2 - AMAR A DEUS, AMANDO A SI MESMO

No amor a si mesmo tem princípio, no indivíduo, a expressão do amor consciente.

A isso se chama egoísmo; porém, por muito maldito que tenha sido o egoísmo e continue a ser, nem por isso outra é a base do amor puro dos santos e dos anjos, do mesmo modo que, por muito saborosa que se apresente ao vosso paladar uma fruta rara, não deixa ela de provir da semente apodrecida nas entranhas da Terra e adubada com os detritos mais asquerosos.

Sem o desenvolvimento do egoísmo nos seres, como se lhes poderia moldar a individualidade? Encontraríeis maneira de consegui-lo? Certamente que não.

Sendo assim, tendo o amor consciente de revestir caráter egoísta nos primórdios de seu desenvolvimento será sensato que quem conhece esta verdade maldiga o egoísmo, base e fonte do mais puro altruísmo, das maiores abnegações?

Condenar redondamente o egoísmo, sem distinção, sem desculpas, sem esclarecimentos que fixem bem os termos do problema e justifiquem o anátema, é o mesmo que condenar o alfabeto, uma vez que se tenha chegado a cursar as faculdades superiores. Teriam os que cursam essas faculdades podido chegar às condições de se aplicarem aos altos estudos que estão fazendo, se não tivessem começado a carreira das letras pelo depreciado alfabeto?

No mesmo caso se acha o egoísmo, com relação ao altruísmo mais depurado. Mas, por que é assim? Sem dúvida, por estar assim determinado no plano divino da Criação e ser lei da evolução das almas. Logo, aquele que, não tendo ainda bem modelada a sua individualidade, põe todo empenho em procurar o próprio bem, em conseguir o que mais lhe agrada, sem pensar nos outros, ama a Deus, amando a si mesmo. Esse bem, que ele procura na satisfação dos próprios desejos, é Deus que está no íntimo do indivíduo, que manifesta sua presença de maneira extremamente vaga, por tê-lo de fazer através de densos véus, muito densos, como se tecidos de matéria no seu maior grau de densidade.

Essa matéria é a que corresponde a um Espírito jovem, a um Espírito nos primeiros albores de seu desenvolvimento no plano terrestre. Segue-se daí que a manifestação divina, através de matéria tão grosseira, tem de corresponder a essa mesma grosseria.

A luz branca de um foco de divinos resplendores, procedente da Fonte da Pureza, onde bebem néctar celestial os próprios Anjos, tendo de atravessar, para chegar até vós, uma série de imundos cristais de cores ainda indefinidas, poderá ser, para a vossa visão, um arremedo sequer do que realmente é?

Respondei a vós mesmos, vós que ledes estas páginas. Deus, tendo de se manifestar através da matéria grosseira que serve de veículo de manifestação a um Espírito incipiente, não pode fazê-lo senão muito grosseira e deficientemente, tal qual essa inteligência que hoje assombra o mundo com os seus portentos, nas culminâncias do saber, se manifestava outrora, quando na escola soletrava o alfabeto.

É, pois, lei divina, desígnio do próprio Deus, que o amor consciente comece a desenvolver-se no indivíduo através de um egoísmo grosseiro, rudimentar. Como no melhor que o indivíduo busca está Deus imanente, amando o indivíduo a si mesmo, sob o influxo de tais desejos, ama de fato a Deus.

De que outra maneira quereríeis que o espírito humano começasse a sua aprendizagem na carreira do amor? Nenhuma outra há.

A vós, que já galgais as encostas do altruísmo, vos repugna o egoísmo grosseiro dos vossos irmãos menores? Se é assim, ainda não chegastes ao cume; apenas o entrevedes, ansiais por alcançá-lo; porém, ainda vos falta poderdes considerar os vossos irmãozinhos inferiores no verdadeiro plano em que se acham e, cheios de amor para com eles, descer a esse plano e lhes estender carinhosamente as mãos, para ajudá-los a subir.

Repugna-vos o egoísmo grosseiro de vossos irmãos menores? Pois por ali passastes. Vossos dotes superiores, hoje em grande desenvolvimento, foram embrião um dia, estiveram dormitando no mais profundo do vosso ser, enquanto, entregues à tarefa de modelar a vossa personalidade na fase inferior de sua evolução, removíeis os obstáculos do caminho, para que ela se manifestasse mais adiante, como atualmente. Muitos séculos e não poucas existências haveis gasto em percorrer a trajetória que medeia entre o egoísmo mais grosseiro e o sentimento altruísta que hoje vos domina.

Descei, sim, até esses irmãozinhos menores e ensinai-lhes os rudimentos de alguma coisa superior ao que conhecem; porém, de alguma coisa que lhes esteja ao alcance. Assim, fareis obra de altruísmo e ativareis o vosso progresso, contribuindo para o progresso deles. A lei de solidariedade a isso vos obriga e à justiça de vossa própria causa, que vos impõe cumprirdes para com os outros o dever que outros irmãos, de desenvolvimento superior ao vosso, cumpriram para convosco.

Isso é o que vos compete, para vosso próprio bem, e não maldizer o egoísmo de vossos irmãos inferiores.

Nesse egoísmo, eles progridem e daí hão de nascer os estados superiores que neles existem latentes.

Eles, como já vos sucedeu, amanhã, com maior desenvolvimento espiritual e um invólucro material mais delicado, conhecerão as leis da Natureza; terão mais amplo conhecimento da Divindade, e os grosseiros gostos que ora manifestam se irão depurando e aperfeiçoando; a consciência se lhes desenvolverá amplamente; suas aspirações, por efeito desse maior desenvolvimento, serão mais elevadas, como mais elevados serão os recursos de que se valerão para continuar modelando e espiritualizando a própria individualidade. É então que Deus se manifestará, por intermédio deles, de maneira mais real, com menores obstáculos, lançando os resplendores de sua divina luz através de um vidro mais apropriado para que seus raios cheguem, menos impuros, mais aproximados da sua natureza puríssima, à percepção dos humanos.

Assim se aperfeiçoa o amor a Deus: primeiro, inconscientemente, ainda com a consciência nos seus albores primitivos, o indivíduo ama ao seu Criador, amando a si mesmo e apetecendo grosseiros gozos; depois, ama a Deus semiconscientemente, sem perceber precisamente como Ele possa ser, e também preferindo seus próprios gozos à satisfação dos alheios; mais tarde, já formada a sua individualidade, ama a Deus amando a si mesmo, cumprindo todas as leis divinas, tanto as que regem a ordem física, como a ordem moral, procurando que seu corpo seja, pelo seu alto desenvolvimento, pelo cuidado com que o mantém, um digno tabernáculo de seu Espírito e sacrário da Divindade; cuidando do corpo e da alma, para que, sendo esta pura, tenha também por veículo um corpo de grande pureza. Ama ele assim a Deus, amando a si mesmo, porém, considerando já todos os demais seres da Criação como seus irmãos em Deus.

Angel Aguarod