1 - DA ALIMENTAÇÃO E DA HIGIENE
O PROBLEMA DA SAÚDE

A ALIMENTAÇÃO E A HIGIENE

O corpo, como a alma, tem suas exigências naturais, que o homem não deve deixar de satisfazer.

O alimento para o corpo, da mesma natureza que ele, é indispensável, e a higiene é complemento forçoso da alimentação, para que o invólucro corporal, de que tem de servir-se o Espírito, se desenvolva e mantenha nas condições precisas, a fim de ser um veículo perfeito de manifestação.

Mas, a escolha dos alimentos que ao corpo convêm, das regras de higiene que se devem observar, apresentam dificuldades invencíveis para muitas pessoas, e, daí, esse desconhecimento ou desorientação, provém a maioria dos flagelos que pesam sobre a criatura humana, como efeito de seus desarranjos orgânicos.

A Providência não olvida nenhuma de suas criaturas. Mas, o homem, em virtude do livre-arbítrio que recebeu ao chegar à condição de espírito humano, carece de segurança para escolher o que convém a uma boa nutrição, faculdade que, no entanto, possuem os animais das espécies inferiores.

Por isso deve ele desenvolver o raciocínio, aprender a discernir, a escolher e a classificar, a bastar-se a si próprio, não em obediência a um instinto cego, mas como resultado do conhecimento que adquiriu e desenvolveu em si, através de inúmeras experiências.

A Providência é justa e previdente. O animal que ainda não alcançou as alturas da Humanidade, e cuja razão está embrionária, foi dotado do instinto, que nele é a lei reguladora de suas necessidades e de sua vida toda. Com o instinto, tem o animal um guia certo e seguro, que lhe dá o conhecimento preciso do que necessita para sua alimentação e também para a cura de suas enfermidades. A higiene observada pelas espécies inferiores é sempre a que lhes corresponde ao modo de ser. Vêem-se assim animais que no lodo têm o ambiente de vida que lhes é próprio; outros que se desenvolvem na lama das mais corrompidas substâncias; outros, ao contrário, que vivem em meio da esplêndida natureza, gozando de todos os benefícios do ar, do sol, da água e da atmosfera pura. A cada espécie animal, para seu progresso e desenvolvimento, traçou a Sabedoria infinita o círculo onde deve cumprir a sua missão terrestre, que missão é, finalmente tudo quanto o ser tem que realizar na Terra e fora dela.

Pois bem: enquanto os seres não podem discernir por si sós, o que lhes convém, a sábia lei natural os provê de um instinto seguro, que lhes dá meios de sustento e de defesa, a fim de conservarem e desenvolverem a vida.

Mas, o homem, pelo simples fato de o ser, perdeu já o instinto de que era dotado em suas existências ancestrais de bruto e tem por si de adquirir o conhecimento do que lhe convém, para sua manutenção e conservação da sua saúde. E disso tanto mais conhecimento tem quanto maior desenvolvimento alcançou a sua inteligência. Nas primeiras encarnações humanas, o ser ainda conserva um reflexo do instinto, que lhe serviu de guia antes de atingir a Humanidade e que vai insensivelmente desaparecendo, à proporção que a inteligência se desenvolve. Por isso, os selvagens e as raças de mediana civilização passam perfeitamente sem os vossos conhecimentos atuais, respeito à matéria que nos preocupa, e mais seguros do que vós procedem à escolha do que lhes pode convir para se alimentarem, preservarem de enfermidades e, adquiridas estas, se curarem sem ciência médica, nem arte terapêutica que os ilustrem.

Já nos animais domésticos, observa-se que não há aquele instinto certo e seguro dos habitantes das selvas. É que, tendo de viver em sociedade com o homem, a Providência impõe a este a obrigação de cuidar de tudo quanto lhes afete a existência. O homem, no exercício desta obrigação, aprende muito e nele se desenvolvem sentimentos de piedade para com as bestas, das quais muito necessita a criatura humana.

Voltemos a ocupar-nos com o ser humano, objeto principal de nosso estudo. O homem necessita saber o que lhe convém para nutrir seu corpo e preservá-lo das enfermidades que inconvenientes regimens alimentares poderiam produzir-lhe.

A alimentação e a higiene são os dois principais agentes de sua conservação e desenvolvimento, do ponto de vista corporal.

Vede, porém, quanta divergência há entre vós, nesse particular! Quantos sistemas se hão ideado e divulgado, tidos por privilegiados e infalíveis! Em tudo isso há muita exageração.

