2 - A VIDA INTERIOR

"Nem só de pão vive o homem ... ", diz a Escritura.

E assim é. Sua dupla natureza exige dupla alimentação; alimento para o corpo físico e nutrição espiritual. Dupla também é, por conseguinte, a vida do homem. Vive ele a do corpo e a do espírito, uma que se exterioriza e outra que se manifesta aos olhos dos outros homens.

A vida material é a vida das primeiras etapas da evolução espiritual e a vida do espírito é a vida interior, a que, começando a desenvolver-se, quando no ser se faz necessária a expansão da espiritualidade, termina com a completa realização do espírito na matéria, da qual ele se converte em senhor, dominando-a e sublimando-a, tornando-a apta a acompanhar e servir de veículo de manifestação a seres altamente evolutidos.

Já o Apóstolo dos Gentios o disse: "Nem toda carne é a mesma carne." Corresponde sempre ao grau de evolução alcançado pelo Espírito a classe de matéria que lhe compõe o veículo de manifestação.

A vida do corpo, com exclusão de toda manifestação espiritual elevada, é própria da primeira etapa de expressão terrestre, no caminho da evolução humana. Depois, o Espírito entra a influir debilmente na matéria e esta exterioriza as incipientes manifestações da entidade sensitiva e volitiva que anima o ser humano. Então, já um tanto adiantada a realização do Espírito na matéria, começa a alvorecer a vida interior, que progride e se desenvolve, à medida que a vontade do homem se torna mais potente na objetivação do que é superior. O cume desta ascensão representa a realização completa do Espírito na matéria, a culminância da vida terrestre, a anulação da influência material sobre o ser, a completa vitória do Espírito, a conquista do direito de gozar este da vida eterna, de não descer mais, obrigatoriamente, aos mundos materiais, para aí tomar corpo também material, por haver transposto o ciclo das encarnações obrigatórias nesses mundos.

Mas, para conquistar essas alturas sublimes, é preciso um prolongado e esmerado cultivo da vida interior. E, para efetuar este cultivo, não é necessário que a criatura se embrenhe numa selva, fugindo ao mundo, para aí converter-se em anacoreta, longe da sociedade dos homens. Pode ela e deve desenvolver aquela vida no seio da coletividade humana, sem se separar do convívio de seus semelhantes, cumprindo, como os demais seres racionais, todos os deveres domésticos e sociais.

Não obstante, dentro dessa ampla vida de relação com os outros homens, quem quiser cultivar a vida interior, sobretudo nas primeiras fases desse cultivo, terá necessidade de insulamentos parciais, de momentos de retiro para lugares onde coisa alguma possa perturbar. Os exercícios de meditação e contemplação a que precisa entregar-se.

O ruído da rua, a sociedade das pessoas indiferentes quando não adversas, as tribulações da existência, a preocupação dos negócios são elementos negativos e altamente destruidores da vida interior, quando o Espírito contemplativo ainda não alcançou poderoso domínio sobre a sua natureza inferior.

Nesses períodos de insulamento completo e de grande recolhimento, quer transcorram no recesso do lar, quer no campo, ou à orla dos mares, é preciso que o homem se entregue a repetidas, sérias e elevadas meditações. Para firmar-se mais na fé, até torná-la inquebrantável: fé em Deus, que alimenta a esperança do destino glorioso do Espírito, como recompensa aos grandes méritos conquistados; fé no progresso e redenção de todas as almas; é na vitória definitiva da Verdade e do Bem; fé nos Diretores espirituais; e fé também nos outros homens que, animados todos da chispa divina e necessariamente evolvendo no caminho que às alturas espirituais e divinas conduz, hão de chegar a seu tempo, indefectivelmente, a essas alturas. Com a fé e a esperança firmes na alma, a caridade se impõe, manifestando-se o seu ascendente nos atos magnânimos e nos puros pensamentos que exteriorizam os Espíritos meditativos, entregues ao cultivo da interior.

A meditação, com o completo domínio da fé em Deus, da esperança e da caridade, conduz ao integral conhecimento das coisas espirituais.

