1 - PRELÚDIOS

O PROBLEMA DA CARIDADE

PRELÚDIOS

É geralmente conhecido das almas evolvidas o elevado conceito que da Caridade revelaram ao mundo os instrutores da humanidade.

Quando o Sol cruza o vosso meridiano, dizeis que é meio-dia, porque ele alcançou o máximo de elevação. Porém, a esse ponto não chegaria sem haver "nascido" e não nasce, para vós, sem antes vos indicar a sua aproximação do horizonte, pelos arrebóis da aurora.

A Caridade, estado da alma evolutida, que se pode comparar ao Sol quando cruza o meridiano, não se alcança sem haver passado pelos pontos eqüidistantes do horizonte e do zênite, nem a estes pontos tampouco pode legar sem haver primeiro transposto a linha do horizonte visual. E, mesmo antes de chegar a essa linha, em que anuncia a sua próxima aparição completa, o astro rei atravessou outro período da sua marcha, durante o qual, pelos seus esplendores, colorindo as nuvens formadas no espaço, desperta no ser humano a esperança de vê-lo pronto brilhar, mostrando todo o seu disco, espalhando os benefícios da sua luz e do seu calor pelas criaturas e pela natureza toda.

A caridade que, do mesmo modo, só chega ao zênite, na criatura, quando esta galgou os cumes da própria evolução, também faz sua aparição no horizonte, isto é, mostra a expressão mais débil do seu valor, e teve antes o seu período de aproximação, ao qual chamo prelúdios no plural, porque várias são as formas de expressão da caridade e múltiplos os seus aspectos. Essas formas e esses aspectos, porém, se encerram em duas grandes divisões: a caridade material e a caridade espiritual, se bem que a primeira não pode existir sem a outra, que é a que lhe determina a prática. Mas, como devemos ater-nos às manifestações desse nobilíssimo sentimento, no plano físico, sintetizemos, qualificando de caridade espiritual aquela que, para ser praticada, não reclama a existência de coisa alguma que represente valor material entre os homens, e caridade material a que se traduz pela dádiva representativa de algum desses valores.

Assim, poderíamos dizer que demonstram a posse desse sentimento, em estado de prelúdio, os seres atrasados, sob o ponto de vista intelectual e moral, em os quais apenas começa a esboçar-se algum sentimento nobre e elevado, de que eles mesmos não se apercebem.

Havereis observado pessoas que denotam um fundo de bondade, a se revelar em fugazes lampejos, que rápido desaparecem ao influxo de sentimentos contrários, oriundos de paixões que revestem os caracteres da mais acentuada animalidade. Essas pessoas, como podeis verificar, tanto realizam uma obra boa, como uma obra má, em conseqüência dessa dualidade de sentimentos, de naturezas opostas, que nelas existe. Os sentimentos oriundos dos instintos animais são os que lhes expressam o grau de evolução em que se encontram, indicando um nível moral incerto, como fruto da inconsciência que a tal respeito ainda as domina. As manifestações fugazes de um sentimento mais espiritual revelam alguma coisa prestes a nascer, cujos resplendores já colorem as nuvens da alma, formando arrebóis precursores de um dia luminoso. Estas manifestações são o prelúdio da caridade, sob o aspecto moral, ou espiritual.

O prelúdio da caridade material se expressa pela esmola, porém, pela esmola dada mais para satisfazer à própria vaidade do que por aliviar a sorte do desgraçado. Não obstante, esse sentimento nascente se apodera do ser e chega o dia em que, não mais por vaidade, para receber os aplausos dos outros dá ele a esmola, mas pelo sentimento do bem, que se lhe vai impondo e dominando-lhe a alma.

Toda boa ação praticada inconscientemente, ou obedecendo a qualquer sentimento, ainda que este seja o egoísmo, é prelúdio da caridade. O próprio criminoso, que só parece ter para a sua vítima propósitos de extermínio, sente em si o prelúdio da caridade, respeito àquela, no momento em que um lampejo de sentimento piedoso lhe passa pela alma, embora depois, deixando-se novamente dominar pelos mais baixos sentimentos, volte a cevar-se ela, para exterminá-la.

Pensamentos e obras de várias espécies constituem acervo de cada ser, como produto de si mesmo, qualquer que seja o grau de evolução em que se ache. Quando está nos primeiros graus, escasseiam-lhe os sentimentos elevados, capazes de se revelarem conscientemente. Há nele, porém, indícios denunciadores da aproximação do astro. São os prelúdios da caridade, dessa caridade que um dia, qual sol esplendoroso, brilhará no zênite de sua alma.

Não se deve condenar coisa alguma que possa dar bom fruto, em maior ou menor quantidade, ainda que pareça má a árvore que o produza.. Por má que seja, a árvore humana chegará a ser boa, condição, entretanto, que só gradativamente se consegue.

Deixai que cada um expresse seus sentimentos bons da forma por que possa, a qual é a que corresponde ao plano de consciência em que se acha.

É impossível que as expressões dos sentimentos de uma igual categoria sejam idênticas em todos os seres. Deixai que a vaidade prepare o desabrochar do sentimento caritativo em vossos irmãos, porque, sem esse prelúdio como poderia produzir-se a aurora, para depois escalar o astro maiores alturas? Impossível.

Não queirais, nem pretendais coisa alguma perfeição antes do tempo, e não ridiculizeis, nem desprezeis aqueles que não sabem fazer uma coisa qualquer, como a concebeis.

A esmola, sob a mais imperfeita forma, assim como todos os sentimentos bons expressos do modo mais grosseiro, são os prelúdios da caridade, por aí tiveram que passar os Vicente de Paulo e os Fénelon. Estimulai, pois os que, no exprimirem os elevados sentimentos que enquadram a caridade, são principiantes que ensaiam os primeiros passos, e fareis assim muito mais, para ajudá-los a imprimir a esses sentimentos maior vigor, do que ridiculizando as grosseiras formas em que se manifestam, e tratando com desprezo os primeiros ensaios que esses Espíritos incipientes realizam no caminho de sua ascensão para a culminância do aperfeiçoamento.

Angel Aguarod