2 - A RESIGNAÇÃO

Como corolário obrigado da humildade e da paciência, brota a resignação, virtude sobreexcelente e que não constitui a abdicação da própria vontade, como há quem suponha, para submeter-se o indivíduo incondicionalmente à vontade alheia.

Isso não seria resignação, na verdadeira acepção da palavra, em correspondência com a idéia matriz que a gerou, mas uma rendição com armas e bagagens ao inimigo, por cobardia.

A fim de que seja verdadeiramente resignado, posto que a resignação, para que como tal possa reconhecer-se deva ser voluntária, é preciso que o homem conheça a causa do que ocorra e que o obrigue a consentir, sem protesto, na sanção da lei, pois que a resignação é o assentimento da alma ao inevitável e, sem o conhecimento, não pode a alma ter consciência do que é evitável e do que o não é.

O Espírito deve propender sempre para a realização do melhor, segundo sua compreensão, e, por isso mesmo, contra tudo quanto, em sua opinião, não seja o melhor deve lutar e opor-se, até conseguir esse melhor que procura, ou convencer-se de seu erro. Somente quando, pela luta, não possa conseguir a vitória de seu propósito, ou fazer flutuar a idéia que, alimentada por sua alma, deseja que triunfe, cabe a resignação.

Ela, porém, se impõe em todas as circunstâncias da vida. Há as expiações, as provas e as reparações a que a Lei sujeita o Espírito, como efeito de causas geradas por ele e a cujas conseqüências não pode subtrair-se. Contra esses decretos, contra essas sanções da lei moral e ainda das leis chamadas naturais, é insensato rebelar-se. Demais, por muito que lastime a alma a sanção de uma lei, moral ou física, isso é o melhor. Além das sanções da Lei Divina, para cujo cumprimento não se pede o parecer do indivíduo sobre quem elas incidem, há o compromisso voluntário do próprio indivíduo, o pedido feito por ele, antes da sua reencarnação e ainda no curso desta, nos momentos de lucidez, ou de emancipação de seu Espírito durante o sono. Embora ele de nada disso se recorde no estado de vigília, tudo tem que se cumprir e, quando se cumpre, ocorre o que se costuma chamar adversidade, obstáculos insuperáveis, fatalidade, etc. Sempre que isso acontece e que nenhum dos recursos naturais, lógicos e justos, para que o indivíduo apela, contra a fatalidade que o persegue, produz o efeito desejado, eis chegado o momento da resignação.

Dado que o indivíduo não ponha a cerviz sob o guante do destino e busque, por meios honestos e morais, a maneira de furtar-se a efeitos desagradáveis, isso não implica protesto contra a Lei, nem falta de resignação, se ele está disposto a submeter-se, sem revolta, uma vez declarada a falência de todos os meios postos em jogo para evitar o fracasso dos propósitos que alimentava e conseguir a vitória nas lutas da vida.

Porque, importa se compreenda que o ser humano não foi criado para autômato; mas, para, em todo o curso da sua evolução, atuar como um ser consciente, que deseja capacitar-se de sua situação e da maneira por que vai avançando para a culminância de seu destino, para a Perfeição.

Claro é que a submissão absoluta terá que vir, pois constitui um dos característicos que adornam o ser evolvido. Essa submissão terá que se produzir, não em virtude do desconhecimento do plano da evolução e do modo por que esta se realiza; mas, ao contrário, pelo conhecimento de tudo isso. Eis aí por que deve a criatura lutar sempre contra o que é adverso, conforme o seu modo de compreender, até vencer, ou convencer-se da derrota, pela impossibilidade de continuar a reagir.

Porém, justificada a oposição a tudo aquilo que possa considerar lesivo a si, preciso é que esteja sempre prevenida para a reação na luta, porque o Espírito que na Terra evolve, em regra geral, tem necessidade, para seu próprio bem, de suportar contrariedades invencíveis e de passar por sofrimentos a que é impossível encontrar remédio.

A Terra não é um paraíso, bem o sabeis, e, porque não o é, o sofrimento constitui patrimônio dos que a habitam. Só quando esse sofrimento, que foi impossível evitar, se suporta com resignação, é que se torna produtivo para a alma, contribuindo para sua depuração e elevação.

O destino do Espírito não é sofrer; contudo, é necessário que sofra, para chegar a tornar-se invulnerável ao sofrimento.

Assim, não vos assustem estes; não façais má cara às contrariedades que experimenteis no vosso transitar pelo mundo; não considereis os obstáculos, que encontrardes à vossa passagem, como estorvos à vossa alma em seu caminhar para as alturas; ao contrário, tudo isso são pedras de toque para ela, que tem de sair sublimada e triunfante da prova.

A dor purifica, as contrariedades que não puderem ser vencidas são vitórias, quando a alma assente resignada ao inevitável e ainda louva a Deus e lhe agradece o benefício.

Porque, benefício para a alma é o flagelo, a imposição, a tortura, a dor, a enfermidade, a ingratidão dos outros, quando ela tudo sofre resignada e considera o bem daí resultante, ponderando que Deus prova seus filhos por esse modo, para lhes aquilatar das virtudes e facultar-lhes meios de ascenderem às alturas celestiais que lhes quer conceder.

Aprendei a lição da resignação. Se a aprenderdes bem e souberdes aproveitá-la, ela vos salvará.

Angel Aguarod