3 - AMAR A DEUS, AMANDO O PRÓXIMO

Que o amor a si mesmo precede ao amor aos semelhantes, no evolver desse sentimento nos seres, o próprio Jesus o demonstrou, e, antes dEle, Moisés, nas tábuas da Lei, encerrando o primeiro toda a Lei e os Profetas no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Se o amor à própria personalidade não antecedesse ao que se deve consagrar aos semelhantes, como se poderia tomá-lo por ponto de partida, no Decálogo, para impor-se, como mandamento divino, o amor ao próximo?

Disso se deduz que, quanto mais perfeito seja o amor que a criatura vote a si mesma, melhor saberá ela amar aos outros. Quem não sabe amar a si próprio mal pode amar ao irmão. Como fazê-lo? Como poderia dar o que em si não há? Porque a posse do amor começa, no indivíduo, firmando-se no amor-próprio. Para provar essa verdade poderíamos oferecer inúmeros exemplos tirados da Natureza, em suas diversas manifestações.

Queira alguém infundir coragem aos outros: como há de consegui-la, se a não tiver? Aspire alguém a professar tal ou qual ramo do saber; se antes não o estudar, adquirindo os respectivos conhecimentos, poderá transmiti-los a seus discípulos? Pretenda alguém ser dadivoso; se, antes, não acumular haveres, como poderá dar?

Apliquemos esses simples exemplos ao amor e adquiriremos a convicção de que àquele que não desenvolver em si maior ou menor cabedal dessa bênção do céu não será possível praticá-lo. O que quiser fazer bem aos outros, como poderá amá-los, de modo que com o amor que lhes vote faça o desejado bem, se antes não experimentou os frutos do amor dedicado a si mesmo?

É essa uma genuína expressão da Lei natural e não se pode pretender que seja de outra maneira. Por isso, no Código divino, aparece em primeiro lugar o amor da criatura a si mesma, para que, esteando-se nele, chegue ela a amar ao próximo.

Ao próximo cada um deve amar como a si mesmo, é o que estatuiu o Decálogo, afirmou o Messias divino, sustentaram todos os Grandes Espíritos, em cumprimento da missão divina com que desceram à Terra.

Porém, será isso possível? É, pois que o disseram os redentores, mensageiros do Altíssimo, os quais estariam em desacordo com a sua própria elevação espiritual, se prescrevessem o que não pudesse ser cumprido. É, aliás, o que se vê confirmado na conduta admirável dessas grandes almas. Quem poderá negar, provando a sua negativa, que elas amaram ao próximo como a si mesmas? Não deram, algumas, como o Cristo, a vida pela redenção dos pequeninos da Terra? O fato de descerem a este mundo já não significa um sacrifício imenso, de que só o amor é capaz? Da sublimidade desse sacrifício nasceu o ensinarem alguns filósofos que se deve amar ao próximo mais do que a si mesmo, o que significa que, pelo bem alheio, precisa o homem muitas vezes esquecer-se de si próprio e até negar-se a si mesmo, o que, como característica de elevação moral cristã, o divino Enviado recomendou. Mas, isso não implica, em realidade, da parte de quem assim procede, mais amor aos outros do que a si, pois, então, cairíamos no impossível de pretender que alguém dê o que não possui. Demais, os Espiritos que ocupam os cumes da perfeição, por mais que renunciem a si mesmos, sabem perfeitamente que da prática do amor a seus irmãos lhes resulta maior desenvolvimento espiritual e aquisição de maiores bens e perfeições. É o que diferencia a ordem moral da ordem material. Na ordem material, o desprendimento dos bens os diminui; na ordem moral, aumenta-os. Assim, o amor ao próximo, expresso sempre pelo bem que lhe é feito, estimula, para maiores efusões de amor, a fonte inesgotável que desse dom divino existe em todos os seres e, enriquecendo-a, torna-a capaz de despendê-lo com a abundância que o coração deseje para prodigalizá-lo, sem mácula, aos filhos de Deus. É caudal inexaurível o do amor, porque, como já disse, aumenta na proporção em que é prodigalizado.

Vede a própria Divindade. Ela é toda amor e não pode amar mais do que ama, porque o amor que prodigaliza é toda a infinita imensidade do amor que nela existe.

E aqui há outra prova de que, para que alguém dê, preciso é que possua o que quer dar. Se Deus não fosse todo amor, poderia dá-lo a seus filhos em grau para nós inconcebível? Primeiro, para amar à sua obra, Ele se fez todo amor. É o que ocorre no indivíduo: tem de desenvolver o amor em si, amando-se a si mesmo, para, depois, reconhecendo que o amor é bom, ser levado, pela sua tendência para o bem, a partilhá-lo com os outros, A Bíblia, no Gênese, oferece um símbolo que prova a exatidão desse conceito, quando diz que Deus, para saber se era boa a luz, primeiro a experimentou, depois de havê-la criado, procedendo igualmente com tudo mais que saiu da sua sábia onipotência.

Porém, continuemos a inquirir da condição a que deve satisfazer a criatura humana para cumprir, a este respeito, o mandamento divino.

