4 - A SUBMISSÃO E SEUS FRUTOS

No problema da submissão, chegamos às últimas operações, que deverão deixá-lo resolvido.

Fatores essenciais deste problema são os que temos anotado: a humildade, a paciência, a resignação e a conformidade.

Todos esses fatores, bem empregados e colocados em seus respectivos lugares, levam à solução.

Porém, tal não acontecerá se não forem preenchidas as condições que acabo de expor. Porque deveis compreender, e já se vos disse, que a humildade não conduz à solução do problema da submissão, quando não é consciente. A humildade cega não é humildade, é servilismo quando não hipocrisia, o que se dá se a governa o Senhor Interesse Mundano, que prejudica o Espírito em seu interesse real.

Como da humildade, podemos falar da paciência, da resignação e da conformidade. Quando a consciência não se impõe no governo dessas modalidades do Espírito e não as dirige, visando somente o interesse espiritual, elas se apresentam deformadas e conduzem a resultados contraproducentes. Não têm de virtudes mais do que as aparências.

Quando foram devida e conscientemente desenvolvidas, são degraus seguros da escala que conduz à verdadeira submissão.

Porém, que será a submissão? Não terá alguma coisa de degradante, de denegridor, de prejudicial à nobreza de que sempre deve dar prova o espírito humano?

Submissão, obediência! Patrocinam-nas certas ordens religiosas e as colocam como condição fundamental para alcançar-se a perfeição e, mais ainda: como a característica invariável da perfeição. Mas, a quem mandam essas ordens que se obedeça? A Deus? Não negam que se deve obedecer a Deus: porém, essa obediência a Deus vem em último lugar. Primeiro, tem-se que obedecer ao superior e esse superior a outro mais altamente colocado e assim por diante, até ao chefe supremo da ordem. De modo que a Deus só se deve obedecer mediante a obediência ao Superior. E o outro, o chefe da ordem, a quem terá de obedecer? A Deus? Devera ser assim. Porém, sê-lo-á? Há casos, e muitos, em que não. Antes de tudo, pela razão de que os fins justificam os meios, procura-se o engrandecimento da ordem e mais do ponto de vista material do que do moral. e, por amor a esse engrandecimento mundano, mistifica-se a doutrina, inventam-se mentiras e apela-se para todos os meios, ainda os mais reprováveis perante toda consciência reta. Pode esse chefe supremo da ordem ser representante de Deus na Terra? Não disse o Mestre divino que não se pode servir a dois senhores? O engrandecimento da ordem, sob o aspecto material e mundano e por meios pouco cristãos, está em oposição formal aos ensinamentos de Jesus Cristo; aquele chefe, pois, serve ao mundo com suas vaidades e deixa de servir a Deus. Assim sendo, não pode representá-lo.

É a ele, entretanto, e aos que formam seu Conselho Supremo, que se manda obedeçam e vivam completamente submetidos todos os que lhe são subalternos.

O maior dos homens, no conceito moral, não se pode considerar infalível: não há nenhum que não tenha suas fraquezas e que não seja, por conseguinte, suscetível de cair em tentação. Ora, sendo assim, será lógico, justo e conveniente que o homem viva submetido a outro homem cegamente, obrigado a obedecer-lhe em tudo, até no que haja de mais absurdo e criminoso?

Não é uma indignidade abdicar o homem de sua razão e entregar-se cegamente à direção de outro homem, a quem muitas vezes não conhece pelo exterior e, ainda menos, pelo lado interior, que é onde reside o verdadeiro valor de toda criatura humana?

Para que deu o Criador ao Espírito a razão, se este devesse abdicar dela, para deixar que outros homens, tanto ou mais falíveis do que ele, por ele pensassem e por ele raciocinassem?

A virtude da obediência, tão ponderada e aconselhada, quando imposta, como nas ordens religiosas e noutras que nada têm com a religião, é um vício detestável, uma indignidade, um atentado à razão, uma infração da Lei de Deus, que prescreve ao Espírito cultivar e desenvolver a mesma razão. Quer Deus, e assim o diz a Lei que regula a evolução das almas, que estas esclareçam a inteligência, desenvolvam a razão, aperfeiçoem o raciocínio, pelo exercício, aprendam a discernir por meio deste para que suas aquisições sejam obra sua.

Não quer Deus, não quer a Lei, que alguém pense e raciocine por outrem, que, portanto, os Espíritos andem cegos pelo mundo, tapando os olhos da razão para se deixarem guiar por terceiros. Deus quer que o homem desenvolva as mais elevadas faculdades de sua alma para conseguir, com esse desenvolvimento constante maior conhecimento, até chegar à perfeição. E dizem que Deus assim quer, porque isso está no processo que segue o desenvolvimento anímico de todo ente normal.

