1 - HUMILDADE E PACIÊNCIA

Regra geral, quanto mais humilde ou inferior é a condição do ser chamado racional, menos humilde se manifesta ele em sentimento. Por que será? Não terá isso uma razão lógica, uma explicação racional? Sem dúvida, porque nada há sem uma razão de ser.

É a ignorância, nada mais que a ignorância, que faz o indivíduo querer ser o que não é. "Querer ser" talvez não seja a expressão exata. Mais própria é esta: querer parecer superior ao que é.

É ignorância a pretensão de ser muito ou, quando não possa alcançar esse muito, ao menos parecê-lo, de qualquer maneira, ainda que pelo emprego da força, se dela dispõe. Daí o ocuparem as mais altas posições na sociedade humana tantos indivíduos de cérebros vazios. Conseguiram a força e pela força se impuseram. Porém, tudo isso é pura ilusão; a realidade acusa o contrário; o desconhecimento da própria elevação real já revela no indivíduo a pequenez de sua alma, o baixo nível que atingiu na escala da evolução.

Mas, assim tem que ser. Os voluntariosos poderão não reunir os elementos necessários à realização do que desejam. Essa mesma voluntariedade, no entanto, revela uma alma ativa e, como pela atividade é que se consegue o progresso, o desenvolvimento das potencialidades anímicas, claro está que o voluntarioso, se num período da sua atuação pouco pode fazer, devido à sua imperícia, será, todavia, conduzido à vitória pela sua ação enérgica, mesmo que desenvolvida, a princípio, no vácuo.

O ignorante, que devera ser humilde, porque não há mais baixa condição do que a sua, aspira a ser notável e se esforça por parecer grande.

Com este desejo, dá origem ao orgulho, sentimento separatista, por excelência, que lhe aliena vontades e simpatias e o converte em fátuo, vaidoso e imodesto.

Que é, porém, o orgulho nascido dessa pretensão: o ser mais do que os outros, e que faz o indivíduo ambicionar as maiores alturas sociais, a fim de vê-los pequenos, para se ver a si mesmo grande entre os grandes?

O orgulho é o sentimento da própria grandeza real, existente no íntimo de cada ser, mas transbordado ou desviado do seu verdadeiro curso.

No indivíduo, ele revela a grandeza que lhe está reservada. O ser se sente destinado a tornar-se grande e quer que os outros desde logo assim o apreciem. Se não o pode conseguir, converte-se em déspota, em tirano, porque alguma coisa lhe diz ser ele mais do que parece aos seus próprios olhos. Ganha-o então a ânsia de fazer efetiva essa grandeza, antes de tempo. É a impaciência do ser que, percebendo que algo deve fazer no sentido do seu engrandecimento, entende, na sua ignorância, que sem perda de tempo poderá consegui-lo.

É o sentimento da própria grandeza que se revela nesse defeito ou vício capital, conforme o qualificam os moralistas.

Mais para diante, à medida que se instrui, vai o Espírito compreendendo que não só não é o que quer parecer, como também que não lhe é possível culminar as alturas do verdadeiro saber sem se considerar tal qual é. Aí começa a desenvolver-se o sentimento da humildade, denominado virtude excelsa. E razão não falta para este qualificativo, porque virtude excelsa é de fato a humildade, uma vez que é a que mais eleva o ser racional.

Nasce a humildade naquele ponto em que o Espírito começa a compreender que não somente não é superior aos outros, como também que lhe é prejudicial querer parecer o que não é. Ele não pode enganar-se a si mesmo, nem mais quer enganar-se, e, à medida que se afirma esse sentimento, vão resplandecendo as outras virtudes: a simplicidade, a sinceridade, a modéstia, a mansidão, etc.

Não pode o ente racional livrar-se de passar pelo período do orgulho, no desenvolvimento da sua personalidade moral, como para chegar ao altruísmo tem que tomar por ponto de partida o egoísmo. O orgulho é, pois, para a humildade, o que o egoísmo é para o altruísmo. A humildade eleva, o orgulho abate; porém, o orgulho é a revelação da altitude que cumpre à criatura alcançar e que só alcançará pela humildade.

