4 - A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO DE JUSTIÇA

Em verdade, ao mesmo tempo que se desenvolve o sentimento de justiça no ser humano, apurando-se progressivamente, também se desenvolvem, de maneira igualmente progressiva, as outras faculdades superiores da alma; mas, este desenvolvimento não se realiza paralelamente àquele, pelo que sempre há um desequilíbrio, algumas vezes muito grande, entre o de umas faculdades e o de outras.

Esse desequilíbrio é que dá origem ao conflito que observais muitas vezes entre as potências da alma, ao se manifestarem no indivíduo, no chamado plano material.

Assim, se o ser humano tem grandemente desenvolvido o sentimento de justiça e não o de benevolência, tolerância, indulgência, condescendência, etc., estará sempre em conflito com as opiniões alheias e pretenderá que prevaleçam as suas, ainda que à força.

O patriota em quem, com o sentimento de justiça, se acha desenvolvido grandemente o do amor a seu país natal, à nação que lhe foi berço, se não tem desenvolvido o sentimento da unidade do ser, que conduz ao da fraternidade, se tornará até guerreiro cruel contra os outros povos, quando julgue que são seus inimigos, por ameaçarem os interesses particulares de sua pátria. Para esse são necessárias as fronteiras e, quanto mais altas melhor, porque ele crê que nada de justo há, desde que não beneficie ao seu país, à sua pátria, de modo estritamente conforme à sua opinião ou ao seu critério político.

O mesmo ocorre no terreno religioso. Se o pensamento da igualdade de origem e o do direito, que possui todo ser racional, de pensar e crer livremente, tendo por base a inviolabilidade da consciência do indivíduo, não está suficientemente desenvolvido, de par com o sentimento de justiça, violento fanatismo e a intransigência mais acentuada serão a conseqüência, porquanto então, considerando-se de posse da verdade e querendo que essa verdade se imponha, porque a seu ver essa imposição é justa, a criatura apelará para todas as violências, a fim de consegui-lo, quando com a persuasão nada consiga. Esse desequilíbrio constitui a origem das guerras religiosas que, se não se travam cruentas, por não o permitirem os tempos, se acendem no seio das famílias, no círculo das amizades, em todos os meios sociais.

Muito se há exaltado o amor de mãe, que se considera o mais puro dos amores, o mais abnegado, o mais heróico. De fato, o mais heróico ele é, porque a mãe, para defender seu filho, é capaz dos maiores heroísmos; porém, nem sempre o amor de mãe é o mais justo.

A mãe, como em geral o são as mães na Terra, que tenha desenvolvido desigualmente o sentimento de justiça e o do amor maternal, que é irrefletido, que não obedece à direção da mente, será capaz de cometer as maiores crueldades, crendo ser isso justo, desde que entende que com essas crueldades poderá salvar o filho do perigo que o ameace. A mãe, em quem estejam em litígio o sentimento de justiça com o do amor materno e em quem, ao mesmo tempo, predomine o egoísmo vulgar, que caracteriza atualmente a generalidade dos habitantes da Terra, não achará justo senão o que possa favorecer a seu filho, e esse sentimento ela o levará tão longe que até se olvidará de si própria e se deixará perecer, antes que comprometer a vida do ser que se gerou em suas entranhas. Neste caso, o sentimento materno sobrepõe-se ao próprio egoísmo, embora seja ainda egoísmo o não se importar com a vida alheia para salvar a do filho, nem com a própria vida, vela voluptuosidade que produz na alma inculta esse sacrifício em prol da saúde e da vida do filho, que está acima de tudo, até da mesma Divindade.

É isso um fanatismo, aliás freqüente na expressão dos sentimentos de muitas mães, para as quais o filho é a única divindade digna de culto.

Na Terra, qualquer que seja a condição de vida em que consideremos o indivíduo, notaremos o mesmo fenômeno, se não estiverem equilibrados o sentimento de justiça e os outros sentimentos oriundos das diversas potências da alma.

