1 - AUTO-EDUCAÇÃO

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AUTO-EDUCAÇÃO

O desenvolvimento do progresso nos indivíduos obedece à educação de que o fazem, ou de que ele próprio se faz objeto.

A educação do homem corresponde ao cultivo das plantas. Quanto mais esmerado seja este cultivo, mais louçãs aquelas se desenvolverão e mais abundantes frutos produzirão.

Quanto melhor educado seja o homem - e isto é de senso comum - tanto mais rapidamente ascenderá na escala da perfeição.

Na educação do ser humano intervêm três agentes principais, um externo, outro interno, sendo o terceiro o próprio Ego do educando.

Nem todos os conhecimentos vêm ao homem, como alguns sustentam, pela porta dos sentidos físicos. Na Natureza, outras fontes de conhecimento existem, superiores às de caráter físico: as fontes espirituais. Esses conhecimentos elevados vêm ao homem pelas portas do Espírito. Assim, o cérebro não só registra as impressões de mundo externo, como igualmente as desse outro mundo que passa despercebido à generalidade dos seres: o mundo espiritual. O cérebro se nutre principalmente das projeções da verdade divina que lhe chegam por via interna.

Atuando no plano físico, o homem não percebe claramente este copioso manancial das maiores verdades, a descer sobre o Espírito; mas, nem por isso deixa ele de ser uma realidade. Tanto é, que as mesmas impressões externas, para se fixarem no cérebro e, sobretudo, no cérebro perispiritual, permita-se-nos dizer assim, encontrariam sérios obstáculos, se se confundissem com os lampejos das verdades espirituais neles depositadas, que os vitalizam e facilitam a impressão em ambos.

Porém, nem os conhecimentos externos, que penetram nos receptáculos respectivos ao impulso das devidas impressões, nem os de origem interna ou espiritual teriam a capacidade de firmar-se sem a intervenção oportuna do agente interessado, que é o próprio indivíduo.

Aquele que, encarnado ou desencarnado, se propõe a lecionar, pouco conseguirá, por grande que seja o seu esforço, se o educando não empregar toda a força de sua vontade para aproveitar as lições. É que, para fixar aquisições de caráter inteligente e ético, indispensável se torna que o indivíduo o queira.

Quando, pois, o ser humano chega a certo grau de evolução, é indispensável a auto-educação. A educação transmitida por terceiro, seja encarnado ou desencarnado, nesse período, só pode ser aceita à guisa de agente auxiliar, como ocorre com as plantas, cujo desenvolvimento o cultivador, de certo modo, apenas pode auxiliar pelo cultivo, pois o que a planta terá de ser está nela em estado potencial e só com o tempo se desenvolve completamente.

Ainda que a comparação não seja absolutamente fiel, basta para dar uma idéia, embora pálida, do que me proponho demonstrar. Há, entre a planta e o homem, a diferença da inconsciência, da carência de razão e de vontade na primeira, o que tudo e muito mais, a aprofundar a diferença, existe no outro.

Desenvolvida no homem a razão, ao ponto de lhe tornar possível julgar e discernir, chega ele ao período em que, pelo desenvolvimento do seu livre-arbítrio, ainda que limitado, assumindo a responsabilidade de seus atos, lhe cumpre tomar sobre si a tarefa da própria educação.

Entrando neste período da plena consciência, já os agentes externos ou internos, que lhe são estranhos, só podem servir para, pela própria vontade do indivíduo, ser manejados de acordo com seu modo de entender, a fim de os aproveitar para o seu próprio desenvolvimento. Pode ele até fazer pouco caso dos oferecimentos que receba dos seus educadores externos ou internos, desprezando-lhes os ensinos. Isso ocorre muito freqüentemente: muitos desatendem às lições da experiência alheia e às vozes que do interior lhes chegam à consciência, oferecendo-lhes algum bem espiritual.

Então, o indivíduo faz a própria desventura, porque descura a sua auto-educação, que tais experiências e vozes lhe estimulam.

É indispensável a auto-educação no indivíduo que adquiriu o uso da razão; ninguém pode eximir-se desta tarefa. Enquanto o ser está atuando nos planos da inconsciência, dispensável lhe é que se eduque por si mesmo, por ato da própria vontade, porque não se acha em condições de fazer uso dessa faculdade superior, que ainda não se lhe desenvolveu no Espírito, ou cujo desenvolvimento é insuficiente: a da razão.

Mas, operado esse desenvolvimento, tem o indivíduo que atender por si mesmo à sua educação, porque esta tem que ser obra sua, embora não lhe faltem mentores, que só irão desaparecendo à medida que ele realize seus progressos espirituais.

Toda criatura humana, não obstante ter que se auto-educar, necessita para isso de mentores, tanto encarnados como desencarnados, mentores que desaparecem quando ela chega ao apogeu do desenvolvimento espiritual, do mesmo modo que a criança, para aprender a andar, necessita de auxiliares, que dia a dia se tornam menos necessários, fazendo-se completamente dispensáveis desde que ela consegue caminhar com desembaraço e sem perigo.

