2 - FILANTROPIA E BENEFICÊNCIA

No caminho que conduz às mais altas eminências da caridade, encontram-se a filantropia e a beneficência, dois termos que, conquanto exprimam a mesma coisa, porque uma única é a origem de ambas, devemos considerar como expressando idéias distintas.

O filantropo se põe em relação íntima com os mais elevados sentimentos da alma, dos quais é ele uma expressão. Exercitam-se na prática da filantropia os dons superiores da individualidade, os quais, por sua elevação, vão sempre diretamente favorecer aquele que passa pela prova da indigência, que lhe pesa sobre os ombros como a cruz do Nazareno, a caminho do Calvário.

A filantropia, rocio benéfico que a Providência permite caia sobre as almas angustiadas na escura noite de suas desventuras, em certas ocasiões estende suas piedosas asas sobre tenros órfãos que, sós no mundo, pereceriam à míngua de carinhos e de frio se não fossem as almas que na filantropia encontram a satisfação da consciência. Não fora ela e muitos anciãos desvalidos se encontrariam sempre às portas da desesperação, terminando sós e miseráveis sua penosa existência, maldizendo dos homens e duvidando da misericórdia divina.

A filantropia, ocultando da luz do mundo a mão com que serve à Divina Providência, no auxílio à indigência, semeia de bênçãos a Terra e faz atrair para ela o bem do Alto. Se não fossem as almas boas, que se entregam à prática do bem, o mal cresceria de dia para dia e, por fim, dominaria definitivamente no planeta. Então, sim, poder-se-ia dizer que o planeta Terra era o inferno das religiões, porque o verdadeiro inferno é um estado de consciência em que esta se acha como que de todo anulada, não permitindo se aprecie o mais ligeiro resquício de bem.

Pode a filantropia, na diversidade com que é praticada, obedecer a sentimentos diferentes, porque não se pode exigir que quantos realizam uma obra o façam objetivando todos um mesmo alvo, cedendo a um mesmo impulso, revelando igualdade de intenção e de graduação; mas, sempre, a ação filantrópica resulta em bem, para o que recebe e para o que dá. Nem o egoísmo espiritual, que possa ser a determinante da ação filantrópica, tira a esta qualquer parcela do seu valor, porque o mérito das ações não se mede com a mesma medida para todos. Ele corresponde ao grau que cada um conquistou na escala de sua ascensão moral.

É a filantropia uma fiel servidora da caridade e, com isto, fica dito que toda ação filantrópica deve merecer as simpatias e os aplausos de todo ser que sinta fundo e pense alto. É a expressão genuína da caridade material.

A beneficência é auxiliar da filantropia, sua irmã gêmea. Enquanto uma obra, dando e ocultando muitas vezes a mão para não ser vista, a outra converte as dádivas em instituições que abriguem o desamparado e lhe proporcionem o pão do corpo e o pão da alma, nos limites do possível.

A beneficência é outra fada ao serviço da caridade a qual se compraz em converter em obra viva e visível os sentimentos das pessoas piedosas.

Não sabem, em verdade, o que dizem os infelizes irmãos vossos que malsinam as instituições de beneficência, considerando deprimente, para a criatura humana, a receber da caridade o pão e o abrigo. É estar fora da realidade opinar dessa maneira. Claro que esses não conhecem, nem, por conseguinte, aceitam outra vida mais do que a presente e não têm em conta que é preciso haja pobres, porque os pobres são os que, em tempos passados, não havendo feito o uso devido das riquezas que se lhes confiaram, forjaram para si a situação atual que ninguém os pode livrar, senão eles próprios, uma vez que tenham sofrido o caudal de conseqüências que seus atos anteriores geraram. Também é necessária a indigência para ensinar a humildade ao orgulhoso, para que o humilde aperfeiçoe mais essa virtude, ou sirva de exemplo aos demais.

E mil outras utilidades têm a indigência, o abandono, a orfandade, não sendo a menor a função que desempenham na economia do mundo moral, dando azo a que, nos que possuem riquezas, despertem a generosidade e o altruísmo e, nos que não as têm, a compaixão e a abnegação para com seus irmãos, aos quais, se não oferecem cabedais, porque não os possuem, prestam serviços pessoais.

As grandes catástrofes, que vos enchem de terror e infundem compaixão e vos levam à filantropia e à beneficência, também têm por escopo, muitas vezes, despertar esses sentimentos e induzir os seres humanos a correr em auxílio das vítimas.

