3 - DEFESA CONTRA A ENFERMIDADE

Já convimos em que o estado de enfermidade não é, nem pode ser, um estado definitivo; preenche a enfermidade a missão de conduzir o ser ao seu destino, que é o gozo da eterna saúde e da felicidade indestrutível.

Deixamos bem definido o porquê da enfermidade, como também dissemos que, uma vez tenha esta cumprido no ser a sua missão, desaparecerá, pelo que o estado que ela determina é transitório, temporário. Deus não teria sido justo se, ao tornar necessária a enfermidade, a houvesse feito a eterna mortificadora de seus filhos.

O Espírito veio à existência para gozar, não para sofrer; se sofre, é precisamente para conquistar, pelo sofrimento, o estado de felicidade que o fará Mensageiro do Eterno, um Bem-Aventurado da mansão celeste.

A aspiração que a criatura sente por um estado melhor, de maior elevação, a sua tendência inata a fugir de tudo o que lhe amargure a existência e a procurar tudo quanto possa mitigar a dor e satisfazer às suas legítimas necessidades e anseios, são uma prova inconcussa de que o homem tem não só o direito de defender-se de tudo que o aflija, de tudo o que lhe perturbe a existência e o infelicite, como o dever de proceder assim, por mais convencido que esteja de que todo flagelo tende a cumprir nele purificadora e redentora missão.

Todos os seres, na Terra, necessitam do alimento para manter o seu organismo; por isso, a Natureza só se mostra pródiga em oferecer a quantos pisam a superfície terrestre tudo que os pode nutrir e atender a qualquer outra necessidade que se lhes faça sentir. Porque os seres, revestidos de corpos materiais, têm, como condição de vida, a imperiosa necessidade de nutrir-se com os produtos que a terra proporciona é que esses produtos existem.

Do mesmo modo, porque há enfermos, há também substâncias medicinais capazes de combater com êxito os estados mórbidos pelos quais, de quando em quando passam os seres. A natureza se defende contra a enfermidade, porém esta defesa nem sempre basta; precisa ser acompanhada e auxiliada. Por muito bom que seja um regímen higiênico de ar, luz, sol, água, etc., se o indivíduo não toma a alimentação que lhe é necessária, o organismo se debilitará e, se a supressão for absoluta e . permanente, ao cabo de algum tempo sobrevirá a morte, por falta de nutrição material.

Coisa semelhante ocorre com a enfermidade. Nem sempre se pode prescindir de medicamentos e, tomando-se os que forem adequados e a tempo, eles restituem a saúde, do mesmo modo que os alimentos nutrem o corpo e lhe avivam as energias.

Está, pois, obrigada a criatura humana a defender-se da enfermidade e, se não o fizesse, poderia acontecer-lhe como àquele que, esperando pela Providência, se negasse a tomar qualquer alimento. A Providência, nesse caso, não o alimentaria com o maná do céu e, finalmente, o louco que tal pretendesse pagaria com a vida sua insensata pretensão.

Ao Espírito, o que é para o Espírito; ao corpo, o que é para o corpo, o que não quer dizer neguemos, porque também seria pouco sensato fazê-lo, que o Espírito influa no corpo, uma vez que o homem é um Espírito encarnado. O que quero dizer é que, no tocante ao corpo, não se pode esperar que a ação exclusiva do Espírito restabeleça os desequilíbrios que aquele haja sofrido; é preciso o concurso de substâncias ou agentes da mesma natureza do corpo; daí a existência das substâncias medicamentosas dos diferentes reinos.

Se o enfermo do corpo, por mais que na enfermidade tome parte também a alma, esperar exclusivamente a ação espiritual para se defender daquela, é muito possível lhe suceda o que sucedeu ao que, para nutrir o corpo, confiou exclusivamente na ação protetora da Providência, negando-se a ingerir alimento algum material. Morreu esperando.

Em tudo vos ensina a Natureza! Há alimentos, porque as criaturas de Deus, encarnadas, necessitam de alimentar-se com eles; há substâncias medicamentosas, porque há enfermidades; logo, do mesmo modo que o que tem fome deverá saciar seu apetite, o que está enfermo deve procurar o medicamento apropriado à afecção mórbida de que sofre e, se o encontrar, se curará, salvo o ter a enfermidade outras causas, como expiações, ou provas, que oponham obstáculo sério à ação das substâncias medicamentosas de que ele faça uso.

Existindo, podem essas causas tornar-se uma barreira insuperável à ação do agente curativo que se empregue; porém, ainda assim, se se não consegue a cura completa, um alívio sempre se pode obter, porque, assim como, seja qual for o estado de consciência de um indivíduo, se ele se acerca do fogo, se aquece, ou queima; se da água, se molha, enfim sofre sempre a influência dos diferentes agentes naturais ou atmosféricos; também aquele que se medica, se o remédio é adequado para combater a enfermidade de que sofra, experimenta a sua ação benéfica, em maior ou menor escala.

Deus, tomai bem nota, a ninguém jamais recusa o gozo da sombra benfeitora do oásis que encontre, transitando pelo deserto da vida, embora se trate do maior dos delinqüentes. Certo, não negareis o lenitivo que possais oferecer às penas de vossos semelhantes, embora, saibais que esses vossos semelhantes que sofrem são condenados ao presídio por suas próprias culpas.

