3 - OS PRINCIPAIS FATORES DO PROBLEMA

Muitos fatores importantes entram na composição ou delineamento do problema que estudamos e, deles, os que pela generalidade sobrelevam aos demais são o capital e o trabalho.

Mas, se não considerarmos outro fator, de si importantíssimo, será impossível a solução. Já o dissemos: é de ética o problema social, sem a qual não pode ser solucionado. Juntemos, pois, esse outro fator importantíssimo aos primeiros e teremos a chave da solução. O amor: eis aí o importantíssimo fator, que, com o capital e o trabalho, formam a trindade da questão.

O amor! Sim, o amor realizará o grande milagre e já o vai realizando pouco a pouco, porque o amor suaviza as asperezas das contendas humanas, fazendo que uns cedam em favor de outros e que assim se abrandem as lutas, quando não se extingam.

Nada obstante, o amor está em cena desde o princípio do mundo, mesmo antes, e não o haveis notado. Haveis notado, sim; apenas o nomeais de outra maneira.

O egoísmo não é amor? Indubitavelmente; amor a si próprio.

Dir-me-eis, talvez, que com o egoísmo não se resolve o problema, porque o egoísmo distancia em vez de atrair e gera ódios e rivalidades, em vez de amores e harmonias.

Isso, amigos meus, é circunstancial, transitório. Por aí tem que começar a manifestação amorosa dos seres. Não podem exteriorizar o sentimento do amor, que se está desenvolvendo neles, muitos Espíritos, senão na forma egoística, que os moralistas tão severamente condenam. E pode ser de outra maneira manifestado aquele sentimento nos seres pouco evolvidos, como o é a maioria dos que povoam a Terra, senão sob a forma egoística, cujo padrão todos conheceis perfeitamente?

Assim, o amor desenvolve o capital e o amor desenvolve o trabalho. A classe capitalista ama os seus milhões e a posição privilegiada de que goza na ordem social, esforçando-se por conservar e aumentar os primeiros e por firmar-se cada dia mais na segunda. O operário, por sua parte, fomenta o espírito de classe e, com o amor a si próprio e a seus companheiros, que diz de infortúnio, aumenta as distâncias que o separam do capitalista. Cada um desses fatores cuida unicamente de si e trata de adquirir pujança, em detrimento do seu rival. O caso é predominar um sobre o outro, porque, como se consideram mutuamente inimigos e só cogitam da derrota do adversário, não poupam meios para chegar a tal finalidade. Assim, nas lutas que estes sentimentos geram e avivam, se tem mais em conta as derrotas que se podem infligir ao rival do que a melhora da posição atual. Mais, pois, do que as melhoras de classe e individuais, se apreciam os descalabros, se conseguíveis, do inimigo, ao qual se quer aniquilar, ou tornar a vida difícil, senão impossível, para obrigá-lo a ceder às exigências formuladas.

E isto não sucede somente no elemento operário; também a classe dos patrões se propõe à mesma finalidade na batalha, para ver se consegue extinguir o espírito de protesto e se, sitiados pela fome os seus obreiros, os obriga a se dobrarem.

Não parece que nessas manifestações, sem que os sentimentos baixos tomam tão grande parte, ande o amor de permeio. Entretanto, é assim; somente, é um amor rudimentar, ou desviado de seu curso natural, e que se manifesta como se amor não fosse.

É esse o padrão da época, para a expressão do sentimento amoroso. Pouco custaria mudar a diretriz da manifestação sentimental de tais contendores e isso vos demonstraria a circunstancialidade de tais manifestações. Façam descer do seu pedestal o mais presumido patrão, obriguem-no as circunstâncias a engrossar as fileiras do proletariado e a um trabalho forçoso, como o de todos os demais operários, e vereis como aquele sentimento, que ontem se exteriorizava nele, um potentado da classe dos patrões, em aberta oposição à classe antagônica, nunca disposto a transigir com as exigências do proletariado, agora é outro, é o dos rebeldes, em rude guerra àqueles com os quais formava a frente de batalha contra as massas obreiras.

Apreciai agora este outro que, quando obreiro, não se contentava com menos do que ver pendurados num poste, aos punhados, os patrões, expostos à voracidade das aves de rapina, como conseguiu escalar as alturas sociais e engrossar o exército dos patrões é dos mais recalcitrantes em conceder melhoras aos operários, preferindo a depauperação da classe de que fez parte a que se lhe diminuam de uma parcela mínima os lucros a que, em seu negócio ou indústria, se julga com direito.

A generalidade dos homens, mudando de posição, muda o alvo de seus desejos e modifica seus sentimentos, de conformidade com os novos interesses que representa.

Tudo isso é prova inconcussa do atraso dos Espíritos que povoam a Terra e de quão necessário é ainda que uns e outros mudem várias vezes de posição, senão numa mesma encarnação, em encarnações sucessivas, para que, sofrendo e trabalhando, estudando e adquirindo experiência, com maior conhecimento das coisas, se desenvolva neles o espírito de eqüidade e de justiça, indispensável à boa orientação da marcha dos acontecimentos e à diretriz do progresso, encaminhando-o cada dia melhor, para o bem coletivo.