Convém, portanto, na educação dos seres, combatê-lo, não obstante revelar ele o destino que lhes está reservado: o de se tornarem grandes, ocupando as maiores eminências, porque, não combatido, causa desvio ao Espírito, conduzindo-o a um negro e doloroso porvir. Importa abater o orgulho e indicar a quem o tenha em si a necessidade de moderá-lo, fazendo-lhe compreender que, intrinsecamente, todos somos iguais e que a grandeza que o há de destacar dos outros, colocando-o acima deles, só pode ser alcançada pelo esforço próprio; que a grandeza, que o sentimento do orgulho revela, como devendo ser atingida, não será a da superioridade material sobre o próximo, mas a da superioridade moral, demonstrada pelo ascendente da bondade e pela força das demais virtudes que dessa derivam.

É de terríveis e dolorosas conseqüências para o ser o desvio do sentimento de grandeza, que se traduz pelo orgulho. Por isso, o divino Mestre, com quem hão feito coro todos os moralistas, combateu duramente o orgulho, como os outros sentimentos inferiores que dele decorrem: a vaidade, a presunção, a petulância, etc.

Bem disse Ele que o que se eleva será humilhado e que será elevado o que se humilhar. Para demonstrar essa verdade, formulou várias parábolas de que não precisamos falar, tão conhecidas são.

O orgulho carrega muito lastro material e olha sempre para baixo; por isso, aquele em quem ele domina não se pode elevar. Para elevar-se, o orgulhoso terá que abandonar todo esse lastro, o que só consegue cultivando a humildade.

O humilde, mais conhecedor do que o orgulhoso o seu próprio valor e não considerando inferior a si nenhum outro ser, não suporta o peso daquele lastro material e assim se eleva pela força da sua própria virtude. Na Terra, o humilde geralmente não ocupa as culminâncias sociais; muitas vezes, o que é verdadeiramente humilde rasteja nos baixos níveis da sociedade e desempenha os misteres inferiores. Esse, como o Lázaro da parábola, Lázaro o mendigo, nada tem que o retenha na Terra e, ao desencarnar, vai diretamente para os altos cumes espirituais.

Eis aí por que, com toda a segurança, Jesus afirmou que o que se exalta será humilhado e que o que se humilha será exaltado.

Há ainda outro gênero de humilhação para aquele que, sem méritos, se eleva a si próprio, soltando rédeas ao seu orgulho: é o descer gradualmente de classe, em encarnações sucessivas, passando por todas as mais ínfimas posições.

Cultivai, pois, a humildade, Espíritos que peregrinais na Terra, se quereis ascender rapidamente na escala do verdadeiro progresso, do progresso que não admite retrogradações, porque, por ele, todo lugar que o ser conquista deve-o ao seu esforço e mérito. Cultivai a humildade, se quereis tornar-vos depressa grandes, porquanto, sem se fazer realmente humilde, ninguém ganha as culminâncias da Perfeição.

A paciência é companheira inseparável da humildade. Sem humildade real, não pode haver verdadeira paciência e, sem verdadeira paciência, é impossível a humildade real.

O vício oposto à paciência é a ira. O iracundo não pode ser humilde. E a ira, do mesmo modo que a soberba, é também vício oposto à humildade .

A paciência é filha de um sentimento nobilíssimo, que não pode ser patrimônio da ignorância, posto que a ignorância é terrível inimiga da primeira, que tem seu fundamento na consciência. Quem não conhece não tem motivos para ser paciente.

Da ignorância, do desconhecimento das leis que regulam os acontecimentos parte a impaciência, que conduz à ira. Do conhecimento de tais leis e do da impossibilidade de opor-lhes obstáculo ao funcionamento se origina a paciência. De modo, pois, que os ignorantes não podem ser, em realidade, pacientes. No máximo, serão impotentes e por impotência, que não por outra coisa, se submetem aos acontecimentos que lhes desagradam.

