3 - A CONDESCENDÊNCIA

A condescendência é a característica mais atraente da benevolência. O condescendente consegue amizade de valia e se torna senhor de muitas almas. Mas, é uma virtude muito difícil de ser praticada com resultado, pelo cair muitas vezes a criatura no excesso, que consiste em supor que condescender significa cumplicidade com coisas e fatos inconfessáveis.

A condescendência, praticada sem discernimento, pode conduzir à consumação de males graves: é preciso grande discrição e critério esclarecido, para ser-se condescendente com proveito.

Há condescendências que envenenam corpos e matam almas; são as de que se usa para com o que é pecaminoso e abominável.

A condescendência tem por companheiras inseparáveis a afabilidade e a doçura: sem esses dois complementos, acha-se deformada, porque o principal efeito da condescendência é despertar a simpatia e o afeto nas outras almas, a fim de conduzi-las depois pelo caminho reto do bem, se andam desviadas dele, e, se não, para associá-las com fins elevados.

Não se suponha que tudo o a que por aí se dá o nome de condescendência como tal deva ser aceito, uma vez que os resultados não abonam tal designação.

Já disse que não se pode, nem se deve condescender com tudo, sem que se torne danosa a condescendência, visto que prejudicará ao que é dela objeto, em primeiro lugar, e, em seguida, ao que tão indiscretamente a pratica.

A condescendência, virtude elevadíssima, precisa não ser prostituída, arrebatando-se-lhe, pelo uso impróprio que dela se faça, a excelsa beleza. A virtude, que a deve acompanhar sempre, é a bondade, da qual é ela filha predileta. A condescendência que não se escuda na bondade é daninha, como o é a tolerância, quando não valorizada por essa mesma bondade.

O Justo entre os justos, o divino Nazareno - bem o sabe todo aquele que conhece o Evangelho -, pondo como preceito o amor até aos inimigos e aos verdugos de si próprio, se atreveu a aconselhar o abandono de pai, mãe, irmãos e até da própria vida, por Ele. Por quê? Porque a condescendência para com o próximo e, por conseguinte, a expressão do afeto amoroso tem um limite na sua manifestação de doçura e suavidade e esse limite está no ponto a partir do qual a condescendência implicaria cumplicidade com o que esteja em oposição à Lei divina, aos preceitos morais do Redentor, em conflito com a verdade e o bem. Esse limite não o deve transpor jamais quem aspire à perfeição moral e essa aspiração deve tê-la toda criatura racional, para seu próprio bem, pois que o objeto de sua existência é alcançar sua alma o cume do aperfeiçoamento.

Cumpre, porém, ter-se presente que o que aspira à perfeição e que, por não o permitir o Mandamento divino, deixa de condescender com os desejos, pretensões, exigências do próximo, está obrigado a expressar essa recusa de condescender até tais extremos, com espírito de benevolência, que suavize quanto possível a negativa a oposição forçada. É preciso que, até mesmo nesses casos, o transviado receba um benefício, uma vez que a atuação daquele que aspira à perfeição deve apoiar-se na bondade, no amor ao semelhante e coisa alguma deve fazer que não seja para beneficiá-lo. Na oposição ou recusa a satisfazer imposições ou desejos alheios importa haja o interesse de beneficiar ao próximo. Assim, a recusa atenderá não somente ao bem individual do que desse modo procede para não delinqüir, mas, ainda, ao bem de seu irmão, que lhe cumpre atrair ao bom caminho.

É preciso, pois, para que isso se dê, procurar a maneira mais conveniente a empregar, de sorte que a recusa resulte benéfica, em primeiro lugar, ao transviado que necessita de guia e de médico.

Desde então, é absolutamente necessário se prescinda de toda violência, tanto de pensamento, como de palavras e de atos. Não deve jamais aquele que pratica a condescendência perder o domínio de si mesmo, a fim de mostrar-se íntegro, como discípulo do Cordeiro sem mácula, que foi cravado na cruz. Vede, quando o insultavam e esbofeteavam, com que doçura perguntou ao infeliz que lhe bateu com a mão na divina face: Se falei bem, por que me feres? Se mal, dize-me em que foi?

