4 - A BONDADE

Tudo quanto existe, por ser obra de Deus, é expressão do amor divino, que, assim, existe na essência de cada coisa e de cada ser, dando-lhes a feição própria do seu valor, no conjunto da criação.

Do amor divino se originou a bondade, que gera a benevolência e suas derivadas: a tolerância, a indulgência e a condescendência.

Não há, por conseguinte, ser algum em cuja essência não exista, no estado potencial, a bondade, que um dia o nivelará aos Espíritos mais excelsos.

Do mesmo modo está a bondade em todo ser. Nenhum há privilegiado. Mas, não se apresenta em todas nas mesmas proporções, ao manifestar-se, por efeito de ser desigual o desenvolvimento que apresentam.

Dando-se com ela o que ocorre com as demais faculdades da alma, a bondade começa a expressa-se no que se poderia chamar o ponto matemático da individualidade. Antes, porém, de fazer sua aparição na criatura racional, e mesmo nos seres irracionais, já a bondade se manifesta nos dos outros reinos e em todas as coisas. O que todos os exemplares do reino mineral e do reino vegetal têm de bom, útil e belo, é a bondade a se exprimir nessas modalidades; o que igualmente têm de bom, belo e útil todos os objetos, sejam quais forem, é também uma manifestação da bondade.

Na criatura humana, a bondade toma formas de expressão mais significativas e que impressionam em maior grau. Sobretudo, o contraste em que está com o mal é que a destaca consideravelmente, constituindo-a o pólo oposto àquele, o que lhe dá realce e desperta a estima dos Espíritos que já distinguem o bem do mal, o belo do feio, o útil do pernicioso.

A vontade do espírito humano imprime relevo à bondade, quando lhe consagra suas atividades e, do mesmo modo, quando se degrada, cedendo a inclinações viciosas.

A bondade, porém, vence sempre, por existir verdadeiramente no indivíduo. Poderá essa vitória retardar-se de muito, por efeito do escasso esforço que o Espírito empregue para alcançá-lo; mas, sempre triunfa do mal. E a esse triunfo propende constantemente a criatura humana, mesmo quando não o objetive.

A aspiração, o desejo de um bem maior, existentes com caráter indelével em todo Espírito, não é senão o reflexo da bondade que no íntimo do ser existe. Poderão essas aspirações e desejos propender para coisas puramente materiais, mesmo viciosas e deformadas pelas paixões; mas, não deixam de ser um apelo que a bondade faz do fundo da alma, como a querer tornar-se patente e exercer a influência benéfica, que lhe é natural. A criatura, em virtude do seu atraso, traduzirá essas vozes íntimas pelo desejo ardente de dar satisfação a vícios e paixões; contudo, nem por isso deixa de ser o sentimento sublime e santo da bondade que o inspira. Somente, por ter esse sentimento de abrir passagem através das camadas obscuras de densa materialidade, quando chega à superfície, aparece deformado pela aderência de partículas de matéria viciada, que recolheu na trajetória.

Assim, pois, não há ser algum em quem a bondade não forceje por desabrochar e desenvolver-se, a fim de converter em causa atuante o que no íntimo da alma se encontra em estado potencial.

Filha do Amor, originando-se da essência do amor divino, a bondade é, conseguintemente, invencível; porém, é preciso que a criatura humana, quando chegue a compreendê-lo, se esforce por afastar todos os obstáculos que lhe perturbam a manifestação.

A vontade do homem deve orientar-se no sentido de aumentar o potencial de bondade existente em si; pois, quando não o faz, prepara um futuro desditoso, porque só na bondade reside a felicidade verdadeira. Tanto é assim, que o espírito humano não pode considerar-se feliz enquanto não haja desenvolvido em si, no mais alto grau, esse sentimento.

A bondade, que deu nascimento à benevolência em todas as suas modalidades, deve inspirar todos os atos do ser racional, que, assim, avançará com passo firme e seguro pelo caminho de seu próprio aperfeiçoamento.

Todos os sentimentos cumpre sejam educados, para que, não como plantas silvestres, mas como plantas bem cultivadas, cresçam e se desenvolvam louçãos.