Por isso, não se podem pedir frutos de paciência real senão às almas evolvidas. Quanto mais elevado em moral é o indivíduo, mais paciente se mostra. É que o conhecimento das leis morais lhe impôs a convicção de que deve ser paciente, porque a impaciência é um protesto ao cumprimento do que ordenou o Supremo Criador e isso implica sensível atraso.

Mas, as condições sociais humildes e obscuras, em que a carência do poder é um fato, são muito próprias para educar o ser na paciência; porque preciso se faz que, embora em plena ignorância e não obstante ser a paciência real filha do conhecimento, o indivíduo se exercite na paciência. Ele se submete primeiro à força, obrigado, pela sua falta de poder, e, assim, pratica a paciência. Isso nele não representa uma virtude, porque a sua paciência é forçada, irreal, portanto, e o que à força se faz e contra a própria vontade não constitui mérito, não exprime aquisição efetiva do ser; porém, gera o costume, o hábito e, depois, quando vem o conhecimento, menor é o esforço para se lhe ajustar o proceder.

Daí, o não haver necessidade de esperar pelo conhecimento para a prática do bem; daí, a conveniência a sugestão do melhor aos Espíritos jovens e aos que se encontram na infância física. Isso é sempre bom e, por conseguinte, não se deve esperar que os seres conheçam, para aconselhá-los a seguir o caminho mais conveniente e a realizar certos atos, ainda que automaticamente.

Boas, muito boas são as baixas esferas sociais e as condições subalternas de vida para cultivar a humildade e a paciência. Por isso, a lei de evolução e a justiça que imanente existe nessa lei obrigam o orgulhoso e o iracundo a ocuparem posições humildes e desprezíveis, a se verem na condição forçada de servidores. Dessa servidão, que eles não podem evitar, nascem as práticas humildes, os exercícios de paciência.

Deixemos que os Espíritos, que necessitam ainda de acicate e de freio para conduzir-se corretamente, que não se conformariam com a posição inferior em que vivem, se não fora o violento jugo a que se acham submetidos, continuem cultivando à força essas formas de expressão, que um dia chegarão a ser virtude neles, e ocupemo-nos dos que, já no caminho da perfeição, se esforçam por melhorar-se moralmente, de dia para dia, dos que tomaram com empenho a tarefa de aperfeiçoar e aumentar suas virtudes, mas cujos esforços nem sempre são coroados pela vitória, porque o passado ainda exerce neles grande atração e os submete periodicamente à sua tirania. Esses devem redobrar de esforços para que a paciência, a companhia da humildade, presida a todos os seus atos. Mantenham-se norteados por essas duas virtudes excelsas, que elas um dia os elevarão às maiores alturas espirituais e os tornarão capazes das mais importantes missões.

O Espírito evolvido não se entrega a tarefas destruidoras. As tarefas dos Espíritos elevados são todas construtoras e o orgulho, a ira, a soberba e a impaciência são essencialmente destruidoras.

Ao contrário, a humildade e a paciência são construtoras e constroem segundo a Lei; contribuem para o cumprimento das leis naturais, tanto físicas como morais, não lhes opondo à ação o menor obstáculo.

O destino do Espírito, que deve ser sempre uma potência ativa, é contribuir para a realização do plano divino, constituindo-se agente executor das leis que presidem a esse plano e o desenvolvem. Mas, para ser executor ou auxiliar das leis divinas ou naturais, preciso se torna que haja apagado, em si, os últimos vestígios da impaciência, como os últimos vestígios do orgulho.

O orgulho é uma força negativa e sempre destruidora da harmonia social e também da harmonia individual. O mesmo se dá com a impaciência; pelo que, nem aos orgulhosos, nem aos impacientes os Espíritos diretores da evolução confiam missão alguma importante. E o espírito humano está destinado a cumprir as mais importantes e excelsas missões. Assim, quem vise alto e pense ascender às alturas celestes, que vislumbra, deve procurar cultivar, com o maior esmero, a humildade e a paciência. Sem humildade não há elevação, porque, quando não há humildade, o orgulho impera e o orgulho é oriundo da Terra, ela o atrai, por proceder dela, e, como onde está a mente está o coração, não é possível que o orgulhoso possa elevar-se. O lastro, chamado orgulho, como já foi dito, pesa demasiado e o retém onde está o seu tesouro, na obscuridade planetária. Somente quando nele já imperam a humildade e a paciência, quando já não há perigo algum de insubmissão sua à divina vontade, expressa nas leis naturais, nem o de querer precipitar os acontecimentos pela impaciência, missões importantes ao ser se confiam.