Nesses exercícios de oração, meditação, contempla-o e concentração, que o cultivo da vida interior reclama, desenvolve-se prodigiosamente a intuição, nos Espíritos, e, mercê dessa intuição, eles se enriquecem com os fulgores descidos do céu, veiculadores de verdades divinas, que nenhum pensador humano pode, sem esse auxílio, receber, nem, por conseguinte, revelar.

Ao Espírito encarnado, medianamente evolutido, o cultivo da vida interior se impõe, pois que o desenvolvimento da evolução humana chega a um ponto em que, sem esse cultivo, ele estaciona e até se embrutece. Porque quando seja tempo de o Espírito tomar posse de seu posto, se inclinações excessivamente materiais lho impedem, a descida para o abismo da corrupção se torna rápida e, depois, mais penosa e difícil do que a primeira a a ascensão, porquanto pesa sobre os ombros do culpado o enorme fardo de suas delinqüências.

Preciso é que o Espírito encarnado, o homem, enfim, vigie e saiba compreender o momento em que deve tomar a sério o desenvolvimento da sua vida interior. Esse momento se determina pelos primeiros reflexos insistentes de espiritualidade, que deixam fundos sinais nas tendências seguidas até então, convidando a uma retificação formal destas, no sentido de encaminhá-las a uma transformação em virtudes e a uma ação benéfica na vida de relação.

Revelados esses sinais, não se deve demorar o começo do cultivo da vida interior. São difíceis os primórdios de tal cultivo, porque as tendências ancestrais, que separam as duas naturezas, fazendo predominar a inferior, desviam todos os bons propósitos e levam o principiante a sucumbir inúmeras vezes.

Será mister, pois, em primeiro lugar, adquirir a convicção firme de haver soado o momento improrrogável de dar princípio ao cultivo da vida interior, por ser esta necessária a maior elevação no caminho do progresso espiritual. Adquirida essa convicção indestrutível, fortalecer a vontade, até torná-la invencível, e, depois, com a convicção e a vontade, impulsionar o desenvolvimento da mesma vida interior, até conseguir que a exterior não a eclipse, nem ponha entraves ao seu desabrochar. Consegue-se assim intensificar o cultivo daquela vida, tornando-o, cada dia, mais esmerado.

Para certos Espíritos, a vida interior constitui uma necessidade que, não sendo satisfeita, lhes amargura a passagem pela Terra. Para outros Espíritos, é também uma necessidade premente cultivá-la, ainda que nunca tenham pensado nisso.

Sem o cultivo da vida interior, é impossível completar-se a evolução do Espírito na matéria. Por meio desse cultivo, aquela vida torna desnecessária a exterior e o espírito dominará a matéria e, triunfante, não mais necessitará dela, passando sua vida a ser exclusivamente espiritual e, por conseguinte, mais pura e mais feliz.

É necessário, porém, que, depois de haver transposto os primeiros degraus da vida interior, que se terá de desenvolver no insulamento e na soledade, o ser pratique em abstrair das coisas exteriores, mesmo em meio do tumulto e dos afazeres habituais. Quando haja conseguido viver assim as duas vidas, a exterior e a interior, poderá considerar alcançado o desenvolvimento completo desta última. Isso é difícil, porém não impossível; e tanto não é impossível que ninguém pode considerar completo o desenvolvimento da vida interior e, portanto, a máxima espiritualidade, enquanto não tenha conseguido viver ao mesmo tempo, espontânea e voluntariamente, as duas vidas.

Quando o tumulto das multidões, o ruído das ruas e as impertinências dos homens não consigam distrair a quem se ache entregue à meditação das coisas espirituais, nem, portanto, perturbar-lhes a união com o Divino, a comunhão com o mundo invisível, poder-se-á dizer que o Espírito alcançou na matéria seu completo desenvolvimento.

Convido meus irmãos da Terra a cultivarem a vida interior, seguindo, para o seu desenvolvimento, o método acima indicado, que é o mais positivo, e tenham a certeza de que, se assim o fizerem, avançarão rapidamente na sua ascensão às culminâncias espirituais, e verão aproximar-se rapidamente o Sol radiante da eterna felicidade.

Angel Aguarod