4 - A SUPREMA PAZ

No gozo da suprema paz está o coroamento da evolução do ser, que a ela tem de chegar, porque é da Lei que ele ascenda a essas alturas inefáveis. Não pode haver exceções; nem um só dos filhos de Deus deixará de alcançar tão eminente culminância.

Porém, devendo gozar dessa paz um dia, o Espírito humano, por lei de justiça, a si próprio terá que dever tão inapreciável benefício. Justiça é o santo nome e a senha que desde o princípio dos tempos vêm escritos em todos os espaços e até na mais diminuta criação do Altíssimo. Justiça repetem sem cessar os ecos divinos, em que ressoam as leis imutáveis que regem o Universo, quando em atos se traduzem os decretos da Divindade. Justiça tudo clama e justiça não seria a sanção aplicada aos atos de um ser, beneficiando-o de forma que não correspondesse ao de que ele se houvesse tornado merecedor.

Justiça, sim, é a Lei Suprema da Criação. Diz-se que a lei suprema é o amor; porém, amor é justiça e justo é amor. Não pode haver amor sem justiça, nem justo sem amor. O amor se manifesta na justiça e a justiça no amor. Fica, pois, assente o meu postulado; a justiça é a Lei Suprema da Criação, sem que deixe de ser, do mesmo modo, o amor, formando com a justiça um todo perfeito.

Assim, pois, o gozo da suprema paz constitui um estado superior de consciência, a que não se chega se não haver conquistado. Não pode vir do exterior, nem é necessário que do exterior venha, porque esse estado existe potencialmente em cada ser, dependendo dele o seu mais rápido ou mais demorado desenvolvimento.

Significa isto que o ser deve capacitar-se bem desta verdade e, de acordo com ela, adotar as normas mais convenientes para converter em si o que é potencial em realidade.

Destarte, o que, dizendo respeito muito particularmente à paz, esteja adormecido desde séculos no Espírito pode, uma vez que este chegue àquele conhecimento, ter um despertar súbito e enérgico, que faculte ao mesmo Espírito recuperar, em breve tempo, os perdidos séculos de inércia.

Boa prova do que fica exposto proporcionam esses santos varões de que falam os anais religiosos e que, havendo passado uma juventude briguenta. com instintos e hábitos belicosos, depois de conseguirem a divina iluminação e ficarem instruídos nas verdades supremas, ditadas ao mundo pelos redentores, conseguiram a suprema paz, por se terem lançado de corpo e alma no que é divino, repelindo a voz de sereia do mundo, que os chamava aos antigos gozos e à conquista de uma posição social ou política culminante, que os faria senhores de riquezas, honras e dignidade mundanas.

Não sendo, pois, impossível essa mudança tão notável no modo de sentir e de ser dos Espíritos ainda encarnados na Terra, por efeito da divina iluminação, nenhum leve desesperar de alcançar esse estado superior, por mais distante que se encontre dele.

O Redentor do mundo, aquele que ensinou às criaturas de Deus o caminho da perfeição, não abandona jamais os que no seu amor confiam. Pense nele quem busque para si a suprema paz e a encontrará. Encontrou-a Paulo, o Apóstolo; encontraram-na quantos levaram vida mais ou menos dissoluta e que, recebendo a suprema iluminação, se tornaram discípulos fervorosos do divino Mestre. Aqueles mártires, que a fogueira consumia, que as feras destroçavam, ou cujos membros o potro desconjuntava, gozavam da suprema paz, mesmo no martírio. Era isso precisamente o que causava a admiração de seus verdugos e produzia a conversão de milhares de inimigos da fé que lhes enchia as almas.