Vede no plano terrestre o que ocorre. Exemplos mil tendes nas experiências ou labores de caráter científico em que, conhecidas as Leis que regem a composição e a desagregação dos corpos, se não se fizerem as operações; de acordo com o que prescrevem essas leis malogra-se o propósito.

Da mesma forma que o químico e o físico, ao operarem, de conformidade com as prescrições das respectivas leis, não fazem senão dirigir-lhes a ação, submetendo-se, porém, sem impaciência alguma, à natureza de delas, os Espíritos de certa elevação, que tomam parte na direção e no desenrolar dos acontecimentos que dizem respeito à obra do progresso humano e do planeta, conformam sua ação ao que exigem as leis que tudo regulam, constituindo-se seus auxiliares ou executores. Se se deixassem dominar pela impaciência, querendo que alguma coisa se realizasse antes do tempo, ou de forma diversa da estatuída por Deus para a execução de seu plano, nada conseguiriam e perturbariam tudo.

Assim, o cultivo da paciência não é aqui recomendado à maneira de conselho dado por uma velha ignorante e bem-intencionada a seus netinhos, para que se tornem bons; mas, como uma necessidade do desenvolvimento espiritual do ser, para que ele possa colocar-se em condições de um bom colaborador na realização do divino plano.

A paciência, virtude construtora, engendra a afabilidade e a doçura, belas manifestações da benevolência e da caridade, que tantas simpatias proporcionam ao indivíduo que as sabe manejar.

A paciência consegue fazer do indivíduo um ser apreciável, despertando nele a sensatez e a lhaneza a todos os momentos: porque, quem é paciente, tendo consciência do motivo por que o é, jamais se precipita, evitando os desacertos e desgostos, filhos da precipitação a que a impaciência conduz.

Não tema o ser que queira progredir que, por paciente, abusem dele os outros. Esse temor só pode existir em quem não compreende ainda o que são a paciência e a humildade; que atribuem a essas duas virtudes excelsas caráter humilhante, imaginando que elas obrigam aquele que as possui às maiores humilhações, fazendo-o joguete dos imprudentes e autoritários.

É um equívoco. O que é humilde e paciente, sabendo por que cultivou e procura aumentar o valor dessas virtudes, jamais se converte em joguete de quem quer que seja. O verdadeiramente humilde e paciente só se submete ao que está dentro da Lei Divina; repele, embora sem violências, nem excessos, quanto se opõe à Lei de Deus. É como aqueles que, para seguirem o Mestre, símbolo da Lei Divina, tudo abandonam e de tudo prescindem, porque o que é de Deus lhes basta. Pois bem, os verdadeiramente humildes e verdadeiramente pacientes, sem saírem jamais da humildade e da paciência, se convertem nos senhores de tudo o que os rodeia.

E não pode ser de outra forma, porque quem é humilde tem empenho em servir sempre e quem é paciente jamais se insubordina contra coisa alguma, nem contra ninguém, e, como assim pode prestar e presta realmente assinalados serviços ao próximo, este o considera necessário e, diante dessa necessidade, o procura e, quando o tem, conserva-o e transige para poder gozar de seus serviços. Dizendo que se torna necessário, dito está que já neste mundo o humilde e paciente, pela sua própria virtude, governa, de fato, e influi no modo de ser dos outros, contribuindo para o progresso destes, pelo bom exemplo que dá, e para a edificação de melhor porvir, porque está chamado a ser muito em breve colaborador na obra do Eterno, concorrendo para sua realização, em companhia dos Espíritos mais excelsos que constituem o Conselho Supremo da Divindade.

Angel Aguarod