2 - CONCORDÂNCIAS E DISCORDÂNCIAS

Tudo o que existe parte do Absoluto; de uma fonte comum procedem todos os seres. Do Uno tudo nasceu; portanto, é a mesma a essência de todos os indivíduos que se podem observar no estudo e análise do que existe na Natureza.

Tudo, pois, parece que deveria ser concordante. Entretanto, a discordância está patente a todo ente racional que se dedique a estudos sérios, em qualquer reino da Natureza.

Porém, o fato de estar claramente patente e de impressionar os sentidos corporais não impede que a discordância seja uma ilusão.

A diversidade nos exemplares de qualquer reino e nos da espécie humana não existe senão quanto à forma e à maneira de se manifestar a Potência divina, no mundo sensível, através dos ditos exemplares e indivíduos.

Se se observam os seres em suas manifestações exteriores, sem indagar do impulsor oculto que há em cada mente, tantas discordâncias se notam, quantos indivíduos. Dar-se-á o mesmo se, transcendendo de plano, o observador se interna na parte psicológica de cada um e penetra no sacrário da alma? Em parte ocorrerá o mesmo, mas, em parte, não. Em parte ocorrerá o mesmo, porque a alma, que habita um corpo físico, ainda se não integrou, está escalando a montanha, não chegou ao cume. Na infinita escala da evolução, cada uma das almas que a percorrem ocupa o grau que pôde conquistar e, como os graus são infinitos, claro se torna que também hão de ser infinitas as diversidades que elas apresentem. Assim consideradas, ou com seus corpos físicos, ou sem eles, ou, ainda, se tal se pudesse conceber, sem veículo algum de manifestação, as almas formam como que as contas de um rosário, que as contém em número infinito. Cada uma, segundo o lugar que ocupe, é de uma cor ou forma diferente das outras, diferenciando-se, dessa maneira, todas entre si. O fio, porém, que as prende, fio de ouro, que lhes constitui a essência do ser e faz parte integrante de cada uma, a todas irmana e liga, para a eternidade, ao mesmo destino. São diferentes umas das outras, se comparadas entre si; todas, entretanto, identificadas pela essência, idênticas se mostram, se consideradas de tais alturas, e convergentes para um mesmo ponto, havendo exata concordância na origem e no destino de todas.

A razão humana tem de adquirir completo desenvolvimento em todos os Espíritos e, após a razão humana, deve neles desenvolver-se a razão divina. Enquanto esse duplo desenvolvimento não se completar, forçosamente há de haver divergências e discordâncias no modo de exprimirem os Espíritos seus sentimentos, porque estão desenvolvidos em graus diversos. Assim sendo, é impossível a concordância sonhada por muitos idealistas. A concordância, a convergência, a unidade virão, porém, no fim dos tempos apocalípticos e, ainda, por efeito da separação dos que não tenham alcançado, na escala da evolução, certo grau de adiantamento, que permita aos que se encontrem unidos pelos laços de perfeita fraternidade, oriundos desse adiantamento, concordarem e convergirem todos no ponto essencial.

Porém, a humanidade terrena longe ainda está dos tempos apocalípticos; há nela Espíritos de todas as categorias e condições, e também de todos os graus de merecimento, quer com relação a recompensas, quer quanto a castigos.

Não pode o homem mudar milagrosamente este modo de ser dos Espíritos, nem evitar suas manifestações de acordo com ele. E, não podendo fazê-lo com os indivíduos, tampouco o pode com as sociedades e os povos, pela mera promulgação de leis e de decretos, nem pelo derrocamento de tronos e dinastias, nem pela fundação de quaisquer outras formas de governo ou de sistema social.

Se os indivíduos se modificam e se põem em concordância com as leis promulgadas, com os decretos governamentais e com as instituições que os regem, essas leis e esses decretos cumprir-se-ão, e as instituições produzirão os efeitos desejados e subsistirão; porém, se houver fundas discordâncias e discrepâncias, ou não se fará caso da legalidade entronizada, que será considerada como não existente, donde resultará que as leis escritas carecerão de valor, ou então estas terão de ser derrogadas, para se tornarem concordes com o sentir da massa, a menos que a humanidade queira viver em agitação e desordem permanentes.

