2 - A INDULGÊNCIA

O exercício da indulgência é patrimônio das almas já muito sensivelmente evolvidas.

É a indulgência a expressão de um sentimento delicadíssimo de reta justiça e os Espíritos atrasados não alcançam vibrar ao ritmo desse sentimento, neles ainda em embrião.

Não peçamos, pois, a esses irmãozinhos, que se conduzam como não podem fazê-lo; porém, os que podem não se esquivem ao exercício de sentimento tão justo e elevado e com seu exemplo ensinem a ser indulgentes aqueles que ainda não o sabem, nem podem ser; pois, o exemplo é o agente mais poderoso, na ordem moral, para despertar as almas adormecidas, tocando a mola que nelas existe e que lhes aciona as fibras sensíveis, em correspondência com o sentimento ou faculdade elevada que lhes cumpre desenvolver.

Dirijamo-nos, pois, aos que nos podem compreender e lhes digamos que a falta de indulgência é um pecado enorme, pois contraria o direito que o delinqüente tem ao perdão e conculca a justiça divina, que exige da criatura humana perdoe as ofensas, pague o mal com o bem e seja clemente com o pecador.

A justiça impõe a indulgência. O Mestre, ante a apresentação, que lhe foi feita, da mulher adúltera, disse aos seus acusadores: "Aquele que se encontre sem pecado atire-lhe a primeira pedra."

A qualidade primordial que o ser humano deve procurar desenvolver exuberantemente é a justiça, e a justiça, que para ser verdadeira tem que se inspirar na bondade, exige que se não condene nos outros aquilo que se fez, faz ou pode chegar a fazer. Qual o ente racional que, se ainda não pecou em determinada matéria, pode estar certo de que não chegará a pecar? Pode afirmá-lo alguém? Não tendes visto exemplos, entre os homens, de indivíduos de cuja honorabilidade ninguém duvidou jamais e que, não obstante, um dia caem?

Como se abateriam o orgulho dissimulado e a presunção de muitos que se consideram a si mesmos impecáveis, se não caíssem?

Todas estas considerações levam a reconhecer, que cada um tem que usar da indulgência que quer usem para consigo os outros.

Mas, a indulgência implica o amor. Quem, de fato ama, como pode ser implacável com seu irmão, cevando-se na sua debilidade e explorando-lhe a falta, para afundá-lo mais no abismo da abjeção? Quem, de fato ama é forçosamente indulgente. A indulgência é, portanto, uma dívida de amor, que toda criatura humana precisa satisfazer todas as vezes que se, encontre diante de irmãos seus que incorram em delito, falta ou defeito.

É também uma dívida de justiça, como já indiquei, porque falta à justiça todo aquele que não é indulgente com seus irmãos.

A piedade é um grande auxiliar da indulgência, é a sua inspiradora, porque não pode haver indulgência onde não há piedade, que também corresponde aos impulsos da bondade.

A falta de indulgência é pecado enorme e no Evangelho mesmo encontrareis muitos casos em que isso se acha patenteado. Vede a parábola do servidor inclemente, que, depois de ter sido perdoado de sua dívida por seu Senhor, que se enterneceu com os seus rogos, não perdoou a um seu companheiro que lhe devia quantia muito inferior à que lhe fora perdoada. Sabeis como por essa falta de indulgência foi castigado.

Por isso, o Senhor e Mestre, na fórmula de oração ditada a seus discípulos, incluiu, como uma das principais petições, aquela que diz: "Perdoai, Senhor, as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores."

Não espere indulgência aquele que não for indulgente, porque a indulgência, como disse, é uma dívida de amor e de justiça e não se faz credor dessa graça quem tal dívida não houver satisfeito para com os outros.

O perdão ilimitado e, por conseguinte, a indulgência, deu o divino Mestre como preceito de sua Doutrina a todo cristão, quando respondeu a Pedro que não sete vezes, mas setenta vezes sete devemos perdoar ao irmão, quando nos ofenda.

Deve ainda o perdão ser considerado o envoltório da indulgência. Com o perdão, o homem como que ainda se considera no direito de sentir-se ofendido com o que o irmão lhe haja feito, julgando-se superior a ele, uma vez que se reconhece com o direito de perdoar, que implica também o de não o fazer.

Bom, muito bom é o perdão, e Jesus o impôs como condição aos Espíritos atrasados, como meio de avançarem no caminho da perfeição. Porém, consideradas as coisas de uma grande altura moral, o direito de perdoar é transitório, porquanto, em certos estados de consciência da criatura, ele carece de aplicação.

À alma já muito elevada repugna a prerrogativa do perdão e não a exerce, porque o uso dessa prerrogativa implica a hipótese de que um momento houve em que não sentiu pelo seu irmão aquele amor puro e santo, que se traduz em doce e terna indulgência.

A maior parte das criaturas humanas ainda não está em condições de prescindir do uso do perdão, por não haver transcendido o plano em que ele se torna indispensável, plano em que o perdoar se mostra para o Espírito ato difícil de ser praticado. Àqueles, entretanto, a quem, por terem chegado a certa altura da evolução, o perdoar nada custa, se derem um passo mais, deixarão de ter que perdoar, por isso que se tornarão incapazes de sentir-se ofendidos.

Assim fazendo, de tão grande piedade se acharão possuídos para com os delinqüentes que praticarão como estes aquela indulgência doce e terna, que atrai as almas e abranda até as pedras. E isto é que é justo.

A indulgência, portanto, não consiste em fechar os olhos ante as faltas do próximo, para não as ver; mas em reconhecer essas faltas, para colocar sobre elas um sudário de piedade, impregnado de amor. Aquele que assim procede não incorre no erro de fazer crer ao irmão que sua falta ficou ignorada; ao contrário, notará essa falta com o máximo de indulgência e instruirá o delinqüente, para que se corrija e não torne a delinqüir.

Já eu disse que a indulgência é filha da bondade e a bondade exige em todas as ocasiões que a criatura faça o bem ao seu semelhante. Ora, com uma indulgência que transpire indiferença, não se consegue realizar o bem que o amor e a bondade impõem.

Preciso é discernir, com critério seguro, nestas matérias morais de tão alta transcendência, para fazer-se a devida aplicação das nobres virtudes com que nos vimos ocupando.

Angel Aguarod