Logo que reconhece que o amor a si mesma é bom, deve ela prodigalizá-lo aos outros, porquanto Deus, quando viu que sua obra era boa, não a reservou para si, para sua exclusiva satisfação, ainda segundo a linguagem simbólica do Gênese. Criou seres que pudessem compreendê-lo e experimentar agradáveis sensações, gozando de tanto bem. Quando, pois, a criatura chegou a desenvolver o amor a si mesma, que é o que graficamente se chama egoísmo, não deve conformar-se com o gozo que daí lhe advenha; deve procurar experimentar a satisfação que produz o amor aos outros. Foi o que exemplificou o próprio Criador.

A criatura torna-se maior, tanto mais cresce, quanto mais prodigaliza o que possui, e torna-se menor tanto quanto do que tem não faz partícipes os outros.

O egoísmo deve transformar-se em altruísmo e, quanto mais altruísta seja o ser racional, quanto mais ame ao próximo, mais o potencial do amor se desenvolverá nele, o que quer dizer que maior progresso espiritual irá realizando.

E o amor ao próximo manifesta-se não por um extático platonismo, mas pela obra, pelo zelo com que o ser procura o bem de seu semelhante, sob os diferentes aspectos que comporta: físico, intelectual e moral. Dessas ordens são as necessidades da criatura humana e, esforçando-se por satisfazê-las, é como demonstra que cumpre o mandamento divino.

Todos recebem para dar. O ser entra na posse do que no seu íntimo existe em estado potencial, para facilitar o progresso alheio. Assim, quando a avareza ou a negligência negam esse tributo ao que de tais auxílios necessita, o avarento ou negligente prejudica-se a si mesmo, tornando-se sofredor, com o experimentar a sensação de que lhe cerraram as portas do progresso e de que ficou privado da ventura que produzem a generosidade e o cumprimento do dever.

Permitido é, ao que não possui, adquirir; porém, quando adquiriu, sem faltar à Lei divina, que é a vontade do Supremo Criador, não lhe é permitido reter, sem produzir, o que acumulou.

Assim, o que desenvolveu a inteligência e ganhou conhecimento acerca da lei moral, se não prodigaliza o fruto que adquiriu, perdê-lo-á, semelhantemente ao servidor desidioso da parábola dos talentos.

Aprende-se, não só para alcançar sabedoria, senão também para ensinar; adquire-se, para dar; chega-se à compreensão do bem, para prodigalizá-lo sem reservas.

Primeiro, adquirir; depois, despender. Ao mesmo tempo que a criatura adquire, pode e deve ir dando, porque desta maneira é que aumenta o seu cabedal. E tem de ser assim em todas as ordens de coisas, porque tudo tem de se inspirar no amor, visto que toda ação não inspirada pelo amor é delituosa, e aquele que delinqüe diminui o amor a si próprio e fica impedido de prodigalizá-lo, no grau necessário, aos outros. Prejudica, portanto, seu progresso.

A abnegação, o sacrifício, a renúncia de si mesmo, pelo bem alheio, são as mais elevadas formas do amor ao próximo que se podem conhecer na Terra. Quando a criatura chegou a praticar o amor aos outros, como o praticam os Messias de Deus, abandonando as regiões puras, que lhes servem de morada, para descer aos baixos mundos de expiação, tem conquistado os cumes da perfeição moral. Não mais, então, sente os sofrimentos oriundos do contacto com a impureza e o flagelo das descidas. Ao contrário, encontra nisso gozo, tanto mais vivo quanto maior é o flagelo.

Ora, se na abnegação, no sacrifício, na renúncia está a demonstração do amor aos semelhantes, em obediência ao Mandamento divino, claro é que, amando ao próximo, demonstra a criatura seu amor a Deus. Não se pode amar ao Pai sem amar a seus filhos; não se ama àquele a quem não se obedece. Tenha-se presente o que por boca de Jesus disse Deus a seus filhos: "Aquilo que fizerdes a um destes pequeninos que em mim crêem, a mim o fizestes."

O empenho supremo da criatura humana que quer escalar as cumeadas da perfeição, há de estar em cumprir a vontade divina, isto é, em amar a Deus. Mas, ordenando Deus que se deve amar ao próximo como a si mesmo, essa tem de ser a mira permanente do Espírito que queira progredir.

Não pretende o Eterno Pai que qualquer de seus filhos conquiste por milagre a pureza máxima do amor ao próximo, não. Esse amor precisa desenvolver-se gradativamente. O que Ele exige, sim, é o esforço permanente para o desenvolvimento ininterrupto daquele sentimento.

Aí está o cabedal que a criatura humana precisa conquistar. Trate ela de conquistá-lo, porque será inútil tudo quanto faça para gozar da vida, se este gozo não consistir no amor ao próximo como a si mesma, se não o considerar como condição indeclinável do amor a Deus. Não se pode amar a Deus sem amar ao próximo e a grandeza do amor à Divindade se mede pelo de que são objeto seus filhos.

Angel Aguarod