1 - O ALVORECER

Estando Deus imanente em todas as coisas, em todas forçosamente se há de revelar a sua sabedoria suma e a justiça de que é Ele o representante supremo.

Ora, se nas coisas nada há que aberre da justiça, pois que tudo se acha submetido, de modo perfeito, a sábias condições de tempo, proporção e medida, não havendo, na Natureza, para os indivíduos de uma mesma espécie, preferência alguma que não se ache perfeitamente acorde com as leis que regem o seu desenvolvimento e o preenchimento dos fins de sua existência, é óbvio que a justiça não deixará de manifestar-se em qualquer indivíduo animado que se considere.

Na própria animalidade inferior, a justiça manifesta-se e cumpre. Obedecendo à lei de justiça é que agem os indivíduos das espécies inferiores; obram impelidos por embrionários sentimentos de justiça.

O homem, na sua miopia, não vê a justiça divina a manifestar-se por maneiras distanciadas da compreensão que ele tem da justiça? Perfeitamente. Mas, esse desconhecimento e essa incompreensão, da parte do homem, não obstam a que seja como digo.

Desde que em tudo e em todos os indivíduos animados de vida independente a justiça divina se manifesta, dar-se-á que, por procurarem eles, impelidos por essa justiça, obrar também por impulso da vontade desenvolvida, obrar de conformidade com o instinto ou a rudimentar inteligência que possuem, deixe a criatura humana de agir sob o mesmo influxo da justiça, ainda a que mais próximo se encontre da animalidade inferior?

Precisamente, na criatura humana é que se verifica o desabrochar do sentimento da justiça, que a levará um dia às maiores alturas espirituais. Refiro-me à criatura humana no começo da sua evolução, isto é, quando ainda nesse estado especial que muito a aproxima do bruto.

O desenvolvimento do sentimento da justiça, no ser humano, corre parelha com o do altruísmo, que se encontra, em estado potencial, radicado no íntimo de cada ser; desde que este revestiu a forma humana.

O egoísmo, no qual tem o altruísmo a sua raiz, ma é não é do que o sentimento da justiça a desabrochar nos seres, pode qualquer destes manifestar aquilo que em não saiu do estado potencial?

Por isso é que o indivíduo que, pertencente à espécie humana, ainda não pôde conhecer o mundo exterior e, por conseguinte, estabelecer a relação de semelhante que entre ele existe e os demais indivíduos também humanos, tudo relaciona às suas próprias conveniências.

Não há, portanto, para ele, justiça no que quer que lese aquilo que considera seu. O homem de inteligência incipiente, nos primórdios da sua evolução como ser inteligente, tudo refere à sua pessoa, só achando justo o que o favoreça, de acordo com as suas tendências e gostos. Porém, nas suas preferências egoísticas da pior espécie, esboça-se o sentimento da justiça.

Desconhecendo o mundo exterior, tendo os sentidos espirituais, não direi embotados, mas nem, sequer, ainda em começo de desenvolvimento, não pode ele sentir de harmonia com o seu semelhante, não pode fazer suas as penas e alegrias deste, nem pode ter em conta seus direitos. Só ele, ele somente, deve pesar para qualquer decisão. Justo só é, da parte dos outros, o que o beneficie, tendo por injusto e merecedor de corretivo tudo o que o desagrade ou lhe pareça prejudicá-lo.

Esse o desabrochar do sentimento da justiça na criatura humana. Muitos dos chamados super-homens, ou tidos como tais, considerarão monstruoso o sentimento que esses irmãos menores manifestam em seus atos e os apontam como passíveis, não só de perseguição e escravização, senão até de aniquilamento, de extermínio.

Não cometeram, os supostos entes superiores da espécie humana, a pretexto de civilizar, o crime de exterminar raças inteiras, até não restar delas um único exemplar? Onde foram parar os peles-vermelhas, perseguidos em nome da civilização?

De super-homens são qualificados os que idealizam e executam essas satânicas destruições. Infelizes! Em nada se diferenciam daqueles a quem negam o direito de permanecer na Terra, seguindo o curso natural da sua evolução.

Vaidade das vaidades! A Lei Divina, que não se infringe em vão, bem depressa demonstrar que entre uns e outros nenhuma diferença há: primeiro, fazendo que, no espaço, se vejam a si mesmos tais quais são; depois, fazendo-os, pela reencarnação, nascer nas mais ínfimas camadas sociais, onde não se distinguem da massa geral, quando não em raças semelhantes às que eles quiseram exterminar e no seio das quais triste papel representam.

Não, não é exterminando raças que se civiliza: é suavizando e humanizando os sentimentos. Com o destruir uma raça não se destroem os Espíritos que a animavam. Esses Espíritos renascem no mesmo ponto em que seus invólucros carnais foram aniquilados e, revoltados contra seus verdugos de ontem, contra as classes sociais que os perseguiram e destruíram, constituem para aqueles e estas um pesadelo, um flagelo.

Civiliza-se instruindo, protegendo, dando a cada um o de que necessita para seu desenvolvimento natural. Por se não usar desse processo, único legítimo, é que as civilizações não gozam de tranqüilidade, nem de paz e não dão felicidade aos indivíduos, nem aos povos. Não se infringe impunemente a lei de amor, e porque a transgridem as civilizações se prostituem e caem na prática dos maiores crimes, em nome da própria civilização.

É preciso que todo ente humano veja nos outros entes humanos, ainda os mais atrasados e cujas formas de manifestação sejam as mais grosseiras, filhos de Deus nos quais Ele atua e que se acham no alvorecer de sua evolução, com o sentimento da justiça, portanto, ainda embrionário.

Aos que se encontram a maiores alturas, dos pontos de vista intelectual e moral, monstruosa e avessa à justiça parecerá a maneira por que, às vezes, se manifestam esses indivíduos, em virtude de estar esse modo de manifestação em discordância absoluta com as normas consagradas pelo conceito de justiça geralmente admitido.

Nenhuma dúvida, porém, tenhais de que nessas manifestações está o desabrochar desse sentimento de justiça impecável, que nos Espíritos excelsos atingiu o seu pleno desenvolvimento.

Angel Aguarod