É, pois, a de auto-educar-se uma função que todos os seres encarnados têm que realizar. Todos os indivíduos das raças chamadas civilizadas já se encontram neste caso e é preciso que quantos queiram aproveitar devidamente da sua passagem pela Terra, encarnados, se apressem a desempenhar essa função imprescindível, o mais perfeitamente possível.

Para isto, é condição precípua que ponha em prática a recomendação contida naquela máxima escrita no frontispício do templo de Delfos: "Homem, conhece-te a ti mesmo,"

O que primeiro, pois, a criatura humana deve procurar é conhecer-se a si mesma, para saber como orientar a sua auto-educação. A este conhecimento deve seguir-se ou ser adquirido simultaneamente, o do destino que a espera, para que, servindo-lhe de alvo, ela saiba para onde e como dirigir sua ação. Cumpre-lhe, ao mesmo tempo conhecer as qualidades que deve procurar desenvolverem si e os hábitos viciosos e os obstáculos que a poderiam embaraçar no desempenho da sua tarefa, hábitos e vícios que lhe importa destruir sem contemplações.

Com o conhecimento, relativo de si mesmo, indispensável a cada momento de sua evolução, fim a que toda a sua ação deve tender com os recursos morais e as experiências próprias e alheias, que lhe facilitam a atuação no plano em que se move, pode muito bem o indivíduo orientar sua auto-educação.

E, quando a tudo isso se junte uma vontade férrea de a todo transe chegar de pronto à meta do próprio aperfeiçoamento, esse desejo, louvável e legítimo, se converte presto em bela realidade.

Aquele que queira, deveras, auto-educar-se não deverá desperdiçar conhecimento algum que lhe venha, tanto de fora, como de dentro, experiência alguma, própria ou alheia, nenhuma observação e ensino que pessoas bondosas e sábias possam proporcionar-lhe. Nada despreza aquele que quer aproveitar a sua passagem pela Terra, em benefício de si mesmo, sob o ponto de vista moral. Até da observação dos defeitos alheios tira proveito para sua cultura espiritual.

Sob esse aspecto se legitima a observação e o estudo das fraquezas do seu semelhante. Condenáveis são tais estudos e observações quando dão azo à crítica mordaz e à murmuração, em detrimento da caridade; porém, tudo se torna legítimo quando aproveitado para a própria correção. Não se vos ensina que deveis escarmentar em cabeça alheia? Quando, observando os defeitos e faltas do vosso próximo, chegueis ao conhecimento das conseqüências fatais de tais defeitos ou faltas, estudar-vos-eis, para conhecer-vos melhor e, observando o que afeia vosso irmão, vereis igualmente o que vos afeia e tratareis de corrigir-vos.

Para uma auto-educação esmerada, é preciso permanente exame de consciência, a fim de conhecer-se sempre, a todo o momento, o estado da própria alma. Deste modo, resolvido a aperfeiçoar-se, o indivíduo não perde ocasião de estimular o desenvolvimento das virtudes nascentes em si e de afogar os vícios e maus hábitos que o prejudicam.

Com estes excelentes propósitos, a ninguém é defeso observar o argueiro no olho do próximo, porque, ao notar o mal que daí lhe advém, olha para si e trata de livrar-se da trave que descubra em seu próprio olho. Só com tal propósito, e para dar ao próximo o exemplo da extirpação dos próprios defeitos, é que se pode atentar nas faltas alheias.

Não espere, pois, o indivíduo alcançar tudo feito; os mestres e educadores só podem ser considerados como auxiliares da educação de cada um, como agentes que iniciam o educando em conhecimentos que ele deve por esforço próprio tirar de sua alma, onde eles se encontram latentes, esperando, para se efetivarem pela sua mesma virtude, um estímulo partido de onde quer que seja e que bem pode representar o trabalho iniciático dos instrutores e educadores, aos quais só cabe observar e aconselhar, porque o mais não lhes pertence.

Cada um tem forçosamente que ser filho de suas próprias obras, bem o sabeis. Logo, a educação, com que se irá formando o homem de amanhã, tem que ser também obra de cada um e só quando o seja é que se torna efetiva. Daí vem que os bons educadores não cogitam de encher a mente de seus pupilos com um arsenal de conhecimentos e preceitos indigeríveis por extemporâneos apenas estimulam o desenvolvimento das faculdades anímicas, pondo-lhes ante a visão espiritual as maravilhas da natureza e as conquistas definitivas do saber humano para que eles, com esse material, desenvolvam o que lhes está no ser em estado potencial.

Tarefa santa é a que o indivíduo empreenda para bem educar-se. A todos os que se preocupam com o próprio adiantamento se acha confiada esta tarefa. Porém é preciso que ela se execute com método e o método também não se pode impor, nem sequer aconselhar-se. Cada um deve procurar formá-lo, pois o indivíduo, na tarefa de auto-educação, deve empenhar-se por nada querer de empréstimo, por dever tudo a si próprio, porque só então seu aperfeiçoamento poderá ser considerado obra sua, como precisam ser todas as aquisições efetivas do Espírito.

Angel Aguarod