1 - DESIGUALDADES SOCIAIS

O que o homem, na sua inconsciência - refiro-me àquele que tem, não obstante essa inconsciência, idéias generosas - mais repudia e anatematiza costuma ser o elemento mais poderoso para alcançar ele a efetivação de suas nobres aspirações.

Muitos são os corações altruístas que, não sabendo compreender o papel que desempenha o egoísmo na evolução dos seres e das massas, abominam os egoístas e marcam este sentimento com o estigma do desprezo. Não se compreende, em geral, que as mais excelsas virtudes têm sua origem nos vícios, se assim os quiserem chamar, que lhes são o oposto.

Coisa semelhante acontece com a matéria de que estamos tratando. As diferenças sociais, pelos Espíritos que propendem para a unidade e que não sabem compreender o papel que elas desempenham na evolução individual e coletiva, são condenadas e tidas como passíveis de extinguir-se por meio de organizações sociais bem urdidas, objetivando a transformação de todas as classes numa só.

Essas aspirações têm sua razão de ser, porque, efetivamente, para aí se orienta a evolução humana, tanto individual como coletiva; porém, têm sido precisas as diferenciações que atualmente existem entre uns e outros indivíduos, constituindo diversas classes ou castas. Sim castas, por que não dizê-lo? Também a lei das castas teve a sua razão de ser. A divisão em castas, entre outros povos, equivale às diversas classes existentes naqueles em que exercitais as vossas atividades. Nada veio, nem virá, por mero acaso; a própria escravidão, tão vilipendiada, desempenhou e desempenha ainda, nalgumas latitudes do planeta, uma função especial, para fazer progredir mais rapidamente as almas.

É abominável a escravidão? São abomináveis as castas? Perfeitamente. Porém, ísso não quer significar que não tenham sua utilidade no plano da evolução.

Não conviestes já em que é necessária a expiação, com seu cortejo de dores e torturas? Pois, que representa, para muitos, a passagem pela condição de escravo ou de inferioridade, senão um estado expiatório, do qual terão que sair purificadas suas almas?

Não é transitória a ignorância? Pode, entretanto, alguém eximir-se dela? Verdade é que não sois ignorantes, como muitos de vossos irmãos de cativeiro; porém ignorantes sois em relação a outros Espíritos mais evolvidos.

Sempre sabeis mais do que outros e menos do que muitíssimos Espíritos que se vos adiantaram no caminho para os pináculos da evolução.

Tudo isto não engendra dores? Não dá lugar à formação das castas, segundo o homem encara as diferenças naturais entre uns e outros? A ignorância, o atraso, o abuso, em todos os terrenos, não hão de produzir, como conseqüência, uma escravidão merecida e salvadora?

Dada a atualidade terrestre, tanto sob o ponto de vista da evolução do planeta, como do labor realizado e a realizar-se ainda na sua superfície, pelo homem, aquele só está apto a receber, encarnados, seres que não "transcenderam certos graus da escala da evolução. Os povoadores da Terra, como em mais de uma ocasião tenho dito, são colegiais, analfabetos, aspirantes à aprendizagem da leitura das leis naturais, Espíritos incipientes, que permanecem envoltos nas faixas da meninice; outros, são criminosos empedernidos, que mereceram este presídio; os mais, enfermos da alma, que precisam ocupar este sanatório. Até muitos há entre vós que são loucos, para os quais também se presta perfeitamente o planeta, porque tem sua parte de manicômio. Todas estas condições, salvo as diferenças naturais, derivadas dos graus diversos que os seres alcançaram na escala da evolução, conduzem às diferenciações que observais e desnorteiam a muitos Espíritos de aspirações elevadas e de sentimentos nobres, porém desconhecedores do plano divino da evolução.

Assim, as diferenças sociais não obedecem a nenhum arbítrio, mas a taxativas expressões da evolução dos seres, à lei de causa e efeito, que não pode ser anulada e, queira ou não o homem, atua sempre sem esperar pela sua permissão.