Contemplai a Natureza e não deixareis de admirar a exuberância que nela existe de tudo o que o homem pode apetecer para sua nutrição. Julgais que tudo isso foi criado para que, sendo bom como é, o homem não o aproveitasse? Bem compreendereis que não.

As opiniões se têm dividido, no que diz respeito à alimentação, em todos os tempos, que não apenas em vossos dias, entre carnívoros, vegetarianos, frugívoros, etc.

Não é um mal isso; são sistemas que se podem adotar, se bem evitando sempre os extremos. Porém, o que não está bem é que cada um considere o sistema de sua preferência como o único conveniente. Todos convém e, crede-me, a nenhum se pode proscrever. Uns satisfazem em certa época da evolução, os outros satisfazem em épocas diferentes.

Observai a constituição dos animais carnívoros e vereis que a Natureza os formou daquela maneira, para que se alimentassem dos despojos de outros animais. Alguns há cuja constituição demonstra claramente que aquelas fauces e aqueles dentes não foram feitos para mastigar carne de espécie alguma, e vereis que esses animais se nutrem, de acordo com aquela constituição, dos frutos da terra, ao passo que outros, como certos peixes, vivem da água do oceano ou dos rios.

O mesmo se dá com o homem, porquanto a existência humana passa por uma infinidade de fases ou etapas em seu total desenvolvimento.

Daí vem que, embora já não haja uma constituição completamente formada para a alimentação animal, mas apenas parte dessa constituição, e permaneça a tendência adquirida quando viveu de despojos animais, o homem necessita de uma alimentação semelhante. Na Terra existiram raças, que ainda não se extinguiram de todo, para as quais a alimentação foi e é quase exclusivamente carnívora, e muitos indivíduos de raças primitivas ainda há, como os canibais, os antropófagos, que acham muito saborosa a carne humana, ao ponto de constituir um manjar esquisito em seus festins. E sacrificam o primeiro branco que lhes cai nas mãos, sem remorso algum, crentes mesmo de que praticam um ato meritório aos olhos da divindade que adoram. Como poderíeis impor a esses seres atrasados o vosso gênero moderno de vida, com todos os seus requintes?

E quereríeis que, adiantando-se, mesclando-se com as raças civilizadas, eles abandonassem como por encanto seus apetites ancestrais, preferindo os vossos sistemas modernos, alguns dos quais impõem, não só a abstinência de toda espécie de carne, mas ainda de qualquer substância de procedência animal, embora não provenha de animal sacrificado, como o leite, os ovos e outros produtos semelhantes? Há mesmo quem até condene todo alimento cozido. Mas, se não se pode condenar que quem assim pensa aplique seu sistema a prover à própria conservação, claro que não se pode aplaudir pretenda que seja esse sistema o melhor para todos e condenável o uso de qualquer outro produto alimentício que nele não entre.

A sem razão dessas pretensões proibitivas, dos vegetarianos, frugívoros e naturistas enragés, se patenteia, de modo inconfundível e eloqüente, contemplando-se a prodigalidade com que a Natureza oferece ao homem, convidando-o a consumi-las, frutos e mais frutos comíveis e nutritivos, que se não podem contar, nem classificar, distribuídos por todas as latitudes do planeta. A Natureza não produz coisa alguma inútil; portanto, tudo o que ela produza e sirva para a alimentação do homem a este é lícito consumir.

O próprio Jesus, cujos exemplos devem ser sempre lembrados, nunca insistiu nas questões de alimentação; nenhuma prescreveu Ele especial, que implicasse a condenação de qualquer outra. Dizia que não suja o homem o que, pela boca, lhe penetra no corpo, senão o que, impuro, dela saí. Notai que não condenou o costume de comer-se o cordeiro pascal; que também não condenou os que ganhavam o sustento de sua família pescando e que não teve por criminoso, nem censurável, que comessem os peixes. Ele próprio, indicando onde podiam lançar as redes os que eram seus discípulos, produziu as pescas prodigiosas. João Batista, o austero e rígido Precursor, se alimentava não só de mel silvestre, como também de gafanhotos, e os gafanhotos são animais.

Haveis de ter verificado que nem todos os que adicionam à sua alimentação produtos ou despojos de animais são viciosos ou amorais. Há, entre vós, e tem havido em todos os tempos e em toda parte, pessoas de extrema bondade, impecáveis em sua conduta pública e privada, que se alimentaram e se alimentam com produtos animais, reunidos a outros do reino vegetal, achando que essa alimentação mista constitui o regímen mais recomendável.

