1 - A TOLERÂNCIA

O PROBLEMA DA BENEVOLÊNCIA

A matéria, assaz importante, que há de compor este capítulo é absolutamente concordante com a que fez objeto do capítulo anterior, sobre a Justiça. Poderíamos, assim, dizer que este capítulo é o complemento daquele, confundindo-se em muitos pontos a matéria que eles versam.

A benevolência tem por principais características a tolerância, a indulgência e a condescendência, todas, inclusive a benevolência, recebendo o supremo influxo da bondade.

De todas essas características teremos que nos ocupar a fim de completarmos o nosso estudo.

A TOLERÂNCIA

Esta característica da benevolência não se desenvolve no ser racional, como todas as outras qualidades superiores da alma, senão paulatinamente. Nada pode o indivíduo considerar aquisição definitiva do seu ser sem que o haja realizado em si, gradativa e insensivelmente, através de estados sucessivos, mediante processos trabalhosos e incompreensíveis para as almas pouco evolvidas, e mesmo para muitas já sensivelmente adiantadas, quando ainda se encontram presas em seu cárcere de barro.

O ente humano, enquanto está formando a própria individualidade, não pode ser tolerante com o que o afete desagradavelmente, por ir de encontro aos seus gostos, tendências ou inclinações. Não havendo ainda desenvolvido suficientemente o sentimento de justiça, tendo necessidade de concretizar e afirmar sua individualidade, caracterizando-a e destacando-a notoriamente das outras individualidades, custoso lhe é suportar sem protesto coisa alguma que o contrarie. Só se submete pelo temor, pela reconhecida superioridade dos outros, pela sua manifesta impotência. Aquela submissão e o respeito que o temor lhe infunde para com os outros seres não são tolerância. Esta, para que o seja de fato, tem que partir da consciência, tem que ser consciente; porque, até então, não se pode qualificar como tal o respeito que o indivíduo dispense ao que esteja em pugna, em oposição aberta ao que lhe pertença.

A tolerância propriamente dita só é patrimônio de Espíritos evolvidos; não podem ser tolerantes os Espíritos que ainda não conseguiram compreender que é um dever seu respeitar as opiniões e os procedimentos alheios, opostos ao seu, por não lhes ser lícito proceder com os outros de maneira diferente da que quereriam que os outros se conduzissem para com eles. Isto é um princípio de justiça, que o Espírito só chega a compreender e sentir quando tem passado muitas encarnações lutando e sofrendo e quando conquistou dessas lutas e sofrimentos um considerável cabedal de experiência, que o obriga a considerar as coisas e os seres seus semelhantes por um prisma próximo da realidade.

A da tolerância é a mesma fonte do altruísmo, da justiça, da caridade, do amor, de todas as grandes virtudes e o processo que ela segue em seu desenvolvimento é idêntico ao daquelas celestiais virtudes.

Por isso, é preciso que ninguém se engane na apreciação dos homens. Não é mais tolerante aquele que menos protesta em muitos casos. O desconhecimento dos assuntos e das coisas, que obriga o indivíduo a uma forçosa neutralidade, não pode ser considerado como tolerância, pois que os indivíduos que, em tais casos, suportam o que haja de mais monstruoso, outro tanto não farão quando, mais evolvidos, tenham podido formar conceito mais ou menos justo daquilo que anteriormente lhes não mereceu atenção alguma. A opinião que os Espíritos deficientemente evolvidos formam, do que quer que seja, sempre se choca violentamente com as outras opiniões. Colocados nas humildes camadas sociais, tais Espíritos não manifestam ruidosamente suas discordâncias, por impedi-la a condição subalterna que ocupam; somente as externam, de maneira ruidosa e violenta, entre seus iguais, com os quais se revelam intransigentes e às vezes cruéis. Porém, ante os que ocupam as culminâncias sociais, ou exercem autoridade, submetem-se e só protestam com violência quando, unidos a outros da mesma condição, podem oferecer apreciável resistência. Isso vem demonstrar que esses protestantes não são melhores do que seus adversários. Colocados nas alturas em que se acham estes, fariam o mesmo. Assim é, porque o Espírito não pode expressar senão o que nele há. O cobarde é intolerante e intransigente: porém, ao mesmo tempo, servil. Servil diante dos poderosos; intransigente, intolerante, duro e cruel com os que lhe são iguais e inferiores.

Ora, reconhecendo isto, ninguém pode condená-lo inconsideradamente, pois esses Espíritos se manifestam tais quais são. Que outra coisa quereríeis fizessem? Quereríeis, porventura, que, incultos, se manifestassem cultos? que, atrasados, suas manifestações fossem as de Espíritos eminentes que, pelo seu desenvolvimento, já alcançaram as maiores alturas?

Forçosamente, os Espíritos encarnados e desencarnados se manifestam sempre pela forma que corresponde ao ponto em que se encontram de sua evolução. Reparai num dos vossos semelhantes, a qualquer momento de sua atuação; atentai bem na sua maneira de proceder e, por muito que esta vos choque e repugne, ficai certos de que, em igualdade absoluta de circunstâncias, procederíeis exatamente do mesmo modo.

Não vedes, nos domínios da química, de que maneira precisa e em que proporções devem comportar-se os elementos para formarem os corpos e substâncias compostas?

