4 - A SOLUÇÃO

Vamos, hoje, confirmar a solução do chamado Problema Social. Digo: confirmar, porque a solução já foi delineada anteriormente.

Declaramos que esse era um problema de ética e vimos de que maneira pode ele ser solucionado, tanto sob ponto de vista individual, como coletivo.

Efetivamente, de ambas as maneiras pode solucionar-se o problema. Mais ainda: sob o aspecto individual, já se solucionou, há muitos séculos, para muitos seres, e se vai solucionando continuamente para outros. Sendo de ética o problema, já sabemos que, para todo aquele que legou às maiores alturas do aperfeiçoamento moral que se pode alcançar na Terra, está ele resolvido. Esse não encontra oposição a seus interesses verdadeiros, em nenhum ser e em coisa alguma. Todas as posições, todas as situações lhe são necessárias e boas e, a exemplo de Jesus, diz que o seu reino não é deste mundo e nada disputa. Trabalhando, fazendo-se útil, quanto possível, à humanidade, está seguro de que jamais haverá de faltar-lhe o sustento, o que se costuma chamar o pão de cada dia.

Mas, se, individualmente, muitos alcançaram a solução do problema que nos preocupa, nem por isso, coletivamente, se conseguiu ainda na Terra essa solução, e muitos séculos transcorrerão antes que a sociedade chegue a um estado de organização tão perfeita que se possa dizer que, nesse terreno, nenhuma questão existe.

Bem se compreenderá que, não obstante o que deixei dito em anteriores parágrafos deste capítulo, não se deve cruzar os braços ante a convulsão universal, no que respeita aos assuntos sociais.

Tardará séculos a consecução de um estado de coisas tão harmonioso como o a que me referi, em que seja um fato a inexistência de litígios, por questões materiais entre os seres; em que, portanto, o pavoroso problema atual se considere resolvido.

Todavia, enquanto não chega a era feliz predita e que esperam os grandes clarividentes, preciso é se pague o tributo devido à questão e se procure, com esse tributo, trabalhar quanto possível por abreviar o prazo de solução definitiva.

Da mesma forma que os indivíduos se vão aperfeiçoando paulatinamente, também na sociedade paulatinamente se vai desenvolvendo o sentimento da fraternidade, ao qual se irão adaptando, cada dia mais, as leis e os costumes.

As leis humanas, que são as a que me refiro costumes não se formam por si sós, como o trabalho não se realiza sem o esforço humano. Isto quer significar que não deve o homem olvidar-se de pagar ao progresso social o tributo a que atrás aludi.

A marcha social dos povos, para que se efetue ordenada e progressivamente, necessita do concurso consciencioso e desinteressado do homem, e todo ser, que sinta em sua alma uma parcela de amor ao seu semelhante e em quem o sentimento de justiça tenha lançado raízes, não encarará com indiferença os assuntos de ordem social e a eles se consagrará com alma e vida.

E tanto mais empenho deverão pôr nesse labor quanto maior seja o concurso que lhe dêem Espíritos exaltados, dispostos a brandir a picareta demolidora. Tudo o que constitui obstáculo às novas formas sociais que hão de implantar-se terá que ser destruído; mas, é preciso se evitem destruições abusivas e se abrandem, na medida do possível, os movimentos epilépticos das massas, porque em sempre se destrói somente o que é mau, ou o que pode estorvar. De envolta com isso, também, nos transbordamentos populares e nas guerras, se destrói muito o que se devera conservar.

Se ficar livre o campo aos elementos inconscientes, muito custará a humanidade a sair do caos em que atualmente se debate. É necessário que, na ação, tomem parte elementos conscientes, que tenham uma visão exata do que deve ser a sociedade do porvir, segundo a delinearam os Redentores de todos os tempos, e, muito especialmente, o Cristo. Fora grande erro deixar livre o campo aos demolidores de profissão e aos pretensos construtores inconscientes, aos aferrados a diferentes sistemas de organização social, considerados por eles salvadores, porém que não passam de abortos, impossíveis de poderem adquirir vitalidade.

Responsabilidade grande pesará sobre os Espíritos progressistas, encarnados na Terra, se se mostrarem indiferentes aos magnos problemas de ordem coletiva e social, que os tempos oferecem.

Deixai que aqueles elementos derrubem, pois que a derrubar vieram; não, porém, segundo o seu livre alvedrio, e, sim, regulada a obra demolidora pelos mesmos Espíritos encarregados das futuras construções; e já é hora de que eles entrem em ação. Se a tais demolidores se deixasse aberto o campo para suas façanhas, a destruição inconsciente, apaixonada e abusiva que levariam a cabo retardaria consideravelmente a modelação das novas formas sociais.