As delícias da suprema paz não a goza, em lugar determinado, o ser que a conquistou; ela está em toda parte, ou, melhor, não está em parte alguma, não havendo, entretanto, um fragmento infinitesimal do Espaço infinito onde não possa ser gozada. Está onde quer que haja um Espírito que a tenha realizado em si. Por isso, não se encontra nos suntuosos festins, nem se aninha na câmara faustosa dos régios cônjuges, embora os rodeie tudo o que a fantasia humana mais pode apetecer. Em compensação, encontra-se, muitas vezes, no tugúrio do mendigo, no leito da dor, no potro que tortura um inocente, na fogueira que consome delicada donzela. É que, como não escapa à vossa penetração filosófica, a suprema paz não é questão de lugar, como disse acima; E', que ela corresponde a um estado muito especial de pureza da consciência, só verificável nas mais altas culminâncias do aperfeiçoamento moral.

A esse estado há que chegar o Espírito que, no entanto, para alcançá-lo tem que o desejar e se esforce, por conseguí-lo, seguindo o caminho que a ele conduz e que não é senão o do Conhecimento e da Virtude.

Virtude e Conhecimento! Ciência e Amor! Sabedoria e Bondade! Tudo isto quer dizer a mesma coisa. São expressões diversas de uma só idéia matriz.

Quem ponderar em tais afirmações compreenderá perfeitamente que nem o conhecimento, nem a virtude chovem do céu, para que cada um, sem esforço, por pura casualidade, de um e outra se possa apropriar. Não, não chovem do céu dessa maneira o conhecimento e virtude, a sabedoria e a bondade, para que sejam possuidores deles os que nada fizeram para efetivá-las em si. Se chovessem do céu tão preciosas dádivas, não seriam patrimônio, por muito tempo, de quem nessas condições as recolhesse; porque, não sendo fruto do próprio esforço, do próprio mérito, não seriam aquisições inalienáveis e a menor lufada do vento das paixões desvanecê-las-ia como fumo.

Assim, não havendo lugar nem tempo especial para gozar-se da suprema paz, porque dela unicamente goza o que a fez seu patrimônio inalienável, onde quer que se encontre, dela frui o ser que a conquistou, porque, então, é fruto que lhe pertence em absoluto, produto de seu cultivo nos campos do conhecimento e da virtude.

A esse estado deve procurar chegar o ser encarnado na Terra e esforçar-se para alcançá-la o mais depressa possível.

Não espere, quem aspire à suprema paz, que ela venha mediante a promulgação de leis ou decretos escritos pelo homem, não. A lei da suprema paz existe e foi promulgada pelo Supremo Criador, desde o começo dos tempos. Mais ainda: essa lei é coeterna de Deus. Todos os seres lhe deverão prestar obediência e quem não o fizer não gozará de seus benefícios.

Para a aquisição da suprema paz, deve-se ir pelo caminho estreito, entrando nele pela porta augusta do sacrifício, da abnegação, da renúncia de si mesmo, conforme o ensinou o doce Nazareno.

Não são caminhos apropriados para alcançar a suprema paz os muito largos, que oferece o mundo, dando azo a todas as prevaricações e abusos, estimulando a separatividade, fomentando sentimentos antifraternais entre as criaturas humanas. Não são, igualmente, os muito espaçosos da licença, da libertinagem, do escândalo e dos desperdícios viciosos, que a tantos têm sabido cativar, não. A suprema paz, que é a aspiração de todo aquele que não se quer deixar iludir pelas mentirosas felicidades que o mundo oferece, tem que a buscar o Espírito seguindo as pegadas do divino Mestre, a caminho do Calvário. É lá, no próprio Gólgota, no estertor da agonia que a crucificação determina, naquele "Consummatum est" referente à obra da própria redenção, que a sua conquista se torna definitiva para o que, sem vacilar, sem desfalecimento, até lá chegou.

No mundo mesmo se pode alcançar a suprema paz, porém ao preço que ficou indicado.

Dissemos que há necessidade do conhecimento para adquirir-se a suprema paz e devemos insistir nisso. A ignorância jamais produzirá essa paz; a ignorância conduz a estados incolores, de pura inconsciência, que muitos traduzem por paz, mas que não o é. O menor estremecimento que se produza ao redor do ignorante é o suficiente para destruir aquele estado de paz aparente. O ignorante é supersticioso e fanático e nem a superstição nem o fanatismo podem ser suportes seguros de uma paz duradoura.