Tudo produz o efeito correspondente, sem que ninguém possa impedir que isso se dê. Tal fato, que é efeito, também é causa e produz, do mesmo modo, o efeito que corresponde à natureza da causa que o engendrou. A tudo isto, em virtude da lei incorruptível de estrita justiça e de satisfação das necessidades humanas, obedece quanto temos anotado e tudo quanto deixamos de mencionar. Nada há que não esteja sujeito à Lei e nada do que acontece poderia deixar de acontecer.

As diferenças sociais, como tudo, constituem agentes de progresso e preenchem uma necessidade inapreciável, na economia da evolução, favorecendo-a, por mais que haja indivíduos que detestem essas diferenças.

Porém, como haveis de compreender, porque essas diferenças obedecem à Lei e, portanto, atendem a uma necessidade do progresso individual e social, não se segue que sempre deverão existir. Contudo, não se abolirão tão de pronto quanto os unionistas desejariam e imaginam. Enquanto tenham razão de ser, subsistirão e, enquanto subsistirem, satisfarão a uma necessidade da própria Natureza, favorecendo o progresso humano, embora haja quem opine de modo contrário e lamente que existam tais diferenças entre os homens. Se as diferenças existem como suprimi-las? Não se suprimem com revoluções, nem com guerras; não se suprimem com leis, nem com decretos; não se suprimem, ainda menos, com discursos distúrbios e maldições. Suprimir-se-ão com o progresso do planeta e com o progresso moral da espécie humana. Enquanto isso não venha, as diferenças sociais subsistirão e, subsistindo, facilitarão o progresso das almas.

O progredir do ser, como bem sabeis, não é unilateral; tem que se realizar sob infinidade de formas e aspectos, e as diferenças sociais, além de seu aspecto expiatório e reparador, exercitam essa função importantíssima, dando ensejo a que se efetue o progresso dos indivíduos.

Por outro lado, para os Espíritos evolutidos, isso de diferenças sociais, de castas e de classes diversas que as sociedades se dividem, nada significa; são acidentes insignificantes, que eles respeitam, porque respeitam a Lei e lhe compreendem a utilidade. Esses Espíritos o que fazem é facilitar o melhor cumprimento da Lei; pois qualquer que seja a classe em que lhes cumpra atuar, encontram-se satisfeitos e procuram tirar de sua atuação o maior resultado possível para a evolução própria e para o bem alheio. Não ignoram que a sabedoria e a bondade não são patrimônio de determinada classe e que tampouco a felicidade depende da posição social que se ocupe. Há desgraça e infelicidade nos palácios, como consciências tranqüilas e, de certo modo, felizes, nas cabanas, em meio da maior penúria. Há quem, no triste leito de um hospital, bendiga resignado de Deus, enquanto geme pela dor que aflige o seu depauperado organismo, e quem, em meio da folgança e do prazer mundanos, maldiga da Divindade e tenha a consciência a acusá-lo, fazendo-o passar uma vida de dor e amargura, ao mesmo tempo que finge satisfação e prazer.

Não, bem o sabeis, a tranqüilidade e a placidez da consciência não são uma questão de classes, mas condição intransferível, de que gozam os Espíritos que as conquistaram.

Quem sinta animadversão pelas diferenças sociais tem o remédio em si, para conseguir a unificação; porém, não exija que esse remédio seja aceito por todos, porque fora impossível; aplique-o a si próprio e terá conseguido em si a abolição das classes sociais. Faça como o Redentor do mundo: veja em todos os seus semelhantes irmãos e só irmãos e, seja qual for o lugar que eles ocupem na sociedade, trate a todos com o mesmo afeto, com a mesma distinção, procedendo com eles como quisera que eles procedessem para consigo e terá realizado em si a unidade social, porque, ao impulso de seu amor cristão puro, terá feito "tabula rasa" de todas as diferenciações que mantêm divididos os homens.

Angel Aguarod