3 - A ASPIRAÇÃO À PAZ

As raízes da paz se encontram na própria guerra, conforme mostrei. Ora, sendo a guerra uma contingência especial que tortura o indivíduo, causando-lhe desgostos sem conta, avanços e retrocessos freqüentes, gerando contrariedades, despertando paixões, pondo em comoção até as mais insignificantes fibras do coração, claro é que, como coisa natural, desse estado anormal há de o homem procurar libertar-se.

Porque, se a guerra é o estado febril que determina o desassossego das criaturas; se é um acidente que se enquadra no plano da evolução dos seres, transitório, portanto, difícil não é compreender-se que o oposto dessa anormalidade fatigante e amarga, para os indivíduos e para os povos, tem que ser a paz.

A paz, pois, é o definitivo; a guerra, sob todos os seus aspectos, é o acidental, o transitório. Como o sentimento inato dos indivíduos, sentimento que se encontra em gérmen e se desenvolve em cada ser, tende sempre a se engrandecer, estender e intensificar no sentido do que há de ser permanente, da realização do que há de divino em todos os seres, no imo destes, mais ou menos desenvolvida, existe a aspiração pela paz. A própria guerra se desencadeia, muitas vezes, tendo-se em mira a consecução de mais perfeita paz, mais duradoura do que a de que se desfrutava antes.

Em todo indivíduo um pouco evolvido existe a aspiração à paz; mas, o desconhecimento das leis e das causas, da correlação dos efeitos com estas, leva as criaturas a procurar a guerra, a desejá-la, a aceitá-la, em certas ocasiões, com regozijo, em holocausto à paz. É isso um desvio da razão, um contra-senso; porém, de desvios e contra-sensos está semeado o caminho pelo qual transitam as almas em direção às alturas, aos cumes espirituais. E, supondo esses desvios e contra-senso ouro de lei ou pedras preciosas, por eles se deslumbram e se deixam dominar, transformando-os em talismã mágico, a cuja influência incontrastável não mais podem forrar-se os temperamentos belicosos, desde que sofram a menor violência, ou vejam contrariadas suas idéias.

Somente a guerra pode matar a guerra. A paz não é apreciada pelas almas pouco evolvidas, quando a têm, apreciam-na quando lhes falta, do mesmo modo que, nas almas de tal categoria, a saúde é coisa que pouco vale, que não merece atenção alguma, enquanto existe, porém que adquire inestimável valor desde que perdida.

O indivíduo, até chegar ao ponto médio de sua evolução, é a irreflexão contínua; tudo vê, por isso, ou quase tudo, ao inverso do que é. Deseja a paz e, por assegurá-la, apela para a guerra e nesta não a encontra, não obstante ter que sair da guerra a paz, porque não sabe compreender que deve pôr termo às suas tendências guerreiras, a fim de, por uma vez, se firmar em processos mais racionais e conducentes à paz.

O desejo de paz, nos que ainda não chegaram ao ponto médio da evolução, permanece em estado de aspiração, por não terem sabido tirar dos descalabros sofridos as conseqüências naturais que deles brotam e mediante as quais aprende o ser racional a cimentar a paz na própria paz, isto é, na paz da alma, que exige, para tornar-se efetiva, a eliminação de todo sentimento antifraternal, o sacrifício em vez da exigência que pode despertar nos outros a besta que jaz adormecida na última dobra do coração.

As catástrofes enormes que a guerra ocasiona, lançando os povos na miséria, em vez de conduzirem à paz e ao bem-estar ambicionados conduzem a um estado aflitivo e desesperador, em que sangram os corações dos que perderam seres amados na fratricida e trágica voragem.

Os patrocinadores e apologistas das guerras colhem delas o que não esperavam e, depois, em vez de escarmentados por tantos desastres que atingem uma infinidade de criaturas completamente alheias às questões em litígio e infensas às lutas armadas, avivam ainda mais em suas almas o rescaldo do ódio. Cevam-se nos vencidos, humilhando-os e esmagando-os, exterminando-os até, se os têm nas mãos. Não se dá curso ao sentimento de fraternidade que existe, pelo menos latente, no sacrário da alma; afoga-se a voz da generosidade, que o coração tenta fazer ouvida, e o que se considera mais forte opta por maiores violências. Isso alimenta, para o futuro, o gérmen de lutas mais cruentas do que as passadas, cuja lição dolorosa não se soube ou não se quis aproveitar. Os fortes ventos assim gerados forçosamente produzem maiores tempestades no porvir, porque é da Lei que, quando um filho de Deus não se corrige com uma pequena aflição, tem que sofrer depois outra maior; se com essa ainda não se emenda, ela se intensificará, até que o fardo, por ele próprio preparado, se lhe torne tão pesado que o decida a mudar de rumo.

