2 - DISCÓRDIAS DOMÉSTICAS E SOCIAIS

As mesmas causas que geram as guerras, propriamente ditas, produzem as discórdias domésticas e sociais, que não são mais que outros aspectos da guerra.

Se natural tem sido e é a guerra entre os povos e, ainda, entre facções várias de um mesmo povo, constituindo o que chamais guerra civil, natural é também que se dêem as discórdias domésticas e sociais, de que com freqüência vos lastimais.

Se um mesmo indivíduo não está de acordo consigo em dois períodos próximos de sua vida terrestre, produzindo-se nele um verdadeiro estado de discórdia; se em cada um se trava luta permanente, pelo desacordo entre sua natureza superior e a inferior, como não há de haver desacordo e a conseqüente discórdia entre indivíduos unidos pelos vínculos do sangue e cobertos pelo mesmo teto?

Não deve causar estranheza isto, que é muito natural. Estranho seria que, em tais condições, existisse nos lares a paz que ambicionais. Se essa paz não pode existir nem no indivíduo, considerado insuladamente, nem no lar, como há de poder existir na sociedade?

Se a base da sociedade, que é a família, está imersa num ambiente de discórdia, como não há de ser esta o pão cotidiano da ordem social?

Há que passar por aí; não se pode colher o fruto antes do tempo. Gozar atualmente de paz, quer individual, quer familiar, quer social, equivaleria a colher o fruto, não só antes de estar sazonado, mas mesmo antes de haver chegado às dimensões precursoras da madureza.

Serão, pois, em absoluto, um mal as discórdias domésticas e sociais? É a pergunta que primeiramente acode aos lábios, quando se está convencido de que tais discórdias são inevitáveis, por se acharem na natureza huumana, por fazerem parte do plano da evolução, em certo período desta.

As discórdias, tanto domésticas como sociais, são um mal ou um bem, segundo o ponto de vista de que as aprecieis e também segundo o que considereis mal ou bem. Se as apreciais do ponto de vista da espiritualidade, são um mal, porque um mal é que as paixões fervam e estourem, produzindo entre as almas um choque, que as distancia e desgosta. Mas, se as considerais do ponto de vista humano, reconhecendo-lhes a necessidade para dirimir os dissídios e assegurar um estado de justiça o direito, que garanta maior eqüidade nas relações entre os indivíduos, quer no lar, quer na ordem social, resultam um bem. E mais evidente se mostra esse bem se as considerais como efeito da ação das forças que operam no sentido de acelerar o progresso das almas e dos povos.

Porém, considerai como quiserdes as discórdias? que é vítima a humanidade, tanto em suas partes, como no todo, nada adiantareis pretendendo fazê-las desaparecer, porque só o próprio progresso dos indivíduos e dos povos conseguirá isso.

As paixões transbordadas que outra coisa podem produzir senão discórdias? Ora, ainda não chegou o momento, para a humanidade em geral, nem para os indivíduos em particular, salvo exceções, de bem dirigirem as paixões. Semelhante resultado requer tempo, esforços inauditos e vontade perseverante.

Já há, indubitavelmente, quem possua essa vontade e faça os maiores esforços para bem dirigir a corrente pelas vias da paz e da concórdia; porém, essa vontade e esforços não podem conseguir que na ordem social se lhes torne sensível a ação, porque a humanidade atual atravessa, em sua evolução, um período critico, gerador de uma efervescência extraordináría, que impossibilita toda concórdia firme entre os indivíduos e as sociedades.

Será isso um mal, perguntamos novamente? Em realidade não, visto que é um acidente natural do processo da evolução. Não é possível ao homem alcançar maiores alturas sem passar por aí.

Se há indivíduos que conseguem não ser pomo de discórdia no seio do lar doméstico, nem da sociedade, é que estão, em sua evolução, acima da generalidade. Esses são os precursores da paz doméstica e social vindoura; são os que, com o exemplo, podem contribuir eficazmente para que seus irmãos de cativeiro se tornem conscientes de quanto bem lhes resultaria do afogamento de suas paixões, quando elas os incitam à luta, fazendo delas triunfar o sentimento da paz, que assim criarão em si mesmos.

Não chegou a hora de colher-se o fruto e, por conseguinte, de propiciar-se à Terra, em grande número, lares onde reinem a paz e a concórdia; não chegou ainda o momento em que, na sociedade humana, deixe de imperar a deusa Discórdia.

É preciso saber e estar convencido disso o homem, para não viver de ilusões que produzem decepções capazes de originar, nos indivíduos, estados deprimentes. Porque, conforme consideram as coisas, assim orientam os indivíduos e as massas as suas ações. Quando se está fora da realidade, o desvio é certo e a ação, por improcedente, terá que dar inconvenientes resultados.

É bom, pois, que ninguém viva enganado, para que devidamente orientada seja a ação que todo indivíduo é obrigado a exercer no seio da coletividade. Se estais convencidos de que as discórdias atuais são conseqüência natural e indeclinável do modo de ser dos indivíduos e que não terminarão enquanto estes, separadamente, não tenham estabelecido, em si, unidade e concórdia entre a sua dupla natureza, vão será gastardes pólvora em salvas a empresas que visem uma imediata pacificação geral. Consagrareis, ao contrário, vossa ação, em primeiro lugar, a conseguir em vós a paz interna, inquebrantável a todos os ataques, e, depois, a laborar no sentido de ir conquistando almas para a causa da paz, infundindo-lhes os ensinos legados ao mundo pelo Redentor Jesus, e a esperar pacientemente que esses ensinos abram caminho e se infundam na consciência dos indivíduos.

Com esta convicção e esta tática não fracassareis, por lenta que seja a marcha que leveis na carreira empreendida, por pequenos que se mostrem os avanços que realizeis, por insignificantes que resultem os vossos triunfos sobre os recalcitrantes. Se pusestes vossa vontade e esforço ao serviço da santa causa da paz e mais não conseguistes, é que o fruto não está ainda sazonado e deve permanecer na árvore até a estação própria à sua maturação. Considerando assim, não vos impacientareis e o vosso labor será profícuo.

Por mais lamentáveis, pois, que julgueis as discórdias domésticas e sociais, não deveis impacientar-vos porque são frutos do tempo, e as vossas impaciências não conseguirão fazer que avance, nem pouco nem muito, a sua madureza, que ainda não pode produzir-se. E, não vos impacientando, executareis trabalho proveitoso e eficaz para a mesma causa a que com ardor e devoção servis. Começai por vos firmardes no vosso ideal e nos vossos propósitos pacifistas, os quais vos aproximarão do triunfo final; ponde na massa social o lêvedo de vossa paz, o qual, fazendo-a fermentar, contribuirá para pô-la nas condições nutritivas e digestivas mais favoráveis ao progresso das almas que se alimentam dela.

O pior de tudo, o que mais deprime e debilita, é o desengano, e deveis estar à prova de desenganos, não vos surpreendendo com o que observeis, por inaudito que possa parecer, porque tudo é natural e obedece à lei da evolução, e de tudo, por mais injustificável e nocivo que pareça, forçosamente terá que brotar o bem. Pois, se da imundície saem as melhores flores; se da esterqueira sobe a seiva que há de produzir os frutos mais saborosos ao vosso paladar; se das paixões mais vis saem as virtudes mais excelsas, do mesmo modo que do carvão sai o diamante, por que não há de também a paz futura gerar-se assim da guerra como das discórdias domésticas e sociais, assegurando para o porvir a existência de sociedades e lares que convertam a Terra num verdadeiro paraíso?

Angel Aguarod