3 - A CIÊNCIA DA CONFORMIDADE

O ser humano, como é muito lógico, busca a felicidade, porque ser feliz é seu destino e, em sua evolução, tudo propende para a realização do objetivo de sua existência.

Porém, a conformidade, sem a qual não é possível que o ser consciente, dotado de inteligência, de razão, de livre-arbítrio, seja feliz, é efeito e não causa. Quer isso dizer que ela não se alcança sem a realização de certas premissas, que a preparam e que são a humildade, a paciência, a resignação, o conhecimento do plano da evolução, da invariabilidade das leis divinas. Realizadas tais premissas, tem o ser o conhecimento necessário dos motivos por que lhe cumpre praticar a resignação e, por conseguinte, a conformidade. A alma, então, assente em tudo o que é inevitável, sem protesto algum, ao contrário, com gratidão e satisfação completa, por mais que flagelada seja. Aí, a conformidade, que essa aparente passividade determina, é o fruto que ele colhe das virtudes cultivadas e conseguidas, bem como das aquisições de todas as ordens, efetuadas e incorporadas definitivamente ao seu patrimônio moral.

É, portanto, a conformidade uma ciência, ciência mais positiva do que as chamadas ciências humanas ou naturais e sem cujo cultivo e aprendizagem impossível se torna chegar o ser ao estado de perfeita felicidade a que aspira.

Se é assim, claro está que a conquista da conformidade, que a aquisição dessa ciência das ciências, mesmo dessa sabedoria das sabedorias, tem que ser objeto de muitos desvelos, de incalculáveis esforços, que só está ao alcance do Espírito consciente de seu destino.

Constitui despropósito pretender-se que possuam a ciência da conformidade o ignorante, o vicioso, o que não a cultivou com verdadeiro afinco, tirando delas os devidos frutos, as virtudes da humildade, da paciência, da resignação. Não se pode pedir conformidade àquele que está ainda muito longe de conhecer o plano da evolução, àquele que ignora que a Lei divina é incorruptível e sempre se cumpre, de acordo com a vontade do homem, ou mau grado a essa vontade.

A conformidade daquele que nada pode fazer não é conformidade; pois, enquanto ele exteriormente se submete à força das circunstâncias, sua alma protesta no íntimo. Esse, que assim pareça conformado com o que lhe sucede, se rebelará ostensivamente e com toda a violência de que seja capaz desde que deixe de existir o que lhe infundia o temor, que o fazia parecer submisso e conformado.

Demais, a falta de conformidade, em todos os graus da evolução inferiores àquele em que se tem conhecimento desta e dos deveres para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo, está dentro da Lei divina, é uma necessidade para o Espírito pouco evolvido.

Por quê? Que sucederia, se na lei existisse uma sanção mediante a qual o ser humano, em graus inferiores de sua evolução, pudesse viver conformado e, pois, gozando da felicidade que, embora relativa, lhe satisfizesse à alma, ainda não suficientemente evolvida? Sucederia ficar estacionário o ser. Feliz, por ter adquirido a capacidade de conformar-se, capacidade que torna efetiva a felicidade, que mais ambicionaria ele? Indubitavelmente, nada.

Mas, determinando a Lei divina que a conformidade completa só se consiga quando se haja chegado a grandes alturas no aperfeiçoamento moral, o Espírito, posto na corrente da evolução, não pode ser feliz, durante toda a trajetória que tem de percorrer; porque, onde alcançasse a felicidade permanente, aí estacionaria, absolutamente conformado com essa situação. Ora, o destino do Espírito não é parar num ponto qualquer da escala da evolução, e sim percorrê-la toda, com todas as peripécias que lhe são inerentes. Só quando tenha feito todo o trajeto e chegado ao ápice da escala, vem a conformidade absoluta e, como corolário, a felicidade permanente, que é fruto de toda a ação desenvolvida e de todas as aquisições definitivamente realizadas, ao longo do imenso percurso, que começa ao sair a mônada, individualizada, do seio de Deus, e termina quando, pela realização completa do seu destino, conseguiu a fusão com a Divindade, isto é a integral união com o Pai, por não existir mais no ser espiritual coisa alguma que possa obstar a essa união, eterna, com a essência divina.