Como quereríeis que Deus fosse menos piedoso do que vós? Daí vem que o Pai celestial permite sempre que aquele que use de um agente curativo apropriado à sua enfermidade encontre o alívio que lhe possa esse agente proporcionar. Sustentareis que não seja isso justo? Se assim pensásseis, eu vos perguntaria: até onde quereis levar a vossa justiça? Até à impiedade? Mas, detenhamo-nos na justiça.

Supondes, porventura, que, se um condenado, que se acha enfermo, buscar, sob o influxo da aspiração que é inata na criatura e, pois, divina, melhora para o estado de sua saúde, recorrendo aos meios capazes de lhe satisfazerem a tal aspiração, não se torna, por essa diligência, merecedor de alívio? Eu vos afirmo que sim. Portanto, os mais duramente castigados pelas suas delinquências, da presente ou de anteriores encarnações, encontram, de ordinário, remédio para seus males, como recompensa ao esforço que empregam para livrar-se deles. Isso lhes proporciona uma suavização da prova, da mesma forma que a boa conduta observada na penitenciária, por um recluso, lhe granjeia o apreço de seus superiores, que lhe retribuem o proceder com a atenuação da pena.

Não podeis, pois, vós, terrícolas, olhar com indiferença as vossas, nem as enfermidades alheias, por mais que saibais deverem tais enfermidades ser benéficas para as almas, porque as purificam e redimem de suas culpas. Bem pode ser assim e na realidade o é; porém, não deveis levar isso em conta. O só desejo do vosso bem e do bem alheio já constitui um mérito que adquiris, mérito que depura e redime. Já tendes bastante nos sofrimentos que possam vir, sem que os provoqueis; se, portanto, provocardes algum, recebei-o com paciência, mas, nem por isso, deixeis de defender-vos. Não se vos pede impassibilidade ante a dor, não. O que se vos pede é resignação, quando não possais conseguir livrar-vos dela, pelos meios lícitos que tenhais ao vosso alcance. É preciso se procure diminuir a dor do mundo; a Natureza nada lucra com a dor humana; a Deus não apraz que seus filhos sofram. Mister se faz, conseguintemente, que o homem se defenda da enfermidade. É isso lícito, é um dever imperioso do ser racional.

Mas, se é necessário que o homem se defenda da enfermidade, se é dever seu não encarar com indiferença seus próprios estados mórbidos, dever ainda maior lhe é o prevenir as enfermidades. Daí a obrigação em que está de observar rigorosa higiene da alma e do corpo e de procurar uma alimentação física e espiritual adequada e correspondente às suas necessidades.

O pecado obriga à penitência; se ninguém pecasse, ninguém teria que passar por esse transe. A alimentação inadequada, excessiva ou deficiente e a inobservância das indispensáveis regras higiênicas originam enfermidades e doenças, pelas quais forçosamente têm as criaturas que passar. Mesmo que logo encontre para elas remédio, que ganha o indivíduo com tais sofrimentos e com o tempo que subtraiu a toda ocupação útil? Adquiriu experiência, é verdade. Porém, refletindo um pouco e atendo-se às lições recebidas de seus mestres - os homens e os livros - às experiências anteriores, ao sucedido a outros, poderia o homem forrar-se a tudo isso e a novos tropeços no caminho de seu progresso, a ver-se obrigado, depois dos sofrimentos inevitáveis, a permanecer muito mais tempo a vagar naquele caminho.

Que mais devo dizer a respeito? Muito poderia dizer, é certo; porém, não é necessário; basta o exposto, para que toda criatura dotada de razão compreenda que, não tendo por destino sofrer, deve considerar que, se bem seja providencial a dor, como conseqüência da imperfeição e impureza humanas, para lhe facilitar maior progresso, pelo resgate de suas culpas, ela deve procurar defender-se de toda enfermidade, conquanto sem levar essa defesa ao extremo fanatismo de muitas pessoas, que só vivem para seus males. Afrontem-se todos os estados patológicos e acidentes desgraçados, com serenidade, com sangue-frio, e busquem-se os meios de defesa; porém que não falte a conformidade que todos devem ter como a vontade divina, caso não sejam obtidos a cura ou o alívio desejados. Essa conformidade é o melhor medicamento; diminui de setenta e cinco por cento a crueza do mal.

Quanto a sistemas terapêuticos, em todos os experimentados algo há de bom, que se não deve desprezar. Cumpre não haja fanatismo por nenhum e se escolha dentre todos o que mais possa convir ao caso. Examinai os êxitos e procedei à escolha, sem vos deterdes nos rótulos. Assim mandam a prudência e a conveniência.

O magnetismo, em certos estados de origem psíquica ou espiritual, basta e, para certos indivíduos, é o melhor agente curativo. Tanto o magnetismo humano, como o espiritual. Porém, não se pode preconizar o magnetismo como agente curador exclusivo, para a maioria dos casos e dos indivíduos; é preciso ter isto em conta, para se não cometerem erros de tratamento, em prejuízo e descrédito, por efeito de inconsciente fanatismo, de um poderoso agente de cura.

Aos indivíduos materializados, doses mais fortes de medicamentos; aos sensitivos, menos materializados, doses mais atenuadas; aos notavelmente espiritualizados, mais medicina espiritual do que humana. Essa a regra; as exceções encontrá-las-eis em cada caso, se elevardes o vosso espírito ao Alto, para que chovam sobre vós as bênçãos divinas.

Angel Aguarod