Estudo, exercício, experiência e passagem pelas amarguras a que deram causa, com o proceder anômalo de ontem, é o de que precisam os Espíritos para progredirem na Terra.

Está assim delineado o problema social. O capital e o trabalho disputam entre si a hegemonia e cada um se esforça por derrotar o outro, cifrando nessa derrota a própria vitória.

Vão desencaminhados, assim procedendo. Vão descaminhados se pretendem uma próxima solução do problema, ou o triunfo para as suas aspirações; porém, não vão desencaminhados como instrumentos da Lei que regula todas as coisas e, sem o saberem, uns e outros permanecem escravos dela.

Esses sentimentos opostos, que só a ignorância e o baixo nível evolutivo dos que os alimentam fazem que se mantenham, terão que produzir a chispa salvadora que facilitando o incêndio, destrua tudo o que estorva a solução definitiva. Os sentimentos opostos, alimentados por opostos interesses, movem, agitam violentamente as águas do mar da vida e, dessa agitação, se geram as formas de amanhã, que modificarão o modo de ser social.

Hoje, está-se em período de demolição, porque é preciso demolir muito, para que os forjadores da ordem social do futuro encontrem o cenário, em que terão de atuar, livre de obstáculos, ou, quando menos, de obstáculos capazes de lhes impedirem o labor.

Por isso, é atualmente tão acentuada a luta de classes; por isso, o desconhecimento e a desinteligência reinam por toda parte, não se entendendo ninguém. Em época de demolição, que quereis presenciar? Só edifícios em derrocada, escombros que estorvam a passagem, areia que dificulta a visão quando forte vento a levanta até as nuvens. E, por entre tudo isto, ais e gemidos, fome e dor, peste e desventura. É o sinal dos tempos.

Quando estes estejam a findar, desse caos informe, em que tudo se move e no qual não se vê indício de formação alguma que desperte risonha esperança, formar-se-á, chegada que seja a hora, a exemplo do que ocorre na criação dos mundos materiais, o que virá a constituir o novo ser social, assinalador do início de uma nova era.

Desse caos terá que sair a nova ordem social e, para essa ordem, estão atualmente acumulando materiais todos os sociólogos que não alimentam ódios, nem rivalidades de classes. O Cristo mesmo foi o preparador da ordem social do futuro, ao predicar a sua doutrina, que oferece os moldes de uma sociedade humana perfeita, como chegará a ser um dia, na Terra, a humana coletividade.

Avança-se, ainda que o não pareça, para esse longínquo futuro ditoso em que, com a doutrina evangélica, reinará na Terra uma nova ordem social mais perfeita. Porém, é preciso prepará-la e isso é o que fazem atualmente todos os ideólogos que pregam doutrinas de paz e amor, contribuindo para a realização do labor empreendido de tempos imemoriais pelos grandes Espíritos do espaço, os que dirigem e impulsionam para melhor porvir toda a ordem social.

Esse egoísmo, que forma atualmente o espírito de classe e que não é outra coisa senão o amor a si próprio, ou desviado de seu desenvolvimento natural, se transformará em altruísmo e, à medida que se vá paulatinamente transformando nesse sentido, as lutas sociais se irão suavizando, as rivalidades entre o capital e o trabalho diminuirão, até chegarem, insensivelmente, a desaparecer todos os antagonismos. Por aí é que terá de vir a solução.

Essencialmente, o capital e o trabalho não são inimigos, nem o podem ser; são de origem comum, e, portanto, irmãos, para não dizermos uma mesma coisa. Que é, afinal, o capital? Produção acumulada, e a produção é trabalho realizado, fruto deste. Não há, pois, razão para que sejam inimigos, e não o serão, no futuro. Santo é o trabalho; santo é também o capital, quando o amor lhe move as asas. São ambos fatores iguais, mas somente serão fecundos em bens quando, reconhecendo sua origem comum, não se hostilizarem, e se esforçarem por ajudar, mutuamente.

Dia virá em que desaparecerão as atuais classes sociais, fundidas numa só, criada pelo amor e pelo trabalho. Então, ninguém quererá colocar-se acima de seu irmão; considerar-se-á indigno o possuir sem produzir; a evolução conduzirá os homens a pôr-se nos níveis mais elevados, e a não querer nenhum possuir mais do que os seus companheiros. Assim, naturalmente, ir-se-ão colocando os fatores nos lugares convenientes à harmonia e ao bem geral, para atuarem de forma tal que, sem protestos nem violências, tudo seja solucionado.

Vedes como ainda aqui se demonstra que o magno problema com que nos ocupamos é um problema de ética? Pela ética, ele se resolverá, primeiro, no indivíduo, ao impulso do amor, e, depois, na sociedade.

A trindade de que em começo falamos terá que chegar a fundir-se numa só unidade, para dar solução definitiva ao problema. Capital e trabalho são dois aspectos de uma mesma deidade, e o Amor, unindo-os, à semelhança do Espírito Santo a descer sobre o Filho, os religará de tal forma que não haverá meio de separá-los. Ficarão ambos fundidos numa mesma entidade, ao calor do Amor.

Saudemos, pois, a Trindade Santíssima da religião social do futuro: Trabalho-Capital-Amor, um só Deus verdadeiro, sob três aspectos complementares.

Angel Aguarod