2 - A ENFERMIDADE E SUA MISSÃO

Se nada em a Natureza existe inútil, tampouco existe o supérfluo. Existe a enfermidade; logo, ela não é inútil, nem supérflua. Para algo existe esse flagelo, de que tanto se queixa a criatura humana. Inquirir da missão da enfermidade é função sumamente proveitosa e de mais proveito ainda é o conhecimento exato do papel que a enfermidade desempenha na evolução da espécie humana.

Porém, preciso se faz, como consideração prévia, para não levar o desespero aos encarnados, nos apressemos em dizer que a enfermidade, do mesmo modo que a infelicidade e a ignorância, é um estado transitório. Dia há de chegar em que a enfermidade já não tenha o que fazer com a criatura encarnada. Desaparecerá então esse estado deprimente, que infelicita o homem.

Presentemente, ainda é um recurso da lei de evolução, para atrair, ou manter sob a sua ação o Espírito encarnado. Daí o subsistir a enfermidade e mesmo aumentar de intensidade e extensão, pois atende a uma necessidade premente. Não bastaria, para acabar com as enfermidades, que todos os seres encarnados, dotados de razão, fossem médicos consumados. Se se desse o caso de achar-se remédio certo para a cura de todas as enfermidades conhecidas e esse remédio fosse aplicado com acerto, não falhando em caso algum, nem assim deixaria de haver enfermos, porquanto, após a cura da enfermidade que se conhecesse, apareceria outra desconhecida, contra a qual não haveria meio de combate.

A causa das enfermidades é o que se deve buscar, para, suprimindo-a, acabar com os estados enfermiços. A causa, eu vos posso afirmar, está na alma. Toda enfermidade corporal acusa uma enfermidade anímica; quando não houver almas enfermas, também não haverá corpos sem saúde, salvo os estados mórbidos derivados, naturalmente, da idade e da condição humana, ou devidos ao ambiente em que viva a criatura.

De considerá-lo assim está muito longe a humanidade e, por isso, não acerta com o meio de pôr termo aos estados patológicos que fazem a desdita do homem.

Porém, nesses estados, precisamente, está em embrião a saúde da alma, porque deles terá de brotar.

Como poderiam curar-se as almas enfermas, se não enfermassem ao mesmo tempo os corpos? Se o indivíduo, que se deixou levar pelas más tendências de sua alma, encontrasse, como conseqüência de seus desregramentos psíquicos, a saúde e a felicidade, que empenho poderia ter em corrigir suas imperfeições, de origem anímica? Não encontrando interesse algum na cura desses desregramentos da alma, continuaria sempre do mesmo modo, sem procurar ascender espiritualmente. Ora, a enfermidade do corpo, correspondendo ao estado mórbido da alma e fazendo chegar até esta a dor, a angústia e os terrores da destruição orgânica, que da alma se apoderam ao contemplar as feridas de que o corpo se cobriu, leva-a a investigar. Pela investigação, entra ela no conhecimento da causa de sua desventura e cuida de atacar essa causa, para não reincidir.

Indubitavelmente, afastados os flagelos que caem sobre o homem por acidente, bem como os que derivam da Natureza e do meio ambiente, os outros, na sua maior parte, são efeito dos abusos que se cometem na alimentação e dos erros na escolha das substâncias nutritivas. Por que o abuso? Por enfermidade da alma. Um abuso é a conseqüência de um desejo. Quem deseja? A alma. Logo, quando a alma quer o que não lhe convém, é que nela há desequilíbrio, ou ignorância. O desequilíbrio psíquico é uma enfermidade anímica e bem assim a ignorância. A dor, a angústia, o terror, a enfermidade obriga o ser a procurar o remédio apropriado e ele o busca, mas não acerta de pronto com o que convenha, porque a ignorância se mete de permeio e é preciso corrê-la. Custa muito, porém, desalojar esta senhora de suas posições o que só se logra pelo conhecimento ou sabedoria, que têm de ser conseguidos pela atividade, sob a ação da vontade do próprio indivíduo, coisa que não sucede sempre, como fora de desejar.

Desse desconhecimento provém o pouco êxito na cura das enfermidades dos organismos corporais, apesar dos milhões de médicos de toda espécie que existem espalhados por todo o orbe.