Os conscientes são os que devem dirigir. Portanto, os homens ligados a ideais redentores, que possam oferecer pauta certa, planos concretos e justos para as novas construções sociais, com caracteres seguros de viabilidade, são os que devem tomar a direção da reforma social que se impõe.

E muito mais ainda devem intervir nesse labor aqueles que, por suas avantajadas condições morais, por seu amor e altruísmo desenvolvidos, já consideram, para si mesmos, resolvido o problema social. Estes, com mais eficácia do que os outros, podem trabalhar para a sua solução, porque conhecem suficientemente a matéria, ao ponto de já não constituir ela um problema, no que concerne às suas individualidades.

O haver chegado a certas alturas não exclui o trabalho em esferas inferiores. O Cristo, bem o sabeis, desceu dos cimos da perfeição e pureza para imergir neste escuro e corrompido mundo, a fim de dar à humanidade que ela precisava para alcançar a sua redenção.

Com esse modelo, bem podem todos os Espíritos encarnados, que atinjam as maiores culminâncias social descer dessas alturas e entregar-se ao serviço do mundo, que os reclama! Por isso e para isso, eles se encontram na Terra, nesta época; para serem obreiros ativos e construtores, na obra de modelação das novas formas sociais.

Repitamos que o problema social é um problema de ética. Pois bem, os que ascenderam às altas eminências da moralidade devem considerar-se agentes mandados pela Providência a este mundo para dar forma às novas construções sociais, para criar todo gênero de organismos conducentes à solução do problema.

Porque, é assim, gradativamente, que este tem que ir sendo solucionado. Não pode haver descontinuidade entre uma época e outra imediata, entre uma forma e outra que lhe suceda, para que ela seja viável, ainda que a solução definitiva não venha senão após o decurso de muitos séculos, mas, sim, que já se deve ir solucionando o que for mais fácil, o que ofereça menor resistência, para depois penetrar-se insensivelmente no terreno do mais difícil. Assim é como se irá aperfeiçoando a sociedade, aperfeiçoando-se-lhe os organismos, sem transtornos nem convulsões epilépticas.

Claro que isso, atualmente, não poderá dar-se, porque o capital e o trabalho declaram-se guerra mútua, sem quartel; as desigualdades sociais incitam a intransigência com que cada um se quer manter em suas posições, sem ceder, e o ódio de indivíduos e de classes impera ainda de maneira avassaladora no mundo; mas, por isso, precisamente, é indispensável a intervenção dos indivíduos que militam nas adiantadas escolas espiritualistas, os quais, animados do espírito cristão, podem conseguir moderar os processos adotados nessas lutas.

Grandes obstáculos têm que encontrar em seu caminho os construtores da nova ordem social: devem, porém, perseverar no seu labor, certos de que, perseverando, chegarão a alcançar a vitória.

Trabalhe-se em todos os terrenos. Enquanto uns destroem, para reformar tudo o que é arcaico e injusto na sociedade atual, executem outros um labor de paz e concórdia. Pregue-se a Boa Nova, trazida ao mundo pela comunicação dos Espíritos; infiltre-se o espírito do Evangelho em todas as camadas sociais: ensinem-se e pratiquem-se a tolerância e a benevolência: reconheça-se no trabalho o agente superior do bem-estar social e, portanto, proclame-se a sua santidade. Juntamente com esta prédica, esforcem-se os que a façam por levar avante, quando possível, um trabalho de reforma, que traduza em leis as nobres aspirações dos Grandes Missionários Divinos que hão descido ao seio da Humanidade. Podem ser prematuras essas leis; mas, não importa, porque os Espíritos se adaptam facilmente ao que é bom, mesmo que venha antes do tempo. Faça-se o possível por executar obra progressiva e justa, em todos os terrenos, e isso constituirá marcos colocados no caminho, a assinalarem progressos efetivados.

Predique-se a ética, muita ética, e que tudo quanto se reforme apresente o cunho da mais escrupulosa moral. Deste modo, contribuir-se-á para a solução gradativa do problema, que só dessa forma se pode ir resolvendo. A solução definitiva somente será um fato quando se possa praticar o Cristianismo na Terra, em toda a sua pureza. Encaminhai todo o vosso labor para a consecução desse ideal, e podereis considerar-vos verdadeiros executores da obra da redenção social.

Angel Aguarod