Mas, antes de chegar a esse grau supremo de perfeição, o Espírito goza das primícias da felicidade celeste, porque sua conformidade com a vontade divina, no sentido moral, pode ser absoluta. A esse estado se vos chama, seres que peregrinais pela Terra, estado que podeis alcançar, estudando a ciência da conformidade, porque, no caso, devemos compreender como perfeição, não a perfeição absoluta, incompreensível para o homem, porém a perfeição moral, que se pode compreender já na Terra e também praticar, elevando-se a criatura às maiores altitudes espirituais compatíveis com o estado de encarnado, altitudes que deixam entrever outras ainda mais excelsas, porquanto deveis considerar que, aos olhos humanos, os Espíritos superiores, encarnados, nunca aparecem na sua verdadeira elevação: sempre estão acima do que representam ante a atônita humanidade que e a contempla, por mais alto que ela os julgue colocados.

A humanidade não compreendeu, nem pôde compreender ainda, a elevação real alcançada pelo excelso Espírito do divino Messias, nem dos que, como Apóstolos o acompanharam. Estes mesmos revelaram, segundo Evangelhos, certas debilidades que não tinham, despojados da natureza humana, em sua condição de Espíritos desencarnados.

Pode-se, pois, chegar à perfeição moral, sem se haver alcançado a perfeição sideral, que torna o Espírito uno com Deus, e adquirir, nessa perfeição moral, a conformidade e a felicidade permanentes, que são o desiderato de todo Espírito e motivo determinante de sua passagem pelos mundos físicos, qual a Terra.

Todas as virtudes têm por objetivo conduzir a esse estado que acabo de mencionar, o qual, entretanto, como já deixei dito, não se adquire de maneira permanente, nem convém que dele goze o Espírito, enquanto não tenha chegado à cúspide da compreensão e da prática das virtudes sempre recomendadas pelos Messias e moralistas e de vós bem conhecidas.

A conformidade! Trabalhai por adquirir essa ciência divina, que nela reside toda a sabedoria moral que possais imaginar. É, sim, a Ciência das ciências, a Sabedoria das sabedorias. Porém, não espereis que isso vos venha do exterior; tem que sair de vós mesmos. A conformidade, estado glorioso, está em potência no mais íntimo do vosso ser e se vai desenvolvendo à medida que ides adquirindo maior conhecimento da Verdade divina, à medida que vos ides emancipando de vossos vícios e defeitos e esgotando o fardo de vossas responsabilidades, que diminuem com os sofrimentos expiatórios e com as demais provas a que a Providência vos submete. .

Entretanto, se longe está, para a maioria dos seres, o alcançar a conformidade absoluta, que há de trazer a cada um a felicidade permanente, ao alcance de todos está o se firmarem, cada dia mais, numa conformidade relativa, que lhes tornará a vida mais proveitosa, menos duras as batalhas da existência, maior cada dia a felicidade verdadeira, que não traz espinhos escondidos à semelhança da rosa, e que, embora não seja completa, nem permanente, é de natureza a não ter coisa alguma que empane.

Para conseguirdes essa relativa conformidade, que irá sempre crescendo de intensidade, basta considereis que, existindo Deus, é Ele justo, na sanção de sua Lei, em todas as circunstâncias, não obrando jamais arbitrariamente, ou seja, para com uns de uma forma e de forma diversa para com outros, mas igualmente para com todos sempre do melhor modo. É inevitável a sanção da Lei Divina, que exprime a vontade de Deus. A Lei atua sempre como deve atuar. Uma vez efetivada a sua ação, como rebelar-se a criatura contra a sua sanção, forçosamente evitável e sempre justa? Todos os fatos, sejam de que natureza forem, se enquadram no que deixei exposto. Sendo assim, não é uma insensatez rebelar-se a criatura contra os fatos, que de maneira alguma poderiam deixar de dar-se? A conformidade, pois, se impõe e traz consigo a felicidade correspondente, que, embora se trate de um Espírito pouco evolvido, representa a ausência do pesar que produz a inconformidade com fatos a cuja ocorrência fora impossível fugir e das conseqüências deploráveis, amargas, às vezes dolorosíssimas, decorrentes da falta de conformidade.