Procura-se a cura por onde não será encontrada; por isso, nada se consegue. Se se chega a triunfar de alguma doença, pouco tempo a Natureza deixa tranqüilo o afortunado que logrou a vitória. A piedade divina se fez sentir, deixando um dos filhos do Altíssimo algum tempo em paz, a fim de que recupere novas energias. Depois, reaparece o mesmo estado mórbido, ou se forma outro, e voltam as lutas, com intervalos, mais ou menos prolongados, de relativa saúde, até que, operando-se a cura da alma, terminem para o corpo os estados de enfermidade. Porém, então, acontece também que, como a saúde definitiva do corpo coincide com a da alma, esta já nada mais tem que fazer na Terra e adquiriu o direito de não voltar a reencarnar aí.

Eis por que poucas pessoas encontrareis que não tenham de passar pelos estados de enfermidade, pois que só a necessidade de reencarnar já acusa uma alma enferma, por delinqüente, ou por ignorante, ou por ambas as coisas simultaneamente, e claro é que a sua enfermidade tem que repercutir no corpo, porquanto, ao mesmo tempo que, no veículo de suas manifestações, o verdadeiro estado do ser tem que se refletir, também a enfermidade dos corpos tem por missão ensinar as almas e expungi-las de seus defeitos e impurezas.

É a enfermidade, como vemos, condição 'sine qua non' da espécie humana e, enquanto o Espírito seja homem, tem que passar pelos estados patológicos que tanto fazem sofrer a Humanidade.

Mas, bendito sofrimento! Ele é, precisamente, núncio de saúde. Para conseguir-se que esta se torne realidade, só falta que o homem procure curar a alma, de preferência ao corpo, porque, como vimos, o gérmen de todos os desarranjos físicos está na alma. Curada esta, ficará curado o corpo.

Assim, não há por que maldizer a enfermidade, que representa inapreciável bem para a alma. Vede: os enfermos, em regra geral, se queixam e lamentam de seu aflitivo estado e acusam de seu infortúnio a tudo e a todos, menos a si próprios; poucos atribuem a si mesmos a causa de suas doenças. Há falta de conformidade e desconhecimento da missão que a enfermidade desempenha, com relação às suas vítimas. Tende por certo que, quem ante uma doença se abate e protesta, muito longe está ainda de alcançar a saúde completa por que suspira.

Notai que, além dos efeitos produzidos no ser por seus desacertos e abusos, que originam estados patológicos mais ou menos graves, há, como causa para passar ele pelos estados de enfermidade, os defeitos, as paixões e os vícios que o dominam.

Ao homem duro de coração, de que maneira se ensinará a ser compassivo, senão pelo sofrimento?

No que não está disposto a servir ao próximo e em quem o sentimento de gratidão ainda se acha adormecido, de que maneira se poderá obrigar esse sentimento a despertar, senão provando-o numa enfermidade ou desgraça em que, não podendo valer-se a si próprio, tenha necessidade de outros que o atendam e sirvam?

Ao orgulhoso, ao altaneiro, ao déspota, etc., como a domar, como o abater em suas altanarias, senão por meio de enfermidades, que o forcem a precisar dos seus servidores, perante os quais, por lhes dever a vida, se sentirá um dia humilhado?

Ao impaciente, ao pouco resignado, ao que ainda não viu nascer em si a enfermidade tão necessária que modo se lhe poderiam impor a paciência, a conformidade e a resignação? A enfermidade é o talismã que faz o milagre de infundir paciência, resignação e submissão à vontade divina àqueles que se infelicitam a si mesmos, pelo carecerem dessas virtudes.

Sempre que virdes um enfermo pouco resignado, podereis augurar-lhe muitas enfermidades ainda, no curso de sua existência eterna, porque delas necessita para curtir sua alma, tornando-a forte ante a dor e possuidora das virtudes que conduzem à conformidade absoluta com a Lei.

Pode dar-se também o caso que encarne na Terra algum Espírito que, havendo chegado às culminâncias espirituais, ainda leve uma existência terrena de terríveis sofrimentos. Esse, cuja superioridade reconhecereis pela sua exemplar resignação e conformidade com a vontade divina, veio à Terra em missão e não em expiação, para ensinar aos terrícolas de que maneira se deve sofrer, para tirar dos sofrimentos abençoados frutos. Desses há poucos; tantos, porém, quantos são precisos para que os enfermos da alma e do corpo tenham a quem imitar.

Não maldigais, pois, a enfermidade, porque é uma necessidade na Terra e desempenha, ante o progresso humano, missão purificadora e redentora, que Deus bendiz.

Angel Aguarod