2 - O PROBLEMA SOCIAL É UM PROBLEMA DE ÉTICA

Isto disse alguém e eu o confirmo, porque onde quer que ocorra alguma divergência entre os homens, haja diversidade de condições, ou se apresentem desigualdades irredutíveis, encontrareis de permeio o influxo moral.

Onde quer que vos coloqueis para observar os fatos, ou qualquer manifestação humana, a causa moral desses efeitos é o que imediatamente vos chamará a atenção, ou o que procurareis conhecer, se se não apresentar clara e definida.

Desigualdades sociais, enfermidades, desavenças ruidosas, conflitos de interesses, tudo o que gera desgostos e infelicidades ao gênero humano tem na ética a causa e o remédio.

Não preceituou o divino Nazareno que os homens se amassem uns aos outros? Se assim fizessem; se assim soubessem fazer e obrassem de conformidade com esse preceito, nenhuma questão haveria mais, porque a questão, o problema resulta da falta de entendimento, de concordância entre os homens, para regular todos os assuntos, com satisfação de todos.

Tal satisfação impossibilitam-na o egoísmo, o orgulho, a presunção, a preocupação de domínio, ou instinto de crueldade arraigados no homem, em geral. Quando esses baixos sentimentos imperam, é impossível um acordo satisfatório entre as partes, de modo que sempre aparece uma dominando e a outra subjugada,

Nesses dissídios e desavenças, nas desigualdades que tudo isso dá origem, apóiam-se os sociólogos para afirmar a existência do problema social. Porém, ao afirmarem-no, andam evidentemente desacertados, pois tomam o efeito pela causa, Daí o pretenderem resolvê-lo com revoluções, guerras políticas, ou sociais, leis, ditaduras, libertando a uns e oprimindo a outros, o que jamais trará a solução do problema, como não traz a cura de muitas enfermidades a aplicação empírica de certos agentes medicinais, se não estão indicados para a doença como capazes de lhe atacarem a causa; serão, quando muito, paliativos simuladores de uma cura que não se pode produzir; que só na aparência se opera, simulacro que, de fato, apenas serve para permitir maior virulência ao mal, quando reapareça, deixando o estado latente.

Não há virar a página; só se extirpam os males, realmente, quando se opera sobre a causa produtora. Não tendes disso um exemplo no combate aos vícios e paixões desordenadas, que infelicitam algumas criaturas? Se não se golpear com força a cabeça da hidra que os gera, até esmagá-la, impedindo-lhe novos botes, eles não se extinguirão.

Na ordem social, o mesmo sucede. Se se não conseguir maior moralidade nas relações entre todos os entes humanos, não será com guerras, revoluções, assuadas, leis e decretos, que melhorará o estado social, nem se abolirão as desigualdades existentes, Essas desigualdades existirão e se acentuarão tanto mais, quanto mais sensíveis forem as desigualdades e diferenças naturais verificáveis entre os membros da massa social. E as diferenças e desditas humanas, por conseguinte, se acentuarão também na proporção em que predominem os baixos sentimentos inerentes à natureza inferior do homem.

Tem-se dito que "onde o amor impera, são demais as leis". Efetivamente, assim é, porque todas as leis se fundem numa só, acatada e observada por todos: a Lei do Amor.

Pois bem: quando a esse ponto se chegar, poder-se-á falar de diferenças sociais? Lamentar-se-á que alguém ocupe o lugar que lhe compete na sociedade? Ah! não! Quando impere a Lei do Amor, não haverá descontentes, porque não haverá quem não procure satisfazer ao seu irmão, até ao ponto de cifrar a própria ventura na ventura que consiga proporcionar ao próximo.

Não se vê aí uma questão de ética? Não terá sido princípio ético do amor ao próximo, que acabou com desigualdades estabelecidas entre os homens, que pôs termo a todas as diferenças, a todas as rivalidades, a todas as desavenças?

Podem, pois, os sociólogos de todos os matizes inventar novos sistemas sociais para regular e harmonizar a humanidade; podem idear novas formas de organização para os povos; elaborar leis tão sábias quanto possível; imaginar os mais perfeitos organismos sociais, até criar sociedades ideais, à semelhança de paraísos de delícias. Se a tudo isso não estiverem aptas as massas, por corresponder isso tudo aos sentimentos desenvolvidos em cada um de seus membros, tudo será em vão. A ética estará eclipsada, não se lhe deu a hegemonia indispensável em tais elucubrações; por conseguinte, o fracasso será o resultado fatal de tais idealizações, desde que lhes dêem corpo no organismo social.

Sim, a solução ao problema social virá; porém, só pela ética, pelo império da lei moral nas consciências, porque somente a lei moral é capaz de resolver, não só o problema social como todos os demais problemas, visto que todos, absolutamente todos os que entendam com os interesses humanos, são problemas de ética.

Todos, então, por si sós se resolvem, porque, regendo-se os seus fatores pela lei moral, da qual se tornam escravos, desaparece o litígio e com ele o problema:

Imaginai, por um momento, uma congregação de operários ao serviço de um patrão; que este e aqueles não reconheçam outra lei a não ser a lei moral, fazendo rigorosa aplicação do mandamento cristão de amarem uns aos outros. Que aconteceria nessa comunidade? Que o patrão se converteria em pai de seus operários e estes se considerariam filhos do patrão. O primeiro, portanto, não abusaria da sua posição, que utilizaria toda em favor de seus filhos-operários, muito amados, e estes, pela compreensão de que, servindo a tal patrão-pai, serviriam a Deus e contribuiriam para a realização de seus desígnios, se esforçariam no cumprimento dos deveres, e não haveria entre eles conflito algum de poderes, de supremacia, de interesse, nem de coisa alguma. Uns e outros, considerando que as diferenças existentes são condições precisas para o desenvolvimento do plano divino, para a realização da obra a todos confiada, se conformariam com ocupar o posto que lhes correspondesse e não invejariam o lugar que ocupasse o irmão. Membros necessários de um mesmo corpo, todos se submeteriam à Lei e cumpririam fielmente a missão que lhes tocasse, como ocorre com o corpo humano, cujos membros não se invejam uns aos outros, nem aspiram a desempenhar funções que não lhes competem.

Vedes assim que só pela ética se pode chegar à solução do problema que nos preocupa.

Teve razão quem isso disse e eu, confirmando-o, vos convido a todos quantos me lerdes a que laboreis para que pela ética e não por outros meios se procure a solução, pois não há outro meio seguro de consegui-la.

Angel Aguarod