Conformar-se com a sanção da Lei, e todos os fatos exprimem esta sanção, produz sempre, para gozo do Espírito, um bem. Como há de um Espírito, que não careça de bom senso, desprezar esse bem indubitável, para buscar, pelo protesto, que desperta cólera, ira, ciúmes, inveja, ódios, etc., a infelicidade que lhe é conseqüente?

Absurdo, que se paga caro, é o não se conformar com os fatos consumados. Mas, neste ponto, convém não falsear o raciocínio, para não cair em funesto erro. Os fatos são sempre efeitos de causas que residem no Espírito. São, pois, inevitáveis. Rebelar-se contra esses fatos fora insensato, porque fora como querer que o que aconteceu não haja acontecido. Porém, diferença grande há entre essa conformidade com o fato consumado, cuja ocorrência já se não pode evitar, e o não se tirar deste mesmo fato o devido ensinamento com que se evite a formação de causas que produzam outros fatos prejudiciais ao ser.

Conformar-se com os fatos que não se puderam evitar, porém, ao mesmo tempo, estudá-los, pesquisando-lhes as causas, para que se não reproduzam, eis o que é sensato, lógico, razoável, o que está em concordância com a Lei divina.

Cometestes um deslize; esse deslize, forçosamente tem que vos trazer, com o fato que o originou, conseqüências desagradáveis. Contra esta sanção não vos podeis rebelar, porque nada conseguíreis de bom, senão agravar o mal com o vosso protesto, com a vossa falta de assentimento à realização dos efeitos, fruto natural da causa que engendrastes com o vosso proceder. O que cabe e deveis fazer é, conhecendo a causa que gerastes, produtora do fato ou efeito desagradável, não a engendrar novamente; antes, procurar que se gere uma de natureza oposta. Porque, tantas outras vezes quantas gerardes a mesma causa, produzirá ela os mesmos efeitos desagradáveis e, ao demais, ampliados, pela maior força que nela se desenvolveu, devido à repetição. Vedes que, quando se adquire um vício, seus efeitos, a princípio, são leves; porém, à força de repetir-se, cada vez mais se vão agravando aqueles efeitos, até tomarem caracteres de extrema gravidade, que obrigam o ser a corrigir-se radicalmente.

Assim, todo abuso ou mau uso de uma coisa constitui uma causa que forçosamente há de trazer conseqüências dolorosas, ou ingratas para aquele que a gerou. Como evitar os efeitos, uma vez geradas as causas? Evitar-se-ão com o protesto, com a blasfêmia, acusando a um e a outro, ou à própria Divindade? Ah, não! Isso nem só não remedeia a coisa alguma, como, pela falta de conformidade, torna o ser infeliz. Cumpre-lhe, pois, reconhecer a justiça do efeito, por estar em inteira correspondência e concordância com a causa que o gerou e, assim, evitar, como já disse e repito para que se fixe bem na vossa mente, a formação de novas causas, que possam conduzir a maus ou desagradáveis efeitos, que ocasionam a infelicidade .

Aprendei, pois, a ciência da conformidade, fundando-vos nos motivos que deixo expostos e, sem dúvida, chegareis resignadamente a conquistar essa virtude, que vos produzirá um estado de calma, de tranqüilidade invejável, em meio das lutas da vida, que vos permitirá gozar de tanta felicidade quanta é possível na Terra.

Angel Aguarod