A guerra é, pois, congênita à natureza humana. No atual período de sua evolução na Terra, é necessária para seu próprio desenvolvimento, porque a raça humana está no caso daquele bloco de pedra meio desbastado, em que trabalha o escultor, dando fortes marteladas para desbastá-lo completamente. O buril, para esculpir a estátua, virá depois. Os indivíduos que compõem a espécie humana, em geral, estão no período do desbastamento de suas faculdades e precisam de fortes abalos, de fortes golpes, para chegarem ao ponto de começar a modelação da personalidade.

Neste período, aparecem as paixões, que se vão desenvolvendo progressivamente e que, com uma inteligência rudimentar, forçosamente se hão de manifestar com violência várias, chocando-se umas com outras, as de uns homens com as de outros, produzindo-se lutas que chegam a ser sangrentas e trágicas, em virtude dos instrumentos que empregam os contendores para dirimir agravos e dissídios.

Tudo isso é doloroso, causa horror as almas sensíveis, porém, está na Natureza e não se pode evitar; os indivíduos e os povos têm que passar por esses períodos bélicos, no curso de sua evolução.

A causa principal, pois, da guerra está no atraso dos indivíduos e das sociedades humanas, donde derivam as paixões desordenadas, que tomam o caráter de violência e, com sua impetuosidade, produzem os conflitos que ensangüentam as páginas da história da Humanidade,

Aí tendes, pois, sintetizado, o que significa a guerra; quais as causas que a produzem e o objetivo desse chamado flagelo da espécie humana.

Porque a considera um flagelo, põe o homem a olhar fixo na paz e pela paz suspira. É, pois, a guerra, a base sobre que se há de firmar a paz dos indivíduos e dos povos.

Angel Aguarod