2 - A EVOLUÇÃO DO SENTIMENTO DE JUSTIÇA NO SER HUMANO

Tudo tem seu período de incubação; após a gestação, que é a alvorada do nascimento, vem este, e, depois dele, o desenvolvimento das possibilidades potenciais armazenadas no gérmen.

O mesmo se dá com o sentimento de justiça. Permanece adormecido nas formas rudimentares de existência, esperando o desenvolvimento destas, até chegar ao ponto em que por elas possa começar sua manifestação primordial, confusa, incompreensível. Depois, esse sentimento adquire formas de manifestação mais concretas e se desenvolve até à perfeição.

Na espécie humana, quando ele alvorece, é, já o sabeis, sob forma egoística, como não pode deixar de dar-se, durante o período da formação da individualidade de cada ser, no qual, para o indivíduo, a sua personalidade é o essencial. Isso é justiça, por mais que mereça o anátema dos puritanos, daqueles que, supondo haver culminado alturas morais inacessíveis para a humanidade, não transigem com o que quer que considerem inferior ao conceito que fazem das coisas e das idéias, quer estas sejam subjetivas, quer plasmadas no plano das formas. A justiça se manifesta em tudo, até no que pareça monstruosa aberração àquele que conseguiu fazer dela uma idéia relativamente elevada.

Em tudo a justiça se manifesta; somente não o faz ao sabor e capricho de cada um, mas da maneira que exatamente corresponde ao desenvolvimento de cada ser.

Nos entes humanos pouco evolutidos, é natural e lógico, que o sentimento de justiça se limite à satisfação do que lhe causa prazer e corresponda aos seus gostos, tendências e compreensão de si mesmo. É o período do império do egoísmo, em o qual só é justo para o indivíduo o que lhe possa satisfazer à personalidade. Não compreendeis que assim tem que ser? Na Natureza, tudo segue o mesmo processo de desenvolvimento; não há, na marcha ou desenvolvimento evolutivo dos seres e das coisas, solução de continuidade; não é possível passar repentinamente do estado de inconsciência ao de consciência completa; do de incompreensão ao do conhecimento vasto e profundo; do de embrião, quanto a qualquer faculdade da alma, ao desenvolvimento integral dessa faculdade. A mesma lei preside a tudo, assim no plano físico, como no plano mental e no espiritual.

De um facínora não podeis fazer um santo, num abrir e fechar de olhos. As portas do céu não se descerram, para os que foram seres abjetos, com a facilidade que possam supor os que tomarem ao pé da letra as palavras, que são uma promessa, ditas por Jesus, na Cruz, ao chamado bom ladrão, a Dimas, justiçado em sua companhia, Indubitavelmente, podia o seu Espírito estar na noite seguinte com Jesus no Paraíso, como podeis levar convosco um mendigo a visitar uma casa opulenta de amigos vossos; porém, não para que aquele, que seria planta exótica nesse jardim, ali ficasse. Cumprida a promessa, em recompensa da conversão e para que veja o lugar que poderá ocupar, quando o haja conquistado, voltará ele ao ambiente que lhe é próprio, onde, lutando, laborando e aperfeiçoando-se, irá adquirindo méritos para, por sucessivas ascensões, alcançar o Paraíso e sentar-se definitivamente na suntuosa morada que lhe foi dado visita. O que ainda não foi conquistado pode ser entrevisto, encontrado, contemplado, causar êxtase; mas, ninguém chega a possuir como coisa própria senão o que, pelo próprio esforço, pelo mérito adquirido, conquistou.

Nem mesmo Paulo, o apóstolo dos Gentios, passou, de maneira brusca, de um estado inferior de consciência a um estado superior. Antes de sua conversão ao Cristianismo, já era um Espírito excelso e só foi necessário que se lhe descerrasse o véu que o impedia de ver como era, em si, o Salvador para que ele caísse instantaneamente prostrado a seus pés e se mudasse em seu discípulo. Não houve neste caso solução de continuidade; houve somente mudança de visão; revelação de uma verdade, que não era desconhecida daquele Espírito superior, e que apenas lhe estava velada, porque assim convinha aos desígnios da Providência.

