4 - A SUPREMA SAÚDE

Do carvão brota o diamante; na escória de todos os vícios está incubada a virtude; do mais baixo nasce o que, pela sua excelsitude, um dia assombrará o mundo. Assim, também, da enfermidade pode sair a saúde e alcançar as mais elevadas condições.

Coisa alguma que haja atingido as mais altas culminâncias deixou de originar-se da pequenez do gérmen.

A alimentação bem adequada, conforme à natureza, é o agente principal da saúde; por isso, é também importante o problema da alimentação. Bem é que cada um se alimente de conformidade com as exigências de sua. natureza; que os gostos se satisfaçam nos seres; que se utilizem, para nutrir corpos humanos, despojos de plantas e de animais; porém, necessário é se compreenda que, à medida que o homem progride, intelectual e moralmente, deve modificar seu regímen alimentício.

Bom será, pois, conceder às exigências do organismo, aos desejos do paladar, somente o que seja legítimo e natural, o que guarde perfeita concordância e se harmonize inteiramente com o estado da alma de cada um. Porque a alma, mais do que o corpo, deve preponderar, como em todas as manifestações do ser, em assunto de alimentação. A alma é, ou deve ser, quem governa o corpo; a este só cabe obedecer às determinações daquela. A alma que se deixa dominar pelos apetites do corpo empana o seu brilho, perde a sua lucidez, estaciona em seu progresso. Ao corpo se deve disciplinar, só se lhe concedendo o que legitimamente lhe convenha, de tudo quanto deseje. Preciso é, pois, contrariá-lo muitas vezes. Não vedes que, pela ignorância do que é a vida, se criam hábitos que, ao fim de algum tempo, se tornam nocivos à saúde não só do corpo, como também da alma se conservados? E já sabemos o que é um hábito: é alguma coisa qual montanha assentada sobre alicerces inamovíveis. Para removê-la, faz-se mister a fé, aquela fé a que aludia o Salvador, e uma virtude de resistência é toda prova. A disciplina, pois, do corpo, imposta pela alma, é indispensável, para que os hábitos e tendências do primeiro não criem obstáculos ao progresso da segunda.

Assim, pois, se é certo que para com o corpo não se deve ser tirano, cumprindo usar com ele do mínimo de violência, também o é que se lhe deve resistir sempre quando sejam ilegítimos e prejudiciais, por viciosos, seus apetites.

Eis aí uma fonte copiosa de saúde. O indivíduo que isto compreenda, que saiba conhecer o que a seu corpo convém ou não, e somente lhe conceda aquilo que convenha, e na medida, também, do que seja conveniente, de conformidade com as circunstâncias especiais em que se possa encontrar, conseguirá preservar-se de toda enfermidade e, se alguma contrair, em virtude do ambiente, que o rodeia, do meio em que se vê obrigado a viver, ou de eventualidades fortuitas de qualquer espécie, estranhas à sua vontade e impossíveis de serem evitadas, conseguirá sem embargo, não deixar que torne incremento e somente com o observar as regras dietéticas racionais alcançará o restabelecimento da saúde.

Devo repetir ainda uma vez que a causa das enfermidades, não oriundas de acidentes, reside mais na alma do que no corpo; é, assim, próprio da alma buscar em si mesma o remédio ao mal.

O principal agente da saúde, que a restitui quando perdida e a preserva, impedindo o desenvolvimento de qualquer enfermidade, devo dizê-lo uma vez mais, é a alma.

Na alma está o principal e mais enérgico remédio contra todo mal. Importa aprender aplicá-lo como agente curativo e preventivo.

Nem todos os homens se acham no caso de saber utilizar esse agente, a bem do restabelecimento de sua saúde perdida; porque são muitos os que ainda se não voltaram para as coisas do Espírito, vivendo exclusivamente para a matéria, ou, no melhor dos casos, quase exclusivamente. Esses precisam de agentes externos, mais de caráter físico do que psíquico, para o tratamento de suas doenças.

