4 - A CARIDADE TRIUNFANTE

A caridade, havendo alcançado o seu máximo desenvolvimento no indivíduo e nas massas, tem obtido o seu definitivo triunfo e com ele se acha resolvido o problema que chamamos da caridade.

Mas, para que se verifique esse triunfo, precisa a caridade chegar à sua apoteose final, apresentando-se em toda a sua glória aos olhos atônitos dos pensionistas do planeta Terra?

Se bem refletirdes sobre quanto se relaciona com o problema que nos ocupa, compreendereis que a caridade, no ser, começou a triunfar desde quando até ele chegou um leve reflexo da sua luz. A medida que o ente humano evolve, aquele triunfo mais sensível se torna.

Porque deveis compreender que a caridade, puro sentimento do Bem, de que nenhum ser racional está órfão, se desenvolve gradativamente, como todos os outros dons ou faculdades anímicas.

Bem podemos, pois, afirmar que ela triunfa sempre nos indivíduos e nas massas, por mais que os míopes de entendimento não o saibam compreender.

Sabeis que, no problema da caridade, entra uma infinidade de fatores, alguns de significado oposto ao que implica o conceito desse sentimento; mas, nem por isso são fatores que deixam de desempenhar importante papel no problema.

Porém, antes de passarmos adiante, seguindo a trajetória que acabamos de indicar, firmemo-nos no conceito de que o sentimento caritativo é o sentimento do Bem. Caridade é, pois, Bem; a idéia de caridade está intimamente ligada à idéia de Bem, vindo a ser ambos a mesma coisa.

Assim, onde o Bem vai-se impondo, adiantando se vai a solução do problema; porque o problema resolvido é a caridade definitivamente triunfante, em gloriosa apoteose.

Os mais opostos sentimentos contribuem para que ela triunfe; os fatos mais contraditórios conduzem à mesma finalidade; qualquer episódio, acontecimento, ou ato em que intervenham criaturas humanas, ou sejam por elas tão-somente presenciados, facilitam a solução do problema, fazendo que triunfe a caridade.

Quando duas almas lutam e na luta se chocam sentimentos contrários, a caridade está à espreita, entra freqüentemente em cena, com a devida oportunidade, e se impõe finalmente. Nessas lutas, todo pensamento nobre que assome à mente dos contendores, toda idéia generosa, toda tendência à piedade, à compaixão, ao despertar de sentimentos fraternais, é a caridade que desliza, com suas amorosas asas, até tocar as almas em luta, e essa carícia suave e doce se traduz numa idéia de piedade, ou de benevolência, que minora a aspereza ou a crueldade do combate, até conseguir a deposição das armas fratricidas, por parte dos lutadores, e cancelar a antiga rivalidade com um ósculo de paz, que se converterá em amor. Essa metamorfose salutar às almas é obra da caridade. A caridade triunfou, o problema avançou no caminho da sua solução definitiva e avançará tanto mais quanto melhor vontade haja nos que intervenham no fato, episódio ou acontecimento.

Os cataclismos terrestres, as guerras, as revoluções, as desgraças de qualquer espécie, as aflições das criaturas humanas, tudo quanto acontece e impressiona o ser contribui para a solução do problema de que tratamos, porque coisa alguma ocorre na qual não intervenha a déia do Bem, em maior ou menor grau, quer se lhe dê o maior impulso imaginável, quer se lhe regateie a influência, ou se queira anulá-lo. E, como já convimos em que Bem e caridade são uma mesma coisa, onde se pensa no Bem, por débil que seja o pensamento, está a caridade abrindo passagem, saturando, na medida do possível, amorosamente, o coração e a mente dos que agem.

Como bem compreendereis, a caridade, o sentimento do Bem se desenvolvem igualmente nas massas, como os indivíduos. Primeiro nos indivíduos, depois nas massas, porque as características destas sempre procedem a sua composição, isto é, dos indivíduos que as constitem; por isso, tudo quanto acontece na sociedade primeiro passou pela mente dos indivíduos que a integram, cristalizando-se em suas almas.

Assim, no tocante ao triunfar da caridade, pode este verificar-se em muitos indivíduos, sem que a sociedade de que fazem parte possa vangloriar-se de estar realizando em si esse desiderato.

Deste modo, quem queira apressar o triunfo final do Bem na Terra, que é o da caridade, só deve procurar conseguir que esse sentimento o domine e esforçar-se por concordar com ele todos os seus atos.

Não é com palavras que se obtém triunfe o Bem, mas com fatos correspondentes a idéias de cunho divino. Se assim, em geral, se pensasse, todos falariam menos e obrariam mais.

Quando os postulados morais, aprendidos pelos indivíduos, se repitam menos com os lábios, mas se cristalizem na ação de todos, próximo se estará da solução definitiva do problema da caridade, da apoteose desta excelsa virtude, pelo seu definitivo triunfo na Terra, o qual marcará o momento feliz de iniciar-se nela o reinado de Jesus-Cristo, profetizado desde os tempos evangélicos.

Mas, é preciso que quem deveras queira tornar proveitosa sua existência na Terra, a si e à sociedade, não espere, para que em si triunfe a caridade, que ela tenha triunfado antes nos outros. Não, isso é um modo de pensar errôneo, se bem que partilhado por muitos. Eis aí, uma das causas do lento desabrochar do sentimento caritativo nos seres racionais.

Desde que se sabe que cada um tem que construir sua própria individualidade e que a sociedade não para aperfeiçoar-se sem o prévio aperfeiçoamento de suas partes, ao indivíduo, que não queira conspirar contra seu próprio Bem, não resta senão prestar suma atenção ao seu próprio aperfeiçoamento, em todas as fases por que passa a evolução a que, segundo lei da natureza, está sujeito o homem. Assim fazendo, efetuará rapidamente o seu progresso, o sentimento do Bem avançará sensivelmente em sua alma, adquirindo proporções colossais, até chegar àquele ponto, que deve ser o cobiçado por todos, em que a perfeição moral se afirma, em que se solucionou o problema da caridade e se lhe firmou o triunfo.

Não há outra coisa a fazer, na matéria que nos preocupa; o exercício da caridade conduziu à santidade muitos varões que na Terra deram exemplos de virtudes. Se uns chegaram a tais alturas, chegarão também os outros; mas, os que as alcançaram, isso conseguiram à custa do próprio esforço, fortalecendo a alma no exercício da abnegação e do sacrifício, semeando amores e recolhendo ingratidões, espargindo bens e colhendo perseguições e martírios; espalhando flores e recebendo em troca espinhos, derramando doçuras e sorvendo amarguras.

Esse o caminho que conduz ao triunfo, à solução do problema, aos cumes da perfeição moral.

Porfie, pois, na tarefa o indivíduo que disto se ache convencido, não espere de fora o que de fora não pode vir e facilite o triunfo, em si, da caridade, que com isso será feito quanto se lhe poderia exigir, a fim de contribuir para esse triunfo na sociedade. Do mesmo modo que muitas almas alcançaram a santidade, convertidas na caridade em ação, não obstante estar ainda a sociedade humana muito longe dessa solução, o indivíduo que o queira fará que em si triunfe a caridade, deixando com esse triunfo e apoteose solucionado para si o magno problema de que nos temos ocupado neste capítulo que termino.

Angel Aguarod