São assim os indivíduos e, por serem assim os indivíduos, assim também são as sociedades, que, como sabeis, são um conjunto de indivíduos e têm que revelar as virtudes ou os vícios dos que as compõem.

Como aqueles não se transformam subitamente, nem mesmo diante dos maiores fracassos, tampouco as sociedades se podem transformar repentinamente, de maneira radical, como o pretendem os idealistas que, se possuem generosidade, carecem muito do conhecimento da psicologia individual e coletiva das massas.

Assim é que, umas após outras, vêm as hecatombes e que indivíduos e povos, buscando a paz, se engolfam cada vez mais na guerra.

Querem estabelecer a paz, afligindo o vencedor o vencido, tornando-lhe a vida mais difícil, quando não impossível, ferindo-o na sua dignidade e em tudo quanto ele pode ter em maior estima. É seguir caminho errado. Esse caminho não conduz à paz, conduz a uma guerra mais cruenta, que se repetirá até que, fartos de lhe sofrerem as terríveis conseqüências, indivíduos e povos retifiquem a sua conduta, ouvindo a voz do Redentor, a qual acabará por não ser desprezada como dantes.

Por isso, da guerra tem que vir a paz, não porque a guerra não seja o oposto da paz, mas porque o flagelo da guerra conseguirá finalmente chamar à reflexão os indivíduos, os quais, melhor instruídos, por terem progredido nas coisas da espiritualidade e esperando mais do céu do que da Terra, do amor mais que do ódio, se decidirão a abandonar todos os processos bélicos, a desterrar de seus sentimentos a guerra e, portanto, de seus costumes e até de suas leis. Então, encontrarão eco nas almas os planos de arbitragem para dirimir as questões; os propósitos de desarmamento das nações poderão realizar-se e as ligas nacionais e internacionais em prol da paz alcançarão êxito.

Enquanto essa transformação nos indivíduos não se produzir, continuarão as guerras cada vez mais cruéis e fatais, as dissensões domésticas e sociais tomarão caráter de maior violência e tudo irá fazendo avultar a infelicidade geral, que outra coisa não pode produzir a violência, sobretudo quando se traduz nas lutas cruentíssimas e desumanas dos tempos atuais.

Afortunadamente, na cena do mundo se debatem ideais nobilíssimos e elevados, que, projetando cada dia mais luz, refulgindo cada vez mais pela análise e discussão, chamarão à razão os homens, que compreenderão finalmente onde lhes está o interesse. Esses ideais, entre os quais ocupam lugar proeminente os que apresentam o Espiritismo vivificado pela seiva evangélica, iluminarão as consciências humanas e o homem se inclinará ante os preceitos divinos, que lhe ordenam amor e só amor. Instruídas assim as criaturas, compreendendo que, não na guerra, mas na paz, se encontra a redenção, tanto individual como coletiva, proscreverão os povos para sempre a guerra e começará o império da paz.

Enquanto isso não se dê, a aspiração à paz sofrerá contínuos eclipses e, por grandes que sejam os esforços dos pacifistas, para que ela domine o mundo, não conseguirão grandes coisas, até que pacifistas se tenham tornado todos os seres, pois, desde que haja um só que não o seja de coração, a paz na Terra não estará definitivamente implantada.

Grande tarefa é a dos que, aspirando à paz, trabalham sem descanso no sentido de firmá-la. não desperdiçando o tempo e sujeitando-se aos maiores sacrifícios. Tarefa é essa grande e nobre e bem farão prosseguindo nela, apesar dos fracassos, pois que estes são apenas aparentes. Um pensamento pacifista não se perde: incorpora-se no acervo comum, enriquecendo o manancial de paz que um dia inundará o mundo.

Porém, a paz não pode vir do exterior, como o quer a maioria dos pacifistas; há de brotar do fundo da alma de cada um, mediante um renascimento interior que todos devem cuidar de fazer se opere quanto antes.

Angel Aguarod