3 - DIVERSAS FORMAS DE EXPRESSÃO DO SENT.DE JUSTIÇA

Por pouco que aprofundeis o problema que vamos estudando, compreendereis perfeitamente que há tanta diversidade na expressão do sentimento de justiça quanta nos indivíduos.

Daí, dessa diversidade na apreciação de um sentimento tão essencial no que toca à relação dos seres uns com os outros, originam-se as lutas que se travam entre os homens.

O choque é inevitável. Não fosse o incremento que em muitos seres vai tomando essa qualidade superior que se chama Prudência, bem como a que se denomina Discrição, e ainda a que, soberana entre todas, se intitula Benevolência, e mais rudes, cruentas e tenazes seriam as lutas.

As faculdades superiores da alma, que se desenvolvem ao mesmo tempo que o sentimento de justiça, moderam a expressão deste último, quando tende a tomar caráter violento.

Justa parece ao indivíduo a coisa mais monstruosa, desde que, apreciando-a através de lentes impróprias, ela lhe aparece com todos os matizes do arco-íris da justiça.

A falta de percepção clara das coisas e dos acontecimentos leva o indivíduo a apreciar tudo erroneamente, embora possuído do desejo de ser justo. Assim acontece com todos os que ainda não tenham chegado à cúspide da perfeição. Conquanto haja casos que o indivíduo chegue a compreender perfeitamente, o que lhe permite apreciá-los com justiça, muito longe se achará ele da infalibilidade e do conhecimento exato de tudo, enquanto estiver sujeito a peregrinações terrestres. Sempre, então haverá casos em que seu juízo falhará, em que não julgará retamente, por os não compreender ou compreender deficientemente.

Em se tratando, porém, de seres algo evolvidos, embora sobre uma infinidade de casos e questões lhes falte uma compreensão nítida ou completa, eles, bastante discretos para não comprometerem a justiça em suas apreciações, se abstêm de todo juízo, quando não podem formulá-lo de conformidade com a noção elevada que já adquiriram da justiça, ou o emitem com reservas, salvaguardando suas responsabilidades.

Mas, os que assim procedem formam a minoria e é natural, porque o sentimento de justiça, ainda pobremente desenvolvido na humanidade terrestre, tem por companheiras as outras faculdades da alma, faculdades cujo desenvolvimento, na maioria dos indivíduos, é tão precário, como o daquele sentimento. Por isso é que, enquanto faltar nos homens discrição, prudência, sentimento fraternal e amor ao próximo, terão que perdurar as lutas cruentas que avermelham as vossas campinas e tingem de carmim humano as águas do oceano; e a sombra de Caim continuará a pairar tétrica por sobre os palácios e as cabanas, as cidades e os campos, o lar doméstico e os claustros dos religiosos. Onde quer que haja um ser humano, haverá uma criatura em luta consigo mesma e com as demais; onde quer que haja vários homens em sociedade, haverá entre eles os Abéis e os Cains legendários, manifestando-se nuns ou noutros.

Por que, porém, há de ser assim?

Não peçais contas a Deus de sua obra. Ela é perfeita e só a escassez da evolução dos seres os induz a ver máculas na obra do Eterno Criador.

A criatura humana, na dupla condição de homem e mulher, tem, como sabeis, que desenvolver paulatinamente suas faculdades anímicas e ascender por etapas a superiores destinos, que ela só realizará em si por meio das aquisições intelectuais e morais, que a irão elevando, cada vez a maiores alturas.

Todos os seres racionais se encontram nessa corrente evolutiva e tão diversos são neles os graus de expressão dos sentimentos, por serem também diversos os de compreensão das faculdades desenvolvidas, que forçosamente há de haver choques entre uns e outros. Daí, as guerras, as discórdias, as desavenças, os crimes e todas as pragas que pesam sobre a humanidade.

A obra de Deus, porém, é perfeita; sua justiça está imanente em tudo; sua bondade e providência, sempre a velar por seus filhos, não podem desmentir-se. Logo, em nada do que ocorre há qualquer manifestação de injustiça, de maldade, ou de mal real. Ao contrário, o que há é a satisfação de uma necessidade do espírito humano. que não pode prescindir de pensar, de formar juízos sobre todas as coisas, casos e indivíduos e de expressar tais juízos. Desse modo é que se desenvolvem as faculdades nobres do ser; desse modo é que ele progride no caminho que conduz aos cumes da evolução.

Dessa necessidade deriva tudo quanto desagrada à criatura humana, que desejaria viver feliz na Terra. Considerai, porém, que, se não ferisse o pedernal, não se produziria a centelha que acende a fogueira; sem o choque de umas paixões contra outras, de umas opiniões contra outras, de uns juízos contra outros, gerando lutas e guerras, não haveria progresso. Atendei a que, se como isso estivesse satisfeita, a criatura humana viveria sempre num caos horrível e estacionaria nele, sem alcançar maior elevação. Eis o porquê das lutas, eis também por que o ser humano não vive satisfeito. É que seu destino não está na Terra; mas, na Terra é que lhe cumpre adquirir méritos para o ir realizando fora da Terra.

Todos os seres humanos possuem o sentimento de justiça no grau que lhes corresponde, porque cada estado de consciência determina uma compreensão especial da justiça, do mesmo modo que possuem a razão que lhes corresponde ao progresso realizado. Quer, porém, aquele sentimento, quer esta faculdade, só são perfeitos e completos quando o ser chegou ao cume de sua evolução. Vê-se assim que tudo tem a sua razão de ser, que nada se deve anatematizar, porque tudo é reflexo da Justiça e da Razão Supremas, que não podem tomar, em caso algum, na Terra e em nenhum dos indivíduos que a povoam, forma de expressão diversa da que eles apresentam.

Todos os seres humanos são aprendizes de tudo, inclusive da aplicação da justiça. Que quereis façam aprendizes? Obra de aprendiz. Por isso é ainda tão rudimentar a expressão do sentimento de justiça nos seres humanos

Aprendizes desta arte, digamos assim, são o homem e a mulher em sua vida conjugal e nas suas relações com os filhos e os pais; aprendiz é o homem, com relação a justiça, quando quer aplicá-la às relações sociais, e também aos problemas transcendentais com que defronta, de caráter político, religioso e judicial; aprendiz é em tudo. Daí as imperfeições e as retificações constantes de cada conceito de justiça que se manifesta ou se aplica.

Mas, de tudo isso nada se perde, nada é inútil, tudo serve para que os indivíduos se vão aperfeiçoando e as coletividades, do mesmo modo que as instituições judiciárias e governamentais, na concepção da justiça.

Do erro de hoje sai o acerto de amanhã; um conceito equivocado da véspera conduz a outro conceito certo no dia seguinte. Os próprios erros judiciais servem para sancionar a justiça, que ficou suspensa. Tudo se move ao compasso de uma impulsão permanente e justa, que tem sua origem no Princípio sem princípio. Cada coisa e cada caso correspondem perfeitamente ao plano divino, traçado lá na Eternidade Incompreensível.

Justiça! Tudo é justiça. Deus não castiga aquele que, crendo obrar de modo justo, se conduz, no aplicar a justiça, de maneira inferior à concepção que da justiça já alcançaram os Espíritos mais adiantados que ele .

Angel Aguarod