A suprema paz é fruto do esforço despendido para desenvolver a inteligência e alcançar as culminâncias da bondade.

Quando não há conhecimento, fácil é de perturbar-se com qualquer coisa inesperada o estado de paz de que se goze; porém, com o conhecimento do plano da evolução, do que Deus não pode deixar de ser, das leis eternas do bem, da invariabilidade da ação da Lei Divina, e com a plena consciência de que tudo se encaminha o maior progresso, a um bem superior; com a consciência plena de que há a Providência e de que de Deus nada de mau pode provir adquire-se inteira, absoluta confiança nEle; o ser racional se converte em seu servidor fiel em tudo subordina a esse serviço. Colocado nesta conjuntura, o Espírito já não se surpreende com o que ocorra; em tudo vê a ação providente do Pai, encaminhando as coisas e os seres para a mais alta perfeição.

Assim pensando e sentindo, vivendo uma vida disciplinada, para não se desviar nem uma linha do caminho reto, traçado de antemão, caminho do conhecimento e da virtude, entra o ser numa permanente comunhão com o Divino, convertendo-se, neste sentido, em um com o Supremo Ser. Então, ainda que encarnado, alcançará a suprema paz, estado que não logram desvanecer nem os tormentos mais atrozes; ao contrário, esses tormentos. do mesmo modo que a injustiça dos homens, cada vez mais o firmarão.

Exemplos tendes disso em todos os mártires das grandes causas, nesses mártires que, acima do que é terreno, colocavam o que é espiritual; que, pelo serviço de Deus, se divorciavam das vaidades mundanas e se tornavam surdos aos errôneos ditames humanos.

Aí, nessas alturas sublimes, fica definitivamente resolvido o problema da paz. É inútil buscar-lhe a solução em rumos diversos dos que tracei. O mundo não gozará dessa suprema paz. para cuja conquista vos exorto, senão seguindo essa diretriz.

A guerra nunca será uma solução para a paz; conduzirá a ela, por ser um flagelo, que só com a paz se extermina; só nesse sentido é auxiliar da paz. Os condenados terrestres aprenderão, nos horrores da guerra, a buscar a paz. A experiência, confirmando a palavra dos redentores, lhes ensinará o caminho para conquistá-la, caminho que não pode ser senão o que indiquei, o que o Divino Mestre ensinou a encontrar, mediante a sua doutrina, o que têm indicado em todas as épocas os grandes instrutores da humanidade.

Não se iluda o homem: ele não gozará da paz enquanto não a realize em si e possa, levando-a consigo, gozá-la em toda parte e a todos os momentos, mesmo os nais borrascosos. Os povos, do mesmo modo, não poderão gozá-la enquanto não adotem os mesmos métodos que preconizo para a aquisição da paz individual.

Grande passo darão os povos, rumo à conquista da suprema paz, no dia em que os governos não encontrem soldados para preencher os claros de seus exércitos; no dia em que não haja quem não se subleve senão pacificamente, negando-se a toda violência; no dia em que os homens prefiram ser vítimas a ser algozes, em que estejam dispostos a morrer antes que a matar, obedecendo à voz de seus chefes. Esse dia será para os povos o prenúncio da suprema paz de que no futuro gozarão, e ele virá quando sejam muitos os que hajam conquistado e desenvolvido completamente o estado de consciência da suprema paz. Até então, continuarão as guerras, semeando horrores por toda parte e causando inúmeras vítimas, vitoriosa sempre a sombra nefasta do bíblico Caim, para só terminarem quando, como dissemos, os governos não encontrem soldados para formar seus exércitos. Que chegue breve esse dia é o que de melhor se pode desejar porém, ainda está distante, muito distante, não haja ilusões.

Entretanto, os que se tenham constituído discípulos do Cristo sigam-lhe as pegadas, convertam-se, imitando-o, em apóstolos da paz e dêem magnífico exemplo ao mundo, mostrando-lhe, resolvido para si próprios, o problema da paz, com o gozá-la inefavelmente em todas as conjunturas em que venham a encontrar-se.

Angel Aguarod