Se alguém chegou, seguindo esse processo, a desenvolver todas as faculdades de sua alma, dentre a mais estrita normalidade, é que todos, sem se afastar da normalidade determinada pela Lei, podem e devem fazer o mesmo; pois, a Lei não existe somente para um, mas para todos. Tanto assim é que, quando alguém desobedece à Lei, não o faz impunemente; sofre as conseqüências funestas de havê-la transgredido, sofrem também, e com maior amargura, os que se fizeram superiores dos outros e que dos postos que alcançaram infringem e obrigam seus subalternos a infringi-las igualmente.

Grande, grandíssima é a responsabilidade desses. Se pudessem os homens perscrutar o interior de muitos que sofrem de idiotismo, encarnados na Terra, veriam que as transgressões à Lei divina, pelas quais fizeram que outros se tornassem idiotas, é que originaram o idiotismo atual de que padecem.

Sim, deve haver obediência e obediência cega da parte do homem, e para chegar a essa obediência é que ele deve cultivar a humildade, a paciência, a resignação e a conformidade; porém, obediência, não ao homem, mas a Deus, infalível e justo.

Somente para com Deus cabe a obediência e a submissão cegas. Aos homens se deve obedecer, sim, pois o inferior deve reconhecer a superioridade do que lhe vai à frente no caminho da evolução. Não deve, entretanto, obedecer-lhe cegamente, mas só naquilo que não vá de encontro ao Mandamento divino.

Se assim não fosse, como poderia o divino Messias ter aconselhado que se abandone para segui-lo pai, mãe, irmãos, parentes, propriedade e até a própria vida, se preciso for? Em Jesus, neste caso, está simbolizada a razão suprema de cada um, para servir à qual se há de estar pronto a desobedecer a todo aquele e a tudo aquilo que ordene o contrário.

Isso não será faltar à humildade, não será atraiçoar a paciência, não será fazer bancarrota à resignação, não será tampouco falta de conformidade; ao contrário, significa conformidade absoluta com a Lei, com a Vontade Divina; isso é submeter-se, mau grado a tudo e a todos, a essa mesma Lei divina, ao Mandamento de Deus; é ter paciência suficiente para não se rebelar violentamente contra a sem razão dos homens, colocando acima de qualquer outra razão a Razão Divina, só a ela prestando acatamento. Isso não é faltar à humildade; ao contrário, é mostrar-se humilde perante Deus no cumprimento de sua Lei, que não ordena a humilhação, porém o respeito a todo ser vivente, mantendo ante ele a verdade, a dignidade que o Espírito tem o dever de sustentar diante de todos.

Obediência e submissão aos homens, sim, mas para servi-los dentro dos ditames do Mandamento Divino. Tudo que não seja isso é contraproducente.

Quando, para praticar a humildade, a paciência, a resignação e a conformidade, o homem abdica de sua razão, de sua dignidade e vive submetido cegamente à vontade de outro homem, os frutos que obtém são funestos, de uma nocividade grande para si e para aquele que lhe impõe sua autoridade. Inferior se manifesta e inferior continuará sendo e sujeito, em encarnações sucessivas, a purgar seus próprios desacertos. Esse o fruto que tirará de sua cega obediência e de sua cega submissão a outra vontade humana. Nunca o homem deve submeter-se dessa maneira a outra vontade, naturalmente falível, porque, nesse caso, são dois cegos, um conduzindo o outro. Ambos forçosamente terão que cair no fosso da expiação porque um cego a conduzir outro forçosamente há de fazê-lo cometer desacertos e todos os desacertos se pagam nesse grande trabalho em que o homem se exercita a pôr em jogo suas faculdades.

Em compensação, os frutos da obediência e submissão à Vontade Suprema, impressa em suas leis, são bênçãos, que dão direito à criatura de escalar os cumes da espiritualidade.

Todas as virtudes com que nos temos ocupado neste capítulo devem desenvolver-se e aperfeiçoar-se; porém, não para servir cegamente, pela sua prática, ao capricho de outros homens; mas, para pô-las ao serviço da Razão, dentro do Mandamento Divino.

Nem outra coisa é a submissão, grau supremo que, cultivando-se aquelas virtudes, se alcança na escala da perfeição. Desenvolve todas elas o homem para aprender a obedecer a Deus e submeter-se a suas leis, sem protesto com pleno assentimento, contribuindo assim, consciente e voluntariamente, para a realização do supremo plano, desse plano que não é senão o que se chama evolução.

Eis aí o problema da submissão resolvido, mas de maneira bem diferente da que pretendem as ordens a que aludimos.

Angel Aguarod