Até ao fim de sua missão, o doce Galileu nunca deixou de ser manso e sereno, cativando as almas bem dispostas com a sua doçura e magnanimidade, até quando profligava abusos. Jamais condescendeu com o pecado; nunca, porém, repeliu o pecador.

Assim deve fazer todo o cristão, todo o que aspire à elevação de seu ser na escala da espiritualidade.

E, quando disse que deixasse parentes e amigos aquele que o quisesse seguir, não mandou o divino Messias que esse ato se revestisse de ostentosa violência, nem de uma expressão que viesse cavar ainda mais o abismo que impeça a união. Quis significar unicamente que ninguém deve acompanhar a quem quer que seja em seus extravios. Preceituando sempre a doçura e a benevolência a para com os maiores criminosos e inimigos, como poderia Ele pretender que alguém deixasse de ser doce e benévolo para com seu pai, mãe, filhos, irmãos e amigos, de cuja opinião ou procedimento discordasse? Fora absurdo.

Por isso, preciso se faz grande tino, particular discernimento, prudência e discrição excepcionais, na prática da condescendência, conforme Deus manda.

É uma arma que só pode ser bem manejada por Espíritos muito evolvidos; porém, todos devem começar a praticá-la, se já não começaram, e a aperfeiçoar-se nessa prática os que já se iniciaram nela e algum resultado colheram.

Não se pode pedir à criatura humana que faça uso perfeito dessa virtude ou qualidade superior da alma, porque nenhuma se encontra ainda em condições de mostrar a perfeição que tal uso requer; pode-se-lhe, porém, pedir que se aprofunde no estudo de tão elevada faculdade, para praticá-la cada dia melhor.

A condescendência se presta a converter-se em bajulação, tornando-se então altamente prejudicial. Importa fugir dos exageros. A bajulação é hipocrisia, quando não tem a escusá-la a boa-fé, e passa a ser de todo ponto condenável quando é um exagero da condescendência. Conseguintemente, num e noutro caso, essa forma de expressão de um sentimento, que se parece com a condescendência, é condenável.

Esta deve ser sempre sincera, franca, leal, aprovando o que mereça aprovação, mas, negando-a a tudo o que não a mereça.

Objetarão, talvez, que, sendo assim, desaparece a condescendência. Responderei que, de todo, não, porque o condescendente que ama a seu irmão e, portanto, lhe quer bem, se diz claramente que é mau o que ele pensa, faz ou externa e não é atendido, nem por isso o abandona; cumpriu o seu dever e continua a ter-lhe o mesmo afeto, a mesma amizade, a mesma dedicação, até maior, visto que o enfermo é que necessita de médico. Então, se não transige, se não aprova o que no seu próximo é contrário à lei e à justiça e assim o manifesta, não o deixará entregue à sua própria sorte, procurará condescender com tudo o que não está em conflito com o divino preceito.

Quem anda pelo caminho reto do bem, nas suas relações com os outros sempre triunfa, tanto quando lhe aprova as ações, como quando as desaprova, porque jamais imprime cunho de rivalidade, de inimizade e, muito menos, de ódio e de rancor à oposição que manifesta.

O que assim procede é escravo da verdade e a verdade que ele chega a vislumbrar, ou que lhe ilumina a alma, se espalha, como maná bendito, para nutrir os que estão em condições de assimilá-la.

A condescendência, de que toda gente tanto se descuida, deve ser estudada e praticada; estudada, para não se confundir com outro sentimento malsão e manifestar-se com discrição e justiça; praticada, porque a sua prática proporciona muitos triunfos às almas generosas, cujo maior prazer consiste em servir a Deus, servindo ao próximo, fazendo-lhe todo o bem possível.

A condescendência, no lar, gera a paz na família, e o condescendente se torna senhor de todos os corações. A falta de condescendência, de uns para com os outros membros de uma família, origina as discórdias domésticas, que muitas vezes degeneram em tragédias. E o Espírito cristão, que seja condescendente com os de sua própria família, chegará a impor-se de tal maneira que será nela o árbitro.