O da tolerância, em primeiro lugar, convém seja conduzido, mediante criteriosa direção, pelo caminho da retidão e da justiça, para culminar nas alturas da indulgência e da condescendência. Sobretudo, a condescendência, que embora seja, de todos os derivados da bondade e da benevolência, a que exige mais discernimento, é a que mais conquistas faz de Espíritos para o bem,

A condescendência, pois, é o que requer maior atenção e esmero em sua educação. Bem educado e dirigido esse sentimento, ter-se-á bem encaminhada igualmente E educação da indulgência e da tolerância, por se acharem compreendidas na primeira.

Como já fiz notar, a condescendência mal dirigida pode acarretar grandes males; mas, esse inconveniente fica sanado, mesmo quando lhe falte boa direção, se lhe inspira a bondade. Assim é, de fato, porque coisa alguma que se inspire na bondade acarretará conseqüências más.

Poderão as aparências desmentir esta afirmação; porém, como as aparências não são a realidade, perdem todo valor, surgindo com manifesta clareza as conseqüências benéficas que a bondade, mesmo defeituosamente dirigida, originou.

Por isso, é sempre preferível, na educação da condescendência, em caso de dúvida, condescender em excesso, a opor barreira intransponível aos desejos de outrem, mesmo às suas caprichosas extravagâncias.

A dureza e o desprezo afugentam o próximo, ao passo que a condescendência desperta nele o apreço e a simpatia a quem se lhe mostrou benévolo.

E não será demais repetir quão conveniente é transigir em tudo quanto não envolva um caso de consciência, porque essas transigências despertam a bondade nos seres que se vêem favorecidos por elas, infundem respeito, consideração, apreço e, por mais pervertido que seja aquele com quem condescendestes em coisas que não afetam à retidão da consciência, como nele existe a bondade em estado latente, a vossa condescendência bondosa lhe penetra o íntimo, onde a bondade se acha, produzindo um choque que lhe faz sentir as delícias de alguma coisa desconhecida e quanto o bem é superior ao mal. Desde logo, ele se prepara para progredir na carreira do Bem, carreira que todos os seres cursam, até os mais depravados, com a única diferença de que estes são os que ainda estudam as primeiras lições, achando-se em um ponto muito mais adiantado os que já trazem desenvolvida a bondade.

Condescendei, pois, largamente, ainda com aquilo que mais possa repugnar-vos, e granjeareis o apreço e a atenção de vossos semelhantes, para atraí-las, para conseguirdes que vos ouçam, quando vos convenha lecioná-los em tudo o que necessitem aprender. O ser que já trilha o caminho da Perfeição deve procurar sempre tirar o maior bem de tudo em que intervenha, bem para si e bem para os outros, mas, não tendo em conta a sua pessoa, quando se encontram em jogo seus semelhantes, caso em que deverá ter em mira os outros e não a si próprio.

Custa tão pouco condescender nas coisas pequenas !

Pois bem, considerai que as coisas pequenas com que condescendeis o vosso semelhante as tem por grandes e vo-lo agradece. Esse agradecimento é mais uma porta que se abre em sua alma, para ali penetrarem as vossas salutares sugestões. Com a condescendência assim praticada, conseguireis matar em gérmen toda causa de alteração da paz, não sereis motivo de desgostos, nem de desafeto, tornar-vos-eis simpáticos e indispensáveis e vos assenhoreareis da consciência dos vossos irmãos.

Isto, sobretudo, devem tê-la em conta os que vivem entregues ao serviço de algum grande ideal, pois que desse modo se lhes aplainará o caminho, para o cumprimento da missão que desempenham, não se produzindo contra ela nenhuma coligação de vontades. Criarão, ao contrário, simpatias e apreço, que lhes facilitarão a catequese que intentem. O resultado final será, pois, conseguirem mais almas para a Causa do Bem que representam.

Mas, a fim de poder ser um elemento de bastante elasticidade para condescender, quando convenha, com o próximo, é preciso que a criatura desenvolva em si a bondade. Com a bondade a lhe inspirar todos os atos, o triunfo é seguro. Nas causas nobres, a bondade dá sempre a vitória. Procurai ser bondosos, que a bondade, vos livrará das penalidades a que os mundos atrasados submetem os Espíritos que os habitam; cultivai a bondade, se quereis praticar todas as virtudes com a perfeição devida; cultivai a bondade e tereis resolvido o problema da benevolência.

Angel Aguarod