O sentimento de justiça desenvolve-se, pois, paulatinamente no ente humano, começando este por aplicar a si, como justo, tudo quanto ache que lhe convenha, e acabando por exprimi-lo da maneira mais elevada e pura.

Assim, o conceito da justiça varia nos indivíduos, segundo o desenvolvimento que neles alcançou esse sentimento. Varia, pois, num mesmo indivíduo, conforme ao seu progresso espiritual. Comparados dois períodos da existência de uma criatura, em cada um se deparará com um conceito diferente da justiça.

O modo de exprimir-se esse sentimento também guarda relação com a compreensão das coisas, dos indivíduos e dos acontecimentos. Sobre um mesmo caso, o juízo individual pode apresentar diversidades, segundo o conhecimento que do caso tenha a criatura. Se o conhecimento não é completo e exato, à medida que ele se for aprofundando e ampliando, depois de emitido o primeiro juízo, também se irá modificando o conceito formado acerca do aludido caso.

Não obstante terem todos a retidão por mira, numa coletividade de indivíduos observareis que, sobre casos, coisas e pessoas, são diferentes os juízos que se emitem. É que o sentimento de justiça não é do mesmo grau em todos.

Crê o indivíduo obrar com justiça, até quando comete as maiores atrocidades. Vem depois a reflexão, melhor conhecimento do fato, e o que lhe pareceu justo se lhe torna abominável. Necessário, porém, lhe foi passar por esse estado de obscuridade, para alcançar maior iluminação, uma vez que a obscuridade é a condição precisa para toda gestação. Sem ter estado incubada na obscuridade, uma faculdade da alma não poderia surgir à plena luz, nem se manifestar no mundo sensível.

E com todos os sentimentos sucede o mesmo que com o sentimento de justiça. A criança vos dará uma fraca imagem do que acontece com o desenvolvimento de todos eles. A mais generosa delas se mostra egoísta, em começo; relaciona tudo com os seus desejos e a satisfação destes é o que se lhe afigura justo. Não lhe importa que outro fique espoliado do que lhe pertence, desde que ela possa gozar da posse da coisa cobiçada. Tudo o que não seja isso tem ela por injusto e lhe causa enfado e desespero. Com o crescimento, a mentalidade se lhe vai esclarecendo; o sentimento de justiça se vai ampliando em sua alma, à proporção que vence os obstáculos que toda infância encontra para a expressão de sentimentos já desenvolvidos, que dormitavam. Com o desenvolvimento integral do ser e a experiência adquirida, modifica-se-lhe o conceito errôneo das coisas e o sentimento da justiça, encontrando maior facilidade para manifestar-se com amplitude, se afirma com maior delicadeza, mais elevado, traduzindo impulsos altruísticos de Espírito.

O que se observa no desenvolvimento de um encarnado, numa de suas existências corporais, são as etapas por que passam todos os Espíritos em seu desenvolvimento integral.

Não se há demonstrado que o feto humano, ao desenvolver-se no claustro materno, passa por todas as fases da evolução realizada, desde as formas inferiores e, animalidade, até a da espécie humana? O mesmo acontece com os sentimentos e não é de admirar que, nos seres inferiores da própria espécie humana, o sentimento da justiça seja sumamente embrionário, correndo parelha com um grosseiro egoísmo, que se manifesta às vezes brutal e selvagem, crendo, entretanto, o indivíduo que dessa forma o expressa que é justo e até santo matar o seu semelhante para se alimentar com despojos dele. Não se pode estranhar que indivíduos e povos, mais evolvidos do que os que vimos de apontar como exemplo, julguem ser justiça o estabelecimento e conservação da escravidão; santifiquem o direito de conquista e de propriedade, ainda que apelando para a violência, para a exploração do próprio irmão e para o arrebatamento da produção que outros obtiveram com seu esforço.

Tudo isso e todos os desatinos que os homens, individualmente, cometem, e, bem assim, as coletividades, são justificados por seus autores ou por seus partidários, que encontram argumentos para exculpar e dar o cunho da mais estrita justiça a todos os abusos, latrocínios, barbaridades, a tudo o que a uma consciência reta infunde horror.