Eles consideram que todo mal, do mesmo modo que todo bem, lhes vem do exterior e não podem compreender, nem, portanto, aceitar que o remédio para seus estados mórbidos esteja em si mesmos, devendo vir do interior, que é onde desenvolve o Espírito sua ação benéfica. A esses, pois, os agentes curativos de uso corrente, os quais para eles é que foram criados, pelo que a Providência, que não deixa sem amparo e sem o de que necessite no ponto de evolução em que se ache nenhuma de suas criaturas, lhos põe à disposição.

Esses também os que podem nutrir-se de despojos de animais; eles se encontram no apogeu da vida animal e o Autor dos mundos dispôs que os despojos dos animais, que para evolver também receberam vida e nasceram na Terra, sejam utilizados para os alimentar.

Estes nossos irmãos vivem mais sujeitos às influências externas e se desenvolvem mais em virtude de impulsos exteriores do que em virtude do esforço da própria vontade, da qual não dispõem para tal efeito, ou a têm muito débil. O estado de tais seres é natural, como tudo.

Tendes também uma prova do que ocorre com esses irmãos no que sucede com as crianças. Num e noutro casos, para que progridam os Espíritos que nuns e noutros se acham encarnados, é preciso que o agente impulsor seja externo.

A criança, geralmente, aprende com o que se lhe mostra, com as lições e comparações que sobre objetos externos lhe oferece o mestre à observação e ao estudo, Essa maneira de adquirir conhecimentos nem sempre, todavia, pode dar resultados positivos; tais métodos são de aplicação apropriada a seres atrasados, cuja consciência ainda não despertou no grau que lhes possa servir de guia para a aquisição do conhecimento.

Quando haja despertado a consciência e o ser tenha adquirido o conhecimento pleno de seu dever e do se. destino; quando saiba que este depende do cumprimento consciente e rigoroso do dever, deixa de lado os agentes exteriores, que lhe impulsionavam a evolução, porquanto, se bem não os possa anular, nem deles prescindir em absoluto, porque a isso se opõe a lei de solidariedade, que faz que as ações de uns repercutam e influem nos outros, considera secundários esses agentes, como em realidade, para seu novo estado, o são, e emprega por decisão própria, somente os agentes internos, na regulamentação de sua vida, em todas as circunstâncias.

Estes indivíduos só em casos muito raros necessitarão, para a cura de suas doenças, de agentes externos.

Neles está o remédio, no interior do ser, pois que ali está a saúde, visto que está Deus, o que lhes torna incorrupto o Espírito. Apelam para essa fonte de saúde, que existe em si mesmos, e a saúde lhes vem e eles se preservam sempre de toda enfermidade pela elevação espiritual, não praticando excessos, não contrariando em coisa alguma as leis naturais, seguindo todas as prescrições de uma boa higiene e não se alimentando de despojos de animais, que já lhes são alimento inadequado e, portanto, nocivo. Adaptam-se em tudo às exigências não só das leis físicas, como também das leis morais, que jamais violam.

Eis de que maneira, sem que o percebêssemos, temos chegado a definir o que é a suprema saúde.

A suprema saúde, por conseguinte, é, segundo se depreende do exposto, aquela de que goza todo ser, em perfeito estado de equilíbrio e funcionamento do corpo e da alma.

Vimos, no transcurso deste capítulo, qual o caminho para se ir dos estados mais deploráveis ao estado de suprema saúde, coisa que também vimos estar ao alcance de todos.

A enfermidade produz dor, que a alma sente para que lhe fuja, procurando o melhor modo de livrar-se dela, a fim de progredir mais desembaraçadamente, desenvolvendo-se dentro da lei da evolução das almas.

Tudo o que se afasta da Lei Divina produz fruto amargo para o Espírito, a fim de que este busque, no conhecimento e na virtude, a maneira de subtrair-se a esse amargar.

Tudo, pois, se conjuga para que o indivíduo consiga - porque essa deverá ser obra sua - a suprema saúde, uma vez que, sem esta, não se alcança a suprema felicidade, objeto da existência de toda criatura.

Em resumo: quem quiser livrar-se dos estados deprimentes e dolorosos deve procurar pôr sua vida em concordância com as leis da natureza, tanto físicas, como morais e, quando o tenha conseguido, possuirá um corpo são ao serviço de uma alma também sã, terá resolvido o problema da saúde, problema importantíssimo, cuja satisfatória solução desejo a todos os meus irmãos em humanidade.

Angel Aguarod