Isso constitui regra geral, que não está no poder do homem modificar, e com a qual será preciso contar sempre.

Como, pois, estranhar-se que discordâncias e divergências existam também no Espiritismo? Para quem não ignore o que venho dizendo, isso não é de surpreender. Esse, pelo contrário, compreende que assim tem de ser. O Espiritismo não pode constituir, neste ponto, uma exceção. Da mesma forma que em todas as outras ordens de manifestações se deve contar com as discordâncias e divergências, em virtude da diferenciação existente entre os Espíritos, também no campo da Nova Revelação forçosamente hão de elas existir.

Mal avisados andam, pois, os que lamentam que isso se dê, por entenderem que o Espiritismo deve ser todo harmônico e fraternal, sem motivo para discordâncias e divergências. A tais lamentos não se entregam os que estudam a psicologia do ser humano, lhe perquirem a origem e o acompanham através do seu desenvolvimento físico, intelectual e moral, porque chegam à conclusão de que tudo é natural e que em virtude de uma lei sábia, que rege tudo, é que se produz o fenômeno da diversidade das manifestações entre os Espíritos.

Preciso é que os espíritas se capacitem dessas verdades, que cheguem a convencer-se de que tudo quanto ocorre no mundo, assim nos seres individualmente considerados, como no conjunto deles, é natural e obedece ao plano divino da evolução. Em vez, pois, de notarem máculas ou defeitos nas manifestações naturais dos indivíduos, das coisas e dos elementos, busquem a razão de tudo isso, e muito lucrarão, porque, apreendendo-a, longe, então, de descobrirem deficiências e discordâncias em tudo, verão que, no fundo de tais manifestações, há a unidade, para a qual tudo tende, devendo os indivíduos chegar a ela através da diversidade. Verão de que modo uns aos outros os seres se completam e que as manifestações da natureza, quando assim não acontece, são necessárias ao equilíbrio da criação, onde tudo é solidário.

As diferenciações, as discordâncias e as divergências são inevitáveis no Espiritismo, como em tudo. Em face desse postulado, cumpre se extraia de tudo o que, aparentemente apenas, consagra a desarmonia no Universo e nos seres o bem imenso que encerra. Não deploremos seja assim; antes, cuidemos de tirar de tudo, para o progresso geral, o maior partido possível.

Reconhecida a inevitabilidade do fato que vimos de apontar, ressalta a obrigação, para cada um, não só de respeitar a maneira diferente de sentir, de pensar, de compreender e de proceder dos outros, como também de considerar tudo isso uma necessidade. Desse modo, não pode haver quem se julgue no direito de impor seu critério, sua razão e sua autoridade aos outros, nem quem censure e excomungue os que divirtam de suas tendências e do modo de interpretar os mesmos princípios.

Praticando-se essa tolerância e respeito mútuos, essa benevolência e reconhecimento de direitos, essa consideração de que todas as diversidades conduzem à unidade, que esta não pode ser imposta, que tem de vir por si mesma, por efeito da lei de progresso, sem violências, mais se fará pela concordância das almas, pela fraternidade dos homens, do que com todos os esforços que se empreguem para impor uma concordância, uma unidade de critério, uma regra comum, contrárias à natureza neste mundo.

Só se chegará à concordância, à convergência das almas para o essencial, respeitando as manifestações de ordem secundária, de ordem meramente formal.

Não há, indubitavelmente, outra doutrina que, melhor do que a Doutrina Espírita, possa fazer cheguem os indivíduos e as sociedades da diversidade à unidade, da discordância à concordância, da divergência irredutível à convergência que faz de todos os seres um só.

Esse labor impõe-se no campo espírita, para que o Espiritismo possa ser amanhã, no consenso geral, uma garantia de que nele encontrará a espécie humana o antídoto para todos os seus males, o bálsamo para todas as suas feridas, o fator da fraternidade, que converterá a Terra num paraíso, e o gênero humano numa sociedade de anjos.

Angel Aguarod