Por essa experiência, que está ao alcance de todo ser humano, reconhecereis que a honradez e a virtude não são privativas exclusivamente dos que não se alimentam com despojos e produtos de animais, não vos sendo difícil, por outro lado, descobrir entre os meticulosos, entre os mais intransigentes vegetarianos e frugívoros, os que não se recomendam muito por suas virtudes.

Porém, todas estas reflexões quererão dizer que uns sistemas e regimens não sejam superiores e preferíveis a outros? Não, não quer dizer isso; quer dizer somente que se deve fugir de todos os exclusivismos, de todos os extremismos, que coisa alguma, do que chegou a generalizar-se, pode ser condenado de modo absoluto, porque o que não serve para uns, para outros é indispensável.

Há hábitos que criam uma segunda natureza e impossível é, aos indivíduos que em tal caso se encontram, despojarem-se, num abrir e fechar de olhos, dessa dupla natureza e, menos ainda, se não forem considerados com o respeito e a cortesia devidos a todo ente racional. Então, longe de se convencerem de que estão em erro, mais se aferrarão aos hábitos viciosos. Errados, pois, andam os reformadores que não levam em conta estas coisas e, por demais exigentes e severos, longe de fazerem prosélitos, afugentam os que os escutam. O respeito é devido a todos, mormente àquelas pessoas que se têm por equivocadas, visto que, dispensando-se-lhes o respeito que merecem, possível se torna induzi-las a mudar de rumo.

Todos os sistemas são bons e convenientes para determinada fração do gênero humano; por conseguinte, de maneira absoluta, como disse, não se pode condenar nenhum regímen de alimentação.

Propague cada qual aquele que lhe seja mais simpático, adote-o e ofereça os resultados benéficos, que para o seu organismo obtenha, à consideração dos demais, deixando que o adotem os que se convençam da bondade proclamada e demonstrada.

O estacionamento não é lei de vida para ninguém, nem para coisa alguma. Conseguintemente, o homem, como em tudo mais, progride também e se aperfeiçoa nos seus processos de alimentação.

Não há dúvida alguma de que ele, na sua evolução, tende para a supressão de toda alimentação grosseira. Assim, há de chegar um dia - e para muitos já chegou, em que lhe repugnará alimentar-se de despojos de animais. Avançando mais, nem sequer substâncias de procedência animal admitirá o seu organismo, que optará, então, pela alimentação exclusivamente vegetal e, até como alguns já fazem, prescindindo de alimentos cozidos, para nutrir-se de frutos crus, quais os produz a Natureza.

A isso chegarão todos, uns mais cedo, outros mais tarde, e ainda virá época em que, mais sublimada a natureza humana, mais rarefeita e pura a matéria de que se formarão os corpos, nem dos produtos da terra se alimentará o homem, porém dos fluidos ambientes, que lhe bastarão para nutrir seu organismo, mais puro do que o atual. Isso, entretanto, está tão longe, que não há pensar ainda em semelhante condição, a não ser como em perspectiva longínqua, num porvir fagueiro.

Atualmente, o homem tem que se ater à realidade palpável e procurar ser justo nos seus juízos.

Alimente-se cada qual dos produtos animais ou vegetais que a sua natureza exija, convindo, no entanto, que empregue algum esforço para ir depurando a sua alimentação, tornando-a cada vez menos grosseira e mais de acordo com a própria natureza, que abomina os sacrifícios de seres inermes e tende a uma maior depuração de costumes.

O que se deve procurar sempre é uma alimentação sã, em bom estado de conservação, e evitar, em todo tempo e lugar, em toda idade e estado, o abuso, porque o abuso é o pior mal que o homem pode fazer a si mesmo.

Quanto à higiene, bastantes tratados dessa matéria, excelentes alguns, decerto, andam por aí. Despojados das exagerações que contêm, podem servir perfeitamente para preservar a vossa saúde e conservá-la.

Porém, antes de toda e qualquer alimentação material, deveis procurar a alimentação da alma, que constitui o pão de vida eterna legado ao mundo pelos Redentores, e, acima de toda higiene aconselhada pelos vossos profissionais, a higiene da alma, que é uma vida isenta de vícios e ao abrigo de todas as paixões inferiores.

Angel Aguarod