Porque, cumpre considerar que não é aquele que mais grita e mais poderio pretende exercer sobre os outros o que mais autoridade alcança sobre as almas. Ao contrário, esse não consegue autoridade alguma; só desperta antipatias, ódios, etc... Podem temê-la, porém não o amam, nem lhe reconhecem autoridade moral alguma. Quando perca sua posição, ou a enfermidade o inabilite para continuar com as fumaças de grão-senhor, já ninguém o tomará em consideração seja para o que for. Aquele, entretanto, que não demonstra jamais querer ser superior aos outros, que não pretende subjugar a ninguém, nem se impor de qualquer forma, que é condescendente com tudo o que não seja de capital importância, ainda que não muito correto, esse se impõe moralmente e merece o apreço e simpatia de quantos o cercam ou conhecem. Quem menos procura dominar é quem, sem o pretender, governa as almas. O indivíduo, por exemplo, que condescende com todos, sempre afável, de expressão meiga, mas sem fingimento, que só cuida do bem alheio e está sempre pronto para o serviço de seus irmãos e nele se esmera, que nunca protesta, nem toma as coisas pelo lado do mal, esse triunfa sempre sobre os outros e sua vontade é a que domina.

É bom condescender até com coisas que de certo modo repugnam, pois, para conseguir-se um fim nobre, digno e por conseguinte bom, não se devem medir sacrifícios. Mais ainda: deve-se buscar o sacrifício, para nele gozar, pois que os Espíritos elevados não conheecem gozo maior do que o que provém do sacrifício que a Divina Bondade lhes permite realizar. Jamais deve o Espírito, que quer progredir moralmente, esquivar-se ao sacrifício, visto que, no sacrifício, está o seu benefício. Deve-se condescender com todas aquelas coisas que não sejam de suma importância, mesmo contrariando os gostos e preferências próprios. É conveniente muitas vezes fazer o que repugna e passar pelo que a alma repele, porque aquele que quer ascender deve renunciar a tudo que não seja bem, negar-se a si mesmo, para só realizar o que corresponda aos ditames da Lei divina e esta exige é que quem pós os pés na Senda da Perfeição viva consagrado à obra divina, sob todas as formas e modalidades, mesmo as mais estranhas e incompreensíveis.

Eis aí por que deveis ser condescendentes com todos e em tudo. É que deveis dar o exemplo, a fim de que no vosso exemplo, mais do que nas vossas palavras, se possam apoiar os outros, para seguirem rumo conveniente. É que também vos cumpre exercer atração sobre as almas, para aproveitardes a autoridade moral que consigais vos reconheçam e atraí-las às vossas idéias.

Senão, vede: conseguireis vos atendam aqueles a quem combateis, censurais e negais toda condescendência? Bem sabeis que não. E, se não os atrais e nem lograis despertar neles a simpatia indispensável e o respeito preciso, como obtereis que vos escutem, quando quiserdes doutriná-los?

Sede, pois, condescendentes; observai bem os vossos irmãos, penetrai-lhes no íntimo da alma e, uma vez conhecida esta, acedei aos seus caprichos inofensivos; acompanhai-os, até no que mais indiferente vos seja; explorai bem, nesse conviver com eles, seus corações e, pela vossa condescendência, impregnada de bondade e doçura, tornai-vos senhores da vontade deles. Pregai-lhes depois e sereis ouvidos; tudo aquilo com que condescendestes, sem protestar, será corrigido, porque, em chegando a hora de se porem à mostra defeitos, os que os tenham o reconhecerão e vos atenderão, seguindo os conselhos que lhes derdes. Nem outra coisa se pode esperar do respeito que lhes tereis infundido e da autoridade moral que hão de reconhecer-vos.

Jesus, como não ignorais, andava em companhia de pecadores e publicanos e de gente de mau viver, segundo referem os Evangelhos. Não lhes profligava os vícios, condescendia a comer e conviver com eles. Depois, ou ao mesmo tempo, lhes predicava a verdade divina e eles o atendiam. Conseguia assim conversões inúmeras e a volta ao redil de muitas ovelhas desgarradas.

Imite a Jesus quem preze a si mesmo, praticando a condescendência, como Ele a praticava e aconselhava.

Não lhe faltarão discípulos e imitadores do bem que faça e diga; edificará para si risonho porvir, pois o fruto dessa conduta recolhê-lo seleto e abundante, na facilidade de elevar-se rapidamente às maiores alturas espirituais.

Angel Aguarod