Lembrai-vos de que não há leis que se contradiga umas às outras: em a Natureza há perfeita concordância entre todas as leis, pelo que a ação delas é semelhante em todos os reinos que a mesma Natureza compreende e em todos os estados em que o homem possa atuar e, desenvolver-se. Semelhantes às leis que regem o plano físico são as que regem o plano mental e as que vigoram nos domínios do Espírito. É, pois, um postulado irrecusável o que enunciei, dizendo que, em igualdade absoluta de circunstâncias, todos os indivíduos procederiam exatamente do mesmo modo. Quando isto não ocorre, é que as circunstâncias não são absolutamente idênticas, por mais que o pareçam.

Estas coisas não as podem compreender os Espíritos de desenvolvimento rudimentar e não é mesmo conveniente que o compreendam; podem, porém, compreendê-las os Espíritos medianamente evolvidos e, se já possuem algum tanto desenvolvido o sentimento de justiça, terão a dominar-lhes a conduta um ânimo de larga tolerância para com seus semelhantes. De outra forma, não seriam justos. Cometeriam injustiça, se condenassem desapiedadamente o que forçosamente teve que ser feito como se fez, porque outra coisa não era possível ao autor da ação condenada.

Entretanto, esta consideração pode conduzir os Espíritos a um desvio sensível da realidade, pode levá-los a proceder de maneira inconveniente. É preciso compreender o alcance da tolerância, para não converter esta virtude, por efeito de má aplicação, numa arma danosa.

Tolerância não quer dizer que se reconheça a toda gente o direito de fazer o que lhe apraza, o que melhor lhe pareça, apoiada no postulado que enunciei, não. A bondade, que é mãe da benevolência, o é também da tolerância e, porque o é, deve ser a impulsionadora do Espírito em todos os seus atos e relações com o que existe na Criação. Assim, a tolerância, inspirada pela Bondade, não olhará indiferente para o proceder alheio, quando este proceder seja incorreto, inconveniente e possa lesar interesses morais e materiais, próprios ou estranhos, individuais ou coletivos.

Os Espíritos atrasados devem ser auxiliados, para que aumentem o cabedal de seus conhecimentos e retifiquem seus erros.

A tolerância impõe-se, no sentido de não se recorrer a violência para ampliar a razão daquele que a tenha pouco desenvolvida, ou para dar melhor compreensão das coisas e dos fatos aos que tenham deficiente conhecimento de umas e outros. A tolerância não consiste na diferença. Pode e deve a criatura ser tolerante em face das opiniões alheias, por mais opostas que sejam às suas próprias; ela prescreve o respeito às crenças, aos gostos e tendências dos outros; porém, a ninguém impõe o silêncio diante do que lhe desagrade, ou seja compreendido de outro modo. Ao contrário, respeitando o indivíduo, inspirado pela bondade e pela justiça que ela em si contém, a maneira por que os outros exteriorizam seus sentimentos, a tolerância o obriga a considerar os outros como a si mesmo e a fazer-lhes tudo aquilo que lhes possa convir. Ora, o que convém a todo ente humano é aprender, progredir, evolver espiritualmente o mais rápido possível. E a tarefa dos que mais sabem é, ou deve ser, ensinar aos que sabem menos, e a dos que mais bondade possuem dar lições práticas dessa bondade, para que os seus inferiores tenham um guia que lhes indique de que maneira devem proceder para também subir.

As instituições religiosas e políticas costumam ser intolerantes com os adeptos de outros credos e com os de opiniões opostas, por abundarem nelas os Espíritos pouco evolvidos, muito materializados, os quais julgam que somente com a intransigência e a imposição podern manter-se nas alturas conquistadas, ou elevar-se às que ambicionam. Mas, isso, em si mesmo, tem sua razão de ser. Nas resistências e lutas que daí se originam, forjam-se a transigência e a tolerância de amanhã.

É preciso que os que compreendem o que é a tolerância e por que devem ser tolerantes o sejam em toda a extensão da palavra; que se interessem pelo progresso da humanidade, considerando seus membros separadamente e a massa, renunciando, no demonstrar esse interesse, a toda violência. Esta, em verdade, não se pode eliminar da vida humana. Observai a Natureza; suas manifestações são às vezes de uma violência extraordinária e o estado de consciência da generalidade dos habitantes da Terra tem que guardar correlação com as manifestações da Natureza.

Não levem em conta esses exemplos os que estejam em condições de praticar a benevolência, ao encararem a tolerância, e jamais recorram à violência para alcançar seus fins. A bondade, que chegaram a desenvolver em si, lhes nega esse direito. As formas violentas de expressão deixem-nas para os poderes constituídos e para os que, presumindo-se com direito de governar, entendem, diante da resistência que encontram, que não poderão conseguir seus objetivos senão violentamente. São estados esses pelos quais têm que passar os indivíduos e os povos; porém, todo progresso precisa ter quem o sustente; toda idéia tem seus apóstolos e necessário é que na Terra, para que a sociedade humana possa dar o passo gigantesco que as circunstâncias lhe impõem no caminho do progresso, esses apóstolos da paz, por meio de ensinos práticos, pela prática de uma tolerância bem compreendida, mostrem à humanidade que ela somente encontrará sua redenção quando seus membros saibam tolerar-se uns aos outros, baseando essa tolerância no amor fraternal, que só ele poderá acabar com todas as desditas humanas.

Angel Aguarod