O desequilíbrio com que nos vimos ocupando obedece à falta de direção no desenvolvimento das faculdades anímicas, das quais se originam os sentimentos que estimulam as ações individuais.

Desenvolvem-se, em verdade, as faculdades superiores da alma, porém empiricamente, à maneira de plantas selvagens, de que ninguém cuida.

Falta-lhes cultivo, cultivo consciencioso, que se abrigue a um desenvolvimento metódico e ordenado. Se lhes derem esse cultivo, muito de pronto observareis a diferença que há entre o desenvolvimento das faculdades e sentimentos sujeitos a uma boa direção e o dos que se desenvolvam por si sós.

Podem comparar-se essas duas maneiras de desenvolvimento ao que se dá com as plantas que não são cultivadas e as que recebem cultivo esmerado e consciencioso. Podem comparar-se também à diferença que existe entre dois indivíduos, dos quais um tenha sido cuidadosamente educado desde a meninice, de acordo com os mais sábios preceitos pedagógicos, e o outro abandonado desde a infância aos seus próprios esforços, para que, a exemplo das aves do céu, se arranje, como puder no curso de toda a sua existência.

É inato o sentimento de justiça no ser humano, como inato é na planta tudo o que lhe há de favorecer ao desenvolvimento. Tudo o que para esse efeito possa concorrer existe em estado potencial na semente; porém, para que dê bons frutos no devido tempo, necessita de ser cultivado.

Educado, o sentimento de justiça será o sentimento salvador do indivíduo. Sentimento superior por excelência, no ser humano, ele sobrepuja a todos os outros e, por ser o que se apresenta com maior energia para a ação do indivíduo, é que na justiça procuram apoiar-se todas as injustiças que se cometem.

Deve educar esse sentimento aquele que quiser evitar para si a maior parte dos transviamentos em que incorre a criatura humana. É um perigo grandíssimo deixar o indivíduo que o sentimento de justiça se desenvolva como as plantas selvagens, sem direção nem cultivo algum.

Com esse cultivo, conseguir-se-á harmonizar os diferentes sentimentos originários das faculdades da alma, equilibrando-os, para que, em perfeita harmonia, ou, ao menos, em relativa harmonia, não se choquem uns com os outros. Assim se evitarão as violências que infelicitam a espécie humana, cujo progresso pode realizar-se sem lutas cruentas, mais harmonicamente do que se vai operando. Para isso, só falta a educação do sentimento de justiça.

Para essa educação, há um princípio infalível, que as gerações, que se hão sucedido na Terra, ainda não souberam compreender. É um princípio doutrinário antiquíssimo, e que o Cristo colocou como pedra angular da Doutrina que deixou plantada na Terra. Esse princípio, todos o conheceis, embora o olvideis com freqüência., por não terdes procurado desenvolver, paralelamente com o sentimento de justiça, o sentimento fraternal, comum desde a origem a todos os seres, cujo destino é também comum.

O princípio divino, santo e humano, que há de conseguir equilibrar todos os sentimentos e produzir nos seres um desenvolvimento progressivo de todas as potências da alma, de modo que todos desempenhem suas missões sem desfalecimentos, nem sobressaltos, em paz com tudo e com todos, é o tão sabido preceito evangélico:

"Não faças a outrem aquilo que não quererias te fizessem; faze, ao contrário, aos outros tudo o que consideres que, feito a ti, é justo."

Procurando que este princípio tão simples, tão humano e divino, presida a todos os atos, a todos os movimentos da alma, desde o simples pensamento até a ação, conseguir-se-á a perfeita educação do sentimento de justiça, que, assim educado, representará a maior garantia do progresso natural da espécie e estabelecerá, progressivamente também, o reino de Deus na Terra, reino que significa a predominância do sentimento puro de justiça, a reger a vida humana, em seus variados aspectos, individual, doméstico e social.

Angel Aguarod