Não se vos tem apresentado como coisa santa e bendita por Deus a destruição dos hereges? E, para consegui-la, em nome do Deus das misericórdias, não lançaram os próprios irmãos ao tormento e à fogueira? Não têm tido justificação as guerras religiosas, as maiores monstruosidades e as mais cruéis invenções que o homem há podido imaginar?

Tudo isso se tem considerado justo e como justo é tido ainda por muitos.

Deixemos, porém, de parte as exceções, os degenerados que agem com plena consciência de seus atos; atenhamo-nos à generalidade e o certo é que a generalidade aprovou e aprova o que haja de mais absurdo, feroz e cruel, convencida de que, aprovando-o e mesmo contribuindo para sua execução, está com a justiça.

Efetivamente, está, porque julga das coisas, dos fatos e dos homens segundo o conceito que já conseguiu formar da justiça. Mais apurado, porém, se torne esse juízo, e condenado será o que antes merecera aprovação.

Não condeneis, pois, a maneira de desenvolver-se nos indivíduos o sentimento da justiça; é natural que assim seja e, porque assim é, houve e há lutas entre os homens e entre os povos e há também a luta de cada ser consigo mesmo.

Tendo que ser assim, respeitai tudo e lucrareis mais do que se vos entregardes a inúteis melindres, que, no convívio social, nada vos adiantarão, nem farão contribuais para o progresso geral.

Os melindres não edificam; o que edifica é a ação subordinada a planos bem combinados; mas, para que os planos sejam bem combinados, devem buscar-se em certezas, hauridas em fontes capazes de darem os elementos necessários à exatidão deles. Para a formação de todo plano adequado e conveniente, é mister se conte com o que há de positivo, e o que há de positivo, em nosso caso, é o que se dá na formação do conceito de justiça, nos entes humanos, isto é, uma diversidade imensa, correspondendo a uma infinidade de estados de consciência em correlação com o desenvolvimento dos membros da espécie humana, na qual não encontrareis dois que de maneira absoluta o possuam igual.

Todos os indivíduos estão na corrente evolutiva de sentimento da justiça; em cada um se vai operando esse evolução com maior ou menor intensidade, com maior ou menor celeridade; em todos ocorre o mesmo. Não podeis criar os tipos humanos ao vosso capricho; deveis aceitá-los como são, por isso que nem vós mesmos, ainda que ponhais em jogo toda a vossa vontade, podeis modelar a vossa individualidade conforme quereríeis, ou marchar com a rapidez que desejaríeis, para a perfeição.

No plano a seguir, tem-se que levar em conta tudo isso e formá-la atendendo às necessidades dos indivíduos e das massas, apressando-lhes quanto possível o progresso espiritual, onde ocupa lugar proeminente o desenvolvimento do sentimento da justiça.

Assim, pois, o labor progressivo dos que estão dispostos a trabalhar pelo progresso da humanidade deve ser encaminhado no sentido de apurar o sentimento de justiça na espécie, o que se pode fazer proporcionando maior instrução ao povo, fundamentada sempre em conceito elevado da justiça, conceito que não pode ser igual para todas as massas, porque nem todas têm o mesmo poder anímico de percepção.

Mediante a ilustração popular, denominação que deve abranger todas as classes sociais, é que se poderá acelerar a evolução do sentimento da justiça, nunca, porém, alimentando ilusões quanto ao resultado do labor, porquanto impossível é forçar-se a evolução das possibilidades psíquicas existentes nos seres, senão até certo ponto. Atingido este, por grande que seja o esforço que se empregue, nada mais se consegue. Tem-se que esperar a evolução natural, que a lei que a preside se cumpra nos indivíduos e nas massas. Só ela realizará o que a vontade humana melhor aplicada não poderá obter. Tudo vem a seu tempo e o apuro do sentimento da justiça no ente humano também só com o tempo se efetua, até chegar às maiores alturas. A evolução prossegue sempre; não pára nunca, qualquer que seja a vontade do homem. A lei é lei e se cumpre sempre, indefectivelmente. E é lei a evolução de tudo.

Angel Aguarod