3 - PIEDADE E COMPAIXÃO

A filantropia e a beneficência se geram ao calor da piedade e da compaixão e as quatro são legítimas manifestações da caridade.

A piedade é amor, amor a Deus, amor, portanto, ao próximo, porque não se pode amar ao Pai sem amar a seus filhos. E o amor desperta a compaixão, à vista do infortúnio, da desgraça alheia.

Tudo o quanto se faça para despertar esses nobilíssimos sentimentos na criatura humana será pouco. Num dos períodos mais interessantes e fecundos da evolução do ser desenvolvem-se a piedade e a compaixão, de que tão necessitada anda a humanidade terrestre, para ter aligeirada a sua pesada cruz.

A piedade é virtude angélica, que, ao se render ante a Majestade Divina, para adorá-la em transportes de inefáveis expansões amorosas, converte as almas, mesmo as mais pecadoras, em anjos, pois que as aproxima da fonte de todo o Amor, de todo o Bem, de Deus. Se ante Deus se prostra, impulsionada pelo puro e santo amor que desenvolveu em si, a alma piedosa não pode deixar de sentir esses mesmos transportes amorosos em presença de seus irmãos, qualquer que seja o plano em que se encontrem. Se esses irmãos sofrem, como não há de esse amor puro transformar-se em compaixão para sentir as penas do sofredor como próprias e partilhar dos seus sentimentos, como partilharia de suas alegrias? E, se a alma piedosa sente amor e compaixão pelo semelhante que sofre, como não haverá de esforçar-se por aliviar a pesada carga que ele leva consigo, por carregá-la mesmo se preciso for, qual outro cireneu, a fim de libertá-lo por algum tempo de seu peso, de modo que recobre energias e possa facilmente continuar a subir o Calvário por onde chegará às alturas celestiais?

Da piedade e da compaixão, que geram a filantropia e a beneficência, nascem as grandes e pias instituições destinadas a proporcionar abrigo ao indigente, a matar a fome ao faminto, a cobrir a nudez do andrajoso e a alimentar as almas, também indigentes de cultura, desenvolvendo-lhes as faculdades mentais, precursores das faculdades morais, que deverão levá-las às culminâncias da perfeição do ser.

Vedes assim quão nobre e precioso é o sentimento da compaixão e quão preciso se faz o seu desenvolvimento na criatura humana, para que ela se depure da escória da matéria e se eleve à categoria dos Espíritos excelsos, desses seres verdadeiramente divinos, pela sua elevação, e mensageiros de Deus, da mais alta hierarquia, que descem à Terra, de quando em quando, na qualidade de Mestres de compaixão, Tendes por modelo o Cristo, que foi verdadeiro Mestre de compaixão. Quem, ao lhe aprofundar os ensinos e contemplar os exemplos, vir um desgraçado, presa de todas as aflições, gemendo no leito de dor, ou arrastando-se inválido pelo chão, não se compadecerá dele e não fará todo o possível para aliviá-lo, convertendo-se, em sendo mister, num cireneu do pobrezinho?

Quem, atentando em Jesus, e recordando seus ensinos cheios de ternura, prenhes de amor aos desgraçados, não sentirá o coração dolorido ante o órfão abandonado, o ancião valetudinário, a mulher perdida, ou o criminoso, que a justiça humana, em vez de intentar a cura da sua enfermidade moral, condena a terríveis penas, as quais, longe de regenerá-lo, mais o arrastam para o crime?

Quem, acompanhando os passos do divino Mestre, não sentirá a compaixão e a piedade transbordarem de si e não se consagrará por completo aos seus irmãos que sofrem, a exemplo de Jesus, que veio, não para os sãos, mas para curar os enfermos; não para procurar os justos, mas os pecadores?

A humanidade terrestre, em geral, é ainda dura de coração, carente de piedade. A fonte do sentimento da compaixão ela a tem seca inteiramente e lhe são necessários os grandes infortúnios que, abalando fortemente a alma dos humanos, despertem esse sentimento e façam jorrar a fonte donde ele procede.

E porque é como digo, ocorrem na Terra tantas catástrofes e as guerras lhe ensangüentam sem cessar a superfície, as famílias têm mais motivos para chorar do que para rir e a enfermidade e a dor afligem as criaturas.

Enquanto não se derramar de todos os seres a compaixão, seguida da piedade, desprendendo-se deles quais cataratas de água cristalina, a refrigerar as almas sedentas de amor e necessitadas de auxílio, a humanidade não gozará de paz e ventura; será desgraçada.

Não é, em verdade, a compaixão, no conceito em que na Terra é tida, o sentimento mais elevado que emana da caridade; porém, é o sentimento que melhor a ela conduz, porque a compaixão, quando real, provoca a ação, tendo por impulsores a abnegação e o sacrifício degraus maravilhosos que suavemente elevam o ser às alturas da perfeição e que ele sobe auxiliado pelas asas das virtudes que caracterizam a caridade.

A compaixão, sobretudo, é o que mais o terrícola atual necessita desenvolver em seu íntimo. Dissemos que ele tem o coração duro; por isso mesmo, precisa desenvolver a compaixão. Mas, custa tanto esse desenvolvimento! Está tão arraigado ainda, no ente humano egoísmo sob as formas mais grosseiras!

Daí a necessidade de se caracterizarem os ensinos dos Espíritos superiores pelo lado do sentimento. O escritor e o orador, que sabem fazer vibrar as fibras dos sentimento nas almas que os lêem ou os ouvem, estão no bom terreno para um labor fecundo e profícuo.

A mente, sem o coração a servir de contrapeso à manifestação do que ela guarda, não produz grandes bens à espécie humana, no atual momento histórico de sua evolução. Bom é que a mente se desenvolva, que a inteligência se enriqueça na criatura humana, porém cultivando-se nelas, ao mesmo tempo, o sentimento. Uma alma que pensa e não sente é, conforme disse o Apóstolo das gentes, referindo-se à caridade, "metal que soa ou o sino que retine". Bom é que ambos esses desenvolvimentos se efetuem paralelamente; mas, quando não possa ser assim, é preferível se desenvolva o sentimento. Melhor é um coração donde transborde o sentimento da compaixão, ainda que produza desequilíbrio no ser, do que uma inteligência exuberante, tendo por companheiro um coração seco.

Uma inteligência muito desenvolvida, sem sentimento, pode produzir males incalculáveis, ao passo que o sentimento da compaixão, desenvolvido superabundantemente, acompanhado de uma inteligência medíocre, nenhum dano causará a quem quer que seja; só pode produzir muito bem, porque os sentimentos da piedade e da compaixão, quando elevados à última potência, ainda que sem guardar paralelo com a inteligência, só conduzem à abnegação, ao sacrifício, jamais ao prejuízo de outrem.

Sigam, pois, as pegadas do Redentor do Mundo, do divino Jesus, todos os que queiram aproveitar da sua passagem pela Terra, esforçando-se por se converterem em Mestres de compaixão, personificando a compaixão pela palavra e pelo fato. Assim, farão mais para a felicidade humana e para a perfeição das almas do que se ocupassem os primeiros lugares no governo dos Estados, ou as culminâncias do saber, segundo o conceito humano.

Não descureis o cultivo da inteligência, porém dai sempre preferência ao cultivo do sentimento, da piedade e da compaixão, porque é o de que mais precisa a humanidade terrestre, no momento atual do seu desenvolvimento evolutivo.

Angel Aguarod