Para conseguir um fim desta natureza, a Providência, em determinadas ocasiões, não mede a magnitude das catástrofes, nem conta o número das vítimas: quanto maior seja aquela e estas mais numerosas, maior será o feito que produzirá nas almas, acordando nelas a piedade, a compaixão, obrigando-as a correr em auxílio de seus irmãos, para ajudá-los a levar a cruz da desgraça, quais outros cireneus.

Quanto maior seja o flagelo, ficai certos de que maior bem produz. Nessas misérias que se vêem por toda parte; nos lares desmantelados, sem luz, nem conforto, onde fome domina e provoca exclamações de desespero à feliz mãe que não pode dar de comer aos filhos que e pedem pão; ali, onde a Parca se cevou, arrebatando existência de quem era o arrimo de uma pobre mãe e a prole numerosa; lá, onde muitos obreiros, com o suor no rosto, ganhavam o sustento, e um desmoronamento ocorreu, ficando muitos soterrados, sem vida e as familiares sem amparo; por toda parte, onde se geme e se chora, forja-se a elevação das almas, tecem-se coroas à abnegação e ao sacrifício a que essas cenas e episódios dolorosos dão lugar.

Se não fosse o que o mundo chama desgraça, dor, infelicidade, desventura, as almas não progrediriam, porque não poderiam desenvolver seus nobres sentimentos. O prazer mundano, a abundância, a saúde, os gostos satisfeitos, as paixões fartas em seus desejos, não levam, não auxiliam o Espírito em seu progresso.

Na Terra, o que de cores mais vivas e agradáveis ao Espírito se veste é o que menos convém para lhe aperfeiçoar os sentimentos; o que é mais tétrico, o que mais aflige, o que com maior intensidade fere e faz que a alma prorrompa em ais de dor, é o que mais convém para a depuração dos Espíritos, tanto dos que aparecem como vítimas, quanto dos que se apresentam como salvadores dessas vítimas.

Os contrastes são sempre benéficos, porque determinam ação e esta, pelo contraste dos sentimentos, sempre determina progresso.

Cumpre, pois, não que se mate o sentimento da caridade, que se pode expressar pela filantropia e pela beneficência, porém que se avive esse sentimento, porque só quando ele domina no ser está este cumprindo o seu dever, e progredindo.

Instituições de Beneficência! Sim, são precisas, muito precisas para atender às necessidades do infortúnio. Que não sejam, porém, sectárias. Colocar nessas piedosas instituições o selo do sectarismo é amesquinhar a obra.

No exercício da caridade, todos os humanos deveriam confundir-se. A caridade e, portanto, sua expressão em forma de filantropia e de beneficência, não tem credo determinado. A caridade não pertence a nenhuma em especial; é patrimônio de todas as escolas, de todas as confissões, de todos os seres e todos, no exercício da caridade, deveriam andar de mãos dadas.

A caridade, qualquer que seja a forma por que se expresse, deve ter sempre por efeito estreitar os laços do afeto humano, da fraternidade entre as almas.

Quando todos os homens se unam nas obras de beneficência e pratiquem a filantropia, sem levar em conta crenças nem opiniões e unidos se achem todos, não pelo credo que professem, mas pela obra que realizem, a Humanidade terá dado um passo gigantesco no caminho de sua evolução.

Sede filantrópicos, sede caritativos, praticai a beneficência, fundai instituições beneficentes; se quiserdes, porém, que tudo isso corresponda ao genuíno sentimento da caridade, não lhes imprimais cunho algum confessional, seja ele qual for.

A caridade é caridade, e nada mais que caridade, e abrange cristãos e maometanos, budistas e confucionistas, bramanistas e teosofistas, católicos e espiritistas, protestantes e cismáticos, ateus e deístas, sem distinção nenhuma, porque todos são filhos de Deus, objetos de seu amor inesgotável. Dar cunho particularista a uma obra de beneficência, distingui-la com um adjetivo alheio à sua função, para diferençá-la de outras, é, como já disse, amesquinhá-la, despojá-la do maior brasão que a deve distinguir, ornando-lhe a fronte com a imaculada auréola da verdadeira caridade.

Avançai, ó homens, para a fraternidade que todos deveis cultivar, praticando a caridade sob todas as suas formas, como a expressão mais perfeita do sentimento fraternal, porque nesse sentimento se fundem todas as virtudes que